Lé (; ) é a capital do distrito homónimo do território da união do Ladaque, no noroeste da Índia. No passado, foi a capital do reino tibetano do Ladaque, cujo território corresponde aos atuais distritos de Lé e de Cargil.

O município de Lé tinha habitantes em 2011. Com de área, o distrito é o segundo mais extenso da Índia, depois do de , no Guzerate. Em 2011, o distrito tinha habitantes ().

A cidade é dominada pelas ruínas do Palácio de Lé, a antiga residência da família real do Ladaque, construído no mesmo estilo e aproximadamente na mesmo período do Palácio de Potala, em Lassa, a residência do Dalai Lama até à revolta de 1959 contra a ocupação chinesa. Lé situa-se a metros de altitude e está ligada ao resto da Índia por duas estradas: uma em direção a ocidente, até Serinagar (a 415 km), ao longo do vale do Indo, e outra em direção a oriente, até Manali (475 km), no estado do Himachal Pradexe.

História thumb|294px|Fotografia de Lé datada de 1909

thumb|294px|Vista da parte antiga de Lé, com a colina do antigo palácio real. Este não é visível na fotografia e situa-se à esquerdao Mosteiro de Namgyal Tsemo à direita, mais acima. No cimo da colina vê-se o Mosteiro de Namgyal Tsemo e à esquerda dele, mais abaixo, os mosteiros de Chamba e de Chenresi.

Durante muitos séculos, Lé foi um importante ponto de passagem das rotas comerciais ao longo vale do Indo, entre o Tibete, a oriente, Caxemira, a ocidente, e também entre a Índia e a China. As principais mercadorias transportadas eram sal, cereais, pashm (casimira), charas e resina de canábis da bacia do Tarim, indigo, fio de seda e brocados de Benares.

Embora haja alguns indícios de que os chineses conheciam a rota comercial através do Ladaque para a Índia pelo menos desde o período Cuchana (séculos I a ) e certamente durante a Dinastia Tang (), pouco se sabe de concreto sobre a história da região antes da formação do reino em finais do pelo príncipe tibetano Skyid lde nyima gon (ou Nyima gon), um neto do imperador antibudista Langdarma , que conquistou o Tibete Ocidental apesar de originalmente o seu exército ter apenas 300 homens. Diz-se que Nyima gon fundou várias cidades e castelos e aparentemente foi ele quem mandou construir as principais esculturas de Shey. Numa inscrição ele diz que as fez para o benefício religioso de Tsanpo (o nome dinástico do seu pai e seus antepassados) e de todo o povo de Ngaris (Tibete Ocidental), o que demonstra que nessa geração a oposição de Langdarma ao budismo já tinha desaparecido. Shey, situada 15 km a leste da Lé moderna, era a antiga capital dos reis ladaques.

Durante o reinado de Delegs Namgyal , o nababo de Caxemira, então uma província do Império Mogol, arranjou forma do exército mogol deixar temporariamente o Ladaque (embora depois tivesse regressado). O nababo apoiou Delegs Namgyal na Guerra Tibete–Ladaque–Mogol de 1679–1684, mas fez exigências muito onerosas em troca. Uma das exigências menores foi a construção de uma grande mesquita sunita na extremidade mais alta do bazar de Lé, abaixo do palácio real. A mesquita apresenta uma mistura de elementos arquitetónicos islâmicos e e tem capacidade para mais de 500 pessoas. Aparentemente não foi a primeira mesquita em Lé, pois há duas mais pequenas que se diz serem mais antigas.

Diversas rotas comerciais tradicionais convergiam em Lé, de norte, sul, leste e oeste. A rota mais direta é a da estrada moderna que vai desde o Panjabe passando por , vale de Kulu, passo de Rohtang, Lahaul e segue para o vale do Indo até Lé. A rota desde Serinagar seguia aproximadamente o percurso da estrada que atualmente atravessa o (passo de Zoji) em direção a Cargil e depois subia ao longo do vale do Indo até Lé. Desde o Baltistão havia duas rotas difíceis. A principal subia o vale do rio Shyok desde o Indo, passava por um passo de montanha e depois descia ao longo do rio Hanu até chegar novamente ao vale do Indo abaixo de Khaltsi (Khalatse). A outra partia de Skardu, subia o vale do Indo até Cargil e depois seguia para Lé. Havia ainda rotas de verão e de inverno de Lé para Iarcanda, em Xinjiang, ao longo do Caracórum e um par de rotas possíveis de Lé para Lassa.

A primeira residência real do Ladaque de que há registo foi construída no cimo do pico Namgyal ("vitória"), acima do palácio atual e da cidade, pelo rei Tashi Namgyal, que governou no último quartel do . Atualmente no local existem ruínas de um forte e o gon-khang (templo das divindades guardiãs). O templo Namgyal , também chamado Tsemo Gompa (gompa/mosteiro vermelho) e dGon-pa-so-ma ("mosteiro novo") é o principal centro budista de Lé. Atrás dele há algumas antigas muralhas de fortificações, que segundo August Hermann Francke dantes era conhecidas como aBrog-pal-mkhar ("castelo dardo"). Se de facto foi construído pelos    deve ter precedido o estabelecimento dos governantes tibetanos no Ladaque em mais de mil anos. Abaixo desse templo encontram-se os mosteiros de Chamba (Byams-pa. ou seja, de Maitreya) e de Chenresi (sPyan-ras-gzigs, ou seja, Avalokiteshvara), cuja data de fundação é incerta.

thumb|294px|Palácio real (à esquerda), minaretes da Grande Mesquita (Jama Masjid; à direita) e Mosteiro de Namgyal Tsemo (em cima, ao centro)

De acordo com Francke, o nome original da cidade não era sLel, como era pronunciado no final do , mas sLes, que significa "acampamento de nómadas" em , uma referência a nómadas tibetanos que provavelmente tinham o hábito de visitar o vale de Lé na altura em que ele tinha começado a ser irrigado por colonos dardos.

O palácio real, conhecido como Palácio de Lé, foi construído pelo rei Sengge Namgyal , presumivelmente entre o período em que o padre jesuíta português Francisco de Azevedo visitou Lé em 1631 e a ele fez menção, e a morte de Sengge Namgyal em 1642. O palácio tem nove andares; os superiores eram a residência da família real e os inferiores eram estábulos e armazéns. O edifício foi abandonado quando tropas caxemires o cercaram em meados do e a família real se mudou para sul do local onde vive atualmente em Stok, na margem sul do Indo.

O primeiro inglês a visitar Lé foi William Moorcroft, um explorador ao serviço da Companhia Britânica das Índias Orientais em que lá chegou em setembro de 1820 e lá passou vários meses, tendo assinado um tratado comercial com o governo do Ladaque que «abriu virtualmente toda a Ásia Central ao comércio britânico».

Geografia Lé situa-se numa área cuja paisagem é dominada por montanhas, a uma altitude de . As principais estradas de acesso ligam a cidade a Serinagar (434 km a oeste), e a Manali (473 km a sul). Ambas estão só estão abertas na totalidade no verão, quando há menos neve nos passos de montanha. As estradas locais no vale do Indo geralmente permanecem abertas no inverno devido ao baixo nível de precipitação de chuva e neve.

Clima O clima de Lé é do tipo desértico frio (classificação de Köppen-Geiger BWk), com invernos frios e longos, de outubro ao início de março, com temperaturas mínimos bastante abaixo de 0°C durante a maior parte desse período. Por vezes neva na cidade no inverno. O clima durante o resto do ano é geralmente ameno durante o dia. A precipitação média anual é de apenas 102 mm e a temperatura varia entre -42 °C no inverno a 33 °C no verão. Em 2010 a cidade foi atingida por que no conjunto do Ladaque provocou pelo menos 219 mortos mais de 600 desaparecidos.

Demografia e religião thumb|Músicos durante o Dosmoche, juntamente com o Losar, uma das duas festas budistas mais importantes de Lé

thumb|Jama Masjide, a Grande mesquita de Lé, com a bandeira do Tibete em primeiro plano

Os habitantes nativos são etnicamente tibetanos e falam lehskat, um dialeto da língua ladaque (ladakhi), também chamada tibetano ocidental, que apesar de ser uma língua tibética, não é mutuamente inteligível com o tibetano padrão.

Religião Em 2011, 43,9% da população do município de Lé era budista 35,4% hindu, 15,4% muçulmana, 2,7% sique, 0,9% cristã, 0,05% jainista e 0,17% eram ateus ou professavam outra religião.

Em 2011, o município de Lé tinha habitantes, (70,2%) do sexo masculino e (29,8%) do sexo feminino. A grande disparidade entre o número de homens e mulheres deve-se ao facto de muitos dos habitantes serem imigrantes de outras regiões da Índia. A percentagem da população com 6 anos de idade ou menos era 5,5%. A taxa de analfabetismo era 9,7%, inferior à do antigo estado de Jamu e Caxemira, que era de 32,8%. A taxa de analfabetismo dos homens era de 5,1% e a das mulheres 21,5%. No mesmo ano, estavam registadas casas.

Desde o que não há registos de conflitos religiosos graves na cidade. Em anos recentes houve alguma deterioração nas relações entre budistas e muçulmanos, alegadamente devido a conflitos menores motivados por interesses políticos. Essa situação foi ultrapassada após o Dalai Lama ter visitado Lé e apelado ao respeito pelo pluralismo religioso e à coexistência pacífica.

As outras comunidades vivem igualmente em harmonia. A pequena comunidade cristã de Lé é constituída por descendentes de antigos seguidores do budismo tibetano que foram convertidos por missionários alemães da Igreja Morávia, que estabeleceram uma igreja em Keylong na década de 1860 e foram autorizados a abrir outra missão em Lé em 1885, que teve um ramo em Khalatse. As missões dos irmãos morávios estiveram ativas até à independência da Índia em 1947. Não obstante o sucesso das suas atividades de assistência média e de educação, fizeram poucas conversões.

Desde 1997 que todos os anos em junho se realiza em Shey, a 15 km de Lé, o Festival Sindhu Darshan, que promove a harmonia religiosa e a glória do rio Indo (também chamado rio Sindhu) como símbolo da harmonia e unidade da Índia. O festival atrai milhares de visitantes à cidade, vindos de toda a Índia e também do estrangeiro.

Economia thumb|Main Bazaar, a principal rua de comércio de Lé

A maior parte dos habitantes do Ladaque vive da agricultura, mas o turismo tem vindo a ganhar cada vez mais importância desde que a área foi aberta a visitantes em 1974. Em 2010 havia 250 hotéis em Lé, e o Ladaque foi visitado por turistas (mais do dobro da população de Lé). Entre 2005 e 2010, o número de visitantes cresceu 77%, em grande parte devido ao crescimento das visitas de cidadãos indianos.

Agricultura Devido à grande altitude, só é possível uma colheita por ano na região de Lé, ao contrário do que acontece em Khalatse, na parte ocidental do distrito e a jusante do Indo, onde são realizadas duas colheitas por ano. Na altura em que as sementeiras são feitas em Lé, em maio, as culturas em Khalatse já estão crescidas. A principal cultura é uma antiga forma de cevada dita "soturna" (grim) ou "nua" (naked) em inglês, Hordeum vulgare var. nudum, mais fácil de descascar do que a cevada comum, a partir da qual é fabricada a tsampa, o alimento básico no Ladaque. A água para a agricultura é proveniente do rio Indo, cujo caudal é baixo em março e abril, quando as searas de cevada têm mais necessidade de irrigação.

Transportes Estradas thumb|esquerda|A perto de Lé

thumb|esquerda|A estrada Manali–Lé em Upshi, uma aldeia 49 km a sudeste de Lé

Lé está ligada ao resto da Índia através de duas estradas de alta altitude, ambas sujeitas a frequentes deslizamentos de terra e encerradas durante o inverno, quando ficam cobertas de neve espessa.