Martinho Ferreira Matos ou Martinho Ferreira de Mattos (Itapicuru, 11 de novembro de 1875 — Cícero Dantas, 10 de janeiro de 1950) foi um latifundiário baiano.
Biografia
Martinho Ferreira Matos foi um aristocrata rural com ascendência vinculada à Casa da Torre, linhagem que, por séculos, administrou sesmarias nos atuais estados da Bahia e Sergipe.
Sua família paterna foi uma das responsáveis pelo desbravamento dos sertões baianos, dedicando-se à pecuária e à economia canavieira, estabelecendo-se em municípios como Monte Santo, Curaçá, Patamuté, Cícero Dantas, Itapicuru e Rio Real.
No Recôncavo baiano, a família mantinha laços de parentesco com figuras de destaque, como o Barão de Villa Viçosa e Santo Amaro da Purificação. Também possuíam influência politica, e estreito vinculo de amizade com o Barão de Geremoabo.
Por parte materna, descendia da família luso-brasileira, Pereira e Mello. Sua mãe, Anna Evangelista Pereira e Mello, era filha do coronel João Evangelista Pereira e Mello, juiz de direito da comarca de Bom Conselho.
Em 1894, durante a Guerra de Canudos, a cidade foi ocupada por seguidores de Antônio Conselheiro; o magistrado foi forçado a deixar o cargo e retirar-se para Juazeiro, episódio registrado na obra Os Sertões de Euclides da Cunhahttps://books.google.com.br/books?id=k2MHPSTfD0UC&lpg=PA825&ots=YznQB387QO&dq=jo%C3%A3o%20evangelista%20pereira%20e%20mello%20juazeiro&hl=pt-BR&pg=PA825#v=onepage&q=jo%C3%A3o%20evangelista%20pereira%20e%20mello%20juazeiro&f=false.
No final do século XIX, Martinho, acompanhado de seus irmãos João e Torquato Ferreira de Mattos, estabeleceu-se em Bom Conselho por intermédio do Barão de Geremoabo, dedicando-se à gestão de latifúndios pecuaristas.
Casou-se em primeiras núpcias com Dona Maria das Virgens Ferreira de Mattos no ano de 1893, com quem teve sete filhos. Esta veio a óbito por complicações durante um parto. miniaturadaimagem|Dona Maria das Virgens Ferreira de Mattos fotografada no ano de 1893. Após a morte de Dona Maria das Virgens, casou-se com a abastada Dona Marcolina Baptista de Mattos, neta do capitão José Moreira de Mattos, com quem teve treze filhos. miniaturadaimagem|Dona Marcolina Baptista Ferreira de Mattos fotografada em data desconhecida. Martinho era tio de Dalva Ferreira de Mattos, fundadora da Organização Auxílio Fraterno- OAF, instituída em 1958, em Salvador.
O legado político da família foi preservado por sua neta, Agenilda Ferreira Ribeiro de Jesus Pereira, que exerceu quatro mandatos como vereadora em Cícero Dantas, sendo laureada pelo seu destacado trabalho à frente da Secretaria de Assistência Social, enquanto primeira-dama. Na década de 1910, adquiriu o Engenho Olhos D’Água, situado em Simão Dias, antiga propriedade do coronel Nono Zacarias. Nesse período possuiu latifúndios de cana-de-açúcar, comercializando-a em larga escala, inclusive para exportação.
O antigo Engenho Olhos D'Água, hoje denomina-se Fazenda Tamanduá.
O Engenho Olhos D'Água
O complexo do Engenho Olhos D'Água compreendia a casa-grande, a capela dedicada a Santo Antonio, os alojamentos destinados aos trabalhadores, a casa de purgar — voltada ao processo de branqueamento do açúcar — além das fornalhas, moendas e demais dependências produtivas. A casa-grande, edificada em estilo colonial, destacava-se por um extenso alpendre e por uma fachada simétrica, composta por sete janelas e uma imponente porta central que dava acesso ao casarão.
Ataque de Lampião e seu cangaço ao Engenho Olhos D'Água
Durante sua passagem pelo município de Simão Dias, o grupo de Lampião contornou a Serra do Cabral e dirigiu-se ao Engenho Olhos D'Água. Ao chegar ao local, o cangaceiro Corisco confrontou o coronel Martinho Ferreira Matos, exigindo o pagamento de dois contos de réis. Alegando não possuir a quantia solicitada no momento, o coronel ofereceu, como alternativa, algumas joias de sua esposa.
Durante a abordagem, Lampião notou que as filhas do coronel usavam os cabelos curtos "à la garçonne". Em represália, ordenou que o cangaceiro Zé Baiano aplicasse castigos físicos nas jovens com uma palmatória. Ao tentar intervir em defesa das filhas, a esposa do coronel, dona Marcolina Ferreira, também foi alvo da agressão.
Lampião teria justificado o ato afirmando:
-Tou fazeno isso pra dá educação a voceis, já qui seu pai num dá! Muié de cabelo curto é muié ruim!
Dona Marcolina, que se recuperava de um parto recente, sofreu graves complicações de saúde em decorrência dos ferimentos, vindo a falecer dias depois. Na ocasião, o coronel Martinho Ferreira Matos foi mantido refém pelo bando, sendo levado junto com outros dois jovens — o filho de Fausto Dodô e um rapaz identificado como Marcos Felipe. O grupo de cangaceiros libertou os reféns na Fazenda Cavaco, situada ao norte de Paripiranga, já em território baiano.Nesse período, surgiram mais boatos de que Lampião tinha sido morto ou capturado pelas forças revolucionárias de Sergipe. No final de outubro, a revolução capitaneada pela Aliança Liberal, pelos tenentes e pelos partidários de Getúlio Vargas foi vitoriosa e derrubou o governo Washington Luís, pondo fim ao ciclo da chamada República Velha. No Nordeste, a movimentação de tropas era imensa e, nas capitais, realizavam-se as deposições de dirigentes aliados ao antigo governo. Foi nesse ambiente de efervescência que se espalharam surpreendentes notícias.Cicinato Ferreira Neto. A Misteriosa Vida de Lampiã
As sequelas psicológicas e sociais resultantes da violência sofrida no Engenho Olhos D'Água marcaram profundamente a trajetória posterior de Martinho Ferreira Matos. Relatos indicam que, nos anos seguintes ao episódio, o coronel viveu em estado de letargia, sendo frequente sua presença nas imediações da casa-grande — um sobrado colonial caracterizado por uma porta central ladeada por sete janelas.
Com a decadência da economia canavieira na região e o impacto direto dos eventos traumáticos, o coronel decidiu transferir-se com seus herdeiros para o estado da Bahia, onde passou a administrar uma de suas antigas propriedades, a Fazenda Garajau.
Referências
Categoria:Mortos em 1942 Categoria:Nascidos em 1865 Categoria:Proprietários rurais do Brasil Categoria:Naturais de Anápolis