O teatro de Machado de Assis refere-se à toda produção teatral do escritor brasileiro. Essas peças não usufruem nem usufruíram de maior admiração crítica e popular tanto quanto seus romances e contos, no entanto muitas vezes são alvo de análise. Antes mesmo de escrever sua primeira peça, Machado frequentou muitos teatros cariocas e escreveu críticas ao que concerne a interpretação dos artistas, a decoração e os figurinos dos espetáculos.Faria, 2001, p.109. Em seu trabalho crítico O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura (1858) lamentou nas linhas finais o demasiado uso de traduções nos palcos brasileiros, o que o motivou a buscar uma formação de teatro voltada a questões nacionais.Calzavara, 2008, p.2

Visão geral As peças teatrais machadianas foram publicadas entre 1860 a 1906 e são comédias satíricas onde os personagens são geralmente da alta burguesia, cultos, espirituosos e elegantes que "mantêm diálogos aos quais não faltam chistes, bom humor e ironia refinada".Calzavara, 2008, p.3. Em vez das tragédias neoclássicas, dramas românticos e comédias realistas de origem ou inspiração francesa, em voga na época, Machado preferiu o chamado "provérbio dramático", gênero surgido no final do século XVII, nos salões aristocráticos franceses,João Roberto Faria, "O Comediógrafo". Jornal da Unicamp, 25-31/8/2008, pág. 12. Disponível em uma "comédia elegante", "em um ou no máximo dois atos", "que tira partido da vivacidade dos diálogos e da espirituosidade das personagens",Dicionário do Teatro Brasileiro: Temas, Formas e Conceitos, 2009, págs. 280-1. ISBN 978-8598112886. Ver também verbete "Proverbe (théâtre)" na Wikipedia francesa. praticada na França por autores como Octave Feuillet e Alfred de Musset.

Lista de peças

Hoje Avental, Amanhã Luva (1860) Desencantos (1861) O Caminho da Porta (1863) O Protocolo (1863) Quase Ministro (1864) As Forcas Caudinas (1865/1956) Os Deuses de Casaca (1866) Uma Ode de Anacreonte (1870) Tu Só, Tu, Puro Amor (1880) Não Consultes Médico (1896) Lição de Botânica (1906)

Além das peças acima, há outros escritos que devem ser considerados quando se trata da obra dramática de Machado de Assis:

Odisséia dos Vinte Anos: Uma peça inacabada, publicada em março de 1860, após Hoje Avental, Amanhã Luva, no periódico A Marmota.SIMIONATO, Juliana Siani. A Marmota e seu perfil editorial: contribuição para edição e estudo dos textos machadianos publicados nesse periódico (1855-1861). 2009. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27152/tde-02022010-175327/. Acesso em: 30 dez. 2025.

Queda que as mulheres têm para os tolos: Texto de 1861, geralmente listado erroneamente no volume do teatro completo do autor, onde não deveria estar, visto tratar-se de um ensaio satírico traduzido.SILVA, Ana C. Suriani da. Texto original, tradução, adaptação ou imitação?. Disponível no Jornal da Unicamp. Consultado em 24 de janeiro de 2013

Suplício de uma Mulher: Uma tradução feita por Machado da peça Le Supplice d’une femme, de Alexandre Dumas e Émile de Girardin, encenada no mesmo ano de publicação da original, em 1865.Suplício de uma mulher. Tradução de Machado de Assis. Rio de Janeiro, RJ: W. M. Jackson, 1937.BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario Bibliographico Brazileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1883. 7 v.

Uma Investigação (1873) e Os Prisioneiros (1874): Crônicas em forma de cena dramática, da série Badaladas. A atribuição de Machado à totalidade destas crônicas, porém, é incerta.

A Sonâmbula, Antes da Missa, Filosofia de um Par de Botas e O Bote de Rapé: Contos com elementos dramáticos, todos publicados em 1878 sob o pseudônimo Eleazar no jornal O Cruzeiro.

Diálogo dos Astros: Crônica em forma de diálogo dramático, da série Balas de Estalo, publicada em 20 de junho de 1885.

O Melhor Remédio (1884), Viver! (1886) e Lágrimas de Xerxes (1899): Contos com elementos dramáticos.

Reputação crítica Os críticos não admiram o teatro de Machado tanto quanto seus romances e contos. Já no século XIX, por exemplo, Quintino Bocaiúva afirmava que suas peças teatrais eram mais adequadas à leitura do que à representação.apud Calzavara, 2008, p.3. Esta opinião também é aceita nos dias de hoje onde alguns veem suas comédias como possuidoras de "um tom moralizante, são bem escritas, mas pecam por um excesso de retórica, isto é, pela falta de naturalidade nos diálogos". A pesquisadora Juracy Assmann Saraiva traz a seguinte avaliação de João Roberto Faria sobre as comédias machadianas: por retratarem a vida social da burguesia carioca emergente por meio de enredos amorosos, elas funcionariam como um esboço para a "alta comédia" de maior fôlego que o autor nunca chegou a escrever. Porém, a autora sugere que esse projeto teria se concretizado, na verdade, nos romances da maturidade de Machado.SARAIVA, Juracy Assmann. Personagens em cena na ficção machadiana. Machado de Assis em Linha, v. 15, e263647, 2022, apud FARIA, João Roberto, 2012, p. 183.

Outra opinião atual, porém, vê que Machado era conhecedor dos elementos cênicos e teatrais e que seu repertório é visto como de valor significativo, uma vez que representa a sociedade e faz parte de um movimento interessado em criar um teatro brasileiro. Nessa linha, João Roberto Faria pondera que o julgamento severo do teatro de Machado decorre, em parte, da comparação com os romances e contos posteriores a 1880, mas destaca que nas suas duas últimas comédias, Não Consultes Médico (1896) e Lição de Botânica (1906), há um "melhor apuro formal, diálogos mais brilhantes e personagens mais bem caracterizados" em relação às peças de juventude, chegando a classificar a última como "uma pequena joia de alta literatura".Entrevista com João Roberto Faria. Machado de Assis em Linha, v. 13, n. 29, 2020.

Bibliografia ASSIS, Machado. Teatro Completo. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, Serviço nacional de Teatro, 1982. __________. Teatro de Machado de Assis. Edição preparada por João Roberto Faria. São Paulo: Martins Fontes, 2003. CALZAVARA, Rosemari Bendlin. Comédias Refinadas: o teatro de Machado de Assis. XI Congresso Internacional da ABRALIC, USP, 2008. Disponível em http://www.andrelg.pro.br/simp%F3sios/ROSEMARI_BENDLIN_CALZAVARA.pdf FARIA, João Roberto. O teatro realista no Brasil: 1855-1865. São Paulo: Perspectiva: Editora da Universidade de São Paulo, 1993. __________. Idéias teatrais: o século XIX no Brasil. São Paulo: Perspectiva/FAPESP, 2001. MAGALDI, Sábato. Panorama do teatro brasileiro. São Paulo: Global, 1999. PROPP, Wladimir. Comicidade e riso. São Paulo: Ática, 1992.

Ligações externas

Categoria:Teatro do Brasil Categoria:Machado de Assis