Um sistema de comunicação P2P anônimo é uma rede distribuída peer-to-peer aonde os nós ou os participantes permanecem anônimos ou sob pseudônimos. O anonimato dos participantes é geralmente obtida por sobreposição especial de roteamento de rede, que esconde a localização física de cada nó de outros participantes. O interesse em sistemas P2P anônimos, por várias razões, tem aumentado nos últimos anos, que vão desde o desejo de compartilhar arquivos sob direitos autorais sem revelar sua identidade e correr o risco de sofrer litígio,Electronic Frontier Foundation (2005). RIAA v. The People: Two Years Later . Obtido em 5 março de 2008. desconfiança no governo, preocupações em relação à vigilância em massa e à retenção de dados e processos judiciais contra blogueiros.Julien Pain, editor (2005). Manual para blogueiros e ciberdissidentes da Repórteres Sem Fronteiras . Retirado em 23 de janeiro de 2008.
Motivação para o anonimato Há muitas razões para utilizar tecnologia de anonimato P2P; a maioria delas é genérica a todas as formas de anonimato online.
Usuários P2P que buscam anonimidade, normalmente desejam tal pois não querem ser identificados como publicadores (remetente) ou consumidores (receptores) de informação. São motivos comuns:
O material ou a sua distribuição é ilegal ou incriminatório O material é legal contudo socialmente embaraçoso, constrangedor ou problemático no contexto do universo social do indivíduo (por exemplo, o anonimato é visto como fundamental para organizações como os Alcoólicos Anônimos) Medo de represálias (contra delatores, vazamentos não oficiais e ativistas que não acreditam em restrições à informação ou ao conhecimento) Censura a nível local, organizacional ou nacional Preferências de privacidade pessoais, tais como prevenção de monitoramento ou atividades de mineração de dados.
Uma visão particularmente aberta sobre conteúdos legais e ilegais é dada em "A filosofia por trás da Freenet".
Os governos também estão interessados em tecnologia P2P anônima. A Marinha dos Estados Unidos financiou o projeto original que levou ao desenvolvimento da rede Tor, que foi mais tarde financiada pela Electronic Frontier Foundation e é agora desenvolvida pela organização sem fins lucrativos, "The Tor Project, Inc".
Argumentos contra e a favor da comunicação P2P anônima Enquanto sistemas P2P anônimos podem apoiar a proteção de discursos que sejam impopulares, eles também podem proteger atividades ilegais que fiquem fora do escopo de leis de liberdade de expressão, como fraude, calúnia, a circulação de pornografia ilegal, a cópia não autorizada de trabalhos sob direitos autorais ou o planejamento de atividades criminosas. Críticos desses sistemas argumentam que as vantagens oferecidas por estes não superam as desvantagens e que outros canais de comunicação já são suficientes para a expressão de opiniões impopulares.
Alguns defensores de sistemas P2P anônimos acreditam que todas as restrições à livre expressão servem a interesses autoritários. Outros defendem que a informação em si é eticamente neutra e que são as pessoas agindo sobre ela que podem ser boas ou más. Percepções de bem e de mal também podem mudar (veja pânico moral); por exemplo, se redes P2P anônimas tivessem existido nos anos 50 ou 60, elas possivelmente seriam utilizadas para a distribuição de informação sobre direitos civis ou anarquismo.
A facilidade de acesso a redes P2P anônimas é vista por alguns como uma democratização da tecnologia de criptografia, permitindo à população geral o acesso a canais de comunicação seguros como os que já são utilizados pelos governos. Partidários deste ponto de vista, como Phil Zimmermann, argumentam que as tecnologias anti-vigilância ajudam a equilibrar a balança de poder entre os governos e seus povosRussell D. Hoffmann (1996). Entrevista com o autor do PGP (Pretty Good Privacy). Transcrição de uma entrevista de rádio, recuperada em 2008-01-21. e que é esta verdadeiramente a razão para proibi-los. Pilger opina que o monitoramento da população contribui para conter ameaças à "visão consensual do poder estabelecido"John Pilger (2002). Imparcialidade do jornalismo britânico. ZNet artigo, recuperado em 2008-02-11. ou ameaças à continuidade das estruturas de poder e privilégio.
Liberdade de expressão Alguns afirmam que a verdadeira liberdade de expressão, especialmente em assuntos controversos, é difícil ou impossível a menos que os indivíduos possam se manifestar anonimamente. Se o anonimato não é possível, um pode ser sujeito a ameaças ou represálias por dar voz a um ponto de vista impopular. Essa é a razão pelo qual, em muitas democracias, o voto é secreto. Informações controversas que um partido queira manter escondidas, como detalhes sobre casos de corrupção, são frequentemente publicadas ou vazadas anonimamente.
Blogagem anônima A postagem de conteúdos anônimos em blogs é um dos usos mais comuns de redes anônimas.
Embora estas postagens sejam possíveis na internet não-anônima, o provedor de hospedagem do blog em questão pode ser obrigado a revelar o endereço IP do blogueiro (como no caso em que o Google revelou a identidade anônima de um blogueiroDeclan McCullagh (2007). Google: Nós não tivemos nenhuma escolha na solicitação de IDs de Israel. artigo da CNET News.com, recuperado em 2008-02-11.). Redes anônimas fornecem um maior grau de anonimato. Flogs na Freenet, Syndie em I2P e sps Osiris são alguns exemplos de tecnologias de blogagem anônima.
Uma razão para blogar anonimante é uma natureza delicada na situação de trabalho. Algumas vezes um blogueiro que escreve sob seu nome real encontra um dilema entre ficar em silêncio ou causar danos a si mesmo, seus colegas e à companhia em que trabalha.Vallicella Bill (2004). Razões para 'Anonyblogging ". Blog Maverick Philosopher, obtido em 2008-02-11.
O risco de ser processado é outra razão. Alguns blogueiros enfrentaram ações judiciais milionárias,Media Bloggers Association (2006). Membro da Media Bloggers Association é vítima de ação multi-milionária . Obtido em 2008-02-11. que foram depois abandonadas;Associated Press (2006). Agência de publicidade abandona ação contra blogueiro Maine. Obtido em 2008-02-11. a anonimidade prove proteção contra esses riscos.
Censura de nomes de domínio Na internet não-anônima, um nome de domínio como "meusite.com" é a chave de acesso à informação. A censura do site WikileaksWIKILEAKS.INFO é censurado pela eNom e Demand Media. Visitada em 2008-03-09. mostra que nomes de domínio são extremamente vulneráveis à censura. Alguns registrars de domínio chegaram a suspender nomes de domínio de clientes, até mesmo na ausência de uma ordem judicial.
Para os clientes afetados, o bloqueio de um nome de domínio é um problema muito maior do que a recusa do registrar em prestar um serviço, normalmente, o registrar mantém controle total sobre os nomes de domínio em questão.
No caso de uma agência de viagens europeus, mais de 80 endereços web (.com) foram, sem a presença de uma ordem judicial, encerrados e retidos pelo registrar desde então. A agência de viagens teve que reconstruir os sites sob o domínio.net ao invés de utilizar o famoso domínio .com.Liptak Adam (2008). A Wave of the Watch List, and Speech Disappears. The New York Times, 2008-03-04. Visitada em 2008-03-09.
Redes anônimas, por outro lado, não dependem de registrars. Por exemplo, a Freenet implementa URLs resistentes à censura baseadas em criptografia de chave pública: somente a pessoa que tem a chave privada correta é capaz de atualizar a URL ou derruba-la.
O controle sobre rastreamento on-line Redes P2P anônimas também tem valor na comunicação do cotidiano. Quando a comunicação é anônima, a decisão de revelar a identidade das partes é deixada às partes envolvidas e não está disponível para um terceiro. Muitas vezes não há a necessidade ou o desejo entre as partes envolvidas no processo comunicativo em revelar suas identidades. Por uma questão de liberdade pessoal, muitas pessoas não querem processos, por padrão em funcionamento, que forneçam dados desnecessários. Em alguns casos, tais dados podem ser compilados em históricos de suas atividades.
Por exemplo, sistemas de telefone mais atuais transmitem por padrão informações de identificação de quem está chamando para a parte chamada (embora isso pode ser desativado, tanto para uma única chamada ou para todas as chamadas). Se uma pessoa liga para inquirir sobre um produto ou o horário de um filme, a pessoa chamada tem um registro do número do telefone chamado e pode ser capaz de obter o nome, o endereço e outras informações sobre o ligador. Esta informação não está disponível a respeito de alguém que vai em uma loja e inquere algo semelhante.
Efeitos da vigilância sobre a atividade lícita A vigilância online, tal como a gravação e a retenção de dados de tráfego da web e de e-mail, pode ter efeitos sobre as atividades lícitas.Dawinder S. Sidhu (2007). O efeito negativo dos programas de vigilância do governo sobre o uso da internet por muçulmanos americanos. Jornal da Universidade de Maryland Law Journal of Race, Religion, Gender and Class. As pessoas podem ser impedidas de acessar ou comunicar informação que seja legal, por saberem que podem estar sendo monitorados e que tais comunicações podem ser vistas como suspeitas.
De acordo com o professor de direito Daniel J. Solove, tais efeitos "prejudicam a sociedade porque, entre outras coisas, reduzem o leque de pontos de vista sendo expressados e o grau de liberdade de participação política."Daniel Solove J. (2006). "Eu não tenho nada a esconder" e outros equívocos de privacidade. San Diego Law Review, vol. 44.
Acesso a material censurado e protegido por direitos autorais A maioria dos países proíbem ou censuram a publicação de alguns livros e filmes e certos tipos de conteúdo. Outros materiais são de posse legal porém não a sua distribuição, por exemplo, direitos autorais e leis de patentes de software podem proibir-la. Essas leis são difíceis ou impossíveis de serem aplicadas em redes P2P anônimas.
Dinheiro online anônimo Com dinheiro anônimo, torna-se possível a organização de mercados anônimos, onde alguém pode comprar e vender praticamente qualquer coisa anonimamente. Dinheiro anônimo pode ser usado para sonegar impostos. No entanto, qualquer transferência de bens físicos entre as duas partes poderia comprometer o anonimato.Rob Thomas, Jerry Martin (2006). A economia subterrânea: priceless. Obtido em 2008/01/20.
Alguns argumentam que o dinheiro convencional fornece um tipo semelhante de anonimato, e que as leis existentes são suficientes para combater crimes, como a evasão fiscal, que podem resultarem do uso de dinheiro anônimo, seja online ou offline .
Funcionamento de P2P anônimo Anonimato e pseudonimato Algumas das redes comumente referidas como "P2P anônima" são verdadeiramente anônimas, no sentido de que os nós da rede não carregam identificadores. No entanto outros são na verdade pseudônimos: em vez de serem identificados por seus IPs, os nós são identificados por pseudônimos, tais como chaves criptográficas. Por exemplo, cada nó na rede MUTE tem um endereço sobreposto que é derivado de sua chave pública. Esta sobreposição de endereço funciona como um pseudônimo para o nó, permitindo que mensagens sejam dirigidas a ele. Na Freenet, por outro lado, as mensagens são roteadas usando chaves que identificam partes específicas de dados ao invés de nós específicos; os nós propriamente são anônimos.