A conquista muçulmana do Magrebe, ou conquista árabe ou omíada do Magrebe, foi a continuação da rápida expansão árabe-muçulmana que se seguiu à morte de Maomé em 632. Em 640 os árabes já detinham o controlo da Mesopotâmia, tinham invadindo a Arménia, estavam em vias de concluir a conquista da Síria bizantina e Damasco tinha-se tornado a capital do Califado Omíada. No final de 641, todo o Egito estava em mãos árabes e em 642, com a destruição do exército sassânida na Batalha de Niavende, a conquista do Império Sassânida ficou praticamente concluída.
Nessa altura, as primeiras expedições militares árabes em territórios norte-africanos a oeste do Egito foram iniciativas locais lançadas a partir deste país, e prolongar-se-iam por diversos anos, resultando na expansão do Islão.
Em 644, Otomão (Otomão ibne Afane) sucedeu ao califa Omar em Medina. Durante o reinado de doze anos de Otomão, os omíadas conquistaram o Chipre, finalizaram a anexação da Arménia e de todo o Irão e lançaram ataques em larga escala no Afeganistão e no Norte de África. No Mediterrâneo, houve raides marítimos muçulmanos desde Rodes até às costas meridionais da Península Ibérica e a marinha bizantina foi derrotada no Mediterrâneo Oriental.
Fontes para a história das conquistas Praticamente não há registos contemporâneos das invasões, especialmente das que não dizem respeito ao Egito. Dado que as histórias das guerras são usualmente escritas pelos vencedores, as fontes árabes tendem a predominar e as mais antigas que nos chegaram são as de ibne Abde Aláqueme, Baladuri e Califa ibne Caiate, todas escritos no , aproximadamente 200 anos depois das primeiras invasões. Essas fontes não são muito detalhadas e no caso da mais informativa, a História da Conquista do Egito e do Norte de África e de Espanha, de ibne Abde Aláqueme, Robert Brunschvig argumentou em 1975 que é uma obra escrita mais para ilustrar alguns aspetos da lei maliquita do que para documentar a história, embora alguns dos eventos descritos sejam provavelmente históricos.
No , académicos de Cairuão começaram a elaborar uma nova versão da história da conquista, a qual foi finalizada por Esta versão da história foi copiada na íntegra e por vezes interpolada por autores posteriores, atingindo o seu zénite no com académicos como ibne Idari, ibne Caldune e Anuairi. Esta versão difere das anteriores não apenas por ser mais detalhada, mas também por apresentar versões contraditórias de alguns eventos.
Há alguma controvérsia no que concerne aos méritos relativos de ambas as versões. Na bibliografia apresentada neste artigo, os autores Brunschvig, Modéran 2005 e Benabbès 2005 são apoiantes da versão mais antiga, enquanto que Siraj apoia a mais recente.
Primeira invasão (647-648) thumb|esquerda|Templos capitolinos de Sufétula, capital de Gregório, o Patrício, rebelde bizantino autoproclamado "imperador de África", derrotado e morto pelos invasores em 647
A primeira invasão do Norte de África, ordenada pelo califa Otomão, foi lançada em 647. Uma força de árabes vinda de Medina, na Arábia, juntou-se a outra força de igual número em Mênfis, no Egito, e marcharam sobre o Exarcado Bizantino da África liderados por Abedalá ibne Sade, começando por conquistar a Tripolitânia, no que é hoje a Líbia. O Conde Gregório, o governador local bizantino, que tinha declarado a sua independência do Império Bizantino, autoproclamando-se "imperador de África", juntou os seus aliados e enfrentou os invasores mas foi derrotado na batalha de Sufétula (atual Sbeitla, na Tunísia), cerca de 250 km a sul de Cartago. Com a morte de Gregório, todo o Norte de África ficou subjugado ao Califado Ortodoxo, ao qual pagava tributo e do qual ficou vassalo. A campanha militar durou 15 meses, tendo o exército de Abedalá regressado ao Egito em 648.
