Guterre de Monroy (Portugal, c. 1479 - 1548) foi Capitão de Goa e da Fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué.

Genealogia Guterre de Monroy era filho de Afonso de Monroy, nobre castelhano, Claveiro da Ordem de Alcântara, passado a Portugal depois da Batalha de Toro.Gomes de Brito : As tenças testamentarias da infanta D. Maria. in Arquivo historico portuguez.vol. 6. Anno de 1908. of. tip. - calçada do cabra, 7. P.203-224 Era aparentado com Hernán Cortés.

Teve dois filhos ilegítimos: Afonso (com sua sobrinha Antónia de Sotto-Maior) Tristão (com uma fulana Caldeira)

Casou com D. Mariana de Sousa e Melo, ou melhor D. Mariana de Sousa da Silveira, filha de D. Fernão da Silveira e de sua mulher D. Brites de Sousa, com quem teve: Afonso (que morreu na tomada de Santa Cruz) Jerónimo (que morreu cativo) Manuel Brites de Sousa (que casou com Rui Lopes de Sampaio, 3.º senhor de Anciães e Vilarinho, e com João Rodrigues de Beja, em segundas núpcias) Maria Mécia de Sousa (que casou com Rodrigo de Carvajal ou de Carvalhal, como o chama Luís Vaz de Camões, e depois, cativa, com Maomé Axeique, futuro sultão de MarrocosCrónica de Santa Cruz do Cabo de Gué. P. 126-140)

Capitão de Goa Foi Fronteiro em Azamor.

Depois, em 1515 passou à Índia com seu irmão Fernando e seu sobrinho João, na Armada do Governador Lopo Soares de Albergaria. Ia como capitão de Goa. Também vinha na armada um Fernão Caldeira, pagem de Afonso de Albuquerque que já tinha vivido em Goa, e que o rei vinha de soltar da prisão onde estava "por algumas travessuras"João de Barros: Décadas, III.L.cap. VII. Instalado nas suas funções, D. Guterres, ou por estar interessado por sua mulher, ou para puni-lo de têr cortado a perna ao capitão Henrique de Toro, com quem teve uma rixa, tentou apanhar o mesmo Fernão Caldeira, que se tinha "refugiado em Pondá, sob a protecção do capitão mouro que governava essa terra, pertencente a Adil-Sháh. D. Guterres, não podendo conseguir a entrega do homiziado, que solicitára, enviou um sicário a Pondá e fêz assassinar secretamente Fernão Caldeira. Indignado por esta traição, o capitão mouro prendeu imediatamente o sicário e o mandou enforcar. D. Gueterres, para vingar a morte do seu emissário, foi assaltar Pondá ; mas (...) sofreu tão brava derrota, que deixou ali 200 homens, entre mortos e prisioneiros. Não foi êste, contudo, o maior descrédito : Adil Shah, sabendo o caso,veio cercar Goa com numerosas forças muçulmanas, (...) e ter-se-ia apoderado da cidade, se não lhe tivesse acudido, vindo de Ormuz, D. Aleixo de Menezes, que fêz levantar o cêrco"Manoel José Gabriel Saldanha, História de Goa: (política e arqueológica) p. 48-49

Capitão de Santa Cruz do Cabo de Gué, 1.º período Nomeado pelo rei Capitão da Fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué, chegou a Santa Cruz e tomou o governo a 15 de Novembro de 1533, substituindo Rui Dias de Aguiar. Ao cabo de ano e meio assinou tréguas com o Xarife do Suz, Maomé Axeique, por um período de oito meses, que tencionava prolongar para cinco anos, uma vez o rei prevenido. Entretanto, provavelmente em Fevereiro de 1534, Safim foi assaltada pelo Xarife de Marrocos (Marraquexe), Amade Alaraje, irmão de Maomé Axeique, e seu Capitão, D. João de Faro, morto. Por isso, a 8 de Abril de 1534, Guterre de Monroy, "armou uma caravela e mandou seu filho Dom Affonso de Monroy com trinta homens, dez cavaleiros, vinte de péCrónica de Santa Cruz p. 82", como socorro a Safim, onde já tinha chegado no mez antes, seu novo capitão Luís de Loureiro, o qual apenas governou dois meses.

Sofrendo duma perna, Guterre de Monroy desejou voltar a Portugal, substituindo-o em Junho de 1534 o mesmo Luís de Loureiro, que governou durante quatro anos, até 1538.

