Geografia da saúde é a aplicação das informações geográficas, perspetivas e métodos para o estudo da saúde, das doenças e da assistência médica.

Visão geral Inicialmente referida como geografia médica,Andrews, G. J. (2002). "Towards a more place-sensitive nursing research: an invitation to medical and health geography". In: Nursing Inquiry, 9(4), 221–238.Page 221. a geografia da saúde tem no modelo biomédico de saúde e enraizada no Positivismo Lógico o seu principio metodológico. Atualmente existe uma enorme produção e contribuições sobre os vários métodos científicos que refletem a evolução desta ciência. O modelo social ou sócio-ecológico, por exemplo, adota uma abordagem holística à doença e às enfermidades.

A análise espacial é uma área de estudo associada à geografia da saúde que abrange informações e/ou processos de determinações dos locais de contágios, epidemias e outros. Ela analisa os eventos epidemiológicos espaciais ou temporais, mapeando-os através de mapas temáticos. A análise espacial permeia a criação de novos modelos cartográficos e variáveis associadas, sendo uma combinação de dados estatísticos, geográficos e dados computacionais, usando softwares e programas que permitem tal ação. Por meio de bancos de dados e de Sistemas de Informação Geográfica (SIGs), informações como população, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), incidência e prevalência de doenças podem ser visualizadas espacialmente e usadas para análises posteriores que podem explicar pautas epidemiológicas e de saúde em geral. Rosa, R. Análise espacial em geografia.Revista Da ANPEGE, 7(01), 275–289, 2017 Câmara G, Monteiro A, Druck S, Marilia F, Carvalho S. Análise espacial e geoprocessamento [Internet]. Disponível em: https://portalidea.com.br/cursos/bsico-em--anlise-espacial-de-dados-geogrficos-apostila02.pdf

É importante destacar que a geografia da saúde também procura compreender a dinâmica dos serviços de saúde, ao pensar o tratamento do indivíduo como um todo e não apenas de componentes do sistema. Desta forma, a organização dos serviços, a distribuição dos equipamentos e os indicadores de saúde serão objetos de estudo. Sob este modelo, novas doenças (por exemplo, doenças mentais) são reconhecidas, e outros tipos de medicina (por exemplo, as complementares ou alternativas) são combinadas com a medicina tradicional.

Essa abordagem metodológica permite a geografia médica e da saúde possa ainda incorporar filosofias como o estruturalismo, interacionismo social, feminismo, etc.

História da Geografia da Saúde A relação entre as doenças e o ambiente já era reconhecida há mais de 2000 anos pelo médico grego Hipócrates, em seu tratado “Sobre os Ares, as Águas e os Lugares”. Segundo Hipócrates, as doenças eram transmitidas através de fluídos, como água, ar e sangue, destacando a influência de fatores ambientais sobre o corpo e a saúde do ser humanoJunqueira, RD. Geografia médica e geografia da saúde. Hygeia-Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde. Minas Gerais; 2009, 5(8): 92-101. Essa explicação do processo saúde-doença foi chamada de teoria dos miasmas.

No contexto das Grandes Navegações, ocorridas nos séculos XV e XVI, vários médicos europeus viajavam para as colônias das África, América e Ásia  e realizavam descrições sobre as pessoas e o espaço, as doenças que afligiam a população dessa região, os métodos locais de tratamento e as crenças sobre as causas dessas aflições. Esses relatos ou “levantamentos médico-geográficos” providenciaram informações estratégicas para comerciantes, visitantes e o exército para ocupar e colonizar novas regiõesPeiter PC. A geografia da saúde na faixa de fronteira continental do Brasil na passagem do milênio [Tese de Doutorado]. Rio de Janeiro: Instituto de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2005.

Os marinheiros, os militares, os exploradores e os naturalistas foram os primeiros a exprimir a necessidade do mapa e que atualmente ultrapassa o campo da geografia para o de todas as disciplinas que incluem o espaço e o tempoJOLY, F. A cartografia. Campinas, SP: Papirus, 1990.. O uso da informática, do tratamento das imagens, do auxílio computacional, do tratamento dos dados - mais presentemente -, permite ao pesquisador assumir uma nova dimensão do cartografável.

Uma pesquisa clássica na área da geografia da saúde foi realizada em 1854 quando a cólera se espalhou por Londres. Muitos estavam morrendo e a população temeu que estivesse sendo infectada por vapores vindos do chão. Dr. John Snow pensou que se pudesse localizar a fonte da doença, ela poderia ser contida. Elaborou mapas mostrando as casas das pessoas que haviam morrido de cólera e a localização das bombas de água. Ele descobriu que uma bomba, a bomba pública em Broad Street era central para a maioria das vítimas. Deduziu que a água infectada da bomba era a culpada. Ele instruiu as autoridades a remover o acesso à bomba, tornando-a inutilizável. Após isso o número de novos casos caiu.

O desenvolvimento da teoria microbiana pelo médico alemão Robert Koch (1843-1910) revolucionou a compreensão do processo saúde-doença ao demonstrar que organismos microscópicos chamados de patógenos podem causar doenças específicas. Essa descoberta, embora crucial para a medicina, levou à negligência da influência de outros fatores importantes como o ambiente e as condições de vida. Essa visão reducionista fez com que a relação entre saúde e ambiente fosse amplamente desconsiderada, causando um declínio na produção de conhecimento em Geografia Médica.

História da Geografia da Saúde no Brasil As primeiras descrições sobre a distribuição espacial das doenças no território brasileiro foram realizadas por viajantes estrangeiros e naturalistas durante o Brasil Colonial, como o frade André Thevet e o naturalista Johann Spix. Entretanto, foi somente a partir da década de 50, com a intensificação do processo de ocupação e integração do interior do Brasil, que houve um aumento das pesquisas em Geografia Médica, ainda que inicialmente muito ligada a interesses colonialistas e capitalistas. Dentre as pesquisas desenvolvidas nessa época, destaca-se a obra “Geografia da Fome” (1946), do médico brasileiro Josué de Castro. Neste livro, o autor denuncia a fome como um fenômeno social, criticando as explicações deterministas que atribuíam a causa da fome às condições naturais e à superpopulaçãoCASTRO, J . Geografia da Fome. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1946..  

Muitos trabalhos como o dos professores Oswaldo Paulo Forattini, Samuel Pessoa e Josué de Castro já demonstram a preocupação com o tema, muito mesmo antes de uma Geografia da Saúde definida como ciência. Sempre houve pesquisas com temas diferenciados, todavia, mostrando a preocupação com a saúde pública brasileira e seus contextos. Somente a partir de 2003 foi criado o I Simpósio Nacional de Geografia da Saúde na UNESP de Presidente Prudente - SP. Este evento teve como objetivo:

1. Identificar e analisar as ações investigativas, congregando os pesquisadores que estudam a temática da saúde, tanto em instituições universitárias como em instituições do setor saúde.

2. Propor atividades concretas para criar a articulação permanente entre os interessados no tema.

3. Avaliar a contribuição da Geografia Brasileira em saúde, situando-a no contexto da produção latinoamericana.

Já no II Simpósio Nacional de Geografia da Saúde, evento realizado no Rio de Janeiro em 2005, trouxe a preocupação de que a Geografia da Saúde era um campo do conhecimento em crescimento e que um dos compromissos primordiais era contribuir para a consolidação do SUS e a redução das desigualdades sociais. No Brasil, diversos eventos no campo da Saúde Coletiva, como os congressos brasileiros de Epidemiologia, e da Geografia, como os encontros nacionais de geógrafos, têm demonstrado o interesse crescente, tanto de sanitaristas quanto de geógrafos, na incorporação de conceitos e no desenvolvimento de metodologias capazes de incluir o espaço geográfico nas análises de situação de saúde e no estabelecimento de políticas públicas de saúde. Por isso, o tema escolhido para nortear as discussões do II Simpósio foi “a geografia e o contexto dos problemas de saúde”. Desta forma, os objetivos do encontro foram:

1. Avaliar e divulgar a produção científica sobre geografia e saúde no Brasil.

2. Promover o intercâmbio entre pesquisadores e entre métodos utilizados pela geografia da saúde.

3. Incentivar a incorporação de abordagens geográficas nas temáticas de saúde coletiva.

4. Incentivar a difusão da geografia da saúde e sua incorporação ao currículo de formação de geógrafos e profissionais de saúde.

Em 2007, o III Simpósio Nacional de Geografia da Saúde reforçou o âmbito internacional do evento. A participação de colegas/equipes de vários países (em particular da Argentina, Cuba e Portugal), reafirmou a vocação internacional do mesmo. Assim, a realização do III Simpósio Nacional e do II Fórum Internacional de Geografia da Saúde foi na cidade de Curitiba, numa promoção conjunta da UFPR / UEL / UEM. Também diferentemente dos anteriores, o evento não teve objetivos, a coordenação adotou um tema geral para conduzir a discussão do simpósio. O tema geral do evento foi “Geografia, Medicina e Saúde: Do diálogo de saberes aos desafios da espacialização do processo saúde-doença”. Esta temática geral encontra-se sub-estruturada em cinco eixos temáticos nos quais tanto os avanços teórico-metodológicos quanto os estudos de casos poderão explicitar abordagens que coloquem em evidência o estado da arte da geografia médica e da saúde no Brasil e no exterior; os trabalhos a serem apresentados e debatidos possam, almeja-se, contribuir para minimizar os problemas de saúde da população e para uma maior eficácia das políticas de saúde. O debate ajudou a pensar para além das especificidades disciplinares. Alguns detalhes da multicausalidade das doenças e da multi-interdisciplinaridade envolvida neste conhecimento são merecedores de maior atenção, tais como a linguagem necessária para a promoção do trabalho conjunto e do intercâmbio de experiências, conhecimentos e ideias, o que ficou evidente nas discussões do evento.

Áreas de estudo A geografia da saúde pode fornecer entendimento espacial da saúde de uma população, a distribuição de doenças em uma área, e os efeitos ambientais na saúde e nas doenças. Trata também da acessibilidade à assistência médica e à distribuição de provedores da assistência. Esta área é considerada um campo interdisciplinar da geografia, no entanto, vem buscando entendimento em outros campos como epidemiologia, estatística, geoprocessamento, sociologia, biogeografia e climatologia.

Geografia do fornecimento de assistência médica