Morte do ego é uma "perda completa da identidade subjetiva do eu". O termo é utilizado em diversos contextos interligados, com significados correlatos. O filósofo e psicólogo do século XIX William James utiliza o termo sinônimo "entrega do eu", e a psicologia junguiana emprega o termo sinônimo morte psíquica, referindo-se a uma transformação fundamental da psique. Na mitologia da morte e renascimento, a morte do ego é uma fase de entrega do eu e transição, conforme descrito posteriormente por Joseph Campbell em sua pesquisa sobre a mitologia da Jornada do Herói. Trata-se de um tema recorrente na mitologia mundial e também é utilizado como metáfora em algumas vertentes do pensamento ocidental contemporâneo.
Em descrições de drogas, o termo é empregado como sinônimo de perda do ego para referir-se à perda (temporária) do senso de identidade do eu decorrente do uso de drogas. O termo foi utilizado dessa forma por Timothy Leary et al. para descrever a morte do ego na primeira fase de uma viagem com LSD, na qual ocorre uma "transcendência completa" do eu
O conceito também é empregado na espiritualidade Nova Era contemporânea e na compreensão moderna das religiões orientais para descrever uma perda permanente do "apego a um senso de eu separado" e do egocentrismo. Essa concepção integra de forma influente os ensinamentos de Eckhart Tolle, nos quais o ego é apresentado como uma acumulação de pensamentos e emoções com os quais nos identificamos continuamente, o que cria a ideia e a sensação de ser uma entidade separada de si mesmo; somente ao desidentificar a própria consciência dele é possível ser verdadeiramente livre do sofrimento.
Definições Morte do ego e o termo relacionado perda do ego foram definidos no contexto do Misticismo pelo estudioso de religião Daniel Merkur como "uma experiência sem imagem na qual não há senso de identidade pessoal. É a experiência que permanece possível num estado de transe extremamente profundo, quando as funções do ego de testagem da realidade, percepção sensorial, memória, razão, fantasia e autorrepresentação estão reprimidas [...] Os sufis muçulmanos a chamam de fana ('aniquilação'), e os cabalistas judeus medievais o denominaram "o beijo da morte.
Carter Phipps equipara a iluminação à morte do ego, a qual ele define como "a renúncia, rejeição e, em última instância, a morte da necessidade de manter uma existência separada e egocêntrica".
Na Psicologia junguiana, Ventegodt e Merrick definem a morte do ego como "uma transformação fundamental da psique". Tal mudança de personalidade foi denominada "morte do ego" no Budismo, ou "morte psíquica" por Jung.
Na mitologia comparada, a morte do ego é a segunda fase da descrição de Joseph Campbell sobre a Jornada do Herói, que inclui uma fase de separação, transição e incorporação. A segunda fase é uma fase de entrega do eu e morte do ego, após a qual o herói retorna para enriquecer o mundo com suas descobertas.
Na cultura psicodélica, Leary, Metzner e Alpert (1964) definem a morte do ego – ou perda do ego, como a denominam – como parte da experiência (simbólica) de morte na qual o antigo ego deve morrer para que se possa renascer espiritualmente. Eles definem a perda do ego como "... transcendência completa − além das palavras, além do espaço-tempo, além do eu. Não há visões, nenhum senso de eu, nenhum pensamento. Há apenas pura consciência e liberdade extática".
Diversos psicólogos que trabalham com psicodélicos definiram a morte do ego. Alnaes (1964) define a morte do ego como "[A] perda da sensação do ego". Stanislav Grof (1988) a define como "um senso de aniquilação total [...] Essa experiência de 'morte do ego' parece implicar uma destruição instantânea e impiedosa de todos os pontos de referência anteriores na vida do indivíduo [...] [A] morte do ego significa o fim irreversível da identificação filosófica com o que Alan Watts chamou de 'ego encapsulado pela pele'." O psicólogo John Harrison (2010) define "a morte temporária do ego [como a] perda do eu separado, ou, afirmativamente, [...] uma fusão profunda e intensa com o outro transcendente." Johnson, Richards e Griffiths (2008), parafraseando Leary et al. e Grof, definem a morte do ego como "experienciar temporariamente uma perda completa da identidade subjetiva do eu".
Desenvolvimento conceitual O conceito de "morte do ego" desenvolveu-se ao longo de várias vertentes interligadas de pensamento, incluindo especialmente as seguintes: movimentos românticos e subculturas; teosofia; pesquisas antropológicas sobre ritos de passagem e xamanismo; a entrega do eu de William James; a mitologia comparada de Joseph Campbell; psicologia junguiana; a cena psicodélica dos anos 1960; e a psicologia transpessoal.
Misticismo ocidental De acordo com Merkur,
Psicologia junguiana De acordo com Ventegodt e Merrick, o termo junguiano "morte psíquica" é sinônimo de "morte do ego":
Ventegodt e Merrick referem-se às publicações de Jung Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, publicadas pela primeira vez em 1933, e Psicologia e Alquimia, publicadas pela primeira vez em 1944.
Na psicologia junguiana, deve ser alcançada uma unificação dos opostos arquetípicos, durante um processo de sofrimento consciente, no qual a consciência "morre" e ressuscita. Jung chamou esse processo de "função transcendente", que leva a uma consciência mais inclusiva e sintética.
Jung utilizou analogias com a Alquimia para descrever o processo de individuação e os processos de transferência que ocorrem durante a terapia.
Segundo Leeming et al., do ponto de vista religioso, a morte psíquica está relacionada com a Ascensão do Monte Carmelo e a Noite Escura da Alma de São João da Cruz.
