Frente Negra Brasileira (FNB) foi a mais importante entidade do movimento negro brasileiro na primeira metade do século XX. Criada em 1931, reuniu muitos milhares de membros, tendo filiais em vários estados, defendendo os interesses da comunidade negra, pregando o seu aperfeiçoamento moral e intelectual e lutando contra o racismo e a desigualdade. Lançou um ativo jornal, A Voz da Raça, e atraiu algumas das principais lideranças negras do período. Em 1936 transformou-se em partido político, mas foi extinta em 1937 junto com todos os outros partidos pela ditadura do Estado Novo.

A orientação ideológica da Frente tendeu predominantemente para a direita política, propondo um projeto nacionalista, autoritário e antidemocrático, aproximando-se do patrianovismo, do integralismo e do fascismo, especialmente durante a direção de Arlindo Veiga dos Santos. Contudo, havia grupos advogando programas com orientação de esquerda, o que gerou muitos atritos internos. O posicionamento ideológico da Frente tem sido um dos seus aspectos mais desafiadores para os historiadores, e desperta controvérsias entre os movimentos negros contemporâneos.

História

Origens e estrutura A Frente surgiu como decorrência da efervescência que se manifestava na comunidade negra no início do século XX. Em vários pontos do Brasil foram fundados clubes e associações que procuravam fortalecer os laços da comunidade através de atividades sociais, recreativas e educativas. Era claro neste período que apesar dos negros terem obtido a libertação da escravatura em 1888, o racismo e a discriminação ainda eram onipresentes e a conquista da cidadania plena ainda estava por ser construída. Diversos jornais também vinham sendo fundados, divulgado debates e temas de interesse para os negros, ao mesmo tempo em que eram abertas escolas para melhorar sua educação. Nesta primeira fase procurava-se a integração na sociedade sem questionar profundamente sua estrutura discriminatória, sendo consideradas prioritárias a ênfase no trabalho e o aprimoramento da educação, da moral e da disciplina, como meio do negro ganhar respeitabilidade entre os brancos e habilitá-lo para a vida profissional. Até 1930 mais de 80 associações e clubes negros funcionaram na cidade de São Paulo, sem entretanto fomentarem o desenvolvimento de uma consciência política forte, e tampouco as organizações de base e os partidos políticos brancos levavam em conta as demandas da população negra. Essa situação começou a mudar com a fundação do jornal O Clarim da Alvorada em 1924 e do Centro Cívico Palmares em 1926, que colocaram a política no centro dos debates.

Em vista do abandono ao qual os negros estavam relegados pelo sistema político e social vigente, um grupo de negros fundou em 16 de setembro de 1931 a Frente Negra Brasileira. Seu aparecimento foi de certa forma a culminância de um projeto de construção de uma associação que aglutinasse a movimentação que já acontecia nas irmandades religiosas, na imprensa negra e nas associações culturais e recreativas dos períodos anteriores, onde já se começava a debater os problemas gerados pela discriminação e se pensava em alternativas para melhorar a vida da população afro-brasileira. Seus fundadores foram Alberto Orlando, Francisco da Costa Santos, David Soares, Horácio Arruda, Vitor de Sousa, João Francisco de Araújo, Alfredo Eugênio da Silva, Oscar de Barros Leite, Roque Antônio dos Santos, Gervásio de Morais, Cantídio Alexandre, José Benedito Ferraz, Leopoldo de Oliveira, Jorge Rafael, Constantino Nóbrega, Lindolfo Claudino, Ari Cananéa da Silva, Messias Marques do Nascimento, Raul Joviano do Amaral e Justiniano Costa. Logo aderiram outros membros, entre eles Arlindo Veiga dos Santos, José Correia Leite, Salathiel Campos, Isaltino Veiga dos Santos, Jayme de Aguiar e Abdias do Nascimento.Franco, Paulo Fernando Campbell. "A trajetória do movimento negro organizado e suas estratégias de superação do racismo na sociedade brasileira (1931-2003)". In: Leopoldianum, 2019; 45 (125) thumb|esquerda|O Palacete Santa Helena, local da primeira sede da Frente

De início funcionando precariamente em um escritório no Palacete Santa Helena, em vista do rápido crescimento no número de associados a sede foi transferida para um grande casarão na Rua Liberdade, possibilitando a expansão das suas atividades. Contava com espaços administrativos, salas para reuniões, biblioteca, um salão de beleza, barbeiro, bar, local para jogos, um salão de festas, um grupo teatral, um grupo musical, gabinete dentário, uma caixa beneficente, um posto de alistamento eleitoral, espaços para cursos profissionalizantes e uma escola.

Seu primeiro presidente foi Arlindo Veiga dos Santos, que exonerou-se em 1934, sendo sucedido por Justiniano Costa. A administração era rigidamente hierarquizada e centralizada em torno da Presidência, da Secretaria e do Grande Conselho. A grande maioria dos seus membros vinha das classes baixas, enquanto os cargos na administração geralmente eram entregues a membros da elite negra, que dispunham de um preparo intelectual mais sólido e uma situação econômica relativamente confortável. Foi estruturada em diversos departamentos: Jurídico-Social, Médico, Imprensa, Propaganda, Dramático, Musical, Artes e Ofícios, Esportivo e Instrução, e lançou um jornal próprio, A Voz da Raça, um dos principais difusores das ideias e propostas da Frente, criado em 18 de março de 1933 por Fernando Costa. Também foram criados símbolos identitários — uma bandeira, um hino oficial e um hino para crianças, uniforme e carteira de identificação para os associados — e uma milícia, que embora não portasse armas e aparentemente jamais tenha entrado em ação, tinha importante função simbólica.Oliveira, Laiana Lannes de. A Frente Negra Brasileira: Política e Questão Racial nos anos 1930. Mestrado. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2002, p. 69

