A Guerra birmano-siamesa (1759-1760) (; ) foi o primeiro conflito militar entre a dinastia Konbaung da Birmânia (Mianmar) e a dinastia Ban Phlu Luang do Sião (Tailândia). Ela reacendeu a guerra secular entre os dois Estados que iria continuar por mais um século. Os birmaneses estavam "à beira da vitória" quando de repente, retiraram o cerco a Aiutaia, em razão de seu rei Alaungpaya ter ficado gravemente enfermo. Ele morreu três semanas depois, pondo fim ao conflito.

Os casus belli foram as disputas sobre o controle da região litorânea de Tenasserim e de seu comércio,Baker, et al, p. 21James, Fall of Ayutthaya: Reassessment, p. 75 e o apoio siamês concedido aos rebeldes da etnia mon, do derrotado Reino Restaurado de Hanthawaddy. A recém-fundada dinastia Konbaung queria restabelecer a autoridade birmanesa na parte superior do litoral de Tenasserim (atual estado Mon) onde os siameses tinham dado apoio aos rebeldes mons e implantado suas tropas. Os siameses tinham recusado as exigências da Birmânia de entregar-lhes os líderes rebeldes mons ou de parar com suas invasões no que os birmaneses consideravam ser seu território.

A guerra teve início em dezembro de 1759, quando 40 mil soldados birmaneses liderados por Alaungpaya e seu filho Hsinbyushin invadiram a costa de Tenasserim a partir de Martaban (Mottama). Seu plano de batalha era a de contornar as posições siamesas fortemente defendidas ao longo das rotas de invasão mais curtas, e mais diretas. A força de invasão invadiu as defesas siamesas relativamente mais vulneráveis no litoral, cruzaram os montes Tenasserim em direção ao litoral do golfo do Sião, e viraram para o norte em direção a Aiutaia. Pegos de surpresa, os siameses apressaram-se em deter as forças birmanesas ao sul de seu território, e instalaram corajosas defesas na rota para Aiutaia. Mas, as forças invasoras birmanesas eram numericamente superiores as das defesas siamesas e chegaram até os arredores da capital siamesa em 11 de abril de 1760. Porém, após cinco dias de iniciado o cerco à capital, o rei da Birmânia, repentinamente ficou doente e o comando birmanês decidiu retirar-se do campo de batalha. Um efetivo da operação retaguarda comandado pelo general Minkhaung Nawrahta garantiu uma retirada ordenada.

A guerra foi inconclusiva. Enquanto os birmaneses recuperaram o controle sobre a costa superior de Tenasserim até Tavoy (Dawei), eles não eliminaram a ameaça ao seu domínio sobre as regiões periféricas, que se mantiveram tênue. Foram forçados a lidar com o apoiado siamês às rebeliões étnicas na costa (1762, 1764), bem como em Lanna (1761-1763). Os birmaneses lançariam sua próxima invasão em 1765, e derrubariam os quatro séculos de existência do Reino de Aiutaia em 1767.

Acontecimentos anteriores O litoral de Tenasserim até 1740 O controle do litoral de Tenasserim (atual estado Mon e a região de Tanintharyi em Myanmar) no início do século XVIII estava dividido entre a Birmânia e o Sião, com o controle birmanês indo até Tavoy (Dawei) e os siameses controlando o restante do território. Ao longo da história, ambos os reinos haviam afirmado a posse de toda a costa - (os siameses até Martaban, e os birmaneses até Junkceylon), e o controle tinha mudado de mãos várias vezes. O Reino de Pagã birmanesa controlou toda a costa até 1287. Ao longo dos séculos XIV e XVI, os reinos siameses (primeiro Sucotai, mais tarde Aiutaia) controlaram grande parte da costa, até ao sul do atual Moulmein. Em meados do século XVI, os birmaneses durante os reinados dos reis da dinastia Taungû, Tabinshwehti e Bayinnaung tentaram retomar a costa, inicialmente fracassando em 1548 e, finalmente, com êxito em 1564, quando conquistaram todo o Sião pela primeira vez. Os siameses se revoltaram em 1584, e sob a liderança de seu rei Naresuan recuperaram a costa inferior em 1593 e toda a costa em 1594. Os birmaneses retomaram o litoral superior até Tavoy em 1615, mas não conseguiram recuperar o restante.James, SEA encyclopedia, pp. 1318–1319

Esta situação durou até 1740 (embora os siameses tentassem sem sucesso tomar a costa superior em 1662-1665). Durante este período, Mergui (Myeik) no mar de Andamão era o porto principal do Sião através do qual o seu comércio com a Índia e o Ocidente era operado.

