thumb|300px|Museu Ambiência Casa de Pedra em Caxias do Sul, instalado em uma residência do fim do século XIX, então na zona rural A arquitetura colonial italiana no Rio Grande do Sul foi um ciclo cultural desenvolvido na região de imigração italiana no Rio Grande do Sul, Brasil, entre 1875 e c. 1960, representando um legado de grande importância arquitetônica, histórica e cultural. Inicialmente destinada a atender a necessidades urgentes de abrigo, no contexto da difícil colonização da Serra Gaúcha, e sendo por isso de caráter impermanente e precário, a arquitetura vernacular desenvolvida na região em pouco tempo evoluiu e se diversificou, ganhou imponência e durabilidade, revestiu-se de uma estética em muitos aspectos original, e em seu apogeu, que ocorre entre o início do século XX e aproximadamente a década de 1940, foi associada a questões de identidade cultural e status social.
Suas características têm variações geográficas, tipológicas e cronológicas, mas em linhas gerais essa arquitetura é definida pela simplicidade de formas, pela originalidade no uso dos materiais, pelas criativas soluções estruturais e decorativas, pela solidez da construção — que pode ser em madeira ou pedra — pelo aspecto austero e digno e pela harmoniosa inserção na paisagem. Igrejas e capelas costumavam ser as categorias mais ornamentais e grandiosas, sendo os receptáculos do melhor do seu patrimônio em arte.
A importância da arquitetura colonial italiana no Rio Grande do Sul apenas há pouco tempo vem sendo reconhecida pelos pesquisadores e pelo público em geral. Como consequência, a maior parte das edificações do período em foco desapareceu sob a onda de progresso e aculturação da segunda metade do século XX em diante, perdendo-se neste processo um acervo que desenhou a face de muitas comunidades italianizadas, definiu muito das suas raízes e da sua identidade coletiva, e explicitava visualmente sua evolução social, econômica, política e cultural. Daí o seu valor como documento histórico. A consciência desse valor para o conhecimento da história regional e das origens comunitárias, bem como para o fortalecimento do senso de identidade, pertença e cidadania entre os herdeiros do que restou desse legado, lentamente emerge entre os descendentes dos imigrantes, academias, associações e Poder Público, que começam a desenvolver vários planos de recuperação, preservação, estudo e divulgação dos exemplares sobreviventes, buscando inseri-los na vida contemporânea, mas a conscientização ainda é fraca e muitas perdas continuam acontecendo.
Contexto da imigração
A imigração italiana para o Brasil aconteceu como resultado de um programa governamental para a povoação e incremento econômico de zonas desocupadas, e como parte de uma estratégia social concomitante de branqueamento da população brasileira.Herédia, Vania. A imigração européia no século passado: o Programa de Colonização no Rio Grande do Sul. IN Scripta Nova, Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona, Nº 94 (10), 1 de agosto de 2001 Ao mesmo tempo, o movimento abolicionista ganhava corpo e se tornou evidente que a escravidão no Brasil estava com seus dias contados, um panorama que oferecia perspectivas difíceis no que diz respeito à oferta de mão de obra barata, especialmente para as lavouras de café, na época uma das principais atividades econômicas do país. A importação de mão de obra livre aparecia assim como uma saída para a crise iminente, e foi mesmo um dos fatores que tornaram possível a efetiva abolição da escravatura anos mais tarde. Por uma coincidência histórica, a Itália na época estava enfrentando a sua própria crise. Um conglomerado de pequenos reinos unificados recentemente, a Itália passava por um árduo processo de adaptação a uma realidade social nova, tendo sua base econômica muito enfraquecida. A agricultura estava em declínio, grassavam a fome e a pobreza, exacerbadas pelo excesso populacional, e um sistema político oligárquico e opressor das classes baixas continuava a vigorar mesmo com nova roupagem. Milhares de braços já não encontravam trabalho e a solução foi procurá-lo algures, e a partir de 1875 a emigração italiana para terras brasileiras se tornou um fenômeno de grande escala: entre 1875 e 1888 entrou no país cerca de um milhão de italianos.Bertussi, Paulo Iroquez. Elementos de Arquitetura da Imigração Italiana. IN Weimer, Günter (org). A Arquitetura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. pp. 122-123Trento, Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. Studio Nobel, 1989. pp. 25-34Posenato, Júlio. A Arquitetura do Norte da Itália e das Colônias Italianas de Pequena Propriedade no Brasil. IN Martins, Neide Marcondes & Bellotto, Manoel Lelo. Turbulência cultural em cenários de transição: o século XIX ibero-americano. EdUSP, 2004. p. 51 A onda continuou até a segunda década do século XX, totalizando cerca de 1,5 milhões de pessoas, 70% delas permanecendo em São Paulo.Posenato, p. 52 Deste contingente, cerca de 75 mil pessoas se dirigiram para o Rio Grande do Sul até 1914, quando o ciclo imigratório é concluído em sua maior parte.Bertussi, pp. 123-124
A colonização planejada no Rio Grande do Sul iniciara de fato no início do século XIX com elementos germânicos, que se fixaram na região ao norte de Porto Alegre, mas problemas nos contratos de imigração levaram a Província a reformular seus planos em 1875. As empresas responsáveis, Companhia Caetano Pinto & Irmãos e Holtzweissig & Cia, foram afastadas e o programa de colonização foi devolvido ao Governo Imperial, intensificando-se então a chegada de italianos. Depois de uma travessia oceânica em más condições, chegavam em Porto Alegre e eram encaminhados a São Sebastião do Caí, de onde seguiam para seu destino definitivo no alto da serra gaúcha, nas colônias Conde D'Eu, Dona Isabel, Fundos de Nova Palmira e Silveira Martins, que vieram a constituir os núcleos principais da fixação italiana no estado.
Evolução e características gerais da arquitetura colonial thumb|left|Casa de Italo Massotti, Caxias do Sul, fim do século XIX, exemplar da primeira fase
A primeira habitação do colono na serra foi um barracão de madeira, uma habitação coletiva onde eram reunidos todos os recém-chegados até que as terras fossem distribuídas. Em seguida, recebiam um lote relativamente pequeno, de 25 ha, devendo reembolsá-lo ao governo após um prazo. Enquanto isso, era-lhes dado um título provisório de propriedade, ratificado ao fim do pagamento. De início a economia desenvolvida foi precária e voltada para a subsistência, já que os colonos só podiam contar com um apoio oficial muito limitado, logo tendo de viver por conta própria.
Neste terreno, ainda em larga medida selvagem e coberto de espessa mata de araucária, a família providenciava um abrigo improvisado, mas assim que possível erguiam algo um pouco melhor, casebres de cerca de 4 x 6 m, com uma ou duas janelas, uma só porta, cobertos por telhas de madeira lascada (scandole), e que serviam para tudo, de vivenda a depósito, até que a propriedade se organizasse e começasse a dar algum rendimento. A ampliação das benfeitorias seguiu um ritmo natural, segundo as necessidades e utilizando os materiais disponíveis na região, especialmente a pedra e a madeira, em menor frequência os tijolos artesanais de barro, que logo se tornaram mais comuns com a fundação de diversas olarias. Surgiam então a cantina, estábulo, paióis, chiqueiro, forno, uma cozinha separada, latrina e outras estruturas. O crescente uso do tijolo possibilitou que a cozinha, nas edificações de madeira por regra separada da habitação a fim de evitar o risco de incêndios, pudesse ser agregada ao corpo da casa principal.
Eram mais comuns as casas de dois pisos, um deles em forma de sótão, às vezes com um porão semienterrado que tinha uso múltiplo, servindo como depósito, cantina e oficina; três ou quatro pisos eram raros no início, mas à medida que as colônias enriqueciam também se tornaram comuns. O pavimento principal era composto de dormitórios e uma sala de tamanho variável, que nos exemplos mais pobres se resumia a um corredor alargado que apenas interligava os outros aposentos. O sótão podia ter quartos de dormir ou servir como depósito. A cozinha, seja pegada à casa ou separada, sempre tendeu a ser um espaço autônomo.Milano, Daniela Ketzer. "Arquitetura da Imigração Italiana: A vila operária de Galópolis (1906-1941)". In: VI Semana de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação do UniRitter. Centro Universitário Ritter dos Reis, 8 a 12 de novembro de 2010
Dispondo de espaço, desde logo os hábitos de construção divergiram daqueles praticados originalmente na Itália. Lá os habitantes residiam em pequenas vilas com unidades habitacionais aglomeradas, e iam aos campos do entorno para trabalhar, e suas residências incluíam depósitos e abrigos de animais num único bloco. No Brasil, salvo nas sedes das colônias, que se desenvolveram como vilas e cidades, a vida rural se organizou em propriedades unifamiliares mais ou menos autosuficientes e com vivendas distantes entre si, que tinham a maior parte de suas benfeitorias nitidamente separadas no espaço.Bertussi, pp. 124-125
Apesar de serem em sua grande maioria agricultores, muitos colonos tinham conhecimentos em ofícios diversos, como ferraria, cantaria, marcenaria, o que facilitou sua instalação. Também trouxeram uma herança arquitetônica significativa, a qual, adaptada ao contexto encontrado no Brasil, ao equipamento escasso e primitivo, e aos materiais disponíveis, gerou, no entender de Filippon & Meneguz, uma arquitetura de características únicas, que tinha seus maiores valores no racionalismo e na praticidade.Filippon, Maria Isabel & Meneguz, Silvia Regina Fachin. Humanismo latino e padrão estético: portas e janelas na arquitetura dos imigrantes italianos de Monte Belo do Sul - do prático ao iconográfico. IN Bombassaro, Luiz Carlos, Dal Ri Júnior, Arno & Paviani, Jayme (orgs). As interfaces do humanismo latino. EDIPUCRS, 2004. p. 557 Segundo Júlio Posenato, nenhum ciclo arquitetônico brasileiro mostrou tamanha diversidade de soluções quanto a arquitetura colonial italiana.Posenato, p. 56
Posenato também ofereceu um delineamento cronológico do processo de evolução dessa arquitetura, identificando diversas fases:
A primeira é marcada pelo caráter temporário das edificações, durante a primeira década após a chegada, quando a sobrevivência estava em primeiro plano e a arquitetura recebia uma atenção mínima. A primeira instalação no terreno se dava com abrigos provisórios constituídos de troncos ocos, tendas de panos ou choupanas de ramagens ou taipa cobertas com palha. Estabelecidos, passavam a construir uma habitação apenas ligeiramente melhor, com paredes de pedra bruta ou madeira rachada rusticamente, e cobertas de scandole.Posenato, pp. 58-59
A segunda etapa corresponde ao período de início da edificação de construções pretendidas como permanentes, quando a propriedade já estava estabilizada e proporcionava sustento suficiente. O tamanho das casas aumentou, mas ainda não havia vidro para janelas, a grande maioria dos materiais se preparavam de modo artesanal e o despojamento plástico era a tônica.