O eclipse do darwinismo (The eclipse of Darwinism no original, em inglês) é a expressão usada por Julian Huxley para descrever o período anterior à síntese evolutiva moderna em que a evolução era largamente aceite no meio científico, mas relativamente poucos biólogos aceitavam a seleção natural como o seu mecanismo principal. Historiadores de ciência como Peter J. Bowler têm usado essa expressão para descrever a história do pensamento evolutivo desde a década de 1880 até às primeiras décadas do século XX, quando algumas alternativas à seleção natural foram desenvolvidas e exploradas, e muitos biólogos consideravam a seleção natural como um palpite errado da parte de Darwin. As quatro principais alternativas à seleção natural no fim do século XIX eram a evolução teísta, neolamarquismo, ortogénese e saltacionismo.

Nos estudos historiográficos contemporâneos, o conceito de “eclipse do darwinismo” tem sido objeto de debate. Alguns historiadores da ciência argumentam que o termo pode sugerir uma rejeição mais ampla da seleção natural do que aquela efetivamente observada na prática científica da época. Outros autores apontam que muitos naturalistas continuaram a considerar a seleção natural uma hipótese plausível, mesmo quando exploravam teorias alternativas sobre os mecanismos evolutivos. Dessa forma, o período tem sido interpretado como uma fase de pluralismo teórico na biologia evolutiva.

Contexto histórico Após a publicação de A Origem das Espécies em 1859, a ideia de que as espécies evoluem ao longo do tempo foi progressivamente aceita por grande parte da comunidade científica. Contudo, a explicação de Darwin baseada na seleção natural enfrentou resistência significativa entre biólogos e naturalistas do final do século XIX.

Esse período coincidiu com profundas transformações intelectuais associadas à consolidação das ciências naturais na Europa e na América do Norte. A biologia, enquanto disciplina científica institucionalizada, ainda estava em formação, e muitas das ferramentas conceituais e experimentais que seriam centrais para a biologia evolutiva do século XX ainda não existiam.

Entre os fatores que contribuíram para o debate estavam limitações no conhecimento científico da época. A genética mendeliana ainda não havia sido redescoberta, e os mecanismos de herança eram pouco compreendidos. Como resultado, muitos cientistas acreditavam que a seleção natural não poderia preservar variações hereditárias ao longo das gerações.

Além disso, parte da resistência estava relacionada a concepções filosóficas e culturais sobre a natureza. Muitos naturalistas defendiam que a evolução deveria seguir um caminho de progresso ou aperfeiçoamento, o que parecia incompatível com a visão darwiniana baseada em variações aleatórias e competição entre organismos.

O debate também refletia mudanças mais amplas na relação entre ciência, religião e sociedade. A teoria da evolução tinha implicações profundas para a compreensão da origem humana e da natureza da vida, o que provocou controvérsias não apenas científicas, mas também filosóficas e teológicas.

Razões para a procura de alternativas A evolução foi largamente aceite nos círculos científicos em poucos anos após a publicação da "A Origem das Espécies", mas a aceitação da seleção natural como o mecanismo condutor foi muito menor. Várias razões contribuíram para isso. A ênfase dada pela seleção natural na morte e competição não apelava a muitos naturalistas que sentiam que era imoral e deixava pouco espaço para teleologia (propósito) ou o conceito do "progresso" no desenvolvimento da vida. Além disso, alguns consideravam que a seleção natural seria demasiado lenta, dadas as estimativas da idade da terra e do sol (entre 10 e 100 milhões de anos) feitas na altura por físicos como Lord Kelvin. Outra objecção era que a seleção natural não podia funcionar porque naquela altura os modelos de hereditariedade envolviam a mistura de características herdadas.

Essas críticas estavam ligadas às limitações empíricas da biologia da época. A ausência de um modelo convincente de hereditariedade foi considerada um dos principais problemas da teoria darwiniana até a redescoberta das leis de Gregor Mendel em 1900.

Evolução teísta Evolução teísta foi a ideia de que Deus interveio no processo de evolução para o guiar de tal modo que se poderia ainda considerar que o mundo vivo foi desenhado. Alguns dos seus defensores incluíram Asa Gray, que considerava a seleção natural importante mas acreditava que Deus influenciava as variações em que a seleção atuava, e George Jackson Mivart e o Duque de Argyle, que rejeitavam a seleção natural por completo. Contudo, esta ideia saiu rapidamente de moda entre cientistas, assim que ficaram mais comprometidos com a ideia de naturalismo metodológico e começaram a acreditar que apelos diretos ao envolvimento sobrenatural eram cientificamente improdutivos e uma forma de alegação especial.

Historicamente, a evolução teísta representou uma tentativa de conciliar o darwinismo com tradições religiosas predominantes no século XIX. Teólogos e cientistas procuraram interpretar a evolução como um processo guiado por princípios divinos ou finalidades naturais.

Embora tenha perdido espaço no meio científico ao longo do século XX, a ideia de evolução teísta continuou a influenciar debates públicos sobre evolução e religião, especialmente em contextos educacionais e culturais.

Neolamarquismo O termo Lamarquismo foi usado para a ideia que características adquiridas durante o curso de vida de um organismo podem ser herdadas pela próxima geração.

Durante o final do século XIX, o neolamarquismo tornou-se uma das alternativas mais influentes à seleção natural. Muitos naturalistas consideravam que a adaptação direta ao ambiente poderia explicar mudanças evolutivas de forma mais intuitiva do que a seleção natural baseada em variações aleatórias.

Entre os defensores dessa posição estavam cientistas como Edward Drinker Cope e Ernst Haeckel, que argumentavam que os organismos possuíam certa capacidade de direcionar sua própria evolução por meio de mudanças funcionais induzidas pelo ambiente.

Críticos do neolamarquismo apontaram que ninguém tinha alguma vez produzido evidências sólidas que comprovassem a hereditariedade de características adquiridas. O trabalho experimental do biólogo alemão August Weismann resultou na teoria do germoplasma. Isto levou à declaração dele de que a herança de características adquiridas era simplesmente impossível.

Pesquisas contemporâneas em biologia evolutiva discutem possíveis formas de herança epigenética, embora esses processos não correspondam diretamente às formulações clássicas do lamarquismo.

Efeito de Baldwin Como consequência do debate sobre a viabilidade do neolamarquismo na década de 1890, James Mark Baldwin, Henry Fairfield Osborne e C. Lloyd Morgan propuseram independentemente um mecanismo em que comportamentos recém-aprendidos poderiam causar evolução de novos instintos e características físicas através de seleção natural. Isto ficou conhecido como o efeito de Baldwin.

Pesquisas contemporâneas sobre plasticidade fenotípica e evolução do desenvolvimento retomaram o interesse pelo efeito de Baldwin como possível mecanismo de interação entre comportamento e evolução genética.

Ortogénese Ortogénese ou evolução ortogenética foi a hipótese de que a vida tem uma tendência inata para mudar num modo unilinear. Esta hipótese teve popularidade significativa entre alguns paleontólogos do século XIX.

Alguns cientistas interpretaram padrões observados no registro fóssil como evidência de tendências evolutivas direcionais, sugerindo que certos grupos de organismos evoluíam ao longo de trajetórias previsíveis.

Historiadores da ciência apontam que essas interpretações estavam frequentemente associadas a tentativas de explicar padrões macroevolutivos observados no registro fóssil antes do desenvolvimento da genética de populações.

Saltacionismo Saltacionismo era a ideia de que novas espécies surgiam como resultado de mutações de grande efeito. Isto era visto como uma alternativa mais rápida ao conceito darwiniano de um processo gradual.

Pesquisas posteriores em genética evolutiva indicam que mutações de grande efeito podem ocorrer, mas que a maioria das mudanças evolutivas resulta da acumulação de mutações de pequeno efeito combinadas com seleção natural.

Síntese evolutiva moderna Entre as décadas de 1930 e 1940, desenvolveu-se a chamada síntese evolutiva moderna, que integrou os princípios da genética mendeliana com a teoria da seleção natural proposta por Darwin.

Cientistas como Ronald Fisher, J. B. S. Haldane e Sewall Wright desenvolveram modelos matemáticos que demonstraram como a seleção natural poderia atuar sobre variações genéticas em populações.

Essa integração teórica contribuiu para explicar muitos dos problemas que haviam motivado o debate durante o período do eclipse do darwinismo, especialmente as questões relacionadas à hereditariedade e à manutenção da variação genética.

Fatores extra-científicos e oposições morais Além dos debates técnicos sobre herança biológica, o eclipse do darwinismo foi fortemente impulsionado por resistências de caráter filosófico, religioso e moral por parte dos naturalistas do final do século XIX . A seleção natural de Darwin, fundamentada na sobrevivência do mais apto e na eliminação dos menos adaptados por meio da competição e da morte, gerava repulsa em pensadores vitorianos, que a consideravam uma visão de mundo excessivamente materialista, cruel e desprovida de propósitos espirituais ou teleológicos .

Teorias alternativas exploradas no período, como o neolamarckismo e a ortogênese, ganharam popularidade justamente por reintroduzir uma noção de progresso linear e direção moral na evolução dos seres vivos . O historiador da ciência Peter J. Bowler aponta que cientistas do período preferiam explicações que permitissem enxergar a humanidade como o ápice planejado da natureza, rejeitando a aleatoriedade e o caráter não-guiado propostos originalmente por Charles Darwin .

Notas

Referências

Categoria:Evolução Categoria:História da ciência