Programa thumb|Capa da primeira edição do jornal A Voz da Raça Tinha entre seus objetivos lutar pelos direitos sociais e políticos dos negros, buscar sua elevação moral, intelectual, artística, técnica, profissional e física, e dar assistência social, jurídica, econômica e trabalhista. Seus estatutos previam a eventual participação no processo político institucional como grupo organizado, com o objetivo de habilitar membros a concorrerem a cargos eletivos. Além de manter um programa de debates semanais sobre temas cívicos e políticos, a FNB tinha entre suas prioridades a educação, desenvolvendo uma postura crítica em relação à falta de diretrizes públicas educacionais para a população negra. Surgindo em um momento de tumulto político e social, em que Getúlio Vargas subira ao poder através de uma revolução com um programa de construção de um Estado forte, nacionalista, populista e autoritário, a Frente — que apoiava Getúlio, assim como a maioria dos negros do país — tendeu também a defender um projeto nacionalista, de viés autoritário e contrário à democracia, aproximando-se do patrianovismo, do integralismo, do fascismo e do nazismo. Isso não chegou a ser uma unanimidade dentro da organização, sendo com efeito uma frente ideológica ampla e heterogênea, com muitos membros partidários da esquerda, o que mais tarde produziria disputas e uma cisão interna. Também havia a penetração de uma significativa influência católica. A Frente ainda criticava o projeto imigrantista desenvolvido pelo governo desde o século XIX, acusando os imigrantes de roubarem o trabalho dos negros, e tendia a rechaçar as tendências de esquerda porque via o capitalismo como um dos instrumentos para a ascensão social e econômica do negro.

Para algumas das principais lideranças da frente, em particular Arlindo Veiga dos Santos, a "elevação" e integração do negro na sociedade em pé de igualdade com os brancos passavam primeiro pela sua educação e modernização e pelo cumprimento de seus deveres cívicos, articulando um projeto não apenas antirracista, mas acima de tudo civilizatório, onde não estavam ausentes traços das teorias eugênicas de aperfeiçoamento racial, muito populares na época. Os meios autoritários e disciplinatórios imaginados pelas lideranças para alcançar esses objetivos eram prática comum e marcante em todas as correntes políticas de então, mas ainda é obscuro até que ponto essa ideologia era abraçada pela massa dos associados ou se era apenas produto dos dirigentes. Segundo o sociólogo Rodrigo Estramanho de Almeida, "a doutrina de Veiga e dos estatutos da FNB são assim, de algum modo, condicionados pela doutrina maior dos anos 1930, que é o autoritarismo como instrumento de construção do moderno. [...] Mais importante do que o reconhecimento das raízes históricas e culturais do povo preto, era sua incorporação na ordem brasileira moderna".Almeida, Rodrigo Estramanho de. "Notas para reflexão sobre a doutrina política da Frente Negra Brasileira (1931-1937)". In: Ponto & Vírgula, 2020 (26) Para Silva & Toledo, "a perspectiva frentenegrina e sua atuação não foram de ruptura, pelo contrário, foram de aproximação e de certa forma, de sujeição e aceitação de padrões impostos pela moderna sociedade industrial e burguesa. Sua postura era de contestação, mas sua proposta era de assimilação".Silva, Antônio Carlos da & Toledo, Maria José Acedo Del Olmo. "Frente Negra Brasileira: uma proposta emancipadora na perspectiva do negro". In: XVII INIC / XIII EPG / III INID. UNIVAP, 2013 Naquele período, segundo Márcio Macedo, ainda não emergira a questão do resgate da memória africana como elemento fortalecedor da identidade negra, que só seria desenvolvida mais tarde.Machado, Leandro. "Frente Negra: a história do movimento que apoiava o integralismo e foi pioneiro do ativismo negro no país". BBC Brasil, 13/06/2020

Em sua luta pelos direitos dos negros, acabava por utilizar argumentos discriminadores contra a própria comunidade, entendendo que a massa dos negros ainda não era civilizada, e para emancipar-se precisava abandonar hábitos negativos e depreciativos, como o alcoolismo e a ociosidade, e adotar valores que eram atribuídos aos brancos bem sucedidos. Em muitos artigos do Voz da Raça se fazia menção a diferenças entre os negros. Aqueles que não adotassem os valores positivos apregoados eram considerados inimigos da raça e do movimento. Como disse Hildeberto Martins, "seguir certo padrão (moral) de conduta era o caminho viável para que isso [a integração] acontecesse, e por isso não beber tanto, alisar o cabelo, seguir a doutrina cristã e estar devidamente trajado seriam exemplos da aceitação e inserção nesse processo civilizatório, calcado nos moldes de um padrão social esperado e desejável (burguês e branco)".Martins, Hildeberto Vieira. "Outros personagens entraram em cena: o movimento negro e a emergência de uma política racializada". In: Estudos e Pesquisas em Psicologia, 2018; 18 (4): 1393-1414 Um artigo de Isaltino Veiga dos Santos no jornal da entidade e dirigido "aos negros de boa vontade", dizia:

"[...] ou o negro brasileiro se define de uma vez por todas como gente séria, de caráter, nobre, morigerada, capaz de sacrifícios pela coletividade, capaz de compreender as grandes causas que sacodem a Pátria Brasileira e a humanidade toda, — ou deve ser varrido e aniquilado como gente perniciosa, incapaz de compreensão, incapaz de se premunir contra exploradores imorais, contra pescadores de águas turvas, contra os inimigos do próprio Negro e da Nacionalidade".Apud Martins, op. cit.