O Solar dos Andradas foi uma edificação colonial situada no alto da colina de Santana, na atual Zona Norte da cidade de São Paulo. Originalmente, o edifício integrava a sede da Fazenda de Sant'Ana, propriedade rural pertencente ao Colégio de São Paulo da Companhia de Jesus. A denominação pela qual ficou conhecido decorre de sua associação com os irmãos José Bonifácio de Andrada e Silva e Martim Francisco Ribeiro de Andrada, que residiram no local durante o período da Independência do Brasil.
O solar original não existe mais. A antiga sede da fazenda, acompanhada de capela, tulhas e outras dependências, foi demolida em 1916 para a construção de um quartel do Exército Brasileiro. O terreno, localizado na atual rua Alfredo Pujol, é ocupado pelo Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo (CPOR/SP). Em 2004, o Exército concedeu à organização militar a denominação histórica de “Centro Solar dos Andradas”, preservando institucionalmente a memória do edifício desaparecido.
Origem jesuítica A edificação teve origem no conjunto religioso e administrativo da Fazenda de Sant' Ana. Em 1727, a Igreja de Santa Ana encontrava-se praticamente arruinada, levando o reitor José Viveiros a determinar sua restauração e a construção de uma residência anexa para os padres que celebravam missas na propriedade. As obras foram concluídas em 1735, quando a casa passou a servir como moradia permanente de dois religiosos. O edifício possuía oito aposentos, dois corredores, varanda, pavimento superior coberto por telhas, cozinha, refeitório e ferraria, além de doze portas e treze janelas.
O conjunto não correspondia originalmente a uma residência aristocrática independente, mas a uma casa religiosa integrada à fazenda jesuítica. A propriedade produzia leite, mandioca, legumes e frutas e constituía, em meados do século XVIII, a mais importante unidade rural administrada pelo Colégio de São Paulo. A sede ocupava uma posição elevada em relação à várzea do rio Tietê, junto aos caminhos que ligavam São Paulo ao Mandaqui, Tremembé, Juqueri, Atibaia e às localidades situadas ao sul de Minas Gerais.
A lei portuguesa de 3 de setembro de 1759 determinou a expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses e o sequestro de seus bens temporais. Em consequência dessa política, associada ao governo do Marquês de Pombal, a Fazenda de Santana e sua sede foram incorporadas ao patrimônio da Coroa. Nas décadas seguintes, o antigo conjunto rural passou a receber funções administrativas e residenciais vinculadas ao poder público.
Os Andradas e o Manifesto Paulista
thumb|José Bonifácio de Andrada e Silva.Durante o processo que antecedeu a Independência do Brasil, o casarão serviu de residência aos Andradas. A associação mais conhecida do edifício refere-se à representação enviada pela Junta do Governo de São Paulo ao príncipe-regente D. Pedro, em dezembro de 1821. O documento, posteriormente denominado Manifesto Paulista, solicitava que o príncipe não cumprisse a determinação das Cortes de Lisboa para regressar a Portugal e permanecesse no Brasil.
A representação foi assinada pela Junta paulista em 24 de dezembro de 1821 e é atribuída a José Bonifácio. Juntamente com a representação enviada por Minas Gerais e com manifestações produzidas no Rio de Janeiro, o documento contribuiu para a decisão anunciada por D. Pedro em 9 de janeiro de 1822, episódio que ficaria conhecido como Dia do Fico.
A localização da redação do documento no Solar dos Andradas, entretanto, é conhecida por meio de um testemunho posterior. Maria Celestina Torres cita um relatório apresentado em 1864 pelo conselheiro Manuel Joaquim do Amaral Gurgel, segundo o qual José Bonifácio teria redigido a representação na antiga sede da fazenda, em dezembro de 1821. Por essa razão, a vinculação do solar ao Manifesto Paulista deve ser apresentada como uma atribuição histórica fundamentada nesse depoimento, e não como informação comprovada por um registro contemporâneo à elaboração do documento.
A Representação dos Paulistas foi fator preponderante para a decisão de D. Pedro de permanecer no país e foi efetivada em 9 de janeiro de 1822 conhecida, a partir de então, como o Dia do Fico.
Trecho da carta:
Usos posteriores Em 1825, a antiga sede foi transformada no Seminário de Educandos de Santana por iniciativa de Lucas Antônio Monteiro de Barros, primeiro presidente da Província de São Paulo. O estabelecimento destinava-se à instrução e à assistência de meninos pobres e foi inicialmente dirigido por Joaquim Francisco do Livramento. Relatórios produzidos entre 1829 e 1841 registraram problemas de administração, falta de pessoal, deterioração das instalações e sucessivas dificuldades financeiras.
O seminário também foi utilizado em experiências de formação profissional. Além do ensino das primeiras letras, houve tentativas de organização de oficinas voltadas a ofícios como sapataria e alfaiataria. Em diferentes períodos, o estabelecimento foi transferido para a área central da cidade e reinstalado em Santana. O edifício, construído principalmente em taipa, apresentava infiltrações, danos no telhado, deterioração dos dormitórios e problemas na cozinha e na capela.
Em 1875, o governo provincial instalou na antiga sede um hospital e um cemitério destinados às vítimas de varíola. A escolha relacionava-se ao relativo isolamento de Santana em relação à área urbana mais consolidada de São Paulo. O hospital foi desativado no final da década de 1870 e o casarão passou a ser utilizado como hospedaria dos imigrantes encaminhados ao Núcleo Colonial de Santana.
Antes de receber os colonos, a construção passou por serviços de caiação, pintura e reparos. Os imigrantes permaneciam temporariamente no casarão até serem encaminhados aos lotes rurais do núcleo, fundado oficialmente em 28 de junho de 1877. A hospedaria de Santana funcionou entre 1877 e 1878, período em que o núcleo permaneceu submetido à tutela e aos subsídios do governo.
Ocupação militar e demolição thumb| Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São PauloNo final do século XIX, depois do loteamento de parte das antigas terras da Fazenda de Santana, o casarão foi transformado em quartel. A partir de 1893, passou a alojar contingentes de diferentes unidades militares que transitavam ou permaneciam na capital paulista. O estado de conservação do imóvel, entretanto, já era considerado precário desde o período em que funcionava como Seminário de Educandos.
Construído predominantemente em taipa, o solar permaneceu em pé até 1916. Naquele ano, a antiga sede da fazenda, a capela, as tulhas, a senzala e outras dependências foram demolidas para dar lugar a um novo quartel do Exército na rua Alfredo Pujol. Assim, o prédio atualmente existente no local não corresponde ao solar colonial ocupado pelos jesuítas e pelos Andradas, mas a um conjunto militar construído posteriormente.
O CPOR/SP, criado em 1930 e transferido para as instalações de Santana em 1948, incorporou a memória do antigo solar à sua identidade institucional. Pela Portaria nº 279, de 17 de maio de 2004, o Comandante do Exército concedeu à organização militar a denominação histórica de “Centro Solar dos Andradas”. A homenagem preserva a associação do local com José Bonifácio e com o processo político que antecedeu a Independência, embora nenhuma parte comprovada da construção jesuítica tenha sobrevivido à demolição de 1916.
Ligações externas
Bibliografia
Categoria:História do estado de São Paulo Categoria:Construções demolidas da cidade de São Paulo Categoria:Solares de São Paulo Categoria:Arquitetura do Brasil do século XVIII Categoria:Santana (distrito de São Paulo)