José Aguirre Gainsborg professor boliviano e militante trotskista na Bolívia, fundador do Partido Obrero Revolucionario.
Biografia José Aguirre Gainsborg nasceu no consulado boliviano de Nova York, em 8 de julho de 1909, quando seu pai José Aguirre Achá exercia funções consulares. Pela sua origem de classe e por sua família tinha o privilégio de permanecer em contato com ideias e livros. Não foi autodidata e em seus escritos nota-se o desejo de escrever bem e desenvolver sistematicamente o seu pensamento. Avantajado estudioso da filosofia marxista, muitas vezes ficava à beira do esquematismo, traço preponderante entre os estudantes universitários. Contudo e devido à sua morte prematura, só pôde dar os primeiros passos, não teve a oportunidade de desenvolver integralmente sua personalidade. Provavelmente, o que chamou a atenção de seus contemporâneos foi a sua boa informação sobre questões internacionais, o leitor não deve esquecer que a Bolívia é uma ilha a que o impacto das ideias e eventos mundiais chegam atrasados, deformado pela ação do tempo e o atraso cultural.
Em 1929 prestou o serviço militar obrigatório, mas foi afastado por doença. Para continuar seus estudos, foi forçado a ensinar. Aos 19 anos era professor de história e geografia do Instituto Americano. Em 1932 se formou na Faculdade de Direito de Cochabamba. O jovem advogado não exerceu a profissão nem queria ser chamado de "doutor", como fazem os outros. O fato de que quando saiu exilado, durante a guerra do Chaco, foi incorporado ao Comitê Central do Partido Comunista chileno, nos permite supor que esteve vinculado ao Partido que chamamos Comunista Clandestino, organizado sob a inspiração do Secretariado Latino-Americano da Terceira Internacional. Nota de Guillermo Lora, 1996
O Estudante Revolucionário
José Aguirre Gainsborg foi uma das principais figuras da geração da reforma universitária (toma seus primeiros contatos com o problema social, com o marxismo e com o movimento operário através da luta estudantil da época). Não se transformou em socialista por pertencer ao movimento "reformista", mas ao contrario, o político marxista deu sua própria interpretação à reforma universitária: "Não podemos afirmar que o movimento que impulsionou a reforma universitária foi socialista. O próprio conteúdo da reforma universitária não é socialista, é democrático, e – salvo alguns dirigentes contados a dedo que antes do movimento entraram em contato com a ideologia que no nosso tempo agita o mundo e que buscavam com as reivindicações universitárias a possibilidade de revisar concepções arcaicas – o movimento, no que teve de aceitação na massa estudantil, não pode nem poderia rebaixar seu caráter democrático". "El Diario", 15 de outubro de 1935. Aguirre foi um desses poucos dirigentes que se integra no movimento reformista já marxista confesso e com a finalidade de imprimir-lhe um alento revolucionário. Que seguiu mantendo sua filiação ideológica depois de 1930 (ano da revolução contra Hernando Siles Reyes) se demonstra porque depois encaminhou seus esforços para se ligar ao movimento operário e porque teve o valor e o acerto de assinalar as limitações da reforma universitária. Essa atitude crítica da reforma universitária foi única na ampla gama de opiniões da esquerda boliviana. Os outros, entre eles Jose Antonio Arze e Ricardo Anaya fundadores do PIR em 1940, uma nova tentativa organizativa dos estalinistas, se esgotaram na luta reformista. A luta limitadamente democrática levou seus teóricos a desembocarem no nacionalismo, no estalinismo, na teoria da revolução por etapas. Os estudantes, ao lutar pela autonomia universitária, obrigaram o governo a desatar uma repressão bestial, o que os empurrou para buscar apoio no movimento operário, cuja expressão sindical atravessava um período de florescimento. Em 1929 foi o Secretario de Vinculação Operária da Federação de Estudantes Universitários de La Paz. Nesta época os universitários socialistas e os operários avançados ocupavam a mesma trincheira. O crescente mal-estar social se traduziu em uma agitação ameaçadora. Em Potosí e Cochabamba o governo pretendeu afogar em sangue a inquietude popular. Em La Paz quase toda a direção da Federação de Estudantes foi presa. O Aguirre dos primeiros anos de atividade sentia-se predestinado a soldar-se aos operários para guiá-los e educá-los. Somente depois, quando entrou em contato com o