thumb|267px|Ruínas de Bobastro, a capital de Omar ibne Hafeçune

Omar ibne Hafeçune ibne Jafar ibne Salim (), conhecido na historiografia espanhola como Omar ibne Hafeçune (850? — Bobastro, 918) foi um guerrilheiro andalusino (do Alandalus) de origem hispano-goda que organizou e liderou uma rebelião entre 880 e 918 contra o emirado omíada de Córdova. Na última fase da sua rebelião fez-se batizar, recebendo o nome cristão de Samuel em 899.

Origens Omar ibne Hafeçune nasceu na região de Parauta, situado na parte oriental da atual durante o emirado independente de Córdova. A sua terra natal situava-se no Vale do Genal, faz atualmente parte da comarca da , provavelmente no local chamado "La Torrecilla". Fazia parte de uma família de proprietários rurais muçulmanos descendente de nobres visigodos. Um dos seus avôs tinha-se convertido ao islão, o que fazia de Omar um muladi, isto é, um descendente de cristãos convertidos ao islão, e não um moçárabe (hispano-godos que continuaram cristãos sob o domínio muçulmano). Assim, do ponto de vista dos muçulmanos ele era um converso e do ponto de vista dos cristão era um renegado.

Segundo o historiador Isidro García Cigüenza, a origem do nome de família de Omar era Háfece e a este juntou-se o sufixo "un", que entre os árabes era distintivo de nobreza, dando assim origem a Hafeçune.

Nada se sabe da mãe de Omar. Do pai sabe-se que morreu nas garras de um urso. Dos seus irmãos sabe-se que um se chamava Aiube e outro Jafar. Nasceu na alcaria que os seus pais tinham em Parauta, embora os habitantes do município vizinho de Júzcar reclamem que ele era seu conterrâneo. A controvérsia deve-se ao facto da alcaria dos Hafeçunes ser conhecida como alcaria de Torrichela e se encontrar junto ao castelo de Autha, que deu origem ao topónimo atual de Parauta mas atualmente faz parte do município de Júzcar.

Vida como fugitivo thumb|upright|, na serra do Alto Guadalhorce, região onde Omar ibne Hafeçune se refugiou na juventude

A causa para Omar se ter tornado um rebelde está ligada, segundo o escritor Jorge Alonso García, a um incidente ocorrido quando descobriu que um pastor berbere roubava gado ao seu avô Jafar ibne Salim. Omar enfrentou o ladrão e matou-o. Após este assassinato, Omar teve que esconder-se na serra do Alto Guadalhorce (), refugiando-se nas ruínas de um velho castelo que é identificado como o inexpugnável Bobastro, no norte da atual província de Málaga, pois sabia que iria ser perseguido pelos justiceiros berberes.

Juntamente com outros foragidos como ele, começou a roubar por todas as coras de Raia e de Tacorona até que foi capturado pelo uáli de Málaga. Desconhecendo o assassinato do pastor, o uáli limitou-se a mandar açoitá-lo. Omar decidiu então fugir para o Norte de África, instalando-se em Tahart como aprendiz de alfaiate até que, incentivado por outro muladi, decidiu voltar em 880, aproveitando o caos crescente no Alandalus.

Senhor de Bobastro Com o apoio do seu tio Almoadir conseguiu reunir um grupo de moçárabes, muladis e inclusivamente berberes descontentes com a aristocracia dominante de origem árabe. Dando mostras de grandes dotes de estratégia militar que seriam depois comprovados numa série de contendas, Omar começou por reforçar e melhorar as condições de defesa do castelo de Bobastro, tornando-o praticamente inexpugnável, pois durante mais de quarenta anos resistiu aos ataques dos Omíadas.

As suas hostes tornaram-se muito poderosas e numerosas e lutavam com grande valentia, em clara rebeldia contra o poder dos emires de Córdova. A sua soldadesca chamava-lhe carinhosamente "o capitão do nariz grande". Por onde passavam, as gentes aclamavam Omar e os seus homens, o que levou o emir a conceder-lhe o perdão e a recrutá-lo para o seu serviço como guarda pessoal. Participou com o general Haxime ibne Abedalazize em duras batalhas, como a de Pancorbo, onde demonstrou a sua bravura face ao inimigo.

upright=1.2|thumb|esquerda|Territórios controlados por Omar ibne Hafeçune no auge do seu poder

Mas longe vez de obter reconhecimento pelo seu valor e o dos seus homens, Omar era desprezado e insultado pelos altos mandatários do emirado, chegando até a faltar-lhe comida ou a darem-lhe alimentos em más condições. Voltou então a revelar-se e conquistou um extenso território.

A supremacia militar de Omar mostrou-se imparável, apoderando-se de fortalezas como as de Autha, Comares e Mijas. O emir , filho de Maomé, enviou o seu exército para recuperar os territórios perdidos, mas apenas lograram retomar Iznájar em 888, pelo que o emir decide comandar pessoalmente as suas tropas e assedia Archidona, onde os muladis se rendem e os defensores moçárabes são executados. O mesmo ocorre em Priego, que também é reconquistada pelos Omíadas.

Depois destas vitórias o emir montou cerco a Bobastro, o que levou ibne Hafeçune a procurar a paz assinando um pacto com o rei. Nos termos deste acordo, Omar rendia-se em troca duma amnistia, mas rompeu a trégua quando o emir se retirava, pelo que Almondir retomou o cerco; entretanto adoece e morre, sendo sucedido pelo seu irmão Abdalá.

Durante o reinado de Abedalá sucederam-se várias rebeliões internas no Alandalus. Omar ibne Hafeçune aproveitou para fazer alianças com outros rebeldes e tomar Estepa, Osuna e Écija em 889. Baena também foi conquistada, massacrando os seus defensores, o que levou a que Priego e o resto da região Subética se rendesse sem luta. As tropas de Omar fazem incursões perto da capital, Córdova. Omar controlava então um vasto estado, que se estendia desde Elvira e Xaém a oeste até à região de Sevilha a oeste, chegando quase até Córdova. No auge do seu poder, Omar ibne Hafeçune dominava o que são hoje as províncias de Málaga e Granada, onde o emirado acabou por ter que reconhecê-lo como governador, e tinha também intensas relações com os rebeldes de Xaém. Na sua luta contra os Omíadas foi apoiado sobretudo pelos berberes e moçárabes.

thumb|Igreja rupestre de Bobastro

Também estabeleceu contactos com Ifríquia (Tunísia e Líbia), inicialmente com os Aglábidas e depois com os vencedores destes, os fatímidas. Teve também relações com Badajoz e Saragoça. Ao mesmo tempo instala um bispo cristão em Bobastro, onde constrói uma igreja, e converte-se ao cristianismo em 899 adotando o nome de Samuel. Tentou ainda que o seu estado fosse reconhecido pelo rei asturiano .

O emirado conseguiu isolá-lo em grande medida formando uma coligação com os Banu Cassi, uma importante família muladi basca da Marca Superior. Abedalá derrotou Omar a 16 de maio de 891 em Poley (nome árabe de Aguilar de la Frontera), situada no que é atualmente o sul da província de Córdova, uma derrota que marcou o início do seu declínio. O seu batismo causou a diminuição do número de partidários, mas continuou a lutar a partir da sua fortaleza de Bobastro até à sua morte em 917. O seu filho Solimão conseguiu manter Bobastro contra até 928. A rebelião foi finalmente reprimida e o clã dos Hafeçunes teve que partir para o exílio. A filha de Omar, Santa Argentea, é recordada pela Igreja Católica como virgem e mártir.

Notas e bibliografia

Ligações externas

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