Maria Helena Rosas Fernandes (8 de julho de 1933) é uma compositora, pianista, maestrina, educadora musical e musicóloga brasileira. Escreveu música para instrumentos solistas, conjuntos de câmara, orquestra, coro e voz, além de óperas. A partir do fim da década de 1970, cantos, relatos rituais e sonoridades instrumentais de povos indígenas brasileiros tornaram-se materiais recorrentes em suas composições. Fernandes trabalhou a partir de gravações e transcrições reunidas por antropólogos, adaptando esse material para instrumentos e vozes de concerto.
Fernandes concluiu o curso superior de piano do Conservatório Brasileiro de Música em 1964 e graduou-se em composição e regência pela Escola Superior de Música Santa Marcelina em 1977. Lecionou música em Campinas de 1964 a 1993 e começou a compor em 1970. Suas primeiras partituras são, em sua maioria, peças breves para piano e coro. Obras posteriores empregam compassos variáveis, polirritmia, dissonância, cantos de pássaros e técnicas instrumentais estendidas. A obra orquestral em cinco partes Wãnĩ A'Ama (1982), que a compositora chamou de “sinfonia indígena”, reúne materiais atribuídos a seis povos indígenas em texturas orquestrais densas e com pulsação instável.
Três de suas composições foram premiadas em 1979: a obra para piano Ciclo, a peça de câmara Territórios e ocas e Dawawa Tsawidi, para sopros e percussão. O quinteto de sopros Nakutnak venceu um concurso latino-americano de composição em Montevidéu, em 1988. A ópera Marília de Dirceu recebeu o Prêmio Internacional de Composição para Ópera Nancy Van de Vate em 2006. Fernandes escreveu outras duas óperas, Anita Garibaldi e Leopoldina, a Imperatriz do Brasil, com libretos de sua autoria. Em 1993, fundou o Encontro Internacional de Mulheres Compositoras, que reuniu compositoras para concertos, palestras e debates no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Poços de Caldas.
Fernandes mudou-se para Poços de Caldas em 2002 e fundou ali, em 2006, a série de concertos gratuitos Encontros com a Música. Recebeu o prêmio da APCA por sua trajetória em 2013, o título de cidadã honorária de Poços de Caldas em 2023 e, no mesmo ano, o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes. Aos noventa anos, continuava a compor e a organizar concertos. A Universidade Estadual de Campinas conserva mais de sessenta de suas partituras, doadas ao centro de documentação de música contemporânea da instituição em 2018. O acervo tem servido de base para apresentações, estudos musicológicos e novas edições de sua música.
Primeiros anos e formação
Fernandes nasceu em 8 de julho de 1933 em Brazópolis, no sul de Minas Gerais. Sua mãe, pianista amadora, deu-lhe as primeiras aulas de piano quando ela tinha cerca de seis anos. A música fazia parte da vida familiar materna: parentes tocavam instrumentos, cantavam em casa e colecionavam reduções para piano de óperas.
Passou parte da infância em Paraisópolis, Minas Gerais, voltou a Brazópolis em 1944 e mudou-se para Itajubá em 1950, onde concluiu o curso normal na Escola Normal Sagrado Coração de Jesus. Em busca de formação musical mais avançada, estudou em conservatórios mineiros e concluiu o curso profissional de piano do Conservatório Brasileiro de Música em 1958.
Fernandes inicialmente viajava ao Rio de Janeiro para ter aulas, até se mudar para a cidade em 1960. No Conservatório Brasileiro de Música, estudou piano com Elzira Amabile e iniciação musical com Liddy Chiaffarelli Mignone, que conseguiu uma bolsa de estudos para ela. Fernandes concluiu o curso superior de piano do conservatório em 1964 e, em seguida, fixou-se em Campinas.
Seus estudos de composição começaram em 1966 com Osvaldo Lacerda, cujo curso livre frequentou em Campinas e São Paulo até 1977. Também teve aulas de aperfeiçoamento em piano com João de Sousa Lima, entre 1970 e 1973. Na Universidade Estadual de Campinas, frequentou em 1971 cursos de extensão em educação musical, regência, harmonia e composição com Hans-Joachim Koellreutter, seguidos por aulas de composição com Almeida Prado de 1976 a 1978. Enquanto fazia esses cursos, concluiu em 1977 o bacharelado em composição e regência na Escola Superior de Música Santa Marcelina.
