frame|right|Cobaia num experimento Ganzfeld objetivando averiguar a PES conhecida como telepatia
O Experimento Ganzfeld (do alemão "campo inteiro") é uma técnica usada no campo da parapsicologia para testar a percepção extrassensorial (PES) em algum indivíduo. Nela é usada uma estimulação sensorial homogênea e despadronizada para produzir o chamado efeito ganzfeld,Radin 1997, p. 70–80 um efeito semelhante ao de privação sensorial (nesta há redução ou a remoção deliberada de estímulos de um ou mais dos sentidos como visão, etc.). O termo Ganzfeld pode ser utilizado tanto para nomear o ambiente onde o experimento se realiza quanto para o próprio experimento.
O efeito ganzfeld tem sido utilizado em muitos estudos de neurociência, além da parapsicologia. A privação de estímulos sensoriais padronizados é para propiciar as impressões geradas internamente no indivíduo, algumas das quais poderiam ter origem extrassensorial. A técnica foi idealizada por Wolfgang Metzger, em 1930, como parte de sua investigação sobre a teoria gestalt.
Parapsicólogos como Dean Radin e Daryl Bem dizem que experimentos ganzfeld apresentaram resultados que se desviam da aleatoriedade em um grau significativo, e que esses resultados apresentam, até o momento, algumas das mais fortes evidências quantificáveis para a existência da telepatia.Radin 1997 Todavia, críticos como Susan Blackmore e Ray Hyman alertaram que os resultados não são conclusivos e consistentemente indistinguíveis da hipótese nula.
O astrônomo Carl Sagan foi outro cético que chamou a atenção da comunidade científica para a importância dos testes ganzfeld.
O prêmio Nobel de Física, Brian Josephson, também é um defensor da Parapsicologia, selecionando o ganzfeld como entre os melhores experimentos do campohttp://www.tcm.phy.cam.ac.uk/~bdj10/psi.html, tendo publicado uma carta na revista Nature onde divulga a criação de sua página sobre parapsicologia.http://www.tcm.phy.cam.ac.uk/~bdj10/psi/martian.html
Em 2010, a 8ª meta-análise da base de dados ganzfeld foi publicada, com resultados positivos e significativos.
Um artigo de 2016 publicado na PloS One examinou Práticas de Pesquisa Questionáveis (PPQs) nos experimentos ganzfeld e concluiu que ainda que as PPQs ocorressem, os resultados ainda seriam significativos.
Críticas ao experimento Há discórdia na comunidade científica sobre a eficácia dos testes Ganzfeld. Enquanto algumas pesquisas sugerem resultados estatisticamente significativos para participantes selecionados,Schlitz, M. J., & Honorton, C. (1992). Ganzfeld psi performance within an artistically gifted population. Journal of the American Society for Psychical Research, Vol. 86, Number 2, pp. 83-98. Morris, R., Cunningham, S., McAlpine, S., & Taylor, R. (1993). Toward replication and extension of autoganzfeld results. Proceedings of Presented Papers: The Parapsychological Association 36th Annual Convention, 177–191. Morris, R. L., Dalton, K., Delanoy, D., & Watt, C. (1995). Comparison of the sender/no sender condition in the ganzfeld. In Proceedings of the 38th Annual Parapsychological Association Convention (Vol. 244). Dalton, K, (1997). Exploring the links: Creativity and psi in the ganzfeld. Proceedings of Presented Papers: The Parapsychological Association 40th Annual Convention, 119-134. Morris, R. L., Summers, J., & Yim, S. (2003). Evidence of anomalous information transfer with a creative population in ganzfeld stimulation. Proceedings of the 46th Annual Convention of the Parapsychological Association, pp. 116–131. ainda não se conseguiu demonstrar consistentemente a eficiência do experimento para participantes não selecionados.Frazier, Kendrick. (1991). The Hundredth Monkey: And Other Paradigms of the Paranormal. Prometheus Books. pp. 143–48. Hyman, Ray. (1996). The Evidence for Psychic Functioning: Claims vs. Reality. The Skeptical Inquirer. pp. 24–26. Retrieved November 4, 2013. Smith, Jonathan. (2009). Pseudoscience and Extraordinary Claims of the Paranormal: A Critical Thinker's Toolkit. Wiley-Blackwell. . Retrieved November 1, 2013. Rathus, Spencer. (2011). Psychology: Concepts and Connections. Cengage Learning. p. 143. Marks, David; Kammann, Richard. (2000). The Psychology of the Psychic. Prometheus Books. pp. 97–106. Críticas a respeito do experimento geralmente giram em torno de erros metodológicos e de interpretação dos dados, como inadequações no ambiente de experimentação,Wiseman, R., Smith, M. and Kornbrot, D. (1996). Exploring possible sender-to-experimenter acoustic leakage in the PRL autoganzfeld experiments. Journal of Parapsychology, 60. pp. 97–128.Marks, David; Kammann, Richard. (2000). The Psychology of the Psychic. Prometheus Books. pp. 97–106. falhas na aplicação da aleatoriedade durante os testes e a falaciosa assunção de que desvios ao esperado sejam, necessariamente, evidenciação de poderes psíquicos.
