250px|thumb|Trabalhador coolie por volta de 1900 em Zhenjiang, na China. A vara de bambu na qual ele se apoia era usada para erguer e carregar o fardo que se encontra a seus pés, apoiando a vara sobre seus ombros e o fardo contra suas costas. À esquerda na imagem, outro homem utiliza esta mesma técnica para erguer uma carga pesada
Coolie (também grafado cooly, culi, kuli, quli, koelie) é um termo usado historicamente para designar trabalhadores braçais oriundos da Ásia, especialmente da China e da Índia, durante o século XIX e início do século XX. Atualmente, nos países de língua inglesa, o termo é considerado como um apelido pejorativo e racista para as pessoas de ascendência asiática.A maioria dos dicionários modernos não registra o uso ofensivo ("trabalhador não qualificado ou carregador, normalmente residente ou originário do Extremo Oriente, contratado em troca de salário baixo ou de subsistência". Merriam-Webster) ou distingue entre um significado ofensivo referindo-se a "uma pessoa do subcontinente indiano ou de ascendência indiana" e um significado antiquado ("datado) e originalmente não ofensivo ("trabalhador nativo não qualificado, na Índia, China e outros países asiáticos." (Compact Oxford English Dictionary). Alguns dicionários, no entanto, indicam que a palavra pode ser considerada ofensiva em todos os contextos hoje em dia. Por exemplo, a edição de 1995 do Longman's traz "antigo - trabalhador não capacitado que recebe salários muito baixos, especialmente em partes da Ásia", porém a versão atual já contém o acréscimo "tabu arcaico", definindo o termo como "palavra muito ofensiva para designar um trabalhador não qualificado que recebe salários muito baixos, especialmente em partes da Ásia", acrescentando a advertência "Não use esta palavra".
Etimologia Em 1727 o naturalista alemão Engelbert Kämpfer descreveu coolies como sendo trabalhadores portuários responsáveis por descarregar navios mercantes holandeses em Nagasáqui, no Japão. De acordo com o Oxford English Dictionary a palavra data de meados do século XVII, e remonta ao termo hindi/urdu qulī (क़ुली na primeira, قلی na segunda), que significa "trabalhador(-diário)". Esta forma hindustâni tem uma uvular velar inicial (um som estranho aos índicos que indica claramente sua origem estrangeira. Provavelmente é um empréstimo de uma língua turcomana (através do persa), possivelmente uma redução do árabe ghulam, "servo", "criado". Outras hipóteses apontariam para Kulī, uma tribo natural do GuzerateAsk oxford ou à palavra tâmil kuli (கூலி), "salários"Encyclopædia Britannica porém tais semelhanças foram indicadas como possíveis coincidências.Coolie - Etymonline.com Outra forma semelhante ao hindi qūlī é o bengali kuli, que também tem a mesma origem do urdu qulī ou kulī, "escravo", possivelmente influenciado pelo turco otomano qul (turco moderno köle), que também significaria "escravo".Oxford English Dictionary 2008.
A palavra chinesa 苦力 (pinyin: kǔlì) significa literalmente "(uso) amargamente severo (de) força". O termo chinês mais utilizado culturalmente é 咕喱 (pinyin: gū lí).
Conotação 310px|thumb|Coolies das Índias Orientais numa fazenda de cacau em Trinidad, por volta de 1903 250px|thumb|Ilustração dos Estados Unidos feita no século XIX, mostrando uma descrição racista dos chineses, chamados de "o estereótipo coolie" Quando entrou pela primeira vez para os idiomas ocidentais, coolie era um termo designativo, que descrevia uma classe de trabalhadores de baixo status social, e não um termo pejorativo para se referir a eles. No entanto, após séculos de colonialismo e desigualdade social terem sido associados a esta classe, o termo assumiu todas as características de uma ofensa étnica aplicada a pessoas de origem asiática, independentemente de suas profissões ou classe socioeconômica.