proletariado chileno, compreenderá por que Lênin disse que no partido revolucionário desaparece a diferença entre operários e intelectuais. Para a juventude "revolucionária" dos anos trinta a reforma universitária salvaria também os operários. A juventude que se temperou nas lutas, rapidamente se orientou, majoritariamente, ao carreirismo que oferece a classe dominante. Somente alguns abraçaram e persistiram no marxismo. Os redatores do semanário "Bandera Roja", por exemplo, acabaram servindo os partidos políticos rosqueros da oligarquia pró-imperialista que dominava na época. Os mais ousados tentaram estruturar um "nacionalismo socializante" o Movimiento Nacionalista Revolucionário e terminaram prostrados ante o imperialismo norte-americano. É admirável que José Aguirre Gainsborg evoluísse até converter-se em militante do Partido Comunista clandestino e, mais tarde, no líder da Oposição de Esquerda do Chile e da Bolívia.
O Trabalho em Cochabamba
O estudante se foi se convertendo em um verdadeiro revolucionário, ou melhor, foi se proletarizando, no sentido leninista do termo, ou seja, ao se identificar ideologicamente com a classe chamada a sepultar a burguesia putrefata. "El País" de Cochabamba nos traz o único testemunho que se tem a respeito: "organizador, chefe espiritual da Federação Operária do Trabalho desta cidade, durante os anos 1929-1932" "El País" de Cochabamba, 28 de outubro de 1938. Ou seja, fez intervenção nos sindicatos para convertê-los em organizações revolucionarias, para influenciá-los ideologicamente. Esta atividade se converteu no eixo central das atividades de toda sua vida. Quando o estudante se viu obrigado a mudar-se para Cochabamba ingressou na Faculdade de Direito. Assim continuou a tradição de sua família; para eles era inconcebível que um filho dos Aguirre e dos Gainsborg não entrasse para a enorme legião dos "doutores". Estava colocado o conflito, que lhe atormentou durante toda sua curta existência, entre as ideias que remodelaram sua personalidade e o conservadorismo indiscutível de sua família, pese o liberalismo de seu pai e de seu avo. A aprendizagem de uma profissão que já se sabe de antemão que não vai exercer é uma lamentável perda de tempo. Mas, para Aguirre não restava outro caminho. A miséria cultural das universidades bolivianas não lhe permitiu sorver nas aulas todos os conhecimentos com que precisava se armar o futuro lutador. A vida, a luta diária, as perseguições e prisões, o desterro serão suas verdadeiras universidades. Na aprendizagem do marxismo o universitário Aguirre Gainsborg foi um autodidata. Durante os anos de 1930-32, a Bolívia sofre sob a pressão da crise econômica de 1929. As medidas repressivas se acentuam paralelamente à convulsão social. A revolução de junho de 1930 um movimento contra a tentativa de autoprorrogação de mandato do presidente Hernando Siles Reyes potenciado pelo patiñismo Simón Iturri Patiño (1862–1947), principal barão do estanho. Setores militares foram os protagonistas centrais. O movimento começou em Oruro e encontrou ressonância no ambiente convulsionado (sobre tudo o estudantil) de La Paz. O Colégio Militar apressou-se em somar a insurreição
Em 20 de julho de 1932, o governo Daniel Salamanca Urey decretou o estado de sitio, "prevendo complicações que possam comprometer a paz da Nação", diz a respectiva disposição governamental. Entre os que assinaram tal documento aparece Enrique Hertzog Garaizabal que foi dirigente do PURS e presidente da república . A medida foi disposta principalmente para descabeçar o movimento revolucionário. O presidente Salamanca pontualizou em sua mensagem ao Congresso (20 de setembro de 1932) : "... “A atividade comunista se intensificou com o recente conflito, e ainda que o provado patriotismo do povo condene seus alcances, foi importante opor-lhe uma vala legal. Essa perseverante e calculada propaganda pretendeu destruir a disciplina do Exército, com incitação à desobediência na tropa, e tentativas de vitimar os chefes e oficiais, para nos colocar em uma situação muito delicada”". A repressão policial não se deixou esperar. No mesmo mês de julho José Aguirre Gainsborg foi preso e transferido de Cochabamba a La Paz, juntamente com outros elementos catalogados como "agitadores", e permaneceu incomunicável até 11 de agosto, quando foi confinado na mina Laurani região de Ichoca, província Sicasica do departamento de La Paz.
