thumb|right|alt=A distinguished-looking man in his forties with medium-length hair, aquiline nose, and circa-1850 formal high collar|Hector Berlioz foi o primeiro a utilizar o termo "sinfonia coral" para uma composição musical - a sua Roméo et Juliette.
Uma sinfonia coral é uma composição musical para orquestra, coro e, por vezes, solistas e vocalistas que, em sua arquitetura musical geral e em sua estrutura interna adere de maneira abrangente à forma musical sinfônica.Kennedy, Oxford Dictionary, 144. O termo "sinfonia coral", neste contexto, foi cunhado pelo compositor francês Hector Berlioz, para descrever sua obra Roméo et Juliette, na introdução de cinco parágrafos que fez à peça."Avant-Propos de l'auteur", partitura vocal de Reiter-Biedermann (Winterhur, 1858), p. 1. Citado em Holoman, 262. O antecedente direto da sinfonia coral é a Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven, que incorporou parte da Ode an die Freude ("Ode à Alegria"), um poema de Friedrich Schiller, com o texto sendo cantado por solistas e por um coro no seu último movimento. Esta obra de Beethoven foi o primeiro exemplo em que um grande compositor utilizou numa sinfonia a voz humana com o mesmo nível de destaque que os instrumentos.A Schlacht-Sinfonie de Peter von Winter também usa um refrão para a concluir; composta em 1814, ela antecedeu a Nona de Beethoven por uma década, porém, por ser apenas uma obra ocasional em um único movimento, ela é "colocada fora da tradição genérica da sinfonia". Bonds, New Grove (2001), 24:836.
Alguns poucos compositores do século XIX, entre eles Felix Mendelssohn e Franz Liszt, seguiram os passos de Beethoven e produziram obras sinfônicas com coros. O gênero se desenvolveu ainda mais no século XX, com obras célebres produzidas pro Benjamin Britten, Gustav Mahler, Sergei Rachmaninoff, Dmitri Shostakovich, Igor Stravinsky e Ralph Vaughan Williams, entre outros. Nos últimos anos do século e no início do século XXI diversas novas obras do gênero surgiram, por compositores como Tan Dun, Philip Glass, Hans Werner Henze e Krzystof Penderecki.
A intenção original da sinfonia coral era permanecer sendo 'sinfônica', mesmo com a peculiar fusão de elementos narrativos ou dramáticos surgidos da inclusão de palavras. Para isto, as letras eram trabalhadas de maneira sinfônica, para que atingissem propósitos não-narrativos, através do uso da repetição frequente de palavras e frases importantes, e da transposição, reordenação e omissão de passagens linguísticas. O texto passou a determinar a estrutura sinfônica básica, enquanto a orquestra expressava as ideias musicais de maneira semelhante aos coro e aos solistas.Kennedy, Vaughan Williams, 444. Mesmo com a ênfase sinfônica, uma sinfonia coral frequentemente pode ter sido influenciada, em sua forma e conteúdo, por uma narrativa externa - mesmo em partes onde nada está sendo cantado.
História thumb|upright|alt=A man with long grey hair holding a pen and music paper|Ludwig van Beethoven redefiniu o gênero sinfônico ao introduzir palavras e vozes em sua Nona Sinfonia. No fim do século XVIII a sinfonia havia se estabelecido como o mais prestigioso dos gêneros instrumentais. Por não ter um texto escrito como foco, no entanto, era visto mais como entrenimento que como um veículo para ideias sociais, morais ou intelectuais. Esta visão mudou algumas décadas mais tarde, em parte graças ao que foi feito ao gênero por músicos como Haydn, Mozart e Beethoven. A época também viu uma mudança de atitude em respeito à música instrumental em geral, e a ausência de texto, antes vista como uma deficiência, passou a ser considerada uma virtude.Bonds, New Grove (2001), 24:835.
