A história do anarquismo tem sua origem em um contexto particular da segunda metade do , que implicou mudanças sociais amplas e significativas. Durante o , o capitalismo desenvolveu-se e globalizou-se, a partir da integração das estruturas econômicas mundiais, dentro de marcos estabelecidos pela Segunda Revolução Industrial; ao mesmo tempo, os Estados Modernos consolidam-se e levam a cabo uma expansão imperial significativa ligada em grande parte ao aumento da produção mundial e às novas tecnologias desenvolvidas. Tais processos são acompanhados por um crescimento significativo da imigração de trabalhadores, com aumentos sem precedentes na migração trans-oceânica e intracontinental e, ao mesmo tempo por um desenvolvimento significativo das tecnologias em geral, em especial dos transportes e das comunicações.
A promoção do racionalismo e a circulação de valores modernos como a liberdade individual e a igualdade perante as leis, que ganham relevância com a Revolução Francesa e contribuem com o enfraquecimento da influência religiosa na sociedade também são aspectos a serem levados em conta no contexto de surgimento do anarquismo, assim como a reorganização das classes sociais e seu protagonismo em conflitos nas cidades e nos campos, que em geral, acabam contribuindo com o fortalecimento da noção de que a ação humana poderia modificar o futuro e, em especial, os conflitos de classe fortaleceram a noção de que os oprimidos, por meio de sua ação, poderiam transformar a sociedade, noção favorecida pelo próprio surgimento e desenvolvimento das ideias socialistas durante o início do . Nesse contexto, surgem movimentos que, não se sentindo contemplados pelas ideologias políticas em voga, desenvolvem, a partir de uma inter-relação prática-teórica, os elementos fundamentais do anarquismo, que surge no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) no final da década de 1860 através da radicalização do mutualismo proudhonista.
O anarquismo, entre 1868 e 1894, já havia se desenvolvido significativamente e também havia sido difundido globalmente, e exerceu, até 1949, grande influência entre os movimentos operários e revolucionários, embora tenha continuado a exercer influência significativa em diversos movimentos sociais do período pós-guerra até a contemporaneidade, entre fluxos e refluxos.
Antecedentes Alguns autores vem identificando elementos considerados anarquistas em alguns autores anteriores a segunda metade do , como por exemplo, Lao Zi, Chuang-Tzu, Zenão de Cítio, Diógenes de Sínope e os demais cínicos, além de François Rabelais, Étienne de La Boétie, William Godwin e Max Stirner; também apontam-se elementos do anarquismo em movimentos religiosos como os dos anabatistas e o dos hussitas, e em movimentos radicais como o dos Escavadores de Gerrard Winstanley e o dos enragés de Jacques Roux na Revolução Francesa. O proeminente anarquista russo Piotr Kropotkin, ao buscar pelas origens do anarquismo, procurou encontrá-las não em filósofos isolados, mas sim nas massas populares anônimas. Kropotkin afirma que, através dos tempos, sempre houve duas correntes de pensamento e de ação em conflito nas sociedades humanas, sendo elas, de um lado a tendência ao apoio mútuo, exemplificada pelos costumes tribais, pelas comunidades aldeãs, pelas guildas medievais e por todas as outras instituições que Kropotkin afirmou serem "criadas e mantidas não através de leis mas pelo espírito criativo das massas"; e do outro lado, a tendência ao autoritarismo, representada pelas elites e governantes. Kropotkin afirma, assim, que as raízes do anarquismo remontam aos tempos pré-históricos e a partir disso passa a analisar toda a gama de movimentos rebeldes até os primeiros sindicalistas franceses ao tentar construir a sua história do anarquismo. Entretanto, novos historiadores do anarquismo têm criticado tais abordagens, argumentando que muitos dos filósofos considerados "pré-anarquistas", tais como Godwin e Stirner, não tiveram qualquer impacto significativo no desenvolvimento do anarquismo, sendo resgatados pelos militantes anarquistas posteriormente, quando o anarquismo já estava bem estabelecido globalmente, e ainda que abordagens como as defendidas por Kropotkin seriam "ahistóricas", argumentando que a ideologia e o movimento anarquista são fenômenos relacionados ao contexto histórico particular da segunda metade do .
