thumb|250px|Conquista de Malaca, por Ernesto Condeixa A conquista de Malaca pelos Portugueses deu-se em 1511 sob a liderança de Afonso de Albuquerque.

A cidade portuária de Malaca controlava o estratégico estreito de Malaca, por onde passava todo o comércio marítimo entre a China e a Índia. A conquista de Malaca resultou de um plano do rei de Portugal D. Manuel I, que em 1505 determinara minar o comércio muçulmano no Oceano Índico em direcção à Europa através da captura de Adém, a fim de bloquear o comércio por via de Alexandria, a captura de Ormuz, a fim de bloquear a via de Beirute, e Malaca para controlar o comércio com a China.João Paulo de Oliveira e Costa, Vítor Luís Gaspar Rodrigues (2012) Campanhas de Afonso de Albuquerque: Conquista de Malaca, 1511 p. 13

Tendo partido de Cochim em Abril de 1511, a expedição não poderia voltar para trás caso necessário, devido ao regime de ventos da monção; se tivessem falhado a conquista, teriam ficado presos no sudeste Asiático sem poderem voltar para as suas bases na Índia. Foi a mais distante conquista na história da humanidade até então.João Paulo de Oliveira e Costa, Vítor Luís Gaspar Rodrigues (2012) Campanhas de Afonso de Albuquerque: Conquista de Malaca, 1511 p. 7.

Contexto As mais antigas referências portuguesas a Malaca surgem após Vasco da Gama ter descoberto o caminho marítimo para a Índia e regressado a Portugal. A cidade foi descrita como situada 40 dias de vela a partir Índia, onde se vendiam cravo, noz-moscada, porcelanas e sedas, e supostamente era governada por um soberano que podia reunir 10.000 guerreiros e era cristão. Desde então, D. Manuel manifestou interesse em estabelecer contacto com Malaca, acreditando que se situava no do anti-meridiano de Tordesilhas ou próximo.José Damião Rodrigues, Pedro Aires Oliveira (2014) História da Expansão e do Império Português ed. Esfera dos Livros Em 1505, Dom Francisco de Almeida foi nomeado primeiro vice-rei da Índia, e encarregue de descobrir sua localização precisa, entre outras coisas.

D. Francisco, porém, viu-se impossibilitado de dedicar recursos à empreitada e limitou-se a enviar Francisco Pereira e Estevão de Vilhena, a bordo de um navio mercante muçulmano sob disfarce, em agosto de 1506. A missão foi mal-sucedida pois os emissários foram descobertos e quase linchados na Costa de Coromandel, e em novembro regressaram a Cochim.João Paulo de Oliveira e Costa, Vítor Luís Gaspar Rodrigues (2012) Campanhas de Afonso de Albuquerque: Conquista de Malaca, 1511 p. 17thumb|Porta da fortaleza de Malaca mandada construir por Afonso de Albuquerque após a conquistaInsatisfeito com a falta de resultados demonstrada por D. Francisco, em abril de 1508, o rei D. Manuel mandou sair de Lisboa diretamente para Malaca uma frota de quatro navios comandados de Diogo Lopes de Sequeira, que também foi encarregado de cartografar a ilha de Madagascar e recolher informações acerca dos chineses. Sequeira recebeu ordens régias instruindo-o a obter permissão para abrir uma feitoria diplomaticamente e comerciar pacificamente especificamente, não responder a provocações e não abrir fogo a menos que sobre si abrissem fogo primeiro:Vos encomendamos e mandamos que em todas as partes onde chegardes não façais dano nem mal algum, antes todos de vós recebam honra e favor e gasalhado, e bom trato, porque assim cumpre nestes começos por nosso serviço. E ainda que pela ventura contra vós se cometa alguma coisa, dissimulá-lo-eis o melhor que puderdes, mostrando que ainda que tivésseis causa e razão para fazerdes dano, o leixais de fazer por assim vos foi mandado por nós, e não quererdes senão paz e amizade; pero, se ou armando sobre vós ou vos fazendo algum engano tal que vos parecesse que vos queriam desarmar, então farês a quem isto vos cometesse todo o dano e mal que podesseis, e em outro caso não fareis nenhuma guerra nem mal.

