Guerra Gótica foi uma revolta gótica no Império Romano nos Bálcãs entre e 382. A guerra e em particular a Batalha de Adrianópolis são geralmente consideradas um divisor de águas na história do Império Romano, o primeiro de uma série de eventos ocorridos no que viria a colapsar o Império Romano do Ocidente, embora sua importância à posterior queda do império ainda seja debatida.
Com a invasão dos hunos em 376, grande quantidade de godos chegou às margens do rio Danúbio solicitando asilo no Império Romano. O imperador Valente permitiu aos tervíngios de Fritigerno e Alavivo cruzarem, porém negou travessia aos grutungos de Alateu e Safrax. Após atravessarem próximo de Durostoro, os tervíngios foram distribuídos ao longo da margem sul do Danúbio na Mésia Inferior enquanto esperavam o iniciar da alocação de terras. Logo os imigrantes sofreram da carestia de alimentos e os oficiais romanos Lupicino e Máximo, aproveitando-se disso, extorquiram os recém-chegados.
Os tervíngios rebelaram-se contra a opressão dos oficiais romanos, levando Lupicino a transferi-los às cercanias de Marcianópolis, a capital provincial. No processo, tropas romanas aquarteladas ao longo do Danúbio foram deslocadas para o sul, permitindo que os grutungos atravessarem o rio. Os tervíngios foram assentados próximo de Marcianópolis, enquanto Lupicino convidou Fritigerno e Alavivo para um banquete dentro da cidade. Devido a um conflito entre godos famintos e alguns soldados romanos da guarnição, ordenou que os godos do banquete fossem assassinados, mas Fritigerno conseguiu escapar ou convencê-lo a libertá-lo para tentar apaziguar seu povo.
Fritigerno e os tervíngios, com auxílio dos grutungos, decidiram rebelar-se contra o Império Romano. Uma prolongada guerra seria travada entre os bárbaros e seus aliados e as tropas imperiais. Muitos oficiais de alta patente romanos pereceram nos combates, incluindo o próprio imperador Valente em Adrianópolis. A guerra só seria concluída quando Teodósio assinou a paz com os rebeldes em 382 segundo a qual os godos do interior do império seriam assentados permanentemente.
Antecedentes thumb|upright=1.25|Panorama político do Danúbio Inferior no . As incursões hunas resultaram na migração dos tervíngios em direção à fronteira romana no Danúbio e sua posterior inserção em solo romano
No verão de 376, grande número de godos chegou no rio Danúbio, a fronteira do Império Romano nos Bálcãs, requirindo asilo dos hunos. Havia dois grupos: os tervíngios liderados por Fritigerno e Alavivo e os grutungos liderados por Alateu e Safrax, os regentes de Viderico. O historiador romano Eunápio afirma que compreendiam pessoas, incluindo civis. Vários autores modernos, contudo, não concordam com este dado, e fornecem uma série de estimativas alternativas: Michael Frassetto propõe , Peter Heather estima dos quais eram guerreiros e John Curran sugere . Peter Heather afirma também que os grutungos deveriam ter contingente semelhante aos dos tervíngios.
Os godos enviaram emissários ao imperador Valente requirindo permissão para assentar no império. Levou algum tempo para eles chegarem, pois o imperador estava em Antioquia preparando-se para uma campanha contra o Império Sassânida sobre o controle da Armênia e Ibéria. A maior parte de suas forças estava estacionada no Oriente, longe do Danúbio. Fontes antigas são unânimes ao afirmarem que Valente estava contente com a aparição dos godos, pois ofereceu a oportunidade de recrutar novos soldados a baixo custo. Com Valente ocupado na fronteira oriental, a presença de vários bárbaros significou que sua força nos Bálcãs eram numericamente inferiores.
Valente deve ter avaliado o perigo quando deu permissão aos tervíngios para entrarem no império e os termos que lhes deu foram amplamente favoráveis. Essa não foi a primeira vez que tribos bárbaras foram assentadas e o meio usual foi que alguns seriam recrutados no exército e o resto seria quebrado em pequenos grupos e reassentados pelo império a critério do imperador. Isso impediria que colocassem uma ameaça unificada e permitiria sua assimilação pela população romana. O acordo diferente com os tervíngios permitiria-os escolher o lugar de seu assentamento na Trácia, bem como os manteriam unidos. Durante as negociações, aos tervíngios também expressou uma disposição para convertê-los ao cristianismo. Quanto aos grutungos, o exército romano e as forças navais bloquearam o rio e negaram sua entrada.
Os tervíngios talvez receberam permissão para cruzar em ou próximo da fortaleza de Durostoro. Foram atravessados pelos romanos em barcos, balsas e em troncos de árvores esvaziados e "cuidado diligente foi tomado que nenhum futuro destruidor do Estado romano deveria ser deixado para trás, mesmo se estivesse acometido por uma doença fatal," segundo Amiano Marcelino. Mesmo assim, o rio encheu por conta das chuvas e muitos se afogaram. Os godos tinham que ter suas armas confiscadas, mas os romanos no comando aceitaram propinas para permiti-los manter suas armas ou talvez devido o fato de haver muitos godos e tão poucos romanos, nem todos podiam ser adequadamente verificados; Peter Heather avalia que é improvável que Valente quisesse os godos desarmados, pois gostaria de recrutá-los como soldados. Os romanos distribuíram os tervíngios ao longo da margem sul do Danúbio na Mésia Inferior enquanto esperavam o iniciar da alocação de terras. Nesse ínterim, o Estado romano supriu-lhes com alimentos.
Eclosão do conflito
thumb|upright=1.2|Diocese da Trácia ca. 400, o palco do conflito com os tervíngios de Fritigerno thumb|upright=1.2|Movimentos dos godos em 376
O excessivo número de imigrantes em uma área tão pequena e a demora de quase dois meses para a chegada da resposta imperial do Oriente causou carestia de alimentos e os tervíngios começaram a passar fome; Kelly DeVries sugeriu que havia suprimento para ca. pessoas, o que segundo suas estimativas era insuficiente para alimentar a todos. A logística romana não podia lidar com os vastos números e os oficiais sob o comando de Lupicino e Máximo simplesmente venderam boa parte da comida antes dela alcançar às mãos dos godos. Desesperadas, as famílias góticas venderam seus próprios filhos como escravos aos romanos por miúdas porções de alimentos e carne de cachorro ao preço de uma criança por cachorro. Esse tratamento levou os godos tervíngios à rebelião e Lupicino decidiu movê-lo para o sul em direção a Marcianópolis, sua sede regional. Para escoltá-los, Lupicino foi forçado a remover do Danúbio as tropas romanas que guardavam o rio, permitindo aos grutungos cruzá-lo em direção ao território romano. Para Amiano Marcelino, Fritigerno atrasou a marcha para permitir que os grutungos contactassem os tervíngios, afirmação descartada por Ian Hughs que vê como mais plausível o fato de haver enorme quantidade de famílias, o que incluiria crianças e idosos.
A medida que os tervíngios se aproximavam de Marcianópolis, Lupicino convidou Fritigerno, Alavivo e um pequeno grupo de seus auxiliares para um banquete dentro da cidade. O restante dos godos foram acampados a alguma distância, os as tropas romanas entre eles e a cidade. Devido a persistente recusa dos soldados romanos em permitir que os godos comprassem suprimentos no mercado da cidade, lutas eclodiram e vários soldados romanos foram mortos e roubados. Lupicino, tendo recebido as notícias quando servia o banquete aos líderes góticos, respondeu ordenando a execução dos auxiliares de Fritigerno e Alavivo e a prisão dos últimos. Isso foi feito em segredo, mas as notícias da mortes chegaram aos godos fora da cidade e eles se prepararam para sitiar Marcianópolis. Fritigerno aconselhou Lupicino que a melhor forma de apaziguá-los era permitir que ele se reunisse com seu povo e mostrasse que ele ainda estava vivo. Lupicino, indeciso, concordou em libertá-lo. Alavivo não é novamente mencionado nas fontes e seu destino é incerto. O historiador bizantino Jordanes, escrevendo no , dá um relato um pouco diferente para estes eventos: Alavivo foi assassinado em meio a confusão causada pelo conflito no mercado e o assassinato dos godos no jantar, enquanto Fritigerno foi capaz de escapar.
Tendo sobrevivido aos caos da noite, Fritigerno e os tervíngios decidiram que era hora de quebrar o acordo com o imperador e rebelar-se contra os romanos e os grutungos imediatamente os ajudaram. Fritigerno liderou os godos para longe de Marcianópolis em direção a Cítia Menor. Lupicino e seu exército perseguiu-o por ca. 14 quilômetros e travou uma batalha desastrosa na qual foi aniquilado. Todos os oficiais juniores foram mortos, os estandartes militares foram perdidos e os corpos dos romanos mortos forneceram aos godos novas armas e armaduras. Lupicino sobreviveu e retornou para Marcianópolis; os tervíngios invadiram e pilharam a região.
Em Adrianópolis, uma pequena força gótica empregada pelos romanos estava aquartelada sob o comando de Suérido e Colias. Esses oficiais souberam dos acontecimentos, mas preferiram permanecer onde estava por "considerarem seu próprio bem-estar a coisa mais importante dentre todas." O imperador, aflito de ter uma guarnição romana sob controle gótico tão próximo de uma rebelião gótica, ordenou que Suérido e Colias marchassem para leste em direção ao Helesponto, os comandantes solicitaram comida e dinheiro para a viagem, bem como dois dias para os preparos. O magistrado romano local, furioso porque a guarnição havia pilhado anteriormente sua vila suburbana, armou a população da cidade e agitou-a contra eles. A multidão exigiu que os godos seguissem as ordens e partissem imediatamente. Os homens sob Suérido e Colias inicialmente permaneceram imóveis, mas quando foram atacados com injúrias e projéteis, revidaram e mataram muitos. A guarnição deixou a cidade e juntou-se a Fritigerno e os godos realizaram um cerco mal-sucedido a Adrianópolis. Os godos novamente dispersaram para saquear a rica e indefesa zona rural. Usando prisioneiros e traidores romanos, os godos foram conduzidos para tesouros escondidos, vilas ricas e outros lugares assim.
377 — Contendo os godos
thumb|esquerda|Campanha de 377 thumb|esquerda|Soldo do imperador Valente thumb|esquerda|Soldo de Graciano
Muitos godos, escravos, mineiros e prisioneiros dentro do território romano uniram-se a Fritigerno. As guarnições romanas em cidades fortificadas resistiram, mas aquelas fora dos centros urbanos eram presas fáceis. Os godos criaram um grande trem de carros para colocar toda sua pilhagem e suprimentos e tinham muita raiva da população romana pelo que suportaram. Aqueles que começaram como refugiados esfomeados tinham se transformado em um exército poderoso.
Valente, reconhecendo a seriedade da situação, enviou o general Vitor para negociar uma paz imediata com o Império Sassânida e começou a transferir o exército romano oriental à Trácia. Enquanto mobilizava o exército principal, enviou uma força avançada sob Trajano e Profuturo e contactou o imperador ocidental Graciano , seu coimperador e sobrinho, solicitando ajuda. Graciano respondeu enviado o conde dos domésticos Ricomero e o conde dos assuntos militares Frigérido para guarnecerem os passos ocidentais através da cordilheira dos Bálcãs e impedirem que seus inimigos se espalhassem mais para oeste e topassem com o exército oriental. Estes amplos movimentos de tropas e a cooperação do ocidente ilustra a grave ameaça que os godos representavam.