A escrita latina, também chamada escrita romana, é o sistema de escrita usado para escrever português e muitas outras línguas, com um conjunto básico de letras de A a Z. Cada língua pode acrescentar sinais ou letras e atribuir sons diferentes às que já existem.

Os romanos adaptaram para o latim um alfabeto recebido dos etruscos. O alfabeto etrusco vinha de uma forma do alfabeto grego usada em Ísquia e Cumas, no sul da Península Itálica. A adaptação romana deu origem ao alfabeto latino, que se espalhou a partir da Roma Antiga e mudou à medida que passou a escrever outras línguas.

A escrita latina é usada na Europa Ocidental e Central, em muitas línguas da África subsaariana e em grande parte das Américas e da Oceânia. Ela é empregada para registrar mais línguas do que qualquer outra escrita. Suas letras também serviram de base ao alfabeto fonético internacional, usado para indicar a pronúncia.

Alfabeto latino básico ISO

As 26 letras mostradas na tabela, de A a Z em maiúsculas e minúsculas, compõem o alfabeto latino básico ISO.

+ Maiúsculas e minúsculas do alfabeto latino básico Aa Bb Cc Dd Ee Ff Gg Hh Ii Jj Kk Ll Mm Nn Oo Pp Qq Rr Ss Tt Uu Vv Ww Xx Yy Zz

Na ortografia da língua portuguesa, o Acordo Ortográfico de 1990 enumera 26 letras, incluindo K, W e Y, usadas sobretudo em nomes de origem estrangeira, seus derivados, siglas e símbolos de unidades de medida.

Os sinais I, V e X, por exemplo, também são usados na numeração romana. Já os algarismos 1, 2, 3... que aparecem ao lado das letras latinas pertencem ao sistema numérico hindu-arábico e também são chamados de algarismos arábicos ocidentais.

História e difusão

Com a expansão do Império Romano, o latim e seu alfabeto saíram da Península Itálica e chegaram às terras em torno do mar Mediterrâneo. Na parte oriental do império, o grego continuou a ser muito usado. Na parte ocidental, o latim se espalhou, e as línguas românicas que dele se formaram mantiveram o alfabeto latino e o adaptaram.

Das maiúsculas às minúsculas direita|miniatura|upright=0.75|alt=Expressão karolingische minuskel traçada em letras minúsculas arredondadas|As formas da minúscula carolíngia reapareceram na escrita humanista e nos tipos romanos dos livros impressos. Nos manuscritos medievais, os copistas desenvolveram formas minúsculas que se veem nos livros atuais, entre elas a minúscula carolíngia, difundida nos séculos IX e X. No Renascimento italiano, a escrita humanista retomou formas carolíngias. Os tipos romanos usados na impressão se basearam nessa escrita humanista.

Idade Média esquerda|miniatura|upright=0.9|alt=Fragmento de manuscrito medieval com linhas de texto em inglês antigo|Na Crônica Anglo-Saxônica, o inglês antigo aparece escrito com letras latinas. Na Idade Média, a expansão do cristianismo ocidental levou as letras latinas às Ilhas Britânicas, à Escandinávia e a regiões de língua germânica. Textos em línguas celtas e germânicas passaram a ser escritos com elas. Na Irlanda, a nova escrita substituiu o ogam em muitos usos e, entre os povos germânicos, tomou o lugar das runas em boa parte dos textos.

Entre povos de línguas eslavas ocidentais e de parte das línguas eslavas meridionais, a conversão ao catolicismo veio acompanhada do uso do alfabeto latino. Já os falantes de línguas eslavas orientais em geral adotaram o alfabeto cirílico com o cristianismo ortodoxo. A língua sérvia usa as duas escritas, com predomínio do cirílico na comunicação oficial e do latino em outros usos. A legislação sérvia estabelece o cirílico para o uso oficial e prevê as condições de emprego da escrita latina.

Séculos XVI a XIX No início da Idade Moderna, o uso da escrita latina estava concentrado no oeste cristão da Europa. A leste, comunidades cristãs ortodoxas usavam sobretudo os alfabetos cirílico e grego, enquanto a escrita árabe era usada por muitos povos muçulmanos ao sul e a sudeste. Em algumas regiões, duas ou mais dessas escritas eram usadas lado a lado.

direita|miniatura|upright=0.75|alt=Página de rosto de um livro antigo, com título em letras latinas e composição tipográfica em preto|O dicionário vietnamita-português-latim de 1651 imprimiu palavras vietnamitas com letras latinas, ao lado das traduções portuguesas e latinas.

Com a colonização europeia, a escrita latina chegou às Américas, à Oceânia, a partes da Ásia e da África e às ilhas do Pacífico. Em línguas africanas, as letras latinas passaram a conviver com escritas anteriores, que nem sempre deixaram de ser usadas.

Nas línguas das Filipinas, o alfabeto latino tomou o lugar da escrita baybayin na maior parte dos usos, embora escritas tradicionais permaneçam em algumas comunidades. Na Malásia, o malaio é escrito em rumi, de base latina, e o jawi, de base árabe, também pode ser usado. O indonésio também emprega letras latinas.

Em Goa, na costa ocidental da Índia, missionários jesuítas introduziram a escrita latina para a língua concani, uma língua indo-ariana. Um livro em concani com letras latinas foi impresso em 1622.

No Vietnã, missionários portugueses participaram da criação de um alfabeto de base latina para a língua vietnamita, que antes era escrita com caracteres de origem chinesa. No século XIX, sob o domínio francês, as letras latinas começaram a substituir esses caracteres na administração.

No século XIX, os romenos passaram a escrever a língua romena com o alfabeto latino, deixando de usar o cirílico romeno. O romeno pertence à família das línguas românicas.

No silabário cherokee, criado por Sequoyah no século XIX, os sinais representam sílabas da língua cherokee. Ao preparar os tipos para imprimi-lo, foram aproveitadas algumas letras latinas, mas elas receberam outros valores e não transformaram o silabário num alfabeto latino.

Século XX

Em 1928, como parte das reformas de Mustafa Kemal Atatürk, a República da Turquia adotou um alfabeto latino para a língua turca, substituindo uma adaptação do alfabeto árabe.

esquerda|miniatura|upright=0.8|alt=Fotografia histórica de Atatürk apresentando letras do novo alfabeto turco a um grupo de pessoas|Na Turquia, a reforma de 1928 levou o novo alfabeto latino ao ensino público.

Nas décadas de 1920 e 1930, povos da União Soviética adotaram alfabetos latinos, entre eles versões do alfabeto turco unificado. A mudança começou entre povos de línguas turcas, como os azeris, iacutos, tártaros, basquires, cazaques e quirguizes, e depois alcançou outros grupos linguísticos. Os moldávios passaram a usar um alfabeto latino quase idêntico ao romeno. No fim da década de 1930 e no início da seguinte, essas reformas foram revertidas pela adoção do cirílico. Alfabetos latinos soviéticos para o abaza e o cabardiano usaram o H com gancho à esquerda.

Nem todos os povos soviéticos passaram por essa mudança, como os letões, lituanos, estonianos, alemães, poloneses, finlandeses, georgianos e armênios.

Na década de 1920, linguistas da União Soviética criaram um alfabeto latino para o curdo. Nos anos 1930, Celadet Bedir Khan criou outro, publicado na revista Hawar e usado para escrever o curmânji. O sorâni costuma ser escrito com letras de base perso-árabe.

Em 1957, a República Popular da China introduziu um alfabeto para o zhuang padrão que reunia letras latinas, cirílicas e símbolos do AFI. Letras colocadas no fim das sílabas indicavam os tons. A reforma de 1982 retirou as letras cirílicas e os símbolos do AFI. O sawndip, formado a partir de caracteres chineses, continuou a ser usado por parte dos falantes.

Depois da dissolução da União Soviética, em 1991, Azerbaijão, Usbequistão e Turquemenistão se tornaram independentes e adotaram oficialmente alfabetos latinos para suas línguas turcas. Na Moldávia, onde se fala romeno, o alfabeto latino voltou a ser usado no fim do período soviético.

Depois da queda do Derg, em 1991, a política linguística da Etiópia abriu espaço para o ensino em línguas antes preteridas em favor do amárico. O oromo já era escrito com o alfabeto latino Qubee desde a década de 1970, e esse alfabeto recebeu reconhecimento oficial em 1991.