Mitologia – O Herói de Mil Faces thumb|right|A Jornada do Herói Em 1949, Joseph Campbell publicou O Herói de Mil Faces, um estudo sobre o arquétipo da Jornada do Herói. O livro descreve um tema comum encontrado em muitas culturas ao redor do mundo, e também é abordado em diversas teorias contemporâneas sobre transformação pessoal. Em culturas tradicionais, descreve a "passagem pela selva", a transição da adolescência para a idade adulta. Tipicamente, inclui uma fase de separação, transição e incorporação. A segunda fase é uma fase de entrega do eu e morte do ego, após a qual o herói retorna para enriquecer o mundo com suas descobertas. Campbell descreve o tema básico da seguinte forma:
Esta jornada baseia-se no arquétipo da morte e renascimento, no qual o "falso eu" é abandonado e o "verdadeiro eu" emerge. Um exemplo bem conhecido é a Divina Comédia de Dante, na qual o herói desce ao submundo.
Psicodélicos
Conceitos e ideias do misticismo e do boêmia foram herdados pela Geração Beat. Quando Aldous Huxley ajudou a popularizar o uso de psicodélicos, começando com As Portas da Percepção, publicado em 1954, Huxley também promoveu analogias com as religiões orientais, conforme descrito em A Filosofia Perene. Esse livro ajudou a inspirar, na década de 1960, a crença em uma revolução na consciência ocidental e incluiu o Livro Tibetano dos Mortos como fonte. De modo semelhante, Alan Watts, em sua declaração inicial sobre experiências místicas em This Is It, traça paralelos com o livro de 1901 de Richard Bucke Consciência Cósmica, descrevendo o "núcleo central" da experiência como
Esse interesse pelo misticismo ajudou a moldar as pesquisas emergentes e a conversa popular em torno dos psicodélicos na década de 1960. Em 1964, William S. Burroughs estabeleceu uma distinção entre drogas "sedativas" e drogas "expansoras da consciência". Nas décadas de 1940 e 1950, o uso de LSD era restrito a pesquisadores militares e psiquiátricos. Um desses pesquisadores foi Timothy Leary, um psicólogo clínico que teve seu primeiro contato com drogas psicodélicas durante férias em 1960, e iniciou suas pesquisas sobre os efeitos da psilocibina em 1961. Ele buscou o conselho de Aldous Huxley, que o orientou a disseminar os psicodélicos entre as elites da sociedade, incluindo artistas e intelectuais. Por insistência de Allen Ginsberg, Leary, juntamente com seu colega mais jovem Richard Alpert (Ram Dass), também disponibilizou o LSD para estudantes. Em 1962, Leary foi demitido, e o programa de pesquisa psicodélica de Harvard foi encerrado. No mesmo ano, Leary fundou a Castalia Foundation, e em 1963, ele e seus colegas fundaram a revista The Psychedelic Review.
Seguindo o conselho de Huxley, Leary escreveu um manual para o uso do LSD. A Experiência Psicodélica, publicado em 1964, é um guia para viagens com LSD, escrito por Timothy Leary, Ralph Metzner e Richard Alpert, vagamente baseado na tradução de Walter Evans-Wentz do Livro Tibetano dos Mortos. Aldous Huxley apresentou o Livro Tibetano dos Mortos a Timothy Leary. Segundo Leary, Metzner e Alpert, o Livro Tibetano dos Mortos é
Eles interpretaram o efeito do LSD como uma "remoção" das defesas do ego, encontrando paralelos entre as fases de morte e renascimento no Livro Tibetano dos Mortos, e as fases de "morte" e "renascimento" psicológicas que Leary havia identificado durante sua pesquisa. Segundo Leary, Metzner e Alpert, trata-se de...
Pesquisas recentes Pesquisas recentes também mencionam que a perda do ego é, por vezes, experienciada por aqueles sob a influência de Drogas psicodélicas.
O Inventário de Dissolução do Ego é um questionário de autorrelato validado que permite a mensuração de experiências transitórias de dissolução do ego ocasionadas por drogas psicodélicas.
Visão das tradições espirituais Após o interesse por psicodélicos e espiritualidade, o termo "morte do ego" tem sido empregado para descrever a noção oriental de "iluminação" (bodhi) ou moksha.
Budismo Diz-se que a prática Zen conduz à morte do ego. A morte do ego também é denominada "grande morte", em contraste com a "pequena morte" física. Segundo Jin Y. Park, a morte do ego incentivada pelo Budismo põe fim à "busca geralmente inconsciente e automatizada" de compreender o senso do eu como uma coisa, em vez de um processo. De acordo com Park, a meditação consiste em aprender a morrer, aprendendo a "esquecer" o senso do eu:
Segundo Welwood, a "ausência de ego" é uma experiência comum. Ela se manifesta "nas lacunas e espaços entre os pensamentos, que geralmente passam despercebidos". A ansiedade existencial surge ao se perceber que o sentimento de "eu" não é nada além de uma percepção. De acordo com Welwood, somente a consciência sem ego nos permite enfrentar e aceitar a morte em todas as suas formas.
David Loy também menciona o medo da morte, bem como a necessidade de passar pela morte do ego para realizar nossa verdadeira natureza. Segundo Loy, nosso receio da ausência de ego pode ser até maior do que o medo da morte.
"A ausência de ego" não equivale a anatta (não-eu). Enquanto a primeira é mais uma experiência pessoal, Anatta é uma doutrina comum a todo o Budismo – descrevendo como os constituintes de uma pessoa (ou de qualquer outro fenômeno) não contêm uma entidade permanente (não se possui uma "essência de si mesmo"):
Taoismo