Todas as conquistas militares foram interrompidas pouco tempo depois devido à guerra civil islâmica que estalou entre fações árabes rivais que resultou no assassinato do califa Otomão em 656. Ali sucedeu a Otomão, mas também ele foi assassinado em 656.
A dinastia omíada, de califas hereditários e seculares em grande medida, estabeleceu-se em Damasco. O califa iniciou a consolidação do império omíada, que se estendia desde o Mar de Aral até à fronteira ocidental do Egito. Moáuia colocou um governador no Egito, em Fostate (antecessora do Cairo), criando uma sede de poder subordinado que iria perdurar durante os dois séculos seguintes. Moáuia prosseguiu depois com a invasão de países vizinhos não muçulmanos, atacando a Sicília e a Anatólia em 663 e conquistando Cabul, no Afeganistão, em 664.
Segunda invasão (665-689) thumb|A Grande Mesquita de Cairuão, fundada em 670 por Uqueba ibne Nafi, foi o primeiro santuário do ocidente muçulmano e durante séculos foi um importante centro religioso e académico e continua a ser apontada como a mais importante do Norte de África
Entre 665 e 689 foi lançada outra invasão do Norte de África. Segundo Will Durant, «um exército de muçulmanos avançou através do deserto até Barca, conquistou-a, e marchou para os arredores de Cartago», para proteger o Egito de um ataque de flanco pela Cirene bizantina. Um exército defensor bizantino de homens foi derrotado nestes combates.
Depois foi formada uma força de árabes comandada pelo general árabe Uqueba ibne Nafi a que se juntaram alguns milhares de outros soldados de outras proveniências. Partindo de Damasco, o exército marchou para o Norte de África e tomou a vanguarda. Em 670, a cidade de Cairuão (a aproximadamente 160 km a sul da moderna Tunes), que se viria a tornar um dos principais polos da cultura árabe-islâmica da Idade Média, foi criada como um campo de refúgio e base para as operações futuras, que se viria a tornar a capital da província islâmica de Ifríquia, que seria constituída pelas regiões costeiras do que é atualmente a Líbia ocidental, a Tunísia e a Argélia oriental.
Segundo Edward Gibbon, o temerário general «embrenhou-se no coração do país, atravessou o deserto no qual os seus sucessores erigiram as capitais esplendorosas de Fez e Marrocos, e penetrou até à beira do Atlântico e do grande deserto.» Durante a sua conquista do Magrebe (noroeste de África), Uqueba ibne Nafi sitiou a cidade costeira de Bugia e Tingi (Tânger), esmagando militarmente o que era outrora a província romana da Mauritânia Tingitana. No entanto, foi detido e parcialmente rechaçado em Tânger.
Gibbon escreveu sobre Uqueba: «este Alexandre maometano, que ansiou por novos mundos, não foi capaz de preservar as suas conquistas recentes. Devido à deserção em massa dos gregos e dos africanos, ele retirou das costas atlânticas.» As suas forças foram postas a combater diretamente a rebelião. Numa dessas batalhas, o general omíada foi cercado e morto por insurgentes. Após isso, o terceiro general ou governador de Ifríquia, Zueir, tentou vingar o desaire do seu antecessor mas teve a mesma sorte deste — apesar de ter vencido os nativos em muitas batalhas, acabou por ser derrotado por um poderoso exército enviado de Constantinopla pelos bizantinos para defender Cartago.
Entretanto decorria outra guerra civil na Arábia e na Síria entre os rivais da monarquia muçulmana, a qual resultou numa série de quatro califas entre a morte de Moáuia em 680 e a ascensão de Abedal Maleque ibne Maruane em 685. A guerra civil só terminou em 692 com a morte do líder rebelde.