thumb|250px|O francês Pierre-Joseph Proudhon é considerado o precursor do anarquismo
O socialismo utópico de Charles Fourier influenciou fortemente os primeiros anarquistas, inclusive Pierre-Joseph Proudhon, cujo pensamento teve um impacto significativo entre os trabalhadores do e constituiu as bases do anarquismo. As teorias econômicas de Proudhon criticam a propriedade privada, a exploração e interpretam a sociedade de classes e o processo de luta de classes, afirmando que o "regime proprietário", colocando em oposição as classes sociais, tem como fundamento a "exploração do homem pelo homem". Juntamente com a sua crítica econômica, Proudhon criticou o Estado e o governo, unindo numa mesma crítica, desde suas primeiras obras, a propriedade capitalista e o estadismo governamentalista, relacionando o capitalismo, a "exploração do homem pelo homem", e o estadismo, "governo do homem pelo homem”. Há também em Proudhon a crítica à religião e a educação, que para ele, atuam como instrumentos de legitimação do capitalismo e do Estado. Para a solução do que chamou de "problema social", Proudhon propõe o mutualismo na economia e o federalismo na política, de modo que a os trabalhadores viessem a se organizar em uma sociedade que se auto-gerisse economicamente e se auto-administrasse politicamente. O mutualismo federalista de Proudhon teria ainda como objetivo que "o trabalho do povo", "a sociedade trabalhadora" tornem-se a força maior que inverta as "fórmulas atuais da sociedade e envolva o capital e o Estado e os subjugue", de modo que os trabalhadores, organizados de baixo para cima em associações mutuais (agrícolas e industriais de produção, de consumo e de crédito), deveriam “simultaneamente inverter as relações do capital e do trabalho e inverter as relações do governo e da sociedade". Entretanto, há aspectos na obra de Proudhon que o distanciam do anarquismo, tais como posturas ambíguas em relação ao processo revolucionário, ora defendendo a violência e revolução social e ora defendendo um processo gradual de mudança através de cooperativas mutualistas; ao próprio Estado, que em alguns momentos é duramente criticado e em outros considera-se a sua existência, ainda que de maneira descentralizada; além de ter sustentado, em alguns momentos, conciliações entre a burguesia e o proletariado. Entretanto, a crítica da dominação e a defesa da autogestão, além de sua ênfase na organização autogestionária e federalista dos trabalhadores constituíram as bases do anarquismo, que surge no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) no final da década de 1860, com a radicalização do mutualismo proudhoniano.
A Associação Internacional dos Trabalhadores e o desenvolvimento do anarquismo
Em meio a esse contexto histórico, em setembro de 1864, um número significativo de operários reunidos no St. Martin's Hall, em Londres, funda a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), conhecida posteriormente como Primeira Internacional. A AIT tinha por objetivo criar um organismo internacional no qual a classe trabalhadora pudesse se associar para discutir projetos comuns, constituindo um espaço que propiciou as condições para o surgimento do movimento anarquista, alguns anos após sua fundação. No início, as organizações operárias que integravam a AIT eram muito distintas entre si, incluindo sindicalistas reformistas, republicanos e democratas radicais, mutualistas proudhonianos e comunistas.. Em um primeiro momento, a organização buscou articular-se em níveis locais, por meio de suas seções, e após o estabelecimento de suas bases de acordo passa a agir internacionalmente. Em um primeiro momento, são realizados congressos anuais a partir de 1866.
O primeiro congresso, realizado em Genebra, na Suíça, aprovou os estatutos gerais da associação, deliberou pela estrutura federalista e foi reconhecida a função fundamental dos sindicatos, por constituírem eficientes centros de organização e luta da classe trabalhadora eficientes centros de organização e luta da classe trabalhadora. O segundo congresso, ocorrido em Lausanne no ano de 1867, foi marcado pela forte presença dos mutualistas, que deliberaram o estímulo às cooperativas de crédito e de produção, nas quais se deveria fazer penetrar o espírito mutualista e federalista. Já o terceiro congresso, realizado em Bruxelas, na Bélgica, em 1868, marcou um momento de radicalização da AIT, onde foram aprovadas resoluções sobre a socialização dos meios de produção e o incