Síndrome de Cotard, também chamada de delírio de Cotard, síndrome do cadáver ambulante, delírio niilista ou delírio de negação, é uma rara doença mental em que a pessoa afetada detém a crença delirante de que ela já está morta, não existe, está em putrefação ou que perdeu seu sangue ou órgãos internos. A análise estatística de cem pacientes indica que a negação da auto-existência é um sintoma presente em 69% dos casos de síndrome de Cotard; ainda que, paradoxalmente, 55% dos pacientes apresentam delírios de imortalidade.
Em 1880, o neurologista Jules Cotard descreveu a condição como Le délire des négations ("O Delírio da Negação"), uma síndrome psiquiátrica de severidade variada. Um caso leve é caracterizado por desespero e auto-aversão, enquanto um caso grave é caracterizado por delírios intensos de negação e depressão psiquiátrica crônica. O caso da "Mademoiselle X" descreve uma mulher que negou a existência de partes de seu corpo e de sua necessidade de comer. Ela disse que estava condenada à danação eterna e, portanto, não podia morrer de morte natural. No decorrer do sofrimento de "O Delírio da Negação", a "Mademoiselle X" morreu de fome.
A ilusão de Cotard não é mencionada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) ou na décima edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) da Organização Mundial da Saúde.
Sinais e sintomas
O sintoma central na síndrome de Cotard é o delírio de negação. Aqueles que sofrem desta doença muitas vezes negam sua própria existência ou que uma certa parte do seu corpo exista. A síndrome de Cotard costuma ter três etapas distintas. Na primeira etapa - Germinação - os pacientes sofrem crises de depressão psicótica e sintomas hipocondríacos. A segunda etapa - Florescimento- é caracterizada pelo desenvolvimento completo e explosivo da síndrome e os delírios de negação. A terceira etapa - Crônica - é caracterizada por delírios graves e depressão crônica.Yarnada, K., Katsuragi, S. and Fujii, I. (1999). "A case study of Cotard's syndrome: stages and diagnosis". In: Acta Psychiatrica Scandinavica, 100: 396–398
A síndrome de Cotard retira a pessoa afetada do convívio social devido à negligência de sua higiene pessoal e saúde física. O delírio de negação da própria existência afeta o paciente de ter conhecimento da realidade externa, produzindo uma visão distorcida do mundo externo. Essa delusão de negação geralmente é encontrada no paciente psicótico que também apresenta esquizofrenia.Young, A.W., Robertson, I.H., Hellawell, D.J., de, P.K.W., & Pentland, B. (1 de janeiro de 1992). Cotard delusion after Brain Injury. Psychological Medicine, 22, 3, 799–804.
Realidade distorcida O artigo Betwixt Life and Death: Case Studies of the Cotard Delusion (1996) descreve um caso contemporâneo de síndrome de Cotard, que ocorreu em um escocês cujo cérebro foi danificado em um acidente de moto:
O artigo Recurrent Postictal Depression with Cotard Delusion (2005) descreve o caso de um menino epiléptico de quatorze anos cuja percepção distorcida da realidade resultou da síndrome de Cotard. O histórico de sua saúde mental expressava temas de morte, tristeza crônica, diminuição da atividade física durante as horas de brincar, retirada social e funções biológicas perturbadas. Cerca de duas vezes por ano, o menino sofreu episódios que duraram entre três semanas e três meses. No decorrer de cada episódio, ele disse que tudo e todos estavam mortos (incluindo árvores), descreveu-se como um cadáver e advertiu que o mundo seria destruído em poucas horas. Ao longo do episódio, o menino não mostrou resposta a estímulos agradáveis e não teve interesse em atividades sociais.Mendhekar, D. N., & Gupta, N. (1 de janeiro de 2005). "Recurrent Postictal Depression with Cotard delusion." Indian Journal of Pediatrics, 72, 6, 529–31.
Fisiopatologia thumb|right|A falha neural na área fusiforme da face, no giro fusiforme (em laranja), pode ser uma causa da ilusão de Cotard. thumb|right|No cérebro, lesões orgânicas no lobo parietal podem causar a Síndrome de Cotard.
A neurofisiologia subjacente e a Psicopatologia da síndrome de Cotard podem estar relacionadas a problemas de identificação incorreta delirante. Neurologicamente, pensa-se que a síndrome de Cotard (negação da própria existência) está relacionada à Síndrome de Capgras (pessoas substituídas por impostores); considera-se que cada tipo de delírio resulta de falhas neurais na área fusiforme da face do cérebro (que reconhece os rostos) e na amígdala cerebelosa (que associa emoções a um rosto reconhecido).
A desconexão neural cria no paciente uma sensação de que o rosto que está observando não é o rosto da pessoa a quem pertence; portanto, esse rosto não tem a familiaridade (reconhecimento) normalmente associada a ele. Isso resulta em desrealização ou desconexão do meio ambiente. Sendo assim, se o rosto observado é o rosto de uma pessoa conhecida pelo paciente, eles visualizam esse rosto como o de um impostor (síndrome de Capgras). Se o paciente vê o próprio rosto, eles não conseguem perceber nenhuma associação entre o rosto e seu próprio senso de si mesmo, resultando na negação da própria existência.
A síndrome de Cotard é encontrada geralmente em pessoas aflitas com uma psicose (por exemplo, esquizofrenia), transtornos neurológicos e mentais, depressão, desrealização, tumor cerebral, e enxaqueca. A literatura medicinal indica que a ocorrência da ilusão de Cotard está associada a lesões no lobo parietal. Como tal, o paciente da ilusão de Cotard apresenta uma maior incidência de atrofia cerebral—especialmente do lobo frontal mediano—do que as pessoas nos grupos de controle.
A Síndrome de Cotard também resulta da resposta fisiológica adversa de um paciente a uma droga (por exemplo, aciclovir) e ao seu precursor de pró-fármaco (por exemplo, valaciclovir). A ocorrência de sintomas relacionados à Síndrome de Cotard foi associada a uma concentração sérica elevada de 9-Carboximetoximetilguanina (CMMG), o principal metabólito da droga aciclovir. Como tal, o paciente com rins fracos (insuficiência renal) continua a arriscar a ocorrência de sintomas delirantes, apesar da redução da dose de aciclovir. O uso de hemodiálise resolveu os delírios do paciente (negação da própria existência) em poucas horas do tratamento, o que sugere que a ocorrência de sintomas da Síndrome de Cotard pode não ser sempre causa de hospitalização psiquiátrica do paciente.
Bibliografia Kudlur, S., George, S. & Jaimon, M. (2007). "An overview of the neurological correlates of Cotard syndrome". In: Eur. J. Psychiat., 21 (2):99–116. Nicolato, Rodrigo et al. "Síndrome de Cotard associada ao uso de ecstasy" (2007). In:J. bras. psiquiatr., 56 (1).
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