thumb|Gravura de Thomas S. St. Clair representando a Batalha do Buçaco, em 27 de Setembro de 1810 A Terceira Invasão Francesa teve início em Julho de 1810 e terminou em Abril de 1811, com a retirada das forças francesas para Ciudad Rodrigo. O exército invasor era o maior dos que já tinham invadido Portugal, em 1807 sob o comando de Junot e 1809 sob o comando de Soult. O comandante deste exército, o marechal Massena, era um dos mais conceituados marechais de França. Para a sua derrota contribuiu não só a qualidade do exército anglo-luso, sob comando de Wellesley, o duque de Wellington, mas também a estratégia utilizada por este general e desenvolvida com base nas Linhas de Torres Vedras.

Antecedentes

A Segunda Invasão Francesa terminou com a retirada do II CE do marechal Nicolas-Jean de Dieu Soult para a Galiza. Sir Arthur Wellesley tinha agora de se preocupar com o I CE do marechal Victor (Claude Victor-Perrin), que se encontrava na Estremadura Espanhola e deu então início à Campanha de Talavera, primeira ofensiva britânica em Espanha. A ameaça sobre as linhas de comunicações com Lisboa e a falta de apoio logístico por parte das autoridades espanholas obrigaram Wellesley a retirar para Portugal, apesar da vitória obtida na Batalha de Talavera.

Frustrados os planos para a conquista de Portugal em 1809, Napoleão nomeou o marechal André Masséna comandante do novo “Exército de Portugal”, constituído por três corpos de exército, cerca de 65 000 homens. Masséna era um dos marechais de mais elevada reputação no Império Francês. Napoleão estava de tal forma confiante na sua capacidade de levar a bom termo esta missão que não enviou ordens a nenhum outro comandante francês na Península para lhe prestar qualquer apoio. Em Maio de 1810, em Salamanca, Masséna assumiu o comando daquele exército.

Wellesley, já duque de Wellington, manteve o seu exército afastado da luta contra os franceses após a Batalha de Talavera, situação provocada pela falta de colaboração por parte das autoridades e dos generais espanhóis durante aquela campanha. A defesa da Andaluzia ficava entregue unicamente aos exércitos espanhóis. Por outro lado, Wellesley compreendia a situação de uma forma diferente das autoridades espanholas e as suas intenções tinham em conta os factores seguintes:OMAN, pag. 109

Para a defesa da Península Ibérica, considerava Portugal mais importante que a defesa da Andaluzia; Considerava que tinha melhores condições de defesa em Portugal e, nesse sentido, tinha já começado a construção das Linhas de Torres Vedras; Considerava que tinha a obrigação de privilegiar a defesa de Portugal porque, ao contrário de Espanha, aquele reino colocou-se inteiramente nas mãos dos aliados e colocou todos os recursos, inclusive o exército, à sua disposição; Ao contrário do exército espanhol, o exército português tinha com ele uma relação de subordinação (Wellesley tinha recebido em Portugal, por decreto de 29 de Abril de 1809, a patente de Marechal General “dos Exércitos Portugueses para dirigir as suas Operações quando combinados com o de Sua Majestade”COSTA, pag. 67).

Por estas razões, Wellesley retirou as suas unidades de Badajoz, a partir de 8 de Dezembro de 1809. No dia 3 de Janeiro de 1810, o seu Quartel-General (QG) estava em Coimbra, a 2.ª Divisão, do general Rowland Hill, ficou em Abrantes e as restantes tropas iam sendo alojadas ao longo do vale do Mondego.

Um exército vindo de Espanha pode entrar em Portugal por três regiões diferentes: a fronteira Norte (foi utilizada na Segunda Invasão Francesa), a fronteira entre os rios Douro e Tejo e a fronteira entre os rios Tejo e Guadiana. O vale dos rios que correm de Espanha para Portugal era sempre um mau eixo, devido à morfologia do terreno. Não era por aí que corriam as estradas necessárias ao transporte da artilharia e trens dos exércitos (como Junot descobriu na sua marcha para Lisboa, durante a Primeira Invasão Francesa).

A fronteira Norte não estava disponível para os franceses, porque não dominavam a Galiza e era a mais distante do seu objectivo: Lisboa. A fronteira Sul conduzia à margem sul do Tejo e este rio representava um obstáculo tanto mais difícil de transpor quanto mais próximo de Lisboa se encontrava. A invasão pela BeiraVer Beira (Portugal). era, pois, o eixo natural para alcançar rapidamente Lisboa. Existiam obstáculos a vencer: a Praça-forte de Almeida na fronteira, o terreno com morfologia favorável à defesa e o formidável sistema defensivo da Península de Lisboa, chamado Linhas de Torres Vedras. Mas iriam surgir outras dificuldades. thumb|200px|André Masséna marechal do Primeiro Império Francês

O exército invasor

O exército francês que Masséna comandava era o mais numeroso das três invasões francesas. Tinha um efectivo total, em 15 de Setembro de 1810,OMAN, pag. 540 – 542 de 65 050 homens, incluindo as unidades de manobra e de apoio, oficias, sargentos e praças. Estes efectivos elevados estavam organizados da seguinte forma:

II CEDeve ler-se “Segundo Corpo de Exército”. sob comando do general Ebenezer Reynier; era composto por duas divisõesVer Divisão (militar) de infantaria, uma brigada de cavalaria e os meios de apoio – 17 718 homens; VI CE sob comando do marechal Michel Ney; era composto por três divisões de infantaria, uma brigada de cavalaria e os meios de apoio – 24 306 homens; VIII CE sob o comando do general Jean-Andoche Junot; era composto por duas divisões de infantaria, uma divisão de cavalaria e os meios de apoio – 16 939 homens; Reserva de Cavalaria sob comando do general Louis-Pierre Montbrun; era composta por três brigadas de cavalaria e o apoio de fogos era fornecido por uma bateriaVer Bateria (Unidade) de artilharia a cavalo.

Além destas forças existiam ainda a Reserva de Artilharia, os Trens, um corpo de engenheiros, uma pequena unidade (177 homens) de Gendarmerie e o Estado-Maior. Muitos dos oficias e praças tinham já experiência das anteriores invasões.

O exército anglo-português

Desde Abril de 1809 que as forças portuguesas estavam, para efeitos de operações militares, subordinadas a Wellesley. Desta forma, é absolutamente legítimo referir um exército anglo-luso em vez de dois exércitos daquelas nacionalidades. Além disso, as forças portuguesas e britânicas actuavam cada vez mais como forças combinadas.

O exército de Wellesley tinha já evoluído, desde a Campanha de Talavera, para uma organização em Divisões. As forças portuguesas utilizavam uma organização idêntica mas mantiveram algumas brigadas independentes. As forças portuguesas e britânicas somavam 61 452 homensOMAN, pag. 547 e 548 e estavam organizadas da seguinte forma:As forças foram contabilizadas somando os efectivos presentes na Batalha do Buçaco (27 de Setembro) às baixas ocorridas no Combate do Côa (24 de Julho). Os números assim obtidos não andarão certamente muito longe da realidade.

