thumb|right|250px|O conceito do impossível Das Unmögliche (em latim Imposibile) aqui nesta gravura de Hans Sebald Beham visto em um representação personificada, produzido em cobre na região da atual Alemanha em 1549. A advertência em língua alemã antiga porém compreensível ainda hoje, reza para que a pessoa nunca se proponha fazer aquilo que lhe seja impossível conseguir: Niment under stesich groser Ding, die im zu thun unmuglich sindt.
A húbris ou hybris (em grego ὕβρις, "hýbris") é um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida; descomedimento" e que atualmente alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (originalmente contra os deuses), que com frequência termina sendo punida. Na Antiga Grécia, aludia a um desprezo temerário pelo espaço pessoal alheio, unido à falta de controle sobre os próprios impulsos, sendo um sentimento violento inspirado pelas paixões exageradas, consideradas doenças pelo seu caráter irracional e desequilibrado, e concretamente por Até (a fúria ou o orgulho). Opõe-se à sofrósina, a virtude da prudência, do bom senso e do comedimento.
A húbris na antiguidade
Aristóteles definiu húbris como uma humilhação para a vítima, não por causa de qualquer coisa que tenha acontecido ou que ela tenha feito ou pudesse fazer contra você, mas meramente por descaso seu em relação a ela. Húbris não é o acerto de contas por erros cometidos - isso é vingança. Húbris é o descaso que alguém tem pelos outros, ou pelos deuses, achando que pode fazer tudo que quiser. Rhetoric. 350 B.C.E.. p. 1378b
A húbris é relacionada ao conceito de moira, que em grego significa 'destino', 'parte', 'lote' e 'porção' simultaneamente. O destino é o lote, a parte de felicidade ou desgraça, de fortuna ou desgraça, de vida ou morte, que corresponde a cada um em função da sua posição social e da sua relação com os deuses e os homens. Contudo, o homem que comete húbris é culpável de desejar mais daquilo que lhe foi concedido pelo destino. O castigo dos deuses para a húbris é a nêmesis, que tem como efeito fazer o indivíduo retornar aos limites que transgrediu.
A concepção da húbris como infração determina a moral grega como uma moral da mesura, a moderação e a sobriedade, obedecendo o provérbio pan metron, que significa literalmente 'à medida de todas as coisas', ou melhor ainda 'nunca demais' ou 'sempre bem'. O homem deve continuar sendo consciente do seu lugar no universo, é dizer, ao mesmo tempo da sua posição social numa sociedade hierarquizada e da sua mortalidade ante os imortais deuses.
A húbris é um tema comum na mitologia, as tragédias gregas e o pensamento pré-socrático, cujas histórias incluíam com frequência protagonistas que sofriam de húbris e como consequência da sua transgressão eram castigados pelos deuses (o qual não necessariamente implica um desfecho trágico). A tragédia ocorre com a ultrapassagem do metron pelo homem, uma transgressão contra a ordem social e, portanto, contra os deuses imortais: a hybris. Isto origina a nêmesis, o ciúme divino, provocando que seja lançada contra o herói a Até, a cegueira da razão. Ele virá a ser subjugado sem apelo pela moira, o destino cego.
Na Teogonia de Hesíodo, as diferentes raças de homens (de bronze, de ferro, et cétera) vão sucedendo-se enquanto as anteriores são condenadas pela sua húbris. Em certo jeito, a infração de Agamemnon no primeiro livro da Ilíada é relacionada com a húbris, por ter despojado Aquiles da parte da pilhagem que lhe deveria corresponder por justiça. Ainda na literatura, Ésquilo em Os Persas explora o tema. Xerxes, rei persa filho de Dário, por sua grande húbris, se considera igual aos Deuses e Numes e é confundido como uma epifania do Deus Ares, por isso, perde a Batalha de Salamina contra Atenas. Por sua vez, Heráclito amostra a húbris como o assinalamento de uma infração para o Nous ou deus legal: «O sol não traspassará as suas medidas, pois se não será descoberto pelas Erínias, assistentes da Dice.» Porém, Heráclito acredita que enquanto haja discórdia, poderão as partes fundir-se no Um. Portanto aqui a húbris é um fluir de opostos, fazendo possível a vida.
Havia também uma deusa chamada Hybris, a personificação do anterior conceito: insolência e falta de moderação e instinto. Hybris passava a maior parte do tempo entre os mortais. Segundo Higino era filha de Érebo e a Noite, atribuindo outros autores a maternidade de Coros, o daimon do desdém.
No direito grego, a húbris refere-se com maior frequência à violência ébria dos poderosos para os débeis. Na poesia e a mitologia, o término foi aplicado àqueles indivíduos que se consideram iguais ou superiores aos deuses. A húbris era com frequência o 'trágico erro' ou hamartia das personagens dos dramas gregos.
Exemplos de húbris Personagens mitológicas gregas e romanos castigadas pela sua húbris: Agamemnon Aracne Belerofonte Cassandra Ciniro Creonte Eco Édipo Efialtes Egisto Euforbo Heitor Herácles Jasão Laio Mársias Minos Narciso Níobe Odisseu Orestes Oto Páris Penteu Prometeu Quione Salmoneu Sísifo Tâmiris Tirésias Térsites
O castigo por arrogância também aparece como um tema na Bíblia: Adão e Eva são tentados a ser como Deus e por isso expulsos do Jardim do Éden. A Torre de Babel foi erigida para chegar ao céu, mas Deus a destruiu.
A húbris atualmente O historiador britânico Arnold J. Toynbee, no seu volumoso Estudo da História, utiliza o conceito de húbris para explicar uma possível causa do colapso das civilizações, como variante ativa da nêmesis da criatividade.
Etimologia O termo deriva do grego ὕβρις hybris
O adjectivo "híbrido" vem do grego hybris, através do latim hybrida, pois os gregos consideravam o hibridismo, consequente da miscigenação, uma violação das leis naturais.
Ver também Sofrósina Impiedade Vaidade Nêmesis
Ligações externas
Bibliografia FISHER, Nick(1992). Hybris: a study in the values of honour and shame in Ancient Greece, Warminster , Reino Unido: Aris & Phillips.
Categoria:Filosofia da Grécia Antiga Categoria:Conceitos filosóficos Categoria:Barreiras ao pensamento crítico