O anarquismo individualista ou anarcoindividualismo é uma corrente filosófica do anarquismo que prioriza o indivíduo e sua vontade. Nessa perspectiva, o indivíduo é considerado um fim em si mesmo, não subordinado a grupos, tradições, sistemas ideológicos ou concepções abstratas de "bem comum", e suas relações devem ser baseadas no princípio da livre associação."O que eu entendo por individualismo? Doutrina moral, não baseada em qualquer dogma, nenhuma tradição ou determinação externa, que apela apenas para a consciência individual." Mini-Manual do individualismo, de Han Ryner O termo não constitui uma filosofia única e homogênea, mas um conjunto de correntes frequentemente divergentes e, por vezes, conflitantes entre si.

Entre suas principais influências intelectuais estão William Godwin,William Godwin artigo na Stanford Encyclopedia of Philosophy de Mark Philip, 2006-05-20 Henry David Thoreau e o transcendentalismo,A insubordinação voluntária. O anarco-individualismo espanhol durante a ditadura e a Segunda República (1923-1938) Josiah Warren e sua defesa da soberania individual, Lysander Spooner, Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker,De acordo com Tucker, "se o indivíduo tem o direito de governar a si mesmo, todos os governos externos são uma tirania Tucker, Benjamin R. (10 de março de 1888). «Socialismo estatal e Anarquismo: até que ponto concordam e em que se diferem]» Liberty 5 (16): pp. 2-3, 6. associados ao mutualismo, além de Herbert SpencerFreeden, Micheal. Ideologies and Political Theory: A Conceptual Approach. Oxford University Press. ISBN 0-19-829414-X. pp. 313-314 e Max Stirner,Max Stirner artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy por David Leopold, 2006-08-04 este último representando uma de suas vertentes mais radicais.

Tradicionalmente, o anarquismo individualista é considerado uma das duas grandes categorias do pensamento anarquista, ao lado do anarquismo coletivista.Ostergaard, Geoffrey. "Anarchism". The Blackwell Dictionary of Modern Social Thought. Blackwell Publishing. p. 14.Morris, Christopher W. 1998. An Essay on the Modern State. Cambridge University Press. p 50 (uses "collectivist" and "communitarian" synonymously)Wolff. Robert Paul. "Anarchism". The Oxford Companion to the Politics of the World, 2e. Joel Krieger, ed. Oxford University Press Inc. 2001. Oxford Reference Online. Oxford University Press Diferentemente do anarquismo comunista, porém, costuma ser caracterizado mais como um fenômeno filosófico e literário do que como um movimento social organizado.Alexandre Skirda, (2002). Facing the Enemy: A History of Anarchist Organization from Proudhon to May 1968, AK Press. Nesse contexto, o anarquismo filosófico, que rejeita a necessidade de uma revolução para abolir o Estado, é frequentemente tratado como uma de suas expressões particulares.(2003) «Anarchism», The Blackwell Dictionary of Modern Social Thought, 2nd edición, Blackwell Publishing, p. 12

O anarquismo individualista surgiu inicialmente nos Estados Unidos e se desenvolveu posteriormente na Europa durante o século XIX. Nos Estados Unidos, consolidou-se como uma tradição própria por meio da atuação de autores e ativistas individualistas.O anarquismo individualista nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros lugares. Os antigos intelectuais libertários americanos, por Max Nettlau As correntes liberais nos Estados Unidos (Pioneiros da liberdade americana), por Rudolf Rocker Já na Europa, destacou-se especialmente na França e no Reino Unido, onde conheceu um desenvolvimento significativo ao longo do início do século XX.

Visão geral Dentre as semelhanças dos diversos tipos de anarquismo individualista, estão:

A concentração sobre o indivíduo e sua vontade sobre quaisquer construções, tais como moralidade, ideologia, costume social, religião, metafísica, ideias ou vontade de terceiros.Max Stirner, Encyclopedia Stanford of Philosophy; 4 de Agosto de 2006Nisbet, Robert; La formación del pensamiento sociológico. Amorrortu, 1977, pp. 20-31.Rocker, Rudolf; Las corrientes liberales en los Estados Unidos. Americalee, Buenos Aires, 1944, pp.251-256 A rejeição ou restrição sobre a ideia de revolução, vendo-a como um momento de revolta em massa que poderia trazer novas hierarquias. Em vez disso, é a favor de métodos mais evolutivos de levar a anarquia através de experiências alternativas e conhecimentos que poderiam ser trazidos hoje,"A primeira é em relação aos meios de ação no aqui e agora (e assim a maneira pela qual a anarquia surgirá). Individualistas geralmente preferem a educação e a criação de instituições alternativas, tais como bancos mútuos, uniões, comunidades, etc… Essas atividades, argumentam eles, vão garantir que a sociedade atual se desenvolverá gradualmente fora do governo, em um meio anarquista. São principalmente evolucionistas, não revolucionários, e não gostam do anarquismo social do "uso ação direta para criar situações revolucionárias." An Anarchist FAQ, Section A.3.1 What are the differences between individualist and social anarchists? "Toda revolução, portanto, feita em nome de princípios abstratos, tais como igualdade, fraternidade, liberdade, ou humanidade, tem a mesma finalidade, a anulação da vontade e da soberania do indivíduo, de modo a ser capaz de dominá-lo." A insubordinação voluntária. O anarco-individualismo espanhol durante a ditadura e a Segunda República (1923-1938) as revoluções autênticas se experimentam nas consciências e nos pequenos atos cotidianos. Também não é visto como desejável, por alguns indivíduos, o fato de ter de esperar pela revolução para começar a experimentar experiências alternativas fora do que é oferecido no sistema social vigente."THE "ILLEGALISTS " por Doug Imrie O ponto de vista de que as relações com as pessoas e outras coisas devem ser do próprio interesse e isto sendo transitório e sem compromisso. Max Stirner recomendou associações de egoístas formadas por indivíduos livres que podem unir-se periodicamente para colaborar,Finalmente, y este es un tema poco resuelto por el filósofo bávaro, resulta evidente que, a pesar de todo culto a la soberanía individual, es necesario y deseable que los individuos cooperen. Pero el peligro de la asociación conlleva la reproducción, a escala diferente, de una sociedad, y es evidente que en este contexto, los individuos deban renunciar a buena parte de su soberanía. Stirner propone "uniones de egoístas", formadas por individuos libres que pueden unirse episódicamente para colaborar, pero evitando la estabilidad o la permanencia." A insubordinação voluntária. O anarco-individualismo espanhol durante a ditadura e a Segunda República (1923-1938)[No Gods, No Masters, vol. 1, p. 23] "What are the differences between individualist and social anarchists?" motivada por uma defesa radical da liberdade individual, entendida como o direito absoluto de agir, obedecendo unicamente a sua própria consciência, em uma afirmação de que cada personalidade tem um valor único, cuja expansão não deva ser limitada por nenhuma fronteira.<ref>José Álvarez Junco; La Ideología Política del Anarquismo Español" (1868-1910)"; Seculo XX; Madrid; (1976)</ref> Por isso a experiência e exploração individual são temas enfatizados.

