Lejeuneaceae é a maior família da divisão Marchantiophyta (hepáticas). Seus representantes são hepáticas folhosas, sendo os principais componentes florísticos presentes nos ambientes de floresta, notadamente floresta ombrófila. São, na maioria, epífitas, representando cerca de 75% das espécies epífitas nos ambientes de floresta. Ocorrem nas regiões tropical e subtropical, com apenas alguns gêneros com distribuição em regiões de clima temperado. A família apresenta 71 gêneros e mais de 1900 espécies distribuídas no globo, sendo, no Brasil a mais diversa das hepáticas, com 285 espécies e contendo 45% de todas as espécies reconhecidas para esta divisão no país (Costa; Peralta 2015).

Morfologia A família Lejeuneaceae faz parte das hepáticas folhosas e é composta por espécimes pequenos, que não possuem vasos condutores e apresentam merófitos ventrais de 2-6 ou mais células de largura.

Gametófitos Os gametófitos apresentam coloração verde, verde-amarelados a castanho, nunca avermelhados; hábito ascendente, prostrado ou pendente, com ramos do tipo-Lejeunea, tipo-Radula ou do tipo-Aphanolejeunea.[1-Bastos]

Seus filídios possuem inserção incuba e dois lobos, o lobo ventral (inserido na face ventral do caulídio), geralmente menor do que o lobo dorsal (inserido na face dorsal do caulídio) dobra-se em direção ao lobo dorsal (quilha), formando uma bolsa ou saco aquífero; posuem margem dentada ou completa, enquanto seu ápice pode ser obtuso, agudo, arredondado ou apiculado. além disso, há presença de anfigastros inteiros ou bífidos (ausentes apenas em Cololejeunea) com rizóides na base.

O androécio pode estar no ápice de ramos laterais ou do ramo principal, com 2 a 10 ou mais pares de brácteas, cujos lóbulos podem ser inflados ou não. Os anterídios são esféricos, em número de 1 a 2 por bráctea, e a bractéola pode estar na base ou ao longo do ramo.

O ginoécio também ocorre no ápice dos ramos laterais ou do principal, podendo ser estéril ou fértil, uma inovação única ou pareada em sequência lejeuneóide ou picnolejeuneóide. As brácteas possuem lobo obovado ou ovalado, com margens inteiras, crenuladas ou denteadas, e o lóbulo pode ser pequeno ou bem desenvolvido. A bractéola pode ser inteira ou bífida, com margem inteira ou denteada. O perianto apresenta 3 a 5 ou mais quilhas, que podem ser inteiras, crenuladas ou denteado-laciniadas, com rostro curto, longo ou pouco visível.

Esporófito O esporófito, é de tamanho curto, pedunculado, com seta articulada ou não, a qual possui duas camadas de células, a interior com quatro fileiras e a exterior com 12-16 fileiras de células; pé discoidal com poucas células e cápsula esférica com quatro valvas. Presos às paredes biestratificadas com ou sem fenestrações da cápsula, estão os elatérios com 1-2 espirais de reforço.

Multiplicação vegetativa Ocorre por filídios caducos, por gemas, por fragmentação de ramos ou da margem do lobo e por formação de regenerantes (Schuster 1980, Gradstein 1994, 2013, Gradstein & Costa 2003).

Evolução, filogenia e taxonomia

Relações filogenéticas As relações filogenéticas estabelecidas pela família Lejeuneaceae têm sido enfoque de diversos estudos desde o início do século XX, nos quais estão presentes tanto os modelos tradicionais de análise, baseados na morfologia dos vegetais, quanto as mais recentes abordagens alicerçadas na biologia molecular. Inicialmente, os estudos eram realizados a partir das características morfológicas dessa família, como a estrutura dos filídios, a composição dos órgãos reprodutores, a organização de corpos oleosos e a forma dos anfigastros (Gradstein, 1994). Entretanto, com o avanço das técnicas moleculares, análises de sequências de DNA, incluindo regiões como trnL-trnL-F, psbA, rbcL e espaçadores ribossômicos ITS, foram incorporadas aos estudos (Gradstein, 2013; Ye et al., 2015), o que levou a uma maior capacidade investigativa das relações evolutivas estabelecidas pelo grupo.  

Tais investigações têm conjuntamente indicado para um monofiletismo estabelecido pela família Lejeuneaceae, portanto, evidenciando que se trata de um grupo verdadeiro com ancestral comum entre os integrantes da família (Heinrichs et al., 2014),e que esta família se divide em duas subfamílias: Lejeuneoideae e Ptychanthoideae. No entanto, análises  revelaram que a classificação tradicional da família necessitava de revisões (Wilson et al, 2007). Assim, estudos como os de Gradstein (2013) e Heinrichs et al. (2014) sugeriram que algumas subtribos deveriam ser realocadas para melhor refletir a verdadeira história evolutiva do grupo, com alguns contrastes sendo alcançados a depender do método de análise parcimoniosa. Dessa forma, as subfamílias Lejeuneoideae e Ptychanthoideae se mantiveram, mas algumas linhagens anteriormente incluídas em Ptychanthoideae foram realocadas, e novas propostas taxonômicas surgiram, com a redefinição de tribos e subtribos dentro da família (Heinrichs et al., 2014; Ye et al., 2015).

Após esses estudos filogenéticos,a estrutura da família Lejeuneaceae é a que consta do seguinte cladograma: Porellales  Porellaceae GoebeliellaceaeLepidolaenaceaeRadulaceaeFrullaniaceaeJubulaceaeLejeuneaceae  Lejeuneoidae  Ptychanthoideae       

Taxonomia Lejeuneaceae constitui um grupo essencialmente tropical e subtropical, sendo a maior família de hepáticas, com 71 gêneros aceitos devido a estudos filogenéticos moleculares e um número estimado de mais de 1900 espécies:

Divisão Marchantiophyta Classe Jungermanniopsida Ordem Porellales Família Porellaceae Cavers 1910 nom. cons. Família Goebeliellaceae Verdoorn 1932 Família Lepidolaenaceae Nakai 1943 FamíliaRadulaceae Müller 1909 FamíliaFrullaniaceae Lorch 1914 FamíliaJubulaceae von Klinggräff 1858 Família Lejeuneaceae Cavers 1910 Subfamília Lejeunoidae - aproximadamente 52 gêneros Subfamília Ptychanthoideae - aproximadamente 19 gêneros

Ocorrência no Brasil

Domínios Fitogeográficos: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal.

Ocorrências confirmadas no Brasil:

Norte (Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins) Nordeste (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe) Centro-Oeste (Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso) Sudeste (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo) Sul (Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina)

Lista de espécies brasileiras +Acanthocoleus AcrolejeuneaAcrolejeunea emergens

Acrolejeunea heterophylla

Acrolejeunea torulosaAnoplolejeunea Anoplolejeunea confertaArchilejeunea badia,crispistipula

fuscescens

ludoviciana BlepharolejeuneaBlepharolejeunea incongrua;

Blepharolejeunea securifoliBrachiolejeuneaBrachiolejeunea laxifolia

Brachiolejeunea leiboldiana

Brachiolejeunea phyllorhiza BromeliophilaBromeliophila natansBryopterisBryopteris diffusa

Bryopteris filicinaCaudalejeuneaCaudalejeunea lehmannianaCephalantholejeuneaCephalantholejeunea temnanthoidesCeratolejeuneaCeratolejeunea atlantica

Ceratolejeunea ceratantha

Ceratolejeunea coarina

Ceratolejeunea confusa

cornuta

cubensis

desciscens

falcatodentata

fallax

filaria

laetefusca

maranhensis

minuta

patentissima

rubiginosa

temnanthaCheilolejeuneaacutangula

adnata

amazonica

aneogyna

aracaensis

asperifolia

beyrichii

caducifolia

comans

conchifolia

cuspidifera

decursiva

discoidea

filiformis

fragrantissima

grandibracteata

grosseoleosa

holostipa

inflexa

insecta

intertexta

lacerata

laciniata

lineata

lobulata

neblinensis

ornata

papulosa

polyantha

polystachya

revoluta

rigidula

savannae

subcrenulata

tenerrima

timboensis

tonduzana

trifaria

unciloba

urubuensis

xanthocarpaCololejeuneaantillana

azorica

bischleriana

camillii

cardiocarpa

cingens

clavatopapillata

contractiloba

dauphinii

diaphana

dzumacensis

falcata

gracilis

hildebrandii

jamesii

lanciloba

micrandroecia

microscopica

minutilobula

obliqua

panamensis

papilliloba

paucifolia

planiuscula

platyneura

schusteri

sicifolia

sintenisii

spruceana

subcardiocarpa

submarginata

subscariosa

subsphaeroidea

surinamensis

verwimpii

vitaliana

winkleri

microscopica var. africana

microscopica var. exiguaColuracalyptrifolia

cylindrica

greig-smithii

itatyana

tenuicornis

tortifolia

uleiCyclolejeuneaaccedens

chitonia

convexistipa

foliorum

luteola

peruvianaDibrachiellaauberiana

parvifloraDiplasiolejeuneaalata

brunnea

buckii

caribea

cavifolia

cobrensis

cubatensis

inermis

lanciloba

latipuensis

pauckertii

pellucida

replicata

rudolphiana

unidentataDrepanolejeuneaaculeata

anoplantha

araucariae

bidens

biocellata

campanulata

crassiretis

crucianella

fragilis

granatensis

grollei

inchoata

integribracteata

lichenicola

mosenii

orthophylla

palmifolia

pinnatiloba

polyrhiza

robinsonii

subdissitifoliaFrullanoidescorticalis

densifolia

liebmanniana

tristisHaplolejeuneaamazonica

umbrosaHarpalejeuneaoxyphylla

schiffneri

stricta

subacuta

tridensLejeuneaacanthogona

adpressa

angusta

anomala

aphanes

asperrima

asthenica

atlantica

bermudiana

beyrichiana

bombonasensis

boryana

calcicola

cancellata

capensis

catinulifera

cerina

cochleata

combuensis

controversa

deplanata

flaccida

flagellifera

flava

glaucescens

grossitexta

herminieri

immersa

inflexiloba

juruana

laeta

laetevirens

longidentata

minutiloba

oligoclada

parviloba

perpapillosa

phyllobola

polyantha

pterigonia

ptosimophylla

puiggariana

pulchra

pulverulenta

quinqueumbonata

raddiana

ramulosa

reflexistipula

rionegrensis

serpillifolioides

setiloba

sporadica

subsessilis

subspathulata

terricola

topoensis

trinitensis

acanthogona var. cristulata

acanthogona var. diversicuspis

acanthogona var. grossiretisLepidolejeuneacordifissa

eluta

involutaLeptolejeuneabrasiliensis

convexistipa

diversilobulata

elliptica

exocellata

maculata

moniliata

obfuscata

serratifolia

tridentataLopholejeuneaeulopha

nigricans

quelchii

subfuscaMarchesiniabongardiana

brachiataMicrolejeuneaacutifolia

bullata

capillaris

cystifera

epiphylla

globosa

jiboiensis

squarrosa

stricta

subulistipaMyriocoleopsisfluviatilis

gymnocolea

minutissimaNeurolejeuneabreutelii

seminervisOdontolejeuneadecemdentata

lunulata

rhomaleaPictolejeuneapicta

spruceiPrionolejeuneaaemula

denticulata

diversitexta

galliotii

limpida

muricato-serrulata

recurvula

scaberula

trachyodesPycnolejeuneachocoensis

contigua

decurviloba

densistipula

gradsteinii

macroloba

papillosa

porrectilobula

remotistipulaRectolejeuneaemarginuliflora

flagelliformis

versifoliaSchiffneriolejeunea amazonica polycarpaStictolejeunea balfourii squamataSymbiezidiumbarbiflorum

transversaleThysananthusamazonicus

auriculatus

innovans

plicatiflorusVerdoornianthusgriffinii

marsupiifoliusVitalianthusaphanellus

bischlerianusXylolejeuneaaquarius

crenata

Referências

BASTOS, C.J.P.; GRADSTEIN, S.R. 2020. Lejeuneaceae in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB97355. Bastos, C.J.P.; Gradstein, S.R. Lejeuneaceae in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB97355 BECHTELER, J.; LEE, G.E.; SCHÄFER-VERWIMP, A.; RENNER, M.A.M.; PERALTA, D.F.; HEINRICHS, J. 2016. Toward a monophyletic classification of Lejeuneaceae V: the systematic position of Pictolejeunea. Phytotaxa 280(3): 259-270. COSTA, Denise P.; PERALTA, Denilson F. 2015. Bryophytes diversity in Brazil. Rodriguésia, Rio de Janeiro, v. 66, n. 4, out. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-7860201566409. GRADSTEIN, S.R. 1994. Lejeuneaceae: Ptychanteae, Brachiolejeuneae. Flora Neotropica Monograph 62: 1-216. GRADSTEIN, S.R. 2013. A classification of Lejeuneaceae (Marchantiophyta) based on molecular and morphological evidence. Phytotaxa 100(1): 6-20.