Já na década de 1850, em Trinidad, o festival anual de Moarrão ou Hosay, que tinha sua origem na Índia, era conhecido como "o Carnaval Coolie". Por todas as ilhas do Caribe, bem como no Sri Lanka, África do Sul, e em outros lugares, a palavra passou a indicar qualquer pessoa de origem ou ascendência indiana.Especificamente, Trinidad Sentinel 6 de agosto de 1857. Também Original Correspondence of the British Colonial Office in London (C.O. 884/4, Hamilton Report into the Carnival Riots, p. 18).
Da metade para o fim do século XIX nos Estados Unidos, o termo coolie e tudo que estava associado com o "estereótipo coolie" passaram a ser usados para satirizar ou depreciar os imigrantes de origem chinesa, especialmente os donos de lavanderias ou restaurantes.McClellan, Robert. "Heathen Chinee: A Study of American Attitudes Toward China, 1890–1905". Columbus: Ohio State University Press. 1971. pp. 272
História O termo era usado com trabalhadores da Ásia, especialmente os que eram enviados para as Américas, Oceania e ilhas do Pacífico, bem como à África (especialmente África do Sul e ilhas como Maurício e Reunião). Também era utilizado em áreas da Ásia que estavam sob domínio europeu, como Sri Lanka, Malásia, Xangai e Hong Kong.
A escravidão era bem difundida pelo Império Britânico, porém pressões políticas fizeram com que ela fosse abolida oficialmente pelo Slave Trade Act 1807; em poucas décadas diversas outras nações europeias haviam seguido o exemplo e banido a prática. O sistema de trabalho colonial, no entanto, tanto nas grandes plantações de cana-de-açúcar e algodão quanto em minas e ferrovias, exigia uma mão de obra barata.
Diversos experimentos foram realizados com o uso de trabalhadores malgaxes, japoneses, bretões, portugueses, iemenitas e congoleses, até que se acabasse optando pelos indianos, que foram inicialmente enviados para diversas ilhas no Oceano Índico, leste e sul da África, Fiji, Guiana, Martinica, Trinidad, Jamaica, Granada e Panamá. Com o tempo coolies chineses também foram enviados ao Novo Mundo, inicialmente para trabalhar em poços de guano, no Peru, em plantações de cana em Cuba e na construção das ferrovias nos Estados Unidos e na Colúmbia Britânica (Canadá). O comércio de coolies passou a ser visto como "uma nova forma de escravidão".
Recrutamento e comércio Após a abolição da escravatura havia uma grave falta de mão de obra em diversas colônias europeias. Embora os trabalhadores pudessem ser recrutados através de negociações voluntárias, era evidente que fraude e má fé eram práticas comuns e até mesmo sequestros chegavam a ocorrer, na busca por esta mão de obra barata.Chinese Coolies and African Slaves in Cuba, 1847-74. Journal of Asian American Studies 2004
A maior parte da força de trabalho recrutada da Índia era feita para as colônias britânicas, através de "agentes coloniais" que viajavam para lá, onde contratavam os serviços de arkatias ("recrutadores"), que conheciam os locais onde era mais comum encontrar os candidatos para estes trabalhos. Procurava-se uma média de quatro trabalhadoras mulheres para cada dez homens, porém as mulheres eram mais difíceis de serem encontradas - e as alegações de falsas promessas e sequestros parecem plausíveis neste caso. "Depósitos de emigração" foram montados em Calcutá, Madras e Bombaim.
Diversos migrantes vieram voluntariamente, oriundos das camadas mais pobres das populações de Madras, Bengala, Orissa, Uttar Pradesh e Bihar. O sistema ganhou impulso à medida que as políticas britânicas destruíram as indústrias, fazendas e pequenos negócios locais através da taxação e do sistema zamindar. A fome foi um dos grandes responsáveis por este fluxo populacional para fora da Índia por décadas.Ibid.