Primeiras influências William Godwin

thumb|180px|esquerda|William Godwin, óleo sobre tela de James Northcote de 1802 na National Portrait Gallery. William Godwin, um liberal radical e utilitarista, foi um dos primeiros a expor o que viria a ser conhecido como anarquismo individualista. William Godwin pode ser considerado um anarcoindividualistaWoodcock, George. 2004. Anarchism: A History Of Libertarian Ideas And Movements. Broadview Press. p. 20 e um anarquista filosófico que foi influenciado pelas ideias iluministas"Anarchism", Encarta Online Encyclopedia 2006 (UK version) e desenvolveu o que muitos consideram ser a primeira expressão do pensamento anarquista moderno. Segundo Piotr Kropotkin, Godwin foi "o primeiro a formular os conceitos políticos e econômicos do anarquismo, mesmo não adotando tal denominação em sua obra."Peter Kropotkin, "Anarchism", Encyclopædia Britannica, 1910Godwin himself attributed the first anarchist writing to Edmund Burke's A Vindication of Natural Society. "Most of the above arguments may be found much more at large in Burke's Vindication of Natural Society; a treatise in which the evils of the existing political institutions are displayed with incomparable force of reasoning and lustre of eloquence…" – footnote, Ch. 2 Political Justice by William Godwin. Godwin se opôs ao governo, pois este infringe o direito do indivíduo de "julgamento privado" para determinar que ações podem maximizar a utilidade, e também faz uma crítica de toda a autoridade sobre o julgamento do indivíduo. Neste aspecto, a filosofia de Godwin, com exceção do utilitarismo, foi desenvolvida da forma mais extrema posteriormente por Stirner.McLaughlin, Paul (2007). Anarchism and Authority: A Philosophical Introduction to Classical Anarchism. Ashgate Publishing,. p. 123.

O individualismo de Godwin foi radical de tal forma que ele mesmo era contra indivíduos que realizam juntos uma orquestra, escrevendo, em Political Justice, que "tudo o que se entende por cooperação é, em certo sentido, um mal.""Godwin, William". (2006). In Britannica Concise Encyclopaedia. Retrieved December 7, 2006, from Encyclopædia Britannica Online. A única exceção aparente à oposição à cooperação é a associação espontânea, que pode surgir quando uma sociedade é ameaçada por força violenta. Godwin se opõe à ideia de governo, mas escreveu que o Estado mínimo, no presente, é um "mal necessário"Godwin, William (1796) . Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on Modern Morals and Manners. G.G. and J. Robinson. OCLC 2340417. que se tornaria cada vez mais irrelevante e impotente pela expansão gradual do conhecimento. Ele foi expressamente contra a democracia, temendo a opressão do indivíduo pela maioria (embora ele acreditasse que a democracia seria preferível à ditadura).

Godwin defendeu o direito de propriedade, definindo-o como "o império através do qual todo homem tem direito sobre o produto de sua própria indústria." Contudo, ele também advogou indivíduos darem seu excedente de propriedade a outros na ocasião em que estes necessitem, mas sem envolver comércio (ver economia do dom). Assim, enquanto pessoas têm o direito a propriedade, elas devem dá-la como gesto de altruísmo. Entretanto, a benevolência não era forçada, sendo questão da liberdade individual: o "julgamento pessoal". Ele não defendeu a comunidade dos bens ou afirmou a propriedade coletiva como é abrangida no comunismo, mas sua crença no dever do indivíduo de partilhar com aqueles que necessitam foi influente no desenvolvimento do anarquismo comunista.

A visão política de Godwin foi diversa de e em não perfeito acordo com as ideologias que afirmam sua influência; escritores do Socialist Standard, jornal do Partido Socialista da Grã-Bretanha, consideram Godwin tanto individualista quanto comunista;"William Godwin, Shelly and Communism" by ALB, The Socialist Standard e o historiador Albert Weisbord considera-o um anarquista individualista sem ressalvas. Alguns escritos demonstram um conflito na sua defesa do "julgamento pessoal" e do utilitarismo. Ele disse que a ética requer que os indivíduos forneçam seus excedentes de propriedade a outros, resultando em uma sociedade igualitária, mas, ao mesmo tempo, insiste que todas as coisas são deixadas à escolha individual. Muitas das visões de Godwin mudaram ao longo do tempo, como observou Kropotkin.

Pierre-Joseph Proudhon