Little Orphan Annie (br: Aninha, a Pequena Órfã ) é uma tira de jornal estadunidense criada por Harold Gray (1894-1968) e distribuída pela Tribune Media Services. O nome da tira foi copiado do poema de 1885 "Little Orphant Annie" de James Whitcomb Riley. Surgiu em 5 de agosto de 1924 no jornal novaiorquino Daily News.
As aventuras contadas nas tiras eram sobre as peripécias de Annie, seu cão Sandy e o benfeitor milionário Oliver "Daddy" Warbucks. Outros personagens eram Punjab, Asp e Senhor Am. A tira atraiu leitores adultos ao fazer alusões e comentários sobre as políticas americana e internacional, tais como referências ao emprego sindicalizado, New Deal e comunismo.
Após a morte de Gray, em 1968, muitos artistas desenharam a tira. Annie inspirou programa de rádio (1930), filmes (adaptações em 1932, pela RKO e 1938 pela Paramount) e um musical da Broadway em 1977 (igualmente adaptado para o cinema em 1982, 1999 e 2014). A popularidade da tira declinou e era publicada em apenas 20 jornais quando foi cancelada em 13 de junho de 2010.
Tramas As aventuras de Little Orphan Annie eram contadas num estilo de novela picaresca, com a personagem principal vagando por um mundo corrupto, em histórias episódicas e independentes. No primeiro ano da tira foram introduzidos os personagens coadjuvantes recorrentes: Sandy e "Daddy" Warbucks.
A história começa em um orfanato pobre como os das histórias de Charles Dickens, com Annie submetida a frequentes maus tratos causados por uma matrona sarcástica. Um dia, a rica mas egoista Madame Warbucks pega Annie e a leva para sua mansão. O marido da mulher desenvolve imediatamente uma afeição paternal por Annie e pede à menina que o chame de "papai" (em inglês, "Daddy"). Para infelicidade de Annie, o homem passa longos períodos fora, viajando a negócios, e a menina fica desprotegida, sofrendo com os ciúmes da esposa que acaba devolvendo-a ao orfanato.
A mulher do orfanato faz Annie trabalhar numa doceria de propriedade da Senhora Bottle. A menina não gosta do trabalho, muito pesado para sua idade. Um dia, Annie salva um cachorro chamado Sandy que estava sendo judiado por uma gangue de meninos cruéis e logo depois foge da Senhora Bottle. Ela anda sem rumo pelo campo e encontra um lar acolhedor na fazenda do casal Silo. Quando "Daddy" Warbucks oferece uma grande recompensa para quem encontrar Annie, um agiota ameaça o casal Silo e sua fazenda. O bem triunfa quando casualmente Warbucks chega à fazenda em busca de um copo de água e reencontra Annie. Warbucks faz melhorias na fazenda e volta à cidade com Annie e Sandy, prometendo à menina que os Silos poderão visitá-la sempre que quiserem.
Personagens Annie é uma órfã de idade não determinada, provavelmente por volta de 12 anos. Suas características são o cabelo ruivo encaracolado, o vestido vermelho e círculos brancos no lugar dos olhos. Seus bordões em inglês são "Gee whiskers" e "Leapin' lizards!". Annie atribui sua juventude prolongada ao fato de ter nascido em 29 de fevereiro, ou seja, ela faz um aniversário a cada quatro anos. Ela é uma corajosa, generosa, compassiva e otimista menina que não teme arruaceiros e possui uma forte e intuitiva noção de certo e errado.
Sandy é um cão vira-lata que Annie resgatou quando era maltratado por uma gangue de meninos de rua, numa tira de janeiro 1925. Ela trabalhava na doceria da Senhora Bottle e conseguiu um lar para Sandy ao deixá-lo com Paddy Lynch, um homem gentil. Sandy estava crescido quando repentinamente reapareceu numa tira de maio de 1925 para ajudar Annie contra raptores ciganos. Annie e Sandy ficariam juntos desde então.
Oliver Warbucks primeiro apareceu em setembro de 1924 e foi revelado um mês depois ser ele um pequeno comerciante que enriquecera fabricando munição durante a Primeira Guerra Mundial. Ele é grande e careca, capitalista por ideologia, que usa sempre smoking e um alfinete de diamante na camisa. Ele gosta de Annie desde quando a conheceu, pedindo a ela que o chamasse de "Papai". A esposa (filha de encanador), contudo, é esnobe e fofoqueira e sente ciumes das atenções do marido com Annie. Quando Oliver é subitamente chamado para negócios na Sibéria, a esposa manda Annie de volta para o orfanato.
Outros personagens são Punjab, um gigantesco indiano braço-direito de Warbucks que apareceu em 1935; e Asp, um asiático que apareceu em 1937. O misterioso Mister Am era um amigo de Warbucks que usava uma barba igual ao do Papai Noel e possuia uma personalidade jovial. Ele afirma ter milhões de anos de idade e poderes sobrenaturais. Em algumas tiras foi sugerido ser ele Deus.
Antecedentes Após a Primeira Guerra Mundial, o desenhista Harold Gray foi trabalhar no Chicago Tribune que, naquele momento, estava sendo reformulado pelo proprietário Joseph Medill Patterson para ser uma importante revista nacional. Como parte da estratégia, Patterson procurava por tiras que pudessem ser distribuidas nacionalmente, além de poderem ser adaptadas para o cinema e rádio. As tiras de Gray haviam sido fortemente rejeitadas por Patterson, mas Little Orphan Annie foi finalmente aceita e estreou como teste num tablóide pertencente ao Tribune – o jornal de Nova Iorque Daily News – em 5 de agosto de 1924. A resposta dos leitores foi boa e Annie começou a aparecer na tira dominical do Tribune em 2 de novembro, e tira diária em 10 de novembro. Foi mais tarde oferecida sindicalizada ao Toronto Star e The Atlanta Constitution.
Gray disse em 1951 que a inspiração para Annie surgiu de um encontro com uma maltrapilha enquanto andava pelas ruas de Chicago buscando por novas ideias. (Em tradução aproximada):"Eu conversei com essa pequena criança e gostei do seu jeito", narra Gray. "Ela tinha bom senso, sabia cuidar de si mesma. Seu nome era Annie. Naquele tempo 40 tiras tinham meninos como personagens principais; apenas três apresentavam meninas. Eu optei por Annie e a fiz ser órfã num orfanato, sem família nem vinculos, livre para ir a qualquer lugar."
Para a ambientação da tira, Gray foi influenciado pela sua infância numa fazenda do meio-oeste americano, por novelistas e poetas vitorianos como Charles Dickens além da popular tira de quadrinhos de Sidney Smith chamada The Gumps, do histrionismo do cinema mudo e dos melodramas do período. Inicialmente, não havia continuidade entre a tira diária e a dominical mas a partir da década de 1930 as duas foram fundidas. Segundo os editores de The Great Depression in America: A Cultural Encyclopedia, a tira mostrava a visão pessoal de Gray e Riley que mantinham uma filosofia caseira do trabalho duro, respeito pelos mais velhos e perspectiva de vida alegre. A revista Fortune listou as tiras mais populares em 1937 e classificou Little Orphan Annie como primeiro lugar, superando outras conhecidas como Popeye, Dick Tracy, Bringing Up Father, The Gumps, Blondie, Moon Mullins, Joe Palooka, Li'l Abner e Tillie the Toiler.
De 1929 a Segunda Guerra Mundial Gray foi pouco afetado pela crise das bolsas de valores de 1929. A tira estava mais popular do que nunca e lhe garantia uma boa renda, aumentada quando foi adaptada para um programa de rádio de 1930 e dois filmes para o cinema, em 1932 e 1938. Mas Gray seria insultado por pregar nas tiras o trabalho duro para os pobres enquanto vivia bem com sua renda.
Em novembro de 1932, Franklin Delano Roosevelt foi eleito presidente dos Estados Unidos e propôs o programa New Deal. Muitos, incluindo Gray, viram esse e outros programas como interferência governamental nas empresas privadas. Gray reclamou de Roosevelt e seus programas. A vida de Annie ficou complicada não somente pelos problemas com assassinos e bandidos mas pelos seguidores do New Deal e burocratas. O trabalho sindicalizado causava temor nos empresários e Gray tomou o partido deles. Alguns autores e editores comentaram o criticismo ao New Deal e a política de empregos das tiras. The New Republic descreveu Annie como "Hooverismo nos Gibis", dizendo que a tira de Gray estava a defender empresários de bens de consumo e seria investigada pelo governo. A Herald Dispatch de Huntington, Virgínia Ocidental interrompeu a publicação de Little Orphan Annie, colocando editorial de primeira página contra a política de Gray. Um subsequente editorial da New Republic cumprimentou o jornal, e The Nation também o apoiou.
Ao final da década de 1920, a tira tinha se tornado mais aventurosa e adulta com encontros de Annie com assassinos, gângsters, espiões e sabotadores. Foi nessa época que Gray, acompanhando politicos conservadores e liberais de cunho populista, produziu as suas histórias mais polêmicas. Ele aprofundou aspectos sombrios da natureza humana, tais como a ganância e a traição. O abismo entre ricos e pobres foi outra importante abordagem. A tira (e Gray, em entrevistas) endossava a ética empresarial americana de "um dia de trabalho honesto para pagar um dia de trabalho honesto". Sua hostilidade contra o trabalho sindicalizado foi dramatizada na história de 1935 "Eonite". Outros alvos foram o New Deal, comunismo e comerciantes corruptos.
Gray era especialmente crítico em relação ao sistema judiciário americano, o vendo como incapaz de lidar com a criminalidade. Algumas de suas histórias falavam em pessoas que tomam as leis em suas próprias mãos. Aconteceu logo em 1927 numa aventura chamada "The Haunted House". Annie é raptada por um gângster chamado Mister Mack. Warbucks a resgata e prende Mack e seus capangas. Ele então liga para um senador que lhe devia favores. Warbucks persuade o político a usar de sua influência com o juiz para julgar de forma justa os homens capturados.
Warbucks se tornaria ainda mais severo nos anos seguintes. Após capturar outra gangue de raptores de Annie ele anunciou que "não pensem que a polícia será incomodada por vocês,rapazes" (tradução aproximada de " wouldn't think of troubling the police with you boys"), implicando que enquanto ele e Annie comemoravam o reencontro, Asp e seus homens deixaram os raptores serem linchados. Em outra tira dominical, publicada durante a Segunda Guerra Mundial, um fornecedor de guerra expressa sua esperança de que o conflito durasse outros 20 anos. Um furioso transeunte agride fisicamente o homem, clamando vingança por dois filhos que pereceram em combate. Quando um policial que passava estava prestes a intervir, Annie o puxa de lado, falando: "Às vezes é melhor deixar as pessoas solucionarem algumas questões através daquilo que você poderia chamar de processos democráticos" (tradução aproximada para "It's better some times to let folks settle some questions by what you might call democratic processes").
Em 1935 Punjab, um gigantesco indiano de turbante, foi introduzido na tira e tornou-se um personagem marcante. As aventuras de Annie, que até então eram realistas e credíveis, passaram, com Punjab, a adotar um tom sobrenatural, cósmico e fantástico.
Segunda Guerra Mundial e Comandos Junior da Annie Com o início da guerra na Europa, tanto o Tribune de Chicago como o Daily News de Nova Iorque defenderam a neutralidade; "Daddy" Warbucks, contudo, iniciou alegremente a fabricação e venda de tanques, aviões e munição. O jornalista James Edward Vlamos deplorou a perda da fantasia, inocência e humor dos quadrinhos e comentou uma sequência de Gray sobre espionagem, anotando que o "destino da nação" recaía agora sobre os "ombros frágeis de Annie". "
Quando os americanos entraram na guerra, Annie não apenas fez a sua parte afundando um submarino nazista, como organizou e liderou grupos de crianças chamados em inglês de "Junior Commandos" para coletarem jornais velhos, sucata e outros materiais recicláveis para o esforço de guerra. Annie usou uma braçadeira com as letras "JC" e chamou a si mesma de "Coronel Annie". Na vida real, a ideia prosperou, e estudantes e pais foram encorajados a organizar grupos similares. Informou-se que vinte mil Junior Commandos foram registrados em Boston.