As Ruínas romanas de Milreu ou Ruínas de Estói são um importante conjunto arqueológico em Estoi, no município de Faro, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA É composto principalmente pela abastada villa romana de Sambada ou Sambata, com termas anexas, e os vários edifícios em redor, incluindo um templo, mausoléus, e diversas estruturas industriais e comerciais. Também inclui uma casa quinhentista, que foi construída em cima das ruínas. As ruínas são famosas em Portugal e no estrangeiro devido às suas termas, pelo seu templo e pelos painéis de mosaicos. A villa foi habitada desde o e sofreu grandes obras de modificação nos séculos seguintes, enquanto que o templo pagão, construído no , foi posteriormente aproveitado pelas religiões cristã e muçulmana. Consideradas um dos mais importantes conjuntos arqueológicos do período romano em Portugal, foram classificadas como Monumento Nacional em 1910.Ficha na base de dados da DGPC O complexo arqueológico inclui um centro de interpretação, para apoio e informação aos visitantes.

Descrição Localização O complexo de Milreu situa-se na freguesia de Estói, parte do concelho de Faro. Estói está situado no interior do Algarve, numa região conhecida como Barrocal.BRANCO e CONCEIÇÃO, 2015:54 Milreu ocupa uma posição junto ao Cerro do Guelhim, uma colina na margem esquerda do Rio Seco, no sopé da Serra de Monte Figo.

A villa foi construída num outeiro de reduzidas dimensões, que se prolongava num esporão, e que a Ocidente tinha várias nascentes de água.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:14-15 Na outra margem do Rio Seco passaria muito provavelmente uma importante estrada romana de Ossónoba (Faro) a Pax Julia (Beja), que possivelmente terá estado ligada à villa por um caminho com ponte sobre o rio, talvez localizada no sítio da moderna ponte. A rua que dividia o complexo de Milreu fazia muito provavelmente parte deste caminho, assegurando desta forma bons acessos entre a villa e outros centros de produção na região, com destaque para a importante cidade portuária de Ossónoba. A localização da villa, perto de boas estradas de acesso ao resto do território, espalhava as recomendações do escritor romano Columela sobre a instalação das colónias agrícolas na sua obra Res Rustica.

Milreu é um dos três núcleos romanos situados nas imediações da importante povoação romana de Ossónoba, correspondente à moderna cidade de Faro, sendo os outros dois a antiga villa de Quinta do Marim, e a cidade de Balsa. O investigador José d'Encarnação avançou a teoria de que, devido à sua riqueza arquitectónica e decorativa, a villa de Milreu seria a residência temporária do governador provincial romano, sedeado em Ossónoba.

thumb|esquerda|Plano urbano de Milreu, excluindo a casa seiscentista construída em cima das ruínas. Legenda: A - edifício residencial; B - termas; C - lagar de azeite; D - adega; E - mausoléu; F - habitações para trabalhadores; G - templo; H - edifício comercial; I - zona ajardinada

Composição Segundo a classificação do escritor romano Catão, as villas estavam normalmente divididas em duas zonas principais, a parte urbana (pars urbana), correspondente às estruturas residenciais, e a parte rústica ou agrícola (pars rustica), que englobava as instalações de apoio agrícola. No caso de Milreu, a parte urbana incluía o edifício residencial com as termas anexas e um templo. A parte rústica era constituída por várias estruturas de produção, incluindo uma adega, um lagar para azeite com cinco prensas, e um conjunto residencial para servos. Esta disposição urbana, com a villa rodeada de edifícios de apoio, como oficinas e residências térreas, era comum no Império Romano. Também junto à villa existia um edifício comercial, provavelmente um armazém, e mais afastadas estavam duas estruturas funerárias. Devido ao terreno inclinado, os edifícios romanos foram construídos em terraços.CARRASCO et al, 2008:84-85 O complexo era atravessado por uma estrada com pavimento de lajes irregulares (lithostrotum - litóstroto) que corria no eixo Oeste - Este, que dividia a povoação e onde se situavam os principais edifícios. Esta estrada correspondia ao conceito romano do Decúmano (decumanus), adoptado a partir dos planos utilizados nos campos militares.

Posteriormente foi construído um centro de interpretação, de forma a prestar informações sobre as ruínas aos visitantes.BRANCO e CONCEIÇÃO, 2015:85

Estácio da Veiga, que fez as primeiras investigações arqueológicas em Milreu, considerou na época que as ruínas pertenciam à cidade romana de Ossónoba e descreveu-as da seguinte forma: «onde pus à vista a famosa catedral de Ossónoba [...] descobri um opulento edifício balneário com 58 compartimentos, casas de habitação, oficinas industriais, arruamentos, canalizações, e nas ombras do Cerro de Guelhim o cemitério da cidade pagã, inteiramente separado dos monumentos e jazigos cristãos que torneavam o majestoso templo, de ordem coríntia, nos seus dois claustros circundantes e até invadiram o âmago da própria catedral. [...] No plano inferior ao dos pavimentos desses nobilíssimos edificios recamados de preciosos mosaicos e alicerces dos seus muros marchetados de mármore e pórfiros estavam os assentamentos de outros mais antigos predecessores, que usavam instrumentos de pedra.».

Casa romana O principal edifício da parte habitacional de Milreu era uma grande casa (villa) de uma abastada família romana, que fazia conjunto com um edifício termal. A villa, ou casa de campo, foi um conceito muito difundido durante a civilização romana, sendo normal os cidadãos mais abastados deslocarem-se com as suas famílias desde as casas nas cidades até às villas durante os períodos das férias.

O complexo residencial de Milreu era de grandes dimensões, contando com um grande número de salas. O espaço exterior em frente da porta principal no lado Sul (ianua - jânua) era ladeado por dois tanques semicirculares, que originalmente estavam cobertos por cúpulas semi-esféricas.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:19 Passando pela porta acedia-se ao vestíbulo (vestibulum), que nos anos finais foi subdividido por muros, e cujo pavimento estava decorado com mosaicos geométricos, como pode ser comprovado pelos fragmentos de cerâmica que foram encontrados. O vestíbulo dava acesso a um corredor (prothyrum - prótiro) com um lanço de escadas, de forma a vencer a diferença de altura da zona residencial, que viria a ser posteriormente coberto por uma rampa.

A porta do prótiro dava acesso ao átrio (atrium) ou peristilo (peristilum) – um pátio central em redor do qual a casa se organizava e pelo qual se acedia à maior parte das divisões. Entre as divisões em redor do átrio estavam vários quartos (cubicula - cubículos), alguns deles destinados a visitantes, um triclínio (triclinium, uma sala de jantar formal) e salas de estar. O átrio, no estilo coríntio (corinthium), tinha forma rectangular, era descoberto no centro e tinha arcadas de passeio com cobertura de telha. Media 24,30 x 28 m e as galerias tinham uma largura de 3 m. Ao centro possuía um tanque de água onde poderiam viver peixes, junto ao qual existiria provavelmente um jardim. As colunas eram feitas de mármore cinzento e o espaço entre elas, de cerca de um metro de largura, estava ornado com galerias rendilhadas também de mármore. Restaram apenas duas bases de colunas, em tijolos segmentados, mas que apresentam ainda vestígios de estuque pintado. O lado maior do peristilo tinha oito colunas e o lado menor seis. No átrio também existia um poço de água potável (puteus).

Nas casas romanas, o átrio era o principal espaço de convívio da família. A abertura central deixava passar a luz natural, que era aproveitada ao máximo devido aos primitivos e perigosos métodos de iluminação artificial da época. Geralmente, também era no átrio que estavam instalados os altares dos deuses adorados pelos proprietários – os Penates.

O fornecimento de água para as termas era feito através do implúvio (impluvium), um tanque central no átrio que guardava a água da chuva, que era por sua vez alimentado por um grande reservatório, o dividículo (dividiculum), que também era utilizado como piscina para natação (piscina natalis). A água era transmitida do implúvio por um orifício para despejo de águas (emissário - emissarium) sendo depois conduzido por canos (plumbum) de chumbo até ao templo e às outras divisões da casa, incluindo as termas e um reservatório de água (aquário - aquarium). A alimentação de água também era feita através de canos, que se iniciavam em nascentes na encosta e terminavam no reservatório.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:30-31

Também existia um outro pequeno átrio, em redor do qual estavam os compartimentos mais privados da casa, decorados com mosaicos geométricos.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:22-23 Este átrio media 12,50 por 9 m, e tinha uma fonte com repuxo no centro. Num quarto no lado Sul foi encontrado um fragmento de mosaico mais antigo, também com desenhos geométricos, enquanto que perto da fonte foram desenterrados fragmentos de talhas do século I ou II, o que prova que aquela área foi originalmente ocupada por um armazém.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:23-24

A Norte da zona privada, existia uma série de três compartimentos, no topo das quais foi construída a casa rural. O primeiro era uma sala rectangular com cerca de 11 m, que tinha uma antecâmara quadrada e terminava numa ábside, e que foi parcialmente encoberta pela cara rural.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:24-25 Estava decorada com mosaicos geométricos, que podem ser atribuídos aos finais da civilização romana. Ao lado estava uma sala semelhante, também terminando em ábside mas de forma ligeiramente diferente, e com uma antecâmara circular. Ambas as salas foram construídas com pavimento suspenso, ou seja, com um espaço oco por baixo do chão, algo normalmente utilizado nas termas para a passagem de ar quente. Porém, neste caso não tenham sido encontradas aberturas para uma fornalha, pelo que talvez este sistema fosse utilizado para manter seco o chão das salas. Imediatamente a Norte situa-se uma sala dividida em três partes, com uma antecâmara estreita, uma sala principal com cerca de 5 m de lado, e depois uma ábside virada para Norte, que não foi escavada exaustivamente devido à fragilidade dos alicerces da casa rural. Estes três compartimentos teriam provavelmente alguma função especial, talvez como salas de refeição ou quartos de dormir. Foram construídas no século III, ocupando parcialmente uma zona da casa ligada à agricultura, e que se prolongava para Norte, tendo permanecido o lagar para vinho.

A Oeste da sala com ábside para Norte, estavam dois quartos, de forma rectangular com 11 m de lado, e divididos numa antecâmara e num compartimento principal. Estavam ricamente decorados com mosaicos vegetais e geométricos, e murais policromáticos nas paredes, pelo que podem ser identificados como quartos para hóspedes.HAUSCHILD e TEICHNER, 2002:25-26

A Oeste do peristilo estava a sala do triclínio, com 10 por 12 m, rodeada por um largo corredor, e que terminava numa larga ábside. O acesso fazia-se por uma porta larga, de forma a melhor se ver o peristilo. No interior, estava decorada com mosaicos, dos quais apenas restaram alguns vestígios, e possuía muros baixos em forma de U, onde eram colocados as clinai, camas inclinadas onde habitualmente os romanos comiam. Devido à sua importante função social, o triclínio estava normalmente muito decorado, com uma fonte no centro e estátuas, cujas bases foram encontradas junto à porta para o peristilo. O triclínio foi construído cerca do século III, sobre estruturas do século anterior, que tinham paredes de taipa. O escritor e cónego Joaquim Botto interpretou a sala do triclinio como sendo uma sala (oecus - eco), que provavelmente seria utilizado em eventos como festivais ou palestras, servindo desta forma como ginásio no sentido educativo (gymnasium).

Termas