Em 1824, a Nona de Beethoven redefiniu a sinfonia ao introduzir texto e voz num gênero até então instrumental, dando início então a um debate sobre o futuro da própria sinfonia. Richard Wagner, mais tarde, afirmou que o uso de palavras por Beethoven naquela obra mostrou o que o musicólogo Mark Evan Bonds chamou de "os limites da música puramente instrumental, marcando assim o fim da sinfonia como um gênero vital". Outros não tiveram tanta certeza sobre como proceder - se imitavam a Nona e compunham sinfonias com finais corais, ou desenvolviam o gênero sinfônico de uma maneira puramente instrumental.Bonds, New Grove (2001), 24:837. Eventualmente, segundo Bonds, a sinfonia passou a ser vista como "um drama cósmico e abrangente, que transcendia o próprio reino do som".Bonds, New Grove (2001), 24:838.
Alguns compositores emularam e expandiram o modelo criado por Beethoven. Hector Berlioz mostrou, em sua sinfonia coral, Roméo et Juliette, uma abordagem nova à natureza épica da sinfonia, utilizando-se de vozes para misturar música e narrativa, porém guardando momentos cruciais daquela narrativa apenas para a orquestra. Ao fazê-lo, diz Bonds, Berlioz ilustrou para os compositores posteriores "novas maneiras de abordar o metafísico no reino da sinfonia". Felix Mendelssohn compôs sua Segunda Sinfonia como uma obra para coro, solistas e orquestra, chamando-a de uma "sinfonia-cantata", e expandiu o final com o coro para nove movimentos, incluindo seções para solistas vocais, recitativos e seções apenas para o coro; isto fez da parte vocal da obra mais longa que as três seções orquestrais que a precediam.Todd, New Grove (2001), 16:403. Franz Liszt foi autor de duas sinfonias corais, utilizando nestas formas as mesmas práticas compositivas e metas programáticas que havia estabelecido em seus poemas sinfônicos.
Depois de Liszt, Gustav Mahler abordou o legado de Beethoven em suas primeiras sinfonias, especialmente no que Bonds chamou de "sua busca por um final utópico". Para atingir esta meta Mahler utilizou um coro e solistas no final de sua Segunda Sinfonia, a "Ressureição". Em sua Terceira Sinfonia compôs um final puramente instrumental, que se seguia a dois movimentos vocais, e em sua Quarta um final vocal é cantado por uma soprano solo. Bonds, New Grove (2001), 24:839. Após compor sua quinta, sexta e sétima sinfonias como obras unicamente instrumentais, Mahler retornou ao estilo do "cerimonial festivo-sinfônico" em sua Oitava Sinfonia, que integra o texto ao longo do corpo da obra.Franklin, New Grove (2001), 15:622. Depois de Mahler, a sinfonia coral se tornou um gênero mais comum, sofrendo diversas alterações compositivas no processo. Alguns compositores, como Britten, Rachmaninoff, Shostakovich e Vaughan Williams, seguiram estritamente a forma sinfônica. Outros, como Havergal Brian, Alfred Schnittke e Karol Szymanowski, escolheram expandir o formato sinfônico, ou mesmo utilizar estruturas sinfônicas totalmente diferentes.MacDonald, notas em Naxos 8.570308, 3.Samson, 122, 126.Weitzman, notas em Chandos 9463, 5.
thumb|upright|left|alt=A man with a grey beard: he is wearing glasses and a blue shirt.|Krzysztof Penderecki compôs sua Sétima Sinfonia para comemorar o terceiro milênio da cidade de Jerusalém. Ao longo da história da sinfonia coral, diversas obras foram compostas para refletir determinadas metas compositivas programáticas. Uma das primeiras destas sinfonias foi a Segunda Sinfonia de Mendelssohn, encomendada pela cidade de Leipzig em 1840 para comemorar o 400.º aniversário da invenção da prensa móvel por Johann Gutenberg. Mais de um século depois, a Segunda Sinfonia de Henryk Górecki, com o subtítulo de "Copérnica", foi encomendada em 1973 pela Fundação Kosciuszko, de Nova York, para comemorar o 500.º aniversário do astrônomo Nicolau CopérnicoKosz, notas em Naxos 8.555375, 2. Entre estas duas obras, em 1930, o maestro Serge Koussevitsky encomendou a Stravinsky a composição da Sinfonia dos Salmos para o 50.º aniversário da Orquestra Sinfônica de BostonSteinberg, Choral Masterworks, 265. e, em 1946, o compositor Henri Barraud, então chefiando a Radiodiffusion Française, encomendou a Darius Milhaud a composição de sua Terceira Sinfonia, subtitulada "Te Deum", para comemorar o fim da Segunda Guerra Mundial.Palmer, New Grove (1980), 12:306.Penguin, 774.