De acordo com o professor de psicologia Scott O. Lilienfeld e seus colegas, dizer que a técnica Ganzfeld é confiável é uma afirmação altamente disputada. Eles concluíram que a PES não foi demonstrada com sucesso nos experimentos realizados em mais de 150 anos, e isso é desencorajante.Lilienfeld, Scott O; Lynn, Steven Jay; Ruscio, John; Beyerstein, Barry L. (2009). Myth #3 Extrasensory Perception (ESP) Is a Well Established Scientific Phenomenon. In 50 Great Myths of Popular Psychology: Shattering Widespread Misconceptions About Human Behavior. Wiley-Blackwell.
Um dos maiores problemas apontados nos testes Ganzfeld é o vazamento sensorial (sensory leakage), quando a pessoa submetida ao experimento consegue receber determinada informação de forma natural ou convencional, puramente através de seus sentidos, em vez de recebê-la por meio de algum poder extrassensorial. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando o participante ouve certo som que não deveria ser capaz de ouvir por causa de um isolamento acústico mal feito ou quando é possível enxergar algo que não deveria ser possível ver devido a alguma reflexão em um objeto presenta na sala onde o experimento está sendo realizado. Segundo vários críticos do experimento, isso compromete a confiabilidade dos resultados.Humphrey, Nicholas. (1996). Soul Searching: Human Nature and Supernatural Belief. Vintage. p. 136. "Richard Wiseman, a friend and former colleague of Honorton, has subsequently reanalysed the raw data trial by trial and shown that all the positive results can be attributed to those trials in which one or other of these sources of ‘sensory leakage’ was at least a possibility. In fact, in the relatively few trials (100 in all) where such leakage of information would not have been possible the receivers did no better than chance (26 per cent correct)."
Em 1985, o psicólogo e autor britânico C. E. M. Hansel apontou fraquezas nos experimentos e concluiu que a evidência para a percepção extrassensorial continuava tão ínfima quanto cem anos antes.Hansel, C. E. M. The Search for a Demonstration of ESP in Kurtz, Paul. (1985). A Skeptic's Handbook of Parapsychology. Prometheus Books. pp. 97–127
Milton e Wiseman desenvolveram, em 1999, uma metanálise dos experimentos Ganzfeld de modo independente e não encontraram evidência para o suposto "efeito psíquico". Os resultados obtidos a partir de 30 experimentos não mostraram efeito maior do que mero acaso.
Em 2003, o professor de neurologia e escritor científico Terence Hines afirmou que as supostas evidências para a PES obtidas com os testes Ganzfeld desaparecem à medida que o controle científico dos experimentos se torna mais rígido. Segundo Hines, não havia "forma clara de obter resultados demonstrando qualquer fenômeno psíquico de modo confiável" e a conclusão mais sensata seria a de que tal efeito não existia e nunca teria existido.Hines, Terence. (2003). Pseudoscience and the Paranormal. Prometheus Books. pp. 137–38.
Em 2007, o professor de psicologia Ray Hyman criticou a postura dos parapsicólogos de interpretar peculiaridades nos resultados dos testes como efeitos diretos de supostas habilidades psíquicas. Para ele, isso constitui uma falácia e não há método independente que consiga indicar a presença ou ausência dos poderes psíquicos.Ray Hyman. Evaluating Parapsychological Claims in Robert J. Sternberg, Henry L. Roediger, Diane F. Halpern. (2007). Critical Thinking in Psychology. Cambridge University Press. pp. 216–31.
Em 2010, Hyman voltou a criticar o Ganzfeld após analisar a metanálise de Storm et al., que apontava certa significância estatística nos resultados obtidos em 483 testes de um total de 1.498 (32,2%). Hyman escreveu que os experimentos não foram independentemente replicados e falharam na tentativa de produzir evidência para a psi.
A metanálise de Storm et al. voltaria a ser criticada em 2013. Em uma avaliação crítica, Rouder et al. afirmaram que ela não revelava evidências para a psi, nenhum mecanismo plausível e ainda omitia falhas de replicação.
O autor estadunidense Brian Dunning revisou as falhas dos estudos Ganzfeld em 2013 e chegou à conclusão de que não só a técnica havia falhado como evidência para a psi como o interesse pela prática havia decaído.Podcast Skeptoid número 348. Ganzfeld Experiments. Acesso em 07/11/2017.
Em 2016, um artigo concluiu que práticas de pesquisa questionáveis inflavam resultados positivos de metanálises dos experimentos Ganzfeld.