Guerra civil birmanesa (1740–1757) thumb|A costa de Tenasserim antes da guerra mostrada em três cores; a fronteira Tavoy (em amarelo) era contestada. Em 1740, os mons da Baixa Birmânia se revoltaram contra a dinastia Taungû e fundaram o Reino Restaurado de Hanthawaddy, com base em Pegu (Bago). Ao longo da década de 1740, as forças de Hanthawaddy saíram vitoriosas contra os exércitos de Taungû baseados na Alta Birmânia. Os siameses estavam preocupados com outro crescente poder na Birmânia, uma vez que uma Birmânia forte historicamente significava futuras invasões do Sião. (Afinal de contas, tinha sido a dinastia Taungû com sede em Pegu, no século XVI, que se virou contra o Sião, depois de ter conquistado primeiramente a Alta Birmânia.) Preocupados, a corte siamesa prontamente deu proteção aos governadores birmaneses de Martaban (Mottama) e de Tavoy que fugiram para o Sião. Em 1745, eles enviaram uma missão diplomática para Ava (Inwa) para avaliar a situação política por lá, e foram recebidos pelo rei da Birmânia Mahadhammaraza Dipadi. Eles viram uma corte em Ava que estava em pleno declínio.Wyatt, p. 113 Em 1751, as forças do Reino Restaurado de Hanthawaddy estavam se aproximando de Ava. As preocupações siamesas sobre o surgimento de outra dinastia forte baseada em Pegu parecia iminente.

Talvez, por medida de precaução, os siameses decidiram transferir a sua base avançada para a costa superior de Tenasserim em 1751.Ba Pe, pp. 145–146}}Hall, Chapter IX: Mon Revolt, p. 15 (Ou poderia ter sido uma oportunista apropriação do território, enquanto os exércitos do Reino Restaurado de Hanthawaddy estavam muito envolvidos nos conflitos na Alta Birmânia.) Apesar de ainda não estar claro se a intenção siamesa (ou se possuía a capacidade militar) para ir além da costa até o interior da Baixa Birmânia, a ação siamesa, no entanto, causou aflição em Pegu. Extremamente preocupados, a liderança Hanthawaddy chamou de volta dois terços de seu exército para reforçar a Baixa Birmânia imediatamente depois de terem deposto o último rei Taungû em abril de 1752.Phayre, pp. 150–151

Esta redistribuição de tropas Hanthawaddy provou ser um ponto crítico de mudança na história da Birmânia, uma vez que possibilitou o fortalecimento de grupos de resistência birmanesa na Alta Birmânia. O comando Hanthawaddy deixou menos de 10 000 homens para pacificar toda a Alta Birmânia. (Os historiadores chamam a redistribuição de prematura, apontando que a ameaça siamesa nunca foi tão grave como qualquer força de oposição que pudesse surgir na Alta Birmânia, a casa tradicional do poder político na Birmânia.) Aproveitando-se da pequena quantidade de tropas Hanthawaddy, um grupo de resistência, a dinastia Konbaung liderada por Alaungpaya, expulsou as tropas Hanthawaddy da Alta Birmânia em maio de 1754. Os exércitos Konbaung invadiram a Baixa Birmânia em 1755, e capturaram Pegu, em 1757, terminando com o reinado mon de dezessete anos.Harvey, pp. 219–243Hall, Chapter X: Alaungpaya, pp. 16–24

A política siamesa muda e apoia a resistência mon Para os siameses, a situação que eles tanto temiam, o surgimento de um forte poder na Birmânia, tinha se tornado realidade, embora fosse na Alta Birmânia através da dinastia Konbaung, e não no Restaurado Hanthawaddy com que eles originalmente se preocuparam. (Ironicamente, os siameses foram parcialmente responsáveis pelo sucesso inicial da dinastia Konbaung através da ocupação da costa superior de Tenasserim ajudaram a desviar o corpo principal das tropas de Hanthawaddy para o sul.) Em uma mudança política, eles agora apoiavam ativamente os grupos de resistência mon ainda que operando na costa superior de Tenasserim onde o controle birmanês era ainda nominal.

Após o saque de Pegu em 1757 efetuado pelas tropas Konbaung, os governadores de Martaban e Tavoy enviaram a Alaungpaya homenagens a fim de evitar que suas cidades tivessem o mesmo destino de Pegu.Harvey, p. 241 (O governador de Tavoy acabaria por pagar o dobro dos tributos, e seria executado posteriormente.) Enquanto agora os birmaneses reivindicassem a costa superior de Tenasserim até Tavoy, seu domínio na Baixa Birmânia ainda era tênue e especialmente na costa mais ao sul de Tenasserim costa era em grande parte nominal. De fato, quando os exércitos Konbaung retornaram para o norte em 1758, a fim de realizar suas expedições em Manipur e no norte dos Estados Shan, os mons na Baixa Birmânia deram início a uma rebelião.Htin Aung, pp. 167–168

A rebelião foi inicialmente bem sucedida, expulsando o governador birmanês de Pegu. Ela foi posteriormente sufocada pelas guarnições Konbaung locais. Os líderes da resistência mon e seus seguidores fugiram para a costa de Tenasserim controlada pelos siameses e permaneceram em atividade por lá. A fronteira tornou-se cenário de contínuos ataques e contra-ataques.Hall, Chapter X, p. 24

Casus belli Alaungpaya estava preocupado com o fluxo contínuo de rebeldes mon nos territórios controlados pelos siameses, acreditando que os mons estariam sempre conspirando para rebelar-se com a intenção de recuperar a Baixa Birmânia. (Sua preocupação provou ser justificada. O mons provocaram diversas rebeliões em 1758, 1762, 1774, 1783, 1792, e 1824-1826. Cada rebelião fracassada era seguida por mais fugas de mons para o Sião.Lieberman, p. 205) Alaungpaya exigiu que os siameses deixassem de dar apoio aos rebeldes mon, entregassem seus líderes, e parassem de incursionar na costa superior de Tenasserim, que ele considerava um território birmanês. O rei siamês Ekkathat recusou a atender as exigências birmanesas, e se preparou para a guerra.Htin Aung, pp. 169–170

Embora os historiadores em geral concordem que o apoio siamês aos rebeldes mon e suas incursões transfronteiriças foram algumas das causas da guerra, eles não concordam com (outros) motivos ocultos. Alguns historiadores de história birmanesa da era colonial britânica (Arthur Phayre, GE Harvey) buscaram minimizar as razões acima referidas como "pretextos", e sugeriram que a causa principal da guerra era o desejo de Alaungpaya de restaurar o império de Bayinnaung, (que incluía o Sião).Harvey, pp. 241, 250Phayre, pp. 168–169 David Wyatt, um historiador de história tailandesa, reconhece que Alaungpaya poderia ter temido que "Aiutaia apoiasse o renascimento do Reino de Pegu", mas acrescenta que Alaungpaya, "aparentemente um rapaz do interior um tanto bruto, com pouca experiência na arte de governar estava simplesmente continuando a fazer o que ele cedo demonstrou o que poderia fazer de melhor: conduzir os exércitos para uma guerra".Wyatt, p. 116

Mas o historiador birmanês Htin Aung firmemente relata que suas análises subestimam muito a genuína preocupação de Alaungpaya com seu governo ainda incipiente e instável na Baixa Birmânia, e que Alaungpaya nunca invadiu o Arracão, uma vez que os arracaneses não lhe demonstraram qualquer hostilidade, apesar de Sandoway (Thandwe) ao sul de Arracão ter-lhe pago tributos em 1755. Thant Myint-U também aponta a política siamesa de longa data de manter "uma proteção contra os seus velhos inimigos birmaneses" que se estendeu até a era moderna, onde as famílias dos líderes rebeldes birmaneses são autorizadas a viver na Tailândia, e os exércitos insurgentes são livres para comprar armas, munição e outros suprimentos.Myint-U, pp. 287, 299