Nos últimos anos do século XX e no início do XXI, mais sinfonias corais foram compostas para celebrar ou comemorar ocasiões especiais. A Sétima Sinfonia de Krzystof Penderecki foi composta para comemorar o terceiro milênio da cidade de Jerusalém.Whitehouse, notas em Naxos 8.557766 2. A Symphony 1997: Heaven Earth Mankind, de Tan Dun, foi composta para comemorar a transferência da soberania sobre Hong Kong, naquele ano, do Reino Unido para a República Popular da China.Autor desconhecido, notas em Sony Classical SK 63368, 4. Philip Glass recebeu a incumbência de compor sua Quinta Sinfonia como uma de diversas peças em comemoração ao início do século XXI.
Características gerais Como um oratório ou uma ópera, uma sinfonia coral é uma obra musical feita para uma orquestra, um coro e (frequentemente) cantores solistas, embora algumas poucas tenham sido compostas para vozes sem acompanhamento. Berlioz, que em 1858 cunhou pela primeira vez o termo, ao descrever sua obra Roméo et Juliette, explicou a relação distinta que ele imaginava entre a voz e a orquestra:
Ainda que as vozes sejam usadas frequentemente, não é nem uma ópera de concerto nem uma cantata, mas uma sinfonia coral. Se há nela canto, quase desde seu início, é para preparar a mente do ouvinte para as cenas dramáticas cujos sentimentos e paixões estão prestes a ser exprimidos pela orquestra. Serve também para introduzir gradualmente as massas corais ao desenvolvimento musical, já que uma aparição sua muito repentina estragaria a unidade das composições....
Ao contrário de oratórios e óperas, que geralmente são estruturados de maneira dramatúrgica em árias, recitativos e refrões, uma sinfonia coral tem a estrutura de uma sinfonia, dividida em movimentos. Pode utilizar o padrão tradicional de quatro movimentos, um rápido que abre a obra, um lento, um scherzo e um final, ou, como ocorre com muitas sinfonias instrumentais, pode utilizar uma estrutura diferente em seus movimentos.Bonds, New Grove (2001), 24:833. O texto de uma sinfonia coral tem um papel igual ao da música, como no oratório, e o coro e os solistas têm o mesmo espaço que os instrumentos.Steinberg, Choral Masterworks, 268; Kennedy, Vaughan Williams, 444. Com o tempo o uso do texto permitiu à sinfonia coral evoluir de uma mera sinfonia instrumental com um coro em seu final, como a Nona de Beethoven, para uma composição que se utiliza de vozes e instrumentos ao longo de toda a composição, como a Sinfonia dos Salmos, de Stravinsky, ou a Oitava Sinfonia de Mahler.Kennedy, Mahler, 151.
Por vezes o texto pode ter um perfil básico, relacionado ao esquema em quatro movimentos de uma sinfonia. Por exemplo, a estrutura em quatro partes do poema The Bells (poema), de Edgar Allan Poe, uma progressão da juventude ao casamento, maturidade e morte, naturalmente sugeriu os quatro movimentos de uma sinfonia para o compositor Sergei Rachmaninoff, que ele adotou em sua sinfonia coral homônima.Steinberg, Choral Masterworks, 241–242. O texto pode encorajar um compositor a expandir uma sinfonia coral além dos limites normais do gênero sinfônico, como Berlioz em Roméo et Juliette, porém ainda se manter dentro das intenções estéticas ou estruturais do formato. Também pode influenciar o conteúdo musical, mesmo em partes onde não há canto, como na mesma Roméo et Juliette, onde Berlioz permite que a orquestra exprima a maior parte do drama na música instrumental, reservando as palavras para seções expositivas e narrativas da obra.MacDonald, New Grove (1980), 2:596.
Relação entre o texto e a música