Capitão de Santa Cruz do Cabo de Gué, 2.º período Guterre de Monroy voltou em 1538, tomando outra vez a praça como seu capitão. Entretanto as pazes estavas rompidas, e o Xarife, Maomé Axeique, apesar das bombardas dos portugueses tentava edificar no "Pico" (morro que dominava Santa Cruz), uma fortaleza.

Cerco de Santa Cruz Em Setembro de 1540 vieram de novo os mouros cercar a vila, e novamente, o Xarife de Suz, por intermédio do seu filho Mulei Mohammed, tentou edificar, e desta vez conseguiu, uma fortaleza no "Pico", que acabou em menos de dois mezes, armada com 40 ou 50 peças de artilhariaGaveta 18, maço 5, n°12; In Crónica de Santa Cruz, p. 88.

Possuíam "muitas e muy grossas bombardas, em que vinhão seis maymonas que tiravão mui grossos pilouros de pedra, que no almazen d'el-Rey Nosso Senhor se podem ver, que ahy estão porque da vila os mandarão por quem veo a pedir o socoro, que nunca mandarão em sete mezes que esteve sercadaCrónica de Santa Cruz, p. 88". Os mouros instalaram seu "arrayal da banda da ponta d'Anza, detras do castelo, e estava baixa e a varzea alta e encuberta com uma fralda do Pico, e por isso estavão seguros e a vontade (...) e a nossa artelharia, em quanto podea tirar, dava na terra e na pedra, mas todavia lhe matava muitos bombardeiros e gente, e a sua dava nos cubelos que lhe fazião nojo e dano e derribão-no-nos, porque a sua artelharia era muy grossa e forte" e não faltavam de pólvora.

Em nome do Xarife, Maomé Axeique, vinha "por general", o alcaide "Mumen Abaia BeleccheMoumen Ben Yahya, filho dum mercador genovês convertido ao islão chamado Mahamete el Elche, ou Moumen ben el-'Ilj". Comandava sobre os próprios filhos do Xerife, "a saber: Muley Ahamão ben AhameMulei Maomé Harrune, filho primogénito. Morreu em setembro de 1550. he Mulei AbedelquadraMulei Abdelcáder, que foi governador de Marraquexe em 1550. Morto em frente de Tremecém em Fevereiro de 1551, e Mulei Abederramão, o Malachado lhe chamavão os Cristãos cativos, por rezão que dizião os Mouros que dormira sete annos na barriga da may, e ao cabo dos sete annos a pariraAbederramão, o mal achado, porque o Xarife tinha dado a um renegado uma das suas concubinas, que ao cabo de 5 anos descobriu-lhe que o filho que tinha era do Xerife porque ela já estava prenhe quando ele lha deu."

Em Dezembro de 1540, vindo de Lisboa, chegou Manuel da Câmara, governador da Ilha de São Miguel, com alguns homens de guerra, Dom Garcia de MeloMorreu em 12 de março de 1541, dia da tomada de Santa Cruz, parente da sua mulher, Lourenço de Brito, Bastião de BritoLourenço foi feito cativo, e bastião foi morto no cerco, etc. Depois (em Janeiro) chegaram, vindos da Madeira, o fidalgo Francisco Lomelimcativo na tomada de Santa Cruz, consegui fugir em Dezembro de 1548 numa caravela, com "boa gente mas pouqua, donde vierão com elle os Betancores e Galas Correa com seu filho, bom mancebo e valente que hay mataram os Mouros á entrada da vilaCrónica, p. 96".

Um cerco mais apertado começou em 16 de Fevereiro de 1541, com a chegada de Mulei Abedelquadra (Mulei Abdelcáder), que empreendeu um ataque geral que durou 22 diasCrónica de Santa Cruz, p. 96 Os inimigos, mouros e turcos eram mais de 100.000 homens segundo os mouros eles mesmos, como o declarou numa carta ao rei, de 2 de Abril, D. Guterre.

Essa multidão conseguiu entulhar a cava, apesar dos esforços dos portugueses que "fizerão uma mina, por onde lhe furtavão todo o calhão que os mouros traziam das prais e lançavão de noite na cava, e o hião lançar do muro abaxo na praia da outra banda do castelo, que o levasse o mar; mas nem isto bastou".

Tomada de Santa Cruz do Cabo de Gué "Sesta feira onze dias de março ás nove horas do dia", um bombardeiro preparando-se para atirar, no cubelo do Facho, perto dum barril de pólvora, "passando o bombardeiro com um murrão asezo por junto da selha, tocou o fogo na polvora, acendeu na selha e no barril, e levou o sobrado e a sotea com mais de trinta e tantos homens pello ar (...) e cairão mortos e queimados, onde morreu Rodrigo de Carvaiales [Rodrigo de Carvajal]Também lhe dão o nome de D. Rodrigo do Carvalhal, como Camões que dedica uns versos (depois rejeitados) aos seus últimos momentos, nos Lusíadas:

Olha cabo de Aguer aqui tomado/ Por culpa dos soldados de soccorro:/ Vês o grande Carvalho ali cercado/ De imigos, como touro em duro corro?/ De trinta Mouros mortos rodeado,/ Revolvendo o montante, diz: «Pois morro,/ Celebrem mortos minha morte escura,/ E façam-me de mortos sepultura./

Ambas pernas quebradas, que passando/ Hum tiro, espedaçado lh'as havia;/ Dos giolhos, e braços se ajudando,/ Com nunca visto esforço e valentia:/

Em torno pelo campo retirando,/ Vai a Agarena, dura companhia,/ Que com dardos e séttas, que tiravam,/ De longe dar-lhe a morte procuravam. (OS LUSIADAS: ESTANCIAS DESPREZADAS.), genrro do Cappitão que estava aly por capitão por ser aly frontaria. Estava com elle a flor da cavalaria d'aquella villa. Tudo foi contra nos".

À tarde, os mouros "entrarão em uma asoteya detras do Castello de Menagem, onde passeavam Dom Martim Gonçalvez [ irmão de D. Luis de Ataíde que virá a sêr Vice-rei da Índia ]; netto do conde do GriloEm realidade há confusão ou do autor, ou do copista, e os avós de Dom Martim eram D. João d'Ataíde, filho de Martinho de Ataíde, 2° conde de Atouguia, e (do lado materno) Fernão Lourenço da Mina. e hum criado e parente do Capitão, por nome Antonio d'Alvarado, valente mancebo. Tanto que virão os mouros, derão rebatte e derão com elles cavaleirosamente até que lhe acodirão debaixo, mas Dom Martinho Gonçalvez o fez como hum Heytor Troyano ou hum Roldão, que se deu elle só a huma banda da soteya com dez ou doze Mouros e matou e ferio grão parte d'elles, mas elle conquanto armado hya, sayo da briga com sete feridas e o mancebo pelejou com quatro o sinco como valente homem e cayo com tres feridas. Sobirão maes Mouros, mas tanto que chegarão os cavaleiros de baxo, logo os matarão e lançarão abaixo."Crónica de Santa Cruz p. 102 Nesse dia, pouco depois, também foram mortos o Adail de Santa Cruz, Simão Jorge, e um filho de Guterre, Afonso de Monroy.

Os socorros não chegavam, os mouros eram cada vez mais numerosos, enquanto cada cristão morto faltava muito, "que não avia donde nos virem", tinham que "trabalhar dia e noite, comer pó de biscoito meado de calisa das bombardas que derão no sileiro donde estava, e beber agoaCrónica de Santa Cruz p. 104".

"Ao outro dia seguinte pella manhã, aos 12 dias de março da era de 1541 annos, entrarão os mouros na soteya donde estava a artelharia acarvada, donde estavão os cavaleiros agardando detras do entulho, por causa das suas bombardas que aly davão." Os portugueses repeliram-nos, mas outros vieram : "Foi hua fermoza batalha, que os Mouros erão muito cavaleiros e mostravão esforço e tinhão mão na batalha nomeando-sse hums aos outros « Affoão, afoão» (A fulano ! A fulano !). Pelejarão grandemente, que duraria bem ora e meia a batalha, e tal foi ella que se posivel fora ve-la el-Rey a seu salvo e os do Despacho, bem creo eu que aos cavaleiros que forão cativos, quando do cativeiro vierão, lhe derão boas comendas e os honrarão, mas assy como os não virão pelejar, assy o fizzerão com elles que nem somente forão ouvidos. Morreo quem morreo, cativou quem cativou, passarão trabalhos na villa, e no cativeiro perdeo quem perdeo, com esto se ficarão. Este foi o galardão que ouverão, pela qual causa jagora (agora) os homens não querem venturar-se a morrer, nem mostrar seus esforços e cavalaria, porque morrendo morrem ou as molheres e filhos a fome e a desemparo, que não ay satisfação pera seu remedio, nem lhe pagarem o que se lhe devem e lansando-sse a longe a mingoa e com muita necessidade, e não lhe fica mais de sua morte que : «Perdoe-lhe Deos, como era esforçado cavaleiro»."Crónica de Santa Cruz, p. 106..