Por volta de 1845, com o fim da primeira Guerra do Ópio (1840-1842), um centro para emigração em Shantou organizou uma rede que transportava chineses de Guangdong, Amoy e Macau para as Américas, especialmente para as minas de prata do Peru e as plantações de açúcar de Cuba e outras ilhas das Índias Ocidentais. A maior parte deles teria sido sequestrado da província de Guangdong.Macao, Illustrations of China and Its People, John Thomson 1837-1921, (Londres, 1873-1874)
Trabalhadores envidividados da Indochina foram recrutados pela França e enviados a outras colônias francesas.
O comércio dos coolies foi criticado por ser injusto para os trabalhadores e por consistir numa escravidão de facto. Os trabalhadores eram transportados dentro de navios lotados e muitos acabavam morrendo durante as viagens por desnutrição, doenças ou outros tipos de abusos. Motins também eram frequentes durante os trajetos. O navio Dea del Mar, que partiu de Macau para Callao, no Peru, em 1865, levando 550 trabalhadores chineses a bordo, chegou ao Taiti com 162 deles vivos.
Este movimento populacional devido ao trabalho era chamado de comércio, na medida em que recordava o status atribuído aos escravos, considerados uma peça de mobília que podia ser herdada legalmente. Embora os coolies fossem classificados como trabalhadores contratuais, com um contrato de cinco anos, resquícios da escravidão permaneciam em suas relações com os empregadores, e frequentemente havia uma disparidade considerável entre a letra da lei e sua aplicação. Diversos estudiosos do comércio dos coolies relataram condições desumanas, com atos como a flagelação, o abuso sexual e o confinamento restritivo sendo práticas constantes. Diversos destes trabalhadores não conseguiam reconquistar a liberdade depois de servir os cinco anos nas plantações, como estipulavam seus contratos. A mesma situação predominava nas Índias Ocidentais e em Maurício. Ao contrário dos escravos, no entanto, estes trabalhadores importados não podiam ser vendidos ou comprados.
300px|thumb|right|Lavadeiras coolie indianas, na África do Sul do século XIX
Um número enorme de coolies tâmeis foi enviado ao Sri Lanka pelos britânicos para trabalhar em plantações de chá e café; a prática também serviu para aumentar as populações minoritárias da ilha. Esta foi a segunda onda de migração tâmil para ao Sri Lanka, depois que os tâmeis haviam se instalado em Jaffna para trabalhar para os holandeses nas plantações de tabaco. Esta tática de alteração demográfica foi usada pelos britânicos para controlar a população nativa cingalesa da ilha, que havia se revoltado diversas vezes contra a dominação colonial. O mesmo tipo de colonização foi realizado na Malásia.
Na Índia e na África do Sul, Mahatma Gandhi liderou uma campanha contra este tipo de trabalho contratual. Diversos dos empregados que haviam ido à África acabaram por permanecer lá e se tornar imigrante, o que causou problemas sociais, especialmente na África. A província de Natal da União da África do Sul e o Quênia estavam particularmente repletos destes imigrantes. No Transvaal, com o fim da Segunda Guerra Bôer, a falta de mão de obra nativa africana nas minas do Rand levou à promulgação de um decreto em fevereiro de 1904 solicitando a importação de trabalhadores chineses. A população bôer no Transvall se opôs ferozmente a este decreto, alegando que ele introduziria um fator novo às tensões já sérias do país; a questão também foi responsável pela vitória do Partido Liberal nas eleições gerais do Reino Unido de 1906, altura em que mais de 50.000 trabalhadores asiáticos já tinham sido importados.
A decisão de pôr um fim a este tipo de servidão contratual afetou primeiro Natal e Maurício, em 1910; as outras regiões começaram a sentir os efeitos em 1917.
Nas Américas thumb|250px|left|Trabalhadores chineses constroem a Ferrovia Transcontinental, nos EUA A imigração chinesa para os Estados Unidos foi quase totalmente voluntária, porém as condições sociais e de trabalho ainda eram duras: