Jabuti-tinga (nome científico: Chelonoidis denticulatus), também chamado jabuti, jaboti ou jabutim, é uma réptil da família dos testudinídeos (Testudinidae).

Etimologia

O nome popular jabuti ou jabutim, empregado no contexto da herpetologia, deriva do tupi iaboti. Foi registrado em 1624 como jubatins, em ca. 1698 como jabutys e em ca. 1777 como jabutí. O adjetivo tinga originou-se no tupi tinga, que significa "branco, claro, cor branca ou brancura", e é atestado em palavras desde o . O nome do gênero Chelonoidis tem origem no grego khelṓnē (), que significa "tartaruga", enquanto o epíteto específico deriva do latim denticulatus, que significa "denticulado", "serrilhado".

Taxonomia e sistemática

O jabuti-tinga foi classificado pela primeira vez por Carlos Lineu em 1866, com o nome Testudo denticulata. Em 1835, Leopold Fitzinger utilizou Geochelone para diferenciar algumas tartarugas não mediterrâneas e Chelonoidis como subgênero às espécies da América do Sul. Em 1982, Roger Bour e Charles Crumly separaram Geochelone em gêneros diferentes com base em diferenças anatômicas, especialmente nos crânios. Isso resultou na formação ou restauração de vários gêneros: Aldabrachelys, Astrochelys, Cylindraspis, Indotestudo, Manouria e Chelonoidis. Chelonoidis foi distinguido de outros Geochelone por sua localização na América do Sul, bem como pela ausência da placa nucal (a placa marginal centrada sobre o pescoço), pela presença de uma supracaudal grande e indivisa (a placa ou placas diretamente sobre a cauda) e diferenças no crânio. Muitos desses nomes genéricos ainda são debatidos; Por exemplo, nenhuma definição específica de Geochelone é dada, e Chelonoidis é usado principalmente para geografia, em vez de características anatômicas únicas.

História evolucionária

O gênero Chelonoidis possui duas subcategorias principais baseadas na aparência e no habitat: os grupos C. carbonarius e C. chilensis. O grupo C. carbonarius inclui os jabutis-pirangas (Chelonoidis carbonarius) e jabutis-tingas, intimamente relacionadas, que claramente compartilham um ancestral comum. O grupo C. chilensis inclui a tartaruga-do-chaco (C. chilensis) e a tartaruga-das-galápagos (C. niger), que compartilham habitats semelhantes e uma aparência básica, mas, de resto, não parecem estar intimamente relacionadas. A relação entre os grupos não é clara. Estudos de DNA sugerem que o grupo carbonarius pode estar relacionado às tartarugas-de-dorso-articulado africanas (espécie Kinixys). Isso sugere que podem ter vindo de Gondwana antes de sua separação em África e América do Sul, há cerca de 130 milhões de anos. Acredita-se que uma forma ancestral de cerca de 5 milhões de anos, Chelonoidis hesterna (Auffenberg 1971), tenha vivido em florestas úmidas e se dividido em duas espécies no Mioceno, com os jabutis-tingas permanecendo nas florestas densas e os jabutis-pirangas colonizando as bordas das florestas e as savanas emergentes. À medida que o clima e a topografia mudaram, grupos de jabutis-pirangas tornaram-se fisicamente separados e geneticamente isolados.

Descrição

Os jabutis-tingas estão entre as maiores espécies de tartarugas terrestres, ocupando o quinto lugar em tamanho geral e sendo a terceira maior espécie continental, atrás apenas da tartaruga-gigante-de-aldabra (Aldabrachelys gigantea) e da tartaruga-das-galápagos, além da tartaruga-de-esporas-africana (Geochelone sulcata) e da tartaruga-das-florestas-asiáticas (Manouria emys). Embora o comprimento típico seja de cerca de 40 centímetros, exemplares significativamente maiores são comuns. A maior registrada foi uma fêmea medindo 94 centímetros de comprimento. Visualmente, a espécie se assemelha bastante ao jabuti-piranga, o que pode dificultar a identificação, especialmente quando se trata de espécimes preservados, o que contribuiu para confusões relacionadas à nomenclatura e à distribuição geográfica.

A cabeça do jabuti-tinga é relativamente pequena, mais longa do que larga, e apresenta uma mandíbula superior com três protuberâncias semelhantes a dentes. Os olhos são grandes e escuros, com um tímpano visível localizado atrás de cada um. A pele da cabeça e dos membros é predominantemente preta, com escamas amarelas a alaranjadas ao redor dos olhos, orelhas e na parte superior dos membros. Os membros anteriores são longos, levemente achatados e apresentam cinco garras, cobertos por escamas finas e escuras, além de escamas maiores sobrepostas na face anterior. Os membros posteriores, semelhantes aos de um elefante, possuem quatro garras e são revestidos por pequenas escamas coloridas como nos anteriores. A cauda varia de tamanho entre os sexos, sendo acompanhada por uma fileira lateral de escamas coloridas.

Os machos adultos, em média, são ligeiramente maiores do que as fêmeas, embora os maiores indivíduos geralmente sejam fêmeas. Uma característica marcante dos machos é a presença de uma constrição nos lados do corpo - uma espécie de “cintura” - e um plastrão profundamente côncavo. As fêmeas possuem cauda curta e cônica, enquanto os machos apresentam cauda mais longa, musculosa e frequentemente dobrada lateralmente. A incisura anal dos machos também é mais ampla, provavelmente para facilitar a movimentação da cauda.

Distribuição e habitat

Os jabutis-tingas apresentam ampla distribuição geográfica a leste dos Andes, ocorrendo na Bolívia (Beni, La Paz, Pando e Santa Cruz), Brasil, Colômbia (Amazonas, Arauca, Caquetá, Casanare, Guainía, Guaviare, Meta, Putumayo, Vaupés e Vichada), Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru (Cusco, Loreto, Madre de Deus, Pasco, Ucaiáli), Suriname, Trindade e Venezuela (Amazonas, Bolívar, Delta Amacuro, Monagas). Também foi introduzido na ilha de Guadalupe. No Brasil, a espécie tem registros confirmados nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima e Tocantins, abrangendo os biomas da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.

Em termos hidrográficos, está presente nas sub-bacias do Araguaia, do Doce, da foz do Amazonas, do Gurupi, do Itapecuru-Paraguaçu, do litoral do Amapá, Bahia, Espírito Santo, Ceará, Paraíba e Rio de Janeiro, do Madeira, do Mearim, do Negro, do Paraguai 01 e 03, do Paranaíba, do Paraíba do Sul, do Parnaíba Médio, do Paru, do Purus, do Solimões, do São Francisco Médio, do Tapajós, do Tocantins Baixo, do Trombetas e do Xingu. A extensão de ocorrência da espécie no território brasileiro é estimada em quilômetros quadrados, com base num polígono mínimo convexo formado a partir dos registros no país até o limite da distribuição nos países vizinhos. Fora do Brasil, essa extensão é estimada em quilômetros quadrados, conforme Van Dijk et al. (2014), adaptado por NGeo RAN/ICMBio. Assim, a extensão de ocorrência global da espécie é de quilômetros quadrados, sendo que aproximadamente 89% dessa área encontra-se em território brasileiro.

Ecologia

O jabuti-tinga é uma espécie terrestre e diurna que habita principalmente florestas ombrófilas densas e, ocasionalmente, florestas decíduas, evitando áreas abertas. Estudos realizados na região amazônica indicam que a espécie exerce um papel relevante na dispersão de sementes, alimentando-se de uma ampla variedade de plantas. Embora seja predominantemente terrestre, registros recentes confirmaram sua presença em extensas áreas de florestas de várzea na Amazônia Central - ecossistemas sazonalmente inundáveis que permanecem alagados por até quatro meses ao ano.

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Reprodução

As fêmeas de jabuti-tinga atingem a maturidade sexual entre 12 e 15 anos de idade, quando alcançam cerca de 25 centímetros de comprimento de carapaça. Os machos podem atingir até 82 centímetros de comprimento. De acordo com Pritchard & Trebbau (1984), a sazonalidade reprodutiva tende a ser menos pronunciada em florestas sem estações climáticas bem definidas. Ainda assim, há evidências de maior atividade de cópula entre os meses de junho e agosto, com a postura de ovos ocorrendo principalmente de agosto a fevereiro. Alguns autores sugerem que a espécie pode se reproduzir ao longo de todo o ano, enquanto outros apontam para um único período reprodutivo anual, com múltiplas desovas - podendo chegar a até quatro por fêmea. Os ovos são geralmente depositados em covas rasas escavadas no solo, embora, ocasionalmente, possam ser postos diretamente sobre o substrato florestal. As posturas variam de três a 20 ovos, ligeiramente oblongos e de casca rígida; no entanto, a maioria das desovas contém de um a oito ovos, sendo frequente a ocorrência de quatro a cinco. O período de incubação dura, em média, 4,5 meses.

Ainda não há dados conclusivos sobre os mecanismos de determinação sexual ou sobre a temperatura pivotal - valor térmico que, teoricamente, resultaria em uma proporção de sexos próxima de 1:1. Um estudo em andamento com populações em vida livre na Amazônia indica que o ciclo reprodutivo da espécie é fortemente influenciado pelo regime anual de cheias, o que poderá permitir estimativas mais precisas sobre a época reprodutiva em todo o bioma. A espécie ainda carece de estudos mais aprofundados, especialmente com indivíduos em vida livre, dificultados pelo comportamento críptico dos jabutis-tingas. Visando contornar essa limitação, Morcatty e Valsecchi (2014) testaram diferentes metodologias de captura, observando alta eficiência em armadilhas com isca.

Conservação

A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica o jabuti-tinga como Vulnerável (VU). Em 2018, foi igualmente classificada como pouco preocupante (LC) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Também consta no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES).

Em sua área de distribuição no Brasil, o jabuti-tinga está presente em várias áreas de conservação:

Área de Proteção Ambiental (APA)

Bacia do Rio dos Frades Bonfim/Guaraíra Delta do Parnaíba Dunas e Veredas do Baixo-Médio São Francisco Ilha do Bananal/Cantão João Leite Margem Direita do Rio Negro (Setor Padauari-Solimões) Margem Esquerda do Rio Negro (Setor Tarumã-Açu-Tarumã-Mirim) Arquipélago do Marajó Petrópolis

Estação Ecológica (ESEC)

Maracá Grão-Pará

Floresta Nacional (Flona)

Altamira Tapajós Pau-Rosa

Floresta Estadual

Amapá

Parque Nacional (PARNA)

Campos Amazônicos Serra dos Órgãos Descobrimento Jaú Juruena Pau Brasil

Parque Estadual

Rio Negro Setor Norte Rio Negro Setor Sul

Reserva Biológica (Rebio)

Maicuru

Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS)

Amanã Mamirauá

Reserva Extrativista (Resex)

Auati-Paraná Baixo Juruá Médio Juruá Mar Soure Pedras Negras Rio Jutaí Riozinho da Liberdade

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)

Fazenda Boa Ventura

Terras Indígenas / Áreas Especiais

Alto Turiaçu Apiaká do Pontal e Isolados Coata-Laranjal Coroa Vermelha - Gleba C Jumina Kayapó Parque do Araguaia Rio Téa Tabalascada Uaçá Zoró

Ameaças