1.ª Divisão de Infantaria sob comando do general Brent Spencer; era formada por quatro brigadas de infantaria, uma da King's German Legion – homens; 2.ª Divisão de Infantaria sob o comando do general Rowland Hill; era formada por três brigadas de infantaria – 5 737 homens; 3.ª Divisão de Infantaria sob o comando do general Thomas Picton; era formada por três brigadas de infantaria sendo uma delas portuguesa – homens; thumb|esquerda|200px|Sir Arthur Wellesley, comandante do Exército Anglo-luso 4ª Divisão de Infantaria sob o comando do major-general Galbraith Lowry Cole; era formada por três brigadas de infantaria sendo uma delas portuguesa – 7 400 homens; 5ª Divisão de Infantaria sob o comando do general James Leith; era formada por duas brigadas de infantaria sendo uma delas portuguesa, por três batalhões da Leal Legião Lusitana e dois batalhões do RI 8Regimento de Infantaria nº8 (português) – 7.305 homens; Divisão Ligeira (em Inglês, Light Division) sob comando do brigadeiro-general Robert Craufurd; era formada por duas brigadas de infantaria e cada uma delas integrava um batalhão de caçadores português – 4 112; 1ª Divisão Portuguesa sob o comando do marechal de campo John Hamilton; era formada por duas brigadas de infantaria – 4 940 homens; os efectivos desta divisão, na Batalha do Buçaco, foram integrados na 2ª Divisão de Infantaria; 2ª Divisão Portuguesa sob o comando do coronel Carlos Frederico Lecor; era constituída por duas brigadas, uma delas de milícias – 4 811 homens; Três Brigadas Independentes de Infantaria Portuguesas: 1.ª Brigada sob comando do brigadeiro-general Dennis Pack – 2 769 homens; 2.ª Brigada sob comando do brigadeiro-general Archibald Campbell – 3 249 homens; 3.ª Brigada sob comando do brigadeiro-general Francis John Colleman – 2 345 homens. Quatro Brigadas de Cavalaria Britânicas com um total de 3 136 homens; Uma Brigada de Cavalaria portuguesa sob o comando de Fane – 430 homens.

Além destas forças existiam 2.230 homens na artilharia e 506 no corpo de engenheiros, estado-maior e trens.

A invasão O avanço francês até às Linhas de Torres Vedras

A praça espanhola de Ciudad Rodrigo controlava a estrada para a fronteira portuguesa e, por isso, era essencial para iniciar a invasão controlada pelos franceses. A sua fortaleza tinha uma guarnição espanhola com cerca de 5 500 homens sob comando do marechal de campo Don Andreas de Herrasti. O Cerco de Ciudad Rodrigo tinha começado a 26 de Abril de 1810, mas só a 25 de Junho foi lançado o assalto à fortaleza. Os defensores resistiram até ao dia 9 de Julho. O próximo obstáculo a vencer encontrava-se já em Portugal.

A praça forte de Almeida situa-se em Terras de Ribacôa, na Beira InteriorVer Beira Interior (Província), junto à fronteira com Espanha, a cerca de 35 km de Ciudad Rodrigo. A ocidente da praça corre, de Sul para Norte, o rio Coa. O forte tinha uma guarnição 5 600 homens e mais de 100 peças de artilharia.OMAN, pag. 267 Para avançar, era necessário, portanto, estar na posse da praça. Para o fazer era necessário afastar a Divisão Ligeira de Craufurd. Essa tarefa ficou a cargo do VI CE do marechal Ney. O Combate do Côa a 23 de Julho de 1810 foi, nesta invasão, o primeiro confronto em território português entre as forças de Wellesley e os invasores. Craufurd que vinha a executar uma acção retardadora desde o território espanhol foi obrigado a retirar, depois de ter oferecido forte resistência. O Cerco de Almeida (1810) começou no dia 24 de Julho e durou até ao dia 28 de Agosto.

Masséna só retomou a marcha a 15 de Setembro. Durante o tempo que permaneceu na região de Almeida providenciou rações para alimentar o seu exército durante quinze dias. Esta sua preocupação era pertinente, pois Wellesley tinha planeado retirar da rota da invasão tudo o que pudesse alimentar as tropas francesas. O exército francês alimentava-se normalmente do que obtinha nos territórios por onde passava. Além disso, as unidades de milícias sob comando do coronel Nicholas Trant flagelavam-nos constantemente e retiravam muita liberdade de acção às tropas para procurarem alimentação. Ao retomar a marcha, Masséna dirigiu-se para Coimbra. A estrada em que seguiam, a norte do rio Mondego, passava por uma excelente posição defensiva, onde Wellesley decidiu dar batalha. thumb|400px|Mapa com o itinerário do exército invasor na Terceira Invasão Francesa