A guerra do Chaco
A onda do chauvinismo havia afogado o protesto e se pôs em evidencia a impotência dos jovens revolucionários, ainda não maduros totalmente e terrivelmente desorganizados. Mais tarde Aguirre dirá: "Sobre o terreno da crise, que compreende de 1929 a 1932, o governo de Siles foi deposto e passa a existir a necessidade de uma política de guerra, com o tradicionalismo colocando sua última carta: Salamanca presidente. A educação chauvinista ingênua do povo, contribui como um fator psicológico importante a lhe abrir caminho e abraça a causa dessa guerra de três meses que deveria conduzir-lhe facilmente até Assunção. " "Podemos afirmar que a guerra foi à plataforma de todos os partidos tradicionais que viram nela um êxito político e as perspectivas econômicas do petróleo, reservado até então em favor da 'Standard Oil Co.'. A guerra, representa também de forma indireta a causa dos grandes mineradores desesperados com a bancarrota, e para a classe media pauperizada a oferta e distribuição de benefícios e de futuras vantagens políticas e burocráticas (tão escassas neste momento)... " G. Lora, "Contribución a la Historia Política de Bolivia" , La Paz, 1978 "A derrota e as responsabilidades abrem uma nova brecha nas classes dominantes da Bolívia, estas obrigam as forças armadas a se livrarem de Salamanca e a tomar para si mesmas a diplomacia pacificadora. Em seguida, encontram sua afirmação ascendendo ao poder. Desta maneira o povo não se enquadrou nas fileiras exíguas e nascentes do Partido Obrero Revolucionario, formado no estrangeiro, nem no Partido Republicano Socialista de Saavedra, apesar de sua hábil oposição, mas transferiram suas vagas aspirações de reforma à juventude civil ligada aos militares. O povo se agrupa ao redor do “Palacio Quemado”, como ocorreu no Chaco, sem ter satisfeito suas necessidades; para o povo não importa que o militarismo mudou seu itinerário de La Paz-Asunción para Chaco-La Paz, mas seus permanentes problemas econômicos e culturais, que se confundem para a população com a divisão das posições deixadas vagas pelo tradicionalismo". José Aguirre, "Pontos para a elaboração de uma tese política do POR" , La Paz, 1938.
O Exílio no Chile
Como dito José Aguirre Gainsborg entrou ao Partido Comunista clandestino em 1930, onde conheceu alguns elementos de destaque que construiriam o futuro Partido Obrero Revolucionario. Dadas as condições de isolamento bolivianas podemos assegurar que a ideologia do Partido Comunista clandestino não era estritamente stalinista. Em suas fileiras se agruparam militantes que evoluíram dentro dos rudimentos do marxismo e que se tornaram esquerdistas pela influência da revolução russa e do movimento da reforma universitária. Nesse momento a própria luta que travada pela Oposição de Esquerda Internacional, não encontrou ressonância imediata dentro das fronteiras bolivianas. Quando José Aguirre chega exilado ao Chile levava como bagagem sua escassa experiência adquirida no meio estudantil e operário. Seu contato com os marxistas chilenos foi o encontro com uma verdadeira escola revolucionária.