Cannibal Holocaust é um filme italiano de 1980, do subgênero gore, dirigido por Ruggero Deodato, com roteiro Gianfranco Clerici. É estrelado por Robert Kerman, Carl Gabriel Yorke, Francesca Ciardi, Perry Pirkanen e Luca Barbareschi. Influenciado pelas obras Mondo do diretor Gualtiero Jacopetti,Ortolani, Riz (interviewee) (2003). In the Jungle: The Making of Cannibal Holocaust (Documentary). Italy: Alan Young Pictures. o filme foi inspirado pela cobertura da mídia italiana com relação aos atos terroristas das Brigadas Vermelhas, cujas reportagens incluíam notícias que Deodato acreditava serem encenadas, uma ideia que se tornou um aspecto central na história do filme.Deodato, Ruggero (12 de novembro de 2000). "Cult-Con 2000". Cannibal Holocaust DVD Commentary(Interview). Interview with Sage Stallone, Bob Murawski. Tarrytown, New York. Cannibal Holocaust foi filmado principalmente no território colombiano da floresta Amazônica, com tribos indígenas interagindo com atores americanos e italianos.Cinema Inferno: Celluloid Explosions from the Cultural Margins. Weiner, Robert G.; Cline, John (Editors). Scarecrow Press, Inc., 2010. .
O enredo gira em torno de uma equipe de quatro documentaristas desaparecidos que haviam ido à Amazônia para filmar tribos canibais. Uma missão de resgate, liderada pelo antropólogo da Universidade de Nova Iorque Harold Monroe recupera as fitas de gravações perdidas feitas pelos documentaristas, que uma emissora de televisão americana deseja transmitir. Ao assistir às filmagens, Monroe fica desgostoso com as ações da equipe, e depois de descobrir seus destinos, ele opõe-se à intenção da emissora de transmiti-la. A forma como foram apresentadas as filmagens perdidas da equipe, funcionando de forma semelhante a um flashback, revolucionou o estilo de filmagem found footage, mais tarde popularizado por filmes como The Blair Witch Project (1999).
Cannibal Holocaust é conhecido pela controvérsia e polêmica que causou logo após sua estreia. Depois de ser exibido na Itália, o filme foi apreendido por um magistrado local, e Deodato foi preso por acusações de obscenidade. Posteriormente, ele foi acusado de ter feito um filme snuff, devido aos rumores que afirmavam que certos atores foram realmente mortos. Apesar de o diretor ter sido mais tarde inocentado dessas acusações, o filme foi proibido na Itália, Reino Unido, Austrália e em vários outros países devido à sua representação gráfica de gore, violência sexual e a inclusão de seis mortes e violência real contra animais. Muitos países já revogaram a proibição, mas ele ainda é barrado em vários outros. Essa notoriedade, não obstante, fez com que alguns críticos vissem-no como um comentário social sobre a sociedade civilizada. No Brasil, o filme foi classificado para maiores de 18 anos.
Sinopse Em 1979, uma equipe de documentaristas americanos desaparece na floresta Amazônica enquanto filmava um documentário intitulado "The Green Hell", sobre tribos indígenas canibais, sendo a equipe composta por Alan Yates, o diretor; Faye Daniels, sua namorada e roteirista; Felipe, o guia; e dois cinegrafistas, Jack Anders e Mark Tomaso. Harold Monroe, um antropólogo da Universidade de Nova Iorque, concordou em liderar uma equipe de resgate na esperança de encontrar os cineastas desaparecidos. Antes da sua chegada na tribo, a equipe de resgate sequestra um jovem da tribo local dos Yacumo para ele ajudar sua entrada. Monroe então é apresentado ao guia Chaco e seu assistente, Miguel.
Depois de vários dias de caminhada pela selva, o grupo encontra a tribo Yacumo, e então organiza a libertação de seus reféns em troca de serem levados para a aldeia de Yacumo. Ao chegar lá, a equipe é inicialmente recebida com hostilidade e descobre que os documentaristas causaram grandes confusões entre os indígenas. Monroe e seus guias se aproximam da floresta e encontram duas tribos canibais em conflito — Yanomami e Shamatari. A equipe vê um grupo de guerreiros Shamatari e segue-os até a margem do rio, onde salvam um pequeno grupo de Yanomamis da morte, fazendo com que chefe da tribo os convide de volta à sua aldeia como forma de gratidão, mas a tribo ainda está desconfiada. Para ganhar sua confiança, Monroe banha-se nu num rio ao lado de algumas índias, que o levam a um santuário, no qual ele encontra os restos dos cineastas em decomposição. Irritado, ele confronta a aldeia, e logo após toca um gravador, intrigando os nativos que concordam em trocá-lo pelas latas de filme dos documentaristas durante uma cerimônia canibal, na qual Monroe deve participar.
De volta a Nova Iorque, os executivos da Companhia Pan-americana de Radiodifusão convidam Monroe a apresentar uma radiodifusão de um documentário a ser feito a partir das filmagens recuperadas, mas ele insiste em assistir as gravações em formato cru antes de tomar uma decisão. Um dos executivos lhe conta que Alan encenou muitas das cenas dramáticas para obter um conteúdo mais emocionante. Monroe então começa a assistir as filmagens, que primeiro mostra a caminhada dos documentaristas pela selva. Depois de dias de caminhada, o guia, Felipe, é mordido por uma cobra venenosa, fazendo com que os documentaristas amputem sua perna com uma machete para salvar sua vida, mas ele não resiste e morre, sendo deixado para trás, sobrando apenas quatro membros da equipe. Os quatro encontram uns Yacumo fora da adeia e Jack dispara na perna de um deles para que a equipe pudesse segui-los facilmente até a aldeia. Ao chegarem, a equipe força a tribo a entrar em uma cabana e queimam-na para que o documentário tivesse pelo menos um massacre. Monroe critica as cenas encenadas e o mau tratamento para com os nativos, mas suas preocupações são ignoradas.
Monroe acaba de assistir esta primeira parte das filmagens e expressa seu desgosto sobre a emissora querer transmitir o documentário. Para convencê-los de outra forma, mostra os restantes das gravações não editadas, que apenas ele assistiu. Os dois carretéis finais começam com a equipe perseguindo uma garota Yanomami, a quem os homens estupram e filmam. Faye tenta intervir apenas quando Alan participa. Depois, eles encontram a mesma garota empalada em um poste de madeira numa margem do rio, onde, em fingimento como se não soubessem do ocorrido, afirmam que os nativos a mataram por perder a virgindade. Pouco depois, são atacados pelo Yanomamis para vingarem a violação e morte da menina. Jack é atingido por uma lança, e Alan convence a equipe a filmar como os nativos mutilam um cadáver. À medida que os três membros da equipe sobrevivente tentam escapar, Faye é capturada e Alan insiste em resgatá-la. Mark continua a filmar enquanto ela é estuprada, espancada até a morte e decapitada. Os Yanomamis perseguem os dois últimos membros da equipe, então a filmagem termina com o rosto de Alan sangrando. Perturbados pelo que viram, os executivos ordenam que as gravações sejam destruídas.
Elenco Robert Kerman — Professor Harold Monroe Francesca Ciardi — Faye Daniels Perry Pirkanen — Jack Anders Luca Giorgio Barbareschi — Mark Tomaso Salvatore Basile — Chaco Losojos Ricardo Fuentes — Tenente Ochoa Gabriel Yorke — Alan Yates Paolo Paolini — Executivo
Produção A produção começou em 1979, quando Deodato foi contatado por produtores de filmes alemães para fazer um filme semelhante ao Último Mundo Canibal, que também fora dirigido por ele. Deodato aceitou o projeto e contratou seu amigo Francesco Palaggi como produtor. Ambos viajaram à Colômbia para explorarem possíveis locais de filmagem, sendo a cidade de Leticia a escolhida como o local principal depois que o diretor conheceu um documentarista colombiano no aeroporto de Bogotá que a sugeriu como "ideal". Outros sítios foram considerados, principalmente onde as filmagens do filme Queimada! (1969) ocorreram, porém o diretor os rejeitou devido à falta de floresta pluvial. Leticia era acessível apenas por meio de transporte aéreo, fazendo com que o elenco e a produção tivessem de viajar de barco para chegar ao set.Gelend, Antonio (interviewee) (2003). In the Jungle: The Making of Cannibal Holocaust (Documentary). Italy: Alan Young Pictures.Yorke, Carl Gabriel (12 de maio de 2005). "Alan Yates Uncovered". Cannibal Holocaust DVD Extras(Interview). Interview with Sage Stallone. Palo Alto, California. O local apresentou muitos problemas para a produção, em particular o calor e as súbitas tempestades, que esporadicamente atrasavam a filmagem.D'Offizi, Sergio (interviewee) (2003). In the Jungle: The Making of Cannibal Holocaust (Documentary). Italy: Alan Young Pictures.
Desenvolvimento e roteiro Deodato concebeu o filme enquanto conversava com seu filho sobre os atos terroristas das Brigadas Vermelhas, julgando que a mídia se concentrou em retratar a violência com pouca consideração pela ética jornalística e acreditava que os meios de comunicação inventavam certos artigos de notícias para obterem imagens mais sensacionalistas. Ele refletiu esse comportamento no filme, dizendo que isso "simbolizou a mídia italiana".
O roteiro foi escrito pelo italiano Gianfranco Clerici sob o título Green Inferno. Ele havia trabalhado com Deodato em seus filmes anteriores Ultimo mondo canibale e The House on the Edge of the Park, que foram filmados antes de Cannibal Holocaust, porém lançados depois. Os nomes de certos personagens do filme foram alterados do roteiro por Clerici: o nome "Mark Williams" foi mudado para "Mark Tomaso" e "Shanda Tommaso" para "Faye Daniels".Clerici, Gianfranco. Cannibal Holocaust. Screenplay."The Last Road to Hell: Alternate Version" (supplementary material on DVD release of Cannibal Holocaust). DVD. Grindhouse Releasing, 2005.
Clerici também escreveu várias cenas que não foram incluídas no filme; a mais famosa era a de um grupo de Yanomami cortando a perna de uma Shamatari e alimentando um grupo de piranhas no rio. Se aparecesse no filme, seria logo após a equipe de Monroe resgatar um grupo de Yanomami das mãos dos Shamatari. Tentativas foram feitas para gravar esta cena, mas a câmera subaquática não funcionou corretamente e era difícil de controlar as piranhas. Como resultado, Deodato abandonou esta ideia. Foram tiradas algumas fotos desta cena, que são sua única descrição conhecida.
Elenco miniaturadaimagem|244x244px|Luca Giorgio Barbareschi interpretou Mark Tomaso. Para o elenco, Deodato contratou vários atores inexperientes do Actors Studio em Nova Iorque. Luca Giorgio Barbareschi e Francesca Ciardi foram contratados por serem italianos e falarem inglês. Para atrair um público mais amplo e dar mais credibilidade ao filme, Deodato decidiu fazê-lo em língua inglesa. No entanto, ele também precisava estabelecer uma nacionalidade europeia para que a obra pudesse ser mais facilmente distribuída entre os países europeus.Gyory, Michel (2000), Making and Distributing Films in Europe: The Problem of Nationality, European Audiovisual Observatory Segundo a lei italiana, para que o filme fosse reconhecido como deste país, teria de ter pelo menos dois atores que tivessem o italiano como sua língua materna.
Deodato também contratou Perry Pirkanen e outro ator do Actors Studio para interpretarem Jack Anders e Alan Yates, respectivamente. Este último desistiu pouco antes da partida da equipe de produção para a Amazônia (ele aparece no filme como um ex-colega de Yates). O diretor de elenco Bill Williams escolheu então Carl Gabriel Yorke para o papel. Yorke era ator de teatro que estudara com Uta Hagen e já havia participado de três turnês nacionais da One Flew Over the Cuckoo's Nest. Em entrevista, afirmou que todos os trajes e botas por ele usados no filme, já tinham sido comprados antes de sua entrada ao elenco, e foi escolhido para o papel pois usava o mesmo número do ator que desistira do papel. Yorke originalmente queria ser creditado sob o pseudônimo Christopher Savage, mas depois decidiu não fazê-lo.