Carta de D. Manuel a Diogo Lopes de Sequeira.Carta de D. Manuel a Diogo Lopes de Sequeira. Em Português antigo: vos encomendamos e mandamos que em todas as partes omde chegardes naam façaees dano neem maal algum, antes todos de vos recebam homra, e favor, e guasalhado, e boom trauto, porque asy compre nestes começos por noso seruiço. E aimda que pella vemtura comtra vos se cometa allguma cousa, desymulallo-ees o melhor que poderdes, mostrande que aimda que teuesseis cauza e rezam pera fazerde dano, o lleixaes de fazer por asy vos mandado por nos, e nam quererdes senam paz e amizado peo, o armando sobre vos ou vos fazemdo allgum emgano tall que vos parecese que vos queriam desarmar, emtam faress a quem isto vos cometese todo o dano e mall que podeseis, e em outro caso nam farees nenhuma guerra nem mall -Em abril de 1509 a frota aportava em Cochim e o vice-rei, Dom Francisco de Almeida, incorporou-lhe outra nau para fortalecê-la. A decisão não foi totalmente inocente, pois a bordo viajavam vários apoiantes do rival de Almeida, Afonso de Albuquerque. Entre os tripulantes desta nau contava-se Fernão de Magalhães.Fernão Lopes de Castanheda, 1552–1561 História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses edited by Manuel Lopes de Almeida, Porto, Lello & Irmão, 1979, book 2 ch. 106.

A cidade miniaturadaimagem|Malaios representados no Códice Casanatense Fundada no início do século XV, por Malaca passava todo o comércio entre a China e a Índia. Como resultado da sua posição estratégica ideal, a cidade albergava muitas comunidades de mercadores, entre os quais se incluíam árabes, persas, turcos, arménios, birmaneses, bengaleses, siameses, peguanos e luções, sendo as quatro mais influentes as de muçulmanos guzerates, javaneses, hindus do Costa de Coromandel e chineses. De acordo com Tomé Pires, que viveu em Malaca entre 1512 e 1514, nada menos que 84 dialectos eram falados em Malaca.Tomé Pires, Suma Oriental pp. 399, 422 O feitor português Rui de Araújo dissera ter a cidade 10 mil casas. Estimativas modernas colocam a população média da cidade em cerca de 40.000.Luís Filipe F. Reis Thomaz (2000) Early Portuguese Malacca pp. 60–62 Malaca mantinha em cativeiro um grupo de canibais da Nova Guiné a quem os condenados de crimes graves eram entregues para serem comidos.Brás de Albuquerque, 1557 The commentaries of the great Afonso Dalboquerque, second viceroy of India, edited by Walter de Grey Birch, 1875, ch. XVIII pg. 87

Porém, a cidade fora construída em terreno pantanoso e cercada por inóspita floresta tropical, e precisava importar tudo para seu sustento, como o arroz vital, fornecido pelos javaneses. Para abastecer sua população, Malaca dependia de pelo menos 100 juncos anualmente importando arroz de vários locais: cerca de 50 a 60 juncos de Java, 30 de Sião e 20 de Pegu.Reid, Anthony (1989). The Organization of Production in the Pre-Colonial Southeast Asian Port City. In Broeze, Frank (Ed.), Brides of the Sea: Asian Port Cities in the Colonial Era (pp. 54–74). University of Hawaii Press. Malacca era principalmente uma cidade comercial sem interior agrícola substancial. Como Ma Huan observou no século anterior: "Tudo é terra arenosa e salgada. O clima é quente de dia, frio à noite. Os campos são inférteis e as colheitas pobres; (e) as pessoas raramente praticam a agricultura".

Malaca não tinha muralhas, somente paliçadas de bambu que eram erguidas para defesa temporária. Era semelhante a Jor, Brunei e Achem. Os comerciantes mais ricos mantinham seus bens comerciais armazenados em um gedong (godown) ou armazém de pedra, construído parcialmente abaixo do nível do solo. Ma Huan escreveu: "Sempre que os navios do tesouro do País Central (China) chegam lá, eles imediatamente erguem uma linha de paliçadas, como uma muralha da cidade, e erguem torres para os tambores de vigia em quatro portões; à noite eles tinham patrulhas de polícia carregando sinos; dentro, novamente, eles erguem uma segunda paliçada, como uma pequena muralha, (dentro da qual) eles construíam armazéns e celeiros; (e) todo o dinheiro e provisões eram armazenados neles".

Contacto com os Portugueses miniaturadaimagem|Guerreiro malaio, ilustrado por Manuel Godinho de Erédia. A expedição de Diogo Lopes de Sequeira chegou a Malaca em setembro de 1509 e imediatamente o capitão-mor procurou entrar em contacto com os mercadores chineses no porto. Eles convidaram-no para jantar a bordo de um de seus juncos mercantes e o receberam muito e conseguiram marcar-lhe uma audiência com o Sultão Mamude. O sultão prontamente concedeu aos portugueses autorização para abrirem uma feitoria e lhes disponibilizou um edifício vago para o efeito. No entanto, as poderosas comunidades mercantes dos muçulmanos guzerate e javaneses sentiam os seus interesses ameaçados pela presença dos portugueses e convenceram o sultão Mamude e o bendará a trair e capturar os portugueses.João Paulo de Oliveira e Costa, Vítor Luís Gaspar Rodrigues (2012) Campanhas de Afonso de Albuquerque: Conquista de Malaca, 1511 pp. 25–26

Sequeira, entretanto, estava tão convencido da boa-vontade do sultão que menosprezou a informação que Duarte Fernandes, cristão-novo que falava parsi, obteve de uma estalajadeira persa sobre os preparativos em curso para destruir a frota, confirmados até pelos mercadores chineses.Fernão Lopes de Castanheda, 1552–1561 História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses edited by Manuel Lopes de Almeida, Porto, Lello & Irmão, 1979, book 2 ch. 114 Ele encontrava-se a jogar xadrez a bordo da sua nau capitânia quando a frota malaia, disfarçada de mercadores, atacou em massa os navios portugueses.João de Barros, 1553, Décadas da Ásia decade 2, book 4, ch. 4 Os portugueses escorraçaram a tiro todas as tentativas de abordagem, mas vendo-se incapazes de desembarcar quaisquer forças para resgatar os portugueses que haviam ficado na feitoria, o Segueira decidiu regressar à Índia antes que monção começasse e os deixasse totalmente presos no Sudeste Asiático.

Antes de partir, enviou ao sultão e ao bendará dois cativos, cada um com uma flecha atravessada no crânio como ameaça do que lhes haveria de suceder caso algum mal recaísse sobre os 20 portugueses que se renderam e seriam deixados para trás.

Preparativos para a conquista miniaturadaimagem|Naus e caravelas portuguesas representadas no Livro das Armadas. Quando Sequeira chegou à Índia em Abril e soube que Afonso de Albuquerque substituíra Dom Francisco de Almeida no governo da Índia, partiu de imediato para Portugal, receando represálias por ter antes apoiado D. Francisco.

Nesse mesmo mês, em Lisboa, D. Manuel despachou outra frota sob o comando de Diogo de Vasconcelos para comerciar directamente com Malaca, partindo do pressuposto de que o Sequeira havia conseguido estabelecer relações comerciais com a cidade. Vasconcelos chegou à ilha de Angediva em agosto de 1510, e ali encontrou o Afonso de Albuquerque com a sua frota, preparando-se para conquistar Goa.João Paulo de Oliveira e Costa, Vítor Luís Gaspar Rodrigues (2012) Campanhas de Afonso de Albuquerque: Conquista de Malaca, 1511 pp. 30–36 miniaturadaimagem|A ilha de Angediva. Albuquerque havia recebido mensagens dos cativos de Malaca, escritas pelo feitor Rui de Araújo, e enviadas por emissários do mais poderoso mercador de Malaca, um hindu chamado Nina Chatu, que ajudava os portugueses. Araújo indicara a força militar do sultão, a importância estratégica de Malaca, bem como o cativeiro atroz em que se encontravam, sendo torturados para que ensinassem os malaios a construir e fazer armas de fogo:Senhor,