Terceira invasão (692-700)
O fim da guerra civil trouxe de volta a ordem interna, o que permitiu ao califa retomar a conquista muçulmana do Magrebe, a qual recomeçou com a reconquista de Ifríquia.
thumb|Vista aérea de 1950 das ruínas da Basílica de São Cipriano, em Cartago
Os bizantinos responderam aos ataques com tropas de Constantinopla, às quais se juntaram soldados e navios da Sicília e um poderoso contingente de visigodos da Hispânia. Isso forçou o exército árabe invasor a retirar para Cairuão. Depois, segundo Gibbon, «os cristãos desembarcaram; os cidadãos aclamaram a insígnia da cruz, e o inverno foi passado indolentemente no sonho da vitória ou libertação.»
Na primavera seguinte os árabes lançaram um novo assalto por terra e por mar, forçando os bizantinos e os seus aliados a evacuar Cartago. Os árabes incendiaram e destruíram completamente a cidade, deixando a área abandonada durante os dois séculos seguintes. Outra grande batalha ocorreu em Útica, na qual os árabes foram novamente vitoriosos, forçando os bizantinos a abandonar de vez aquela parte de África. Seguiu-se uma revolta berbere contra os novos senhores árabes.
Passaram cinco anos até Hassan receber tropas frescas do califa. Entretanto o povo das cidades do Norte de África exasperaram sob um reino de destruição berbere, pelo que Hassan foi bem recebido no seu regresso. Gibbon escreve «os amigos da sociedade civil conspiraram contra os selvagens da terra; e a profetisa foi massacrada na primeira batalha.». Em 698 os árabes tinham conquistado a maior parte do Norte de África aos bizantinos. A área foi dividida em três províncias: O Egito, com o seu governador em Fostate, Ifríquia, com o seu governador em Cairuão, e o Magrebe (constituído por o que é hoje Marrocos e a Mauritânia, com o governador em Fez.
Muça ibne Noçáir, um general iemenita de sucesso na campanha, foi nomeado governador de Ifríquia e foi encarregado de esmagar uma nova rebelião berbere e de converter a população ao Islão. Muça e os seus dois filhos venceram os rebeldes e escravizaram cativos, dos quais foram oferecidos ao califa, que os vendeu. Outros cativos foram integrados no serviço militar. Muça também teve que lidar com o constante assédio da marinha bizantina, pelo que criou a sua própria marinha com a qual conquistou as ilhas cristãs de Ibiza, Maiorca e Minorca. Avançando para a Argélia, as suas tropas tomaram Argel em 700.
Conclusão da conquista Em 709 todo o Norte de África estava sob o controlo do califado árabe, possivelmente à exceção de Ceuta, na Coluna Africana de Hércules.
Outras fontes sustentam que Ceuta representava o último reduto bizantino em África e Julião, a quem os árabes chamavam Iliane, era um exarco (governador provincial) bizantino. Garcia de Valdeavellano avançou outra possibilidade: «parece mais provável que ele tenha sido um berbere que era o líder da tribo católica de La Gomera.» De qualquer forma, sendo um diplomata hábil, era conhecedor profundo das políticas dos visigodos, berberes e árabes, Julião pode também ter negociado com Muça condições de rendição que lhe permitiram manter o seu título e comando.
Nesse tempo, a população de Ceuta incluía muitos refugiados de uma guerra civil visigoda que tinha estalado na Hispânia. Entre estes encontravam-se familiares e confederados no rei Vitiza (morto em 710), cristãos arianistas fugidos à conversões forçadas da Igreja Católica Visigótica e judeus perseguidos. Talvez tivessem sido esses refugiados que, através do Conde Julião tenham pedido ajuda aos muçulmanos do Norte de África para derrubarem Rodrigo, o novo rei dos visigodos.
Segundo Gibbon, Muça recebeu uma mensagem inesperada de Julião, «oferecendo a sua cidade, a sua pessoa e a sua espada» ao comandante muçulmano em troca de ajuda na guerra civil. Embora as propriedades de Julião «fossem amplas, os seus seguidores audazes e numerosos», ele tinha «pouco a esperar muito a temer do novo reino» e demasiado débil para desafiar Rodrigo diretamente, pelo que procurou o apoio de Muça.