O kafa pode ser escrito com letras latinas ou com a escrita etíope. O sidama e o wolaytta também têm ortografias de base latina. O somali, falado também na Etiópia, adotou oficialmente um alfabeto latino em 1972.

Em 1999, o Tartaristão, na Rússia, aprovou uma lei para introduzir a escrita latina na língua tártara. Algumas escolas começaram a ensinar o novo alfabeto no ano letivo de 2000–2001.

Século XXI A legislação federal russa de 2002 passou a exigir uma base cirílica para os alfabetos das línguas oficiais das repúblicas. O Tribunal Constitucional manteve essa exigência em 2004, impedindo a mudança planejada no Tartaristão.

Na Etiópia, a escolha entre as escritas latina e etíope ainda era debatida, na primeira década do século XXI, entre falantes de hadia e kambaata.

direita|miniatura|upright=1.2|alt=Proposta de alfabeto cazaque em letras latinas dispostas em duas linhas|Uma proposta de 2021 mostra como as letras latinas podem ser ajustadas para escrever cazaque. Em 2017, um decreto presidencial do Cazaquistão determinou a transição gradual da língua cazaque do cirílico para um alfabeto latino, com conclusão prevista para 2025. Como a mudança não se completou até 2025, o plano governamental para 2023–2029 ainda prevê a aprovação de um novo alfabeto e de regras de escrita.

Em 26 de setembro de 2019, a Inuit Tapiriit Kanatami, organização nacional dos inuítes do Canadá, anunciou a adoção de uma escrita unificada para as línguas inuítes do país. O sistema, chamado Inuktut Qaliujaaqpait, usa letras latinas e foi concebido como uma escrita auxiliar ao lado das ortografias regionais.

O Usbequistão iniciou em 1993 a adoção de um alfabeto latino para a língua usbeque. Uma resolução de 10 de fevereiro de 2021 fixou 1.º de janeiro de 2023 como limite para o uso do cirílico na documentação oficial. Em setembro de 2026, o Senado aprovou uma lei que prevê substituir ⟨G‘⟩ por ⟨Ğ⟩, ⟨O‘⟩ por ⟨Ö⟩, ⟨Sh⟩ por ⟨Ş⟩ e ⟨Ch⟩ por ⟨Ç⟩ no alfabeto latino usbeque.

O Curultai aprovou, entre 1991 e 1993, propostas de alfabeto latino para a língua tártara da Crimeia. Em 22 de setembro de 2021, o governo da Ucrânia aprovou uma versão de 31 letras, acertada com o Mejlis do Povo Tártaro da Crimeia, e estabeleceu a transição do ensino para essa escrita até 1.º de setembro de 2025.

Uso nas línguas

Em geral, a escrita latina segue da esquerda para a direita e separa as palavras com espaços. Para escrever sons que o latim não tinha, outras línguas puseram diacríticos, como acentos, sobre letras existentes, criaram novas letras ou uniram duas ou mais em ligaduras. Também passaram a usar pares e trios de letras para sons próprios.

esquerda|miniatura|upright=1.15|alt=Mapa-múndi com países em tons de verde onde a escrita latina tem uso oficial e outros países em cinza|O mapa mostra onde a escrita latina tem uso oficial. Ela também aparece em áreas cinzentas, por exemplo, em outras línguas e em romanizações.

Os sons que uma língua distingue são fonemas, e as letras ou combinações usadas para escrevê-los são grafemas. Nos alfabetos de escrita latina, variam esses grafemas, a ordem das letras e os sons atribuídos a cada sinal.

Letras

Até o início do século XVII, ⟨i⟩ e ⟨j⟩ eram tratadas como formas de uma mesma letra, assim como ⟨u⟩ e ⟨v⟩. Em livros impressos, a escolha entre essas formas muitas vezes dependia da posição na palavra. Entre o fim do século XV e meados do XVII, ⟨i⟩ e ⟨u⟩ passaram gradualmente a indicar vogais, enquanto ⟨j⟩ e ⟨v⟩ passaram a indicar consoantes. No alfabeto atual, cada uma das quatro é uma letra distinta.

No inglês antigo, o alfabeto latino ganhou as letras rúnicas wynn, ⟨Ƿ ƿ⟩, e thorn, ⟨Þ þ⟩, além de eth, ⟨Ð ð⟩, ausentes do conjunto romano.