Carreira
Ensino e primeiras composições, 1964–1977
Fernandes lecionou música em Campinas de 1964 a 1993. Trabalhou no Conservatório Musical de Campinas, no Conservatório Musical Carlos Gomes, no Instituto Educacional Ave Maria, na Escola de Artes Pró-Música e na faculdade de música da Universidade Católica de Campinas. Ensinou harmonia e análise musical nos conservatórios e, em 1968, teoria e prática da iniciação musical na universidade. Também regeu coros infantis e preparou professores em métodos de educação musical para crianças. Presidiu o Grêmio Campinas Cultura e Arte e escreveu e apresentou peças teatrais infantis.
Suas primeiras composições datam de 1970, quando ainda estudava com Lacerda. A produção até 1977 consistiu sobretudo em peças breves para piano, nas quais formas tradicionais aparecem ao lado de materiais cromáticos, atonais e dodecafônicos. Entre as obras desse período estão Prelúdio (1973), Polca (1974), Modinha (1975) e Imagens (1977), sua primeira partitura orquestral.
Música indígena e prêmios de composição, 1977–1992
O envolvimento de Fernandes com a música indígena brasileira começou em 1977. Lacerda lhe havia pedido que escrevesse um quarteto instrumental baseado em um tema brasileiro, e a busca por fontes a levou ao arquivo de pesquisa do antropólogo Desidério Aytai, nascido na Hungria. Ela empregou materiais do arquivo em Territórios e ocas, para quarteto de cordas e percussão, e voltou a temas indígenas em Maráwawa, Dapraba, Dawawa Tsawidi, Wamarĩ e nas obras orquestrais Wãnĩ A'Ama e Tainahyky.
Suas fontes eram escritos, transcrições e gravações de campo feitos por Aytai e por outros antropólogos, entre eles Vera Penteado Coelho e César Albisetti. O material incluía músicas registradas entre comunidades xavantes, carajás e tiriós. A própria Fernandes não realizou trabalho de campo antropológico ou etnomusicológico. Ela estudou essas fontes, escreveu sobre a polifonia vocal indígena e falou em encontros musicais e antropológicos no Brasil e no exterior.
Três composições foram premiadas em 1979. Ciclo obteve o segundo lugar e foi publicada no primeiro concurso brasileiro de composição de música erudita para piano ou violão, organizado pela Funarte e pela Irmãos Vitale. Territórios e ocas ficou em segundo lugar no Prêmio Esso de Música Erudita, enquanto Dawawa Tsawidi venceu o primeiro concurso latino-americano de composição promovido pelo Conjunto Música Nova na Universidade Federal da Bahia. Em 1988, seu quinteto de sopros Nakutnak venceu o III Concurso Latino-Americano de Composição, organizado pelo SODRE uruguaio em Montevidéu.
Sua obra foi apresentada em edições do Panorama da Música Brasileira Atual e da Bienal de Música Brasileira Contemporânea. Em 1992, participou do Internationales Festival Komponistinnen, em Heidelberg, festival dedicado à música de mulheres compositoras.
Atuação internacional e mulheres compositoras, 1993–2001
Em 1993, Fernandes fundou no Rio de Janeiro o Encontro Internacional de Mulheres Compositoras. O evento ofereceu a compositoras brasileiras e estrangeiras um espaço para apresentar sua música por meio de concertos, palestras, comunicações e mesas-redondas. Outras edições ocorreram em São Paulo, em 1995, e em Poços de Caldas, em 2004.
Fernandes concluiu em 1994 a ópera em três atos Marília de Dirceu, com libreto de Isolde Helena Brans. A ópera baseia-se na vida de Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, a mulher a quem se dirigem os poemas de Tomás António Gonzaga.
No congresso internacional Brasil–Europa 500 Anos, realizado em Colônia em setembro de 1999, Fernandes apresentou um trabalho sobre a polifonia na música de povos indígenas brasileiros. O congresso também promoveu uma oficina dedicada a compositoras brasileiras cuja música recorria a temas indígenas; o Ensemble Brasil-Europa apresentou Dawawa Tsawidi. Seu trabalho foi publicado no ano seguinte.
Poços de Caldas e carreira posterior
Fernandes mudou-se para Poços de Caldas em 2002. Em 2006, Marília de Dirceu venceu o Prêmio Internacional de Composição para Ópera Nancy Van de Vate. A premiação incluía uma quantia em dinheiro e a publicação da partitura; haviam sido inscritas obras de compositoras de dezesseis nacionalidades e cinco continentes.
No mesmo ano, criou o Encontros com a Música, projeto de Poços de Caldas que oferece apresentações gratuitas de música de concerto. Fernandes continuou como curadora até a temporada de 2024, quando houve concertos nas Thermas Antônio Carlos e no Museu Histórico e Geográfico da cidade.
Suas composições das décadas de 2000 e 2010 abrangem obras orquestrais, camerísticas e cênicas. Escreveu mais duas óperas, Anita Garibaldi e Leopoldina, a Imperatriz do Brasil, com libretos próprios. Em 2023, aos noventa anos, ainda compunha, organizava concertos e promovia intercâmbios entre compositoras brasileiras e estrangeiras.
Música
Fernandes escreveu para formações muito variadas, de instrumentos solistas e grupos de câmara a coro, banda sinfônica, orquestra e ópera. Muitas de suas obras nascem de uma ideia exterior à própria música, como um canto indígena, uma paisagem, um acontecimento histórico, um texto religioso ou o chamado de um pássaro. A partir desse ponto de partida, ela molda o ritmo, a forma e as cores instrumentais da composição.
Estilo e períodos de composição
Em seu estudo de 2016 sobre a música de Fernandes, Olivato agrupa as obras em três períodos: “iniciação” (1970–1977), “experimentação” (1977–1982) e “libertação” (a partir de 1983). Essas denominações foram escolhidas pela pesquisadora para descrever o desenvolvimento da música de Fernandes e não aparecem nas próprias partituras.
O primeiro período é formado principalmente por peças curtas para piano e obras corais sem acompanhamento. Em trabalhos como Prelúdio (1973) e Modinha (1975), formas conhecidas convivem com uma escrita cromática, modal e não tonal. Pequenas ideias musicais costumam voltar modificadas ou fragmentadas, e as mudanças de compasso permitem que a música acompanhe o desenho da melodia. Muitas peças têm estrutura tripartida. Seus primeiros coros — Nigue-Ninhas (1970), Tatu é caboclo do sul (1970) e Pedreiros (1971) — empregam materiais folclóricos da Paraíba, do Ceará e do Rio de Janeiro. Olivato encontrou pouco uso semelhante do folclore brasileiro em sua produção posterior, apesar do longo período de estudos de Fernandes com o compositor nacionalista Osvaldo Lacerda. O período termina com obras de maior porte, sobretudo Imagens (1977), para orquestra, coro misto e narrador. Suas oito seções usam trechos do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. A obra também antecipa características às quais Fernandes voltaria, como os temas históricos, a narração falada e as formas construídas como uma sequência de cenas contrastantes.
A música de Fernandes mudou de maneira perceptível no segundo período, iniciado com Territórios e ocas (1977), composta depois de sua consulta ao arquivo do antropólogo Desidério Aytai. As obras ficaram mais longas e muitas vezes passaram a ser organizadas em seções com títulos próprios. Dissonâncias, linhas musicais sobrepostas, polirritmia, mudanças de compasso e cantos de pássaros transcritos ganharam destaque. Nove das doze obras que Olivato inclui nesse período recorrem a temas ou materiais musicais indígenas. Entre elas estão Maráwawa (1978), Dapraba e Dawawa Tsawidi (ambas de 1979), Wamarĩ (1982) e Wãnĩ A'Ama (1982). Fernandes também começou a retomar peças anteriores e adaptá-las para outras formações; Dawawa Tsawidi, por exemplo, existe em versões instrumental e coral.