thumb|right|300px|Mapa da Expedição Nimrod A Expedição Antárctica Britânica de 1907–09, conhecida como Expedição Nimrod, foi a primeira de três expedições à Antárctida lideradas por Ernest Shackleton. O seu principal objectivo, para além da pesquisa geográfica e científica, era ser o primeiro a chegar ao Polo Sul. O objectivo não foi atingido, mas o grupo atingiu um novo recorde chegando à latitude de 88° 23′ S, a apenas 157 km do polo. Foi a maior expedição ao Polo Sul até à data. Um outro grupo da expedição, liderado pelo professor de geologia Edgeworth David, chegou ao local estimado para o Polo sul magnético; a expedição também efectuou a primeira subida ao monte Érebo, o segundo maior vulcão da Antárctida.

A expedição não teve qualquer apoio do governo ou outra instituição, sendo, apenas, apoiada por empréstimos privados e contribuições individuais. Devido aos problemas financeiros, os seus preparativos foram feitos de forma mais acelerada. O navio Nimrod utilizado na expedição, tinha menos de metade da dimensão do navio de Robert Falcon Scott na Expedição Discovery (1901–04), o Discovery, e a tripulação de Shackleton tinha menos experiência. A decisão de Shackleton de estabelecer a base no estreito de McMurdo foi controversa pois ficava próxima da antiga base de Scott, e Shackleton tinha prometido não o fazer. Ainda assim, embora a natureza da expedição de Shackleton fosse menos elaborada que a de Scott, seis anos antes, acabou por alcançar uma maior popularidade a nível nacional fazendo de Shackleton um herói público. A equipa científica, que incluía o futuro líder da Expedição da Australásia na Antárctida, Douglas Mawson, realizou vários estudos geológicos, zoológicos e meteorológicos. O sistema de transporte de Shackleton, baseado em póneis da Manchúria, tracção motorizada e trenós puxados por cães, foi inovador e, embora limitados, foram, mais tarde, copiados por Scott na trágica Expedição Terra Nova.

No seu regresso, Shackleton acabou por superar o cepticismo inicial da Real Sociedade Geográfica sobre a possibilidade daquele atingir os objectivos iniciais, e recebeu honras públicas, incluindo o grau de Cavaleiro entregue pelo rei Eduardo VII do Reino Unido. A expedição não lhe trouxe grandes ganhos financeiros e teve mesmo de ser apoiado por uma garantia governamental que lhe cobrisse as suas dívidas. Nos três anos seguintes, o seu recorde de latitude sul foi ultrapassado por, primeiro, Amundsen e, depois, por Scott, ao atingirem o Polo Sul. No entanto, no seu momento de triunfo, Amundsen afirmou: "O nome de Sir Ernest Shackleton será sempre escrito em letras grandes nos anais da Exploração Antárctica".

Origem Quando fez parte da Expedição Discovery, a primeira expedição de Scott, Shackleton era um oficial subalterno. Foi enviado para casa no navio de apoio, o Morning, em 1903, depois de ter ficado fisicamente incapacitado durante a viagem principal ao sul. A decisão de Scott foi que ele "não deveria correr mais riscos dado o seu presente estado de saúde". Shackleton assumiu o seu colapso como um estigma a nível pessoal e, no seu regresso a Inglaterra, estava determinado a provar a si mesmo, nas palavras do segundo-no-comando do Discovery Albert Armitage, que "era um homem melhor que Scott". Quando recuperou, teve a oportunidade de voltar à Antárctida como oficial-chefe do segundo navio de apoio do Discovery, o Terra Nova, mas recusou o convite; também, ajudou a equipar aquele navio e o Uruguay, o navio preparado para dar assistência à expedição de Otto Nordenskjöld, preso no mar de Weddell. Durante os anos seguintes, desejoso de voltar à Antárctida, procurou outras opções e, em 1906, estava a trabalhar para o milionário do sector industrial Sir William Beardmore, como oficial de relações públicas.

De acordo com o biógrafo Roland Huntford, o orgulho pessoal de Shackleton tinha ficado afectado pela referência ao seu colapso no relato de Scott da Expedição Discovery, o livro The Voyage of the Discovery, publicado em 1905. Passou a ser uma missão pessoal regressar à Antárctida e superar Scott, e iniciou a procura de financiadores para uma expedição organizada por si. O seu plano inicial surgiu num documento não publicado datado de início de 1906. O custo estimado da expedição era de libras (valor actual libras). Shackleton recebeu a primeira promessa de apoio em 1907 quando o seu patrão, Beardmore, ofereceu uma garantia de empréstimo de libras (valor actual libras). Com estes montantes, Shackleton sentiu-se confiante para anunciar as suas intenções à Real Sociedade Geográfica (RSG) no dia 12 de Fevereiro de 1907. A razão para a pressa de Shackleton era a notícia de que o explorador polaco Henryk Arctowski estava a planear uma expedição, anunciada no mesmo dia, na RSG. Contudo, os planos de Arctowski não seguiriam em frente.

Organização Planos iniciais O plano não publicado de Shackleton previa estabelecer a base da expedição no mesmo local do da Expedição Discovery, no estreito de McMurdo. Dali seriam efectuadas todas as partidas para alcançar o Polo Sul geográfico e o magnético. Também seriam efectuadas outras viagens, e o programa científico estaria em laboração. Este plano prévio também estabelecia o método de transporte que combinava a utilização de cães, póneis e um veículo motorizado especialmente concebido para a expedição. Nem os póneis, nem o veículo motorizado tinham ainda sido utilizados na Antárctida antes, embora os póneis já tivessem sido utilizados por Frederick Jackson durante a Expedição Jackson–Harmsworth ao Árctico, em 1894–97. Apesar dos relatórios confusos de Jackson sobre a capacidade dos póneis, e contrariamente ao conselho de Nansen, um conceituado e experiente explorador polar, Shackleton ficou impressionado o suficiente para levar 15 desses animais (mais tarde seriam 10). Quando anunciou os seus planos à RSG, em Fevereiro de 1907, Shackleton tinha revisto o custo total da expedição para libras (valor actual libras). Contudo, a RSG não deu qualquer resposta à proposta de Shackleton; mais tarde, ele ficaria a saber que a Sociedade tinha conhecimento do desejo de Scott de liderar uma nova expedição, e os fundos financeiros daquela estavam reservados para Scott.

O navio da expedição, Nimrod thumb|O navio da expedição, Nimrod, a partir para o Polo Sul. Shackleton pretendia chegar à Antárctida em Janeiro de 1908, o que significava partir de Inglaterra durante o Verão de 1907. Tinha, portanto, seis meses para garantir o financiamento, adquirir e equipar o navio, comprar todos os equipamentos e provisões e recrutar os membros da expedição. Em Abril, acreditando que tinha o apoio financeiro do empresário escocês Donald Steuart, Shackleton viajou para a Noruega para comprar um navio de 700 toneladas, o Bjorn, que era o navio ideal para uma expedição polar. Contudo, Steuart cancelou a sua ajuda, e o Bjorn ficou fora do orçamento de Shackleton. O navio norueguês acabou por ser adquirido pelo explorador alemão Wilhelm Filchnere, agora com o nome de Deutschland, sendo utilizado na sua viagem de 1911–13 ao mar de Weddell. Shackleton apenas conseguiu adquirir um navio mais antigo e mais pequeno, o Nimrod, de caça a focas, construído em madeira e com 40 anos de idade, de 334 ton, que conseguiu adquirir por libras (valor actual libras).

Shackleton ficou chocado na primeira vez que viu o Nimrod, depois da sua chegada a Londres desde a Colónia da Terra Nova, em Junho de 1907. "Ele estava em muito mau estado e tinha um forte cheiro a óleo de foca, e uma inspecção [...] mostrou que precisava de ser calafetado e que os seus mastros teriam que ser substituídos." No entanto, nas mãos de experientes construtores navais, ele depressa "ficaria com uma aparência satisfatória". Mais tarde, Shackleton disse que tinha ficado bastante orgulhoso daquele pequeno e robusto navio.

Angariação de fundos Em Julho de 1907, Shackleton não tinha conseguido muita ajuda financeira para além da garantia de Beardmore e começava a ter dificuldades em equipar o navio. Em meados de Julho, foi ter com o filantropo, Edward Guinness, conde de Iveagh, que concordou em entregar um montante de libras (valor actual libras) desde que Shackleton conseguisse reunir mais libras junto de outros financiadores. Shackleton conseguiu juntar o montante, incluindo libras de Sir Philip Brocklehurst, que entregou este dinheiro para garantir um lugar na expedição.

Um donativo de última hora, libras, do primo de Shackleton, William Bell, ainda assim deixava o fundo longe das libras necessárias, mas permitia equipar e remodelar o Nimrod. A angariação continuou na Austrália depois de o navio chegar; o governo australiano contribuiu com libras e o governo neozelandês participou com libras. Assim, com o acumular de pequenos empréstimos e donativos, Shackleton conseguiu juntar as libras necessárias, embora, no fim da expedição, se tenha gasto mais do que o orçamentado, cerca de libras.

Shackleton esperava receber bastante dinheiro com o seu livro sobre a expedição e com palestras. Também esperava lucrar com a venda de uma série de selos, com o carimbo dos correios da Antárctida, especialmente feitos para comemorar a expedição. Nenhuma destas situações produziu, no entanto, os efeitos desejados.

Membros da expedição thumb|esquerda|upright||Prof. Edgeworth David, líder da equipa científica.

Shackleton esperava recrutar homens que tinham feito parte da Expedição Discovery e propôs ao seu companheiro Edward Wilson o lugar de cientista-chefe e segundo-no-comando. Wilson recusou, desculpando-se com o seu trabalho na Comissão do Conselho de Agricultura para a Investigação da Doença do Galo-silvestre. Seguiram-se mais convites e novas recusas de ex-membros do Discovery: Michael Barne, Reginald Skelton e George Mulock que, sem querer, revelaram a Shackleton que os oficiais da anterior expedição se tinham comprometido com Scott e com a sua, ainda por anunciar, nova expedição. Os únicos que concordaram em juntar-se a Shackleton foram Frank Wild e Ernest Joyce.

O segundo-no-comando de Shackleton - embora esta questão só tenha ficado clara quando chegaram à Antárctida - era Jameson Boyd Adams, um tenente da Reserva da Marinha Real, que se tinha recusado ser um oficial de carreira; acabou por assumir, também, as funções de meteorologista da expedição. O capitão do Nimrod''' era outro oficial da reserva da marinha, Rupert England; John King Davis, de 23 anos de idade, que, mais tarde, faria carreira como capitão em outras expedições à Antárctida, foi escolhido como imediato, no último minuto. Aeneas Mackintosh, um oficial da Marinha mercante da empresa naval Peninsular and Oriental Steam Navigation Company, era para ser segundo-oficial, mas seria transferido, posteriormente, para o grupo terrestre, sendo substituído por A. E. Harbord. Outros membros do grupo terrestre eram dois cirurgiões, Alistair Mackay e Eric Marshall; Bernard Day, técnico de motores; e Sir Philip Brocklehurst, o membro que entregou um montante financeiro para fazer parte da expedição, como assistente do geólogo.

thumb|upright|Douglas Mawson, um dos últimos membros da equipa científica.

A pequena equipa científica que partiu de Inglaterra incluía o biólogo James Murray de 41 anos, e o geólogo Raymond Priestley, de 21 anos, um dos futuros fundadores do Instituto de Pesquisa Polar Scott.Na Austrália, a expedição recebeu mais dois membros: Edgeworth David, professor de Geologia na Universidade de Sydney, que passou a ser o cientista-chefe; e um ex-aluno de David, Douglas Mawson, formado em mineralogia na Universidade de Adelaide. David conseguiu obter um empréstimo do governo australiano no valor de libras.

Antes de partirem para a Antárctida, em Agosto de 1907, Joyce e Wild tiveram uma rápida formação em métodos de impressão, pois Shackleton tencionava publicar um livro ou uma revista enquanto estivessem na Antárctida.

Promessa a Scott thumb|upright|esquerda|Robert Falcon Scott.