Mateus Augusto Ribeiro de Sampaio (Sanradela, Vilar de Maçada, Alijó, 1 de dezembro de 1847 – Quinta de São Jorge, Favaios, Alijó, 10 de outubro de 1915) foi um médico-militar português, administrador colonial e empresário agrícola, ativo no final do século XIX em São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Embora português, dedicou boa parte de sua vida e serviço à São Tomé e Príncipe, onde radicou-se.
Formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto e já vocacionado para o tratamento da malária Sampaio, Matheus A.R. de (1872), Prophylaxia da Infecção Palustre, Porto, Imprensa Portugueza., parte em 1872 para as ilhas de São Tomé e Príncipe como médico militar. Na capital, São Tomé, e também em Santo António, no Príncipe, exerce o cargo de delegado de saúde. Em 1875 coloniza a região de montanha dos angolares, a sul da ilha de São Tomé, habitada por uma população negra descendente lendária de escravos náufragos de Angola a caminho do Brasil, muito agressiva para os colonos brancos. Com empatia médica e firmeza militar, pacifica a região, comanda a primeira expedição ao Pico de São Tomé, o mais alto da ilha, e funda a Roça de São João dos Angolares, a primeira colonização agrícola de cacau a sul Mantero, Francisco (1910), A Mão d'Obra em S. Thomé e Principe, Lisboa, Typographia do Annuario Commercial, p. 8. Macedo, F. de (1996), O Povo Angolar de S. Tomé e Príncipe (3.ª ed.), São Tomé, Tipografia Nacional de São Tomé, pp. 28-29. A Roça de São João fica junto à aldeia de Mateus Sampaio, no distrito de Caué, que eterniza até hoje o seu nome. A sua capacidade de lidar com ambientes difíceis de topografia, clima, salubridade e condição humana tornam-no conhecido nas ilhas como “O Homem de Ferro” Diário Illustrado (1888), Dr. Matheus Augusto Ribeiro Sampaio, Lisboa, 5 de fevereiro de 1888, p.1..
Em 1887, ao casar com Maria Augusta da Silva, viúva de Gabriel Bustamente, um dos pioneiros do cultura do cacau em São Tomé, torna-se também proprietário da Roça Rio do Ouro, a maior roça da ilha, e com ela no maior agricultor de cacau de São Tomé Correio da Manhã (1887), Echos de Havana, Lisboa, 20 de Setembro de 1887, p. 1. Disponível em: Correio da Manhã, Edição 00856. Em 1891 o casal decide regressar à metrópole. Vendem as suas propriedades a Constantino Dias, um mais jovem conterrâneo de Mateus de Trás-os-Montes, já Visconde e futuro Marquês de Vale Flor, que assim o continua como figura central da economia do cacau em São Tomé Forjaz, Jorge (2011), Sampaio, in Genealogias de São Tomé e Príncipe – Subsídios, Lisboa, Dizlivro Histórica, pp. 441-443..
Mateus regressa a Portugal para se dedicar às suas terras agrícolas em Trás-os-Montes. Mas em 1894 volta a África porque, com Vale Flor, recebe uma larga concessão de terras desocupadas na Guiné portuguesa, colónia esquecida que Portugal precisava desenvolver para justificar a sua posse na partilha de África da Conferência de Berlim Havik, Philip J. (2006). Na Terra do Novo Deus: Henrique Dias de Carvalho na Guiné (1898–99), Africana Studia, nº 99, p. 276.. Em 1896 é eleito, pelo Partido Regenerador, deputado às Cortes por Angola, e no mesmo ano é nomeado diretor delegado da Companhia da Gorongosa em Moçambique, comprando desde logo um quinto do capital .
A missão na Gorongosa era pelo menos de cinco anos. Antecipa a saída quando sente que o essencial da colonização está assegurado para a Companhia e para Portugal. Deixa atrás de si roças plantadas de café e de cacau, com feitores de confiança que trouxe de São Tomé. Ensaia com eles a cana de açúcar e a palma, o coqueiro e o arroz, porque há muito mais terra para ocupar. Demite-se de diretor delegado quando, depois da terra desbravada, vê que perde tempo demais a gerir intrigas de bastidor Sampaio, Matheus (1897), Cartas, Officios, Ordens de Serviço, da Companhia da Gorongoza, nº 26, pp.159-160.. “Gorongosa, o seu Presente e o seu Futuro” Sampaio, Matheus (1898), Gorongosa: o seu Presente e o seu Futuro, Lisboa, Typographia Lusitana. é um testemunho vivo dos méritos e contradições da partilha de África pelas potências coloniais. Em 1898 vende a sua parte do capital na Gorongosa e regressa à metrópole, às suas terras em Alijó . Em 1906 é eleito deputado às Cortes por Vila Real Arquivo Histórico Parlamentar (Assembleia da República), Eleição de cinco Deputados à XXXIX Legislatura (1906–1908), 19 de agosto de 1906, código de referência PT-AHP/TVP/S4/UI18..
Mateus Sampaio nasce no lugar da Sanradela, freguesia de Vilar de Maçada, município de Alijó, na região vinhateira de Trás-os-Montes e Alto Douro, no Nordeste de Portugal. É filho de Maria Augusta Ribeiro e de João de Sampaio, ambos naturais de Vilar de Maçada. Casa-se com Luísa dos Santos Pinto Pereira, com quem teve dois filhos Raul e Francisco. Fica viúvo e casa-se com Maria Augusta da Silva. Adota Mariana, filha de Teresa de Jesus, serviçal na Roça de São João, e com Maria Augusta batizam-na como padrinhos. Raul, o seu filho mais velho, vem a casar-se com Francisca Júlia Correia de Castro Sepúlveda, proprietária da Quinta de São Jorge, freguesia de Favaios, Alijó, onde Mateus vem a falecer Lencastre, Paulo & Pereira, Osvaldo (2024), O Homem de Ferro, in Contos do Castanheiro, acessível em https://www.contosdocastanheiro.com/post/o-homem-de-ferro.
Mateus Sampaio, o “Homem de Ferro”, é um herói discreto da saga colonial portuguesa em África no final do século XIX. A sua personalidade forte garantiu-lhe cargos de comando e pacificação. O seu estatuto de médico deu-lhe acesso à sensibilidade dos povos indígenas. Preferiu recusar títulos nobiliárquicos para manter a sua independência face ao poder. Sendo um conservador fiel à monarquia, foi mais um denunciador dos desvios coloniais do que um empresário de sucesso arauto do regime.
“Sinto predileção pela raça negra, sem a qual nada poderíamos fazer nas regiões intertropicais” . centro|miniaturadaimagem|942x942px|Postal comemorativo da visita do príncipe herdeiro Luis Filipe, filho do rei Carlos I de Portugal, a São Tomé e Príncipe, seis meses antes do regicídio em Lisboa, em que ambos são assassinados (1908).
Ligações externas Diário Illustrado Prophylaxia da Infecção Palustre Correio da Manhã, Echos de Havana Genealogias de São Tomé e Príncipe. Cartas, Offícios, Ordens de Serviço, da Companhia da Gorongosa Contos do Castanheiro
Ver também Geografia de São Tomé e Príncipe Lista de cidades em São Tomé e Príncipe Lista de aldeias de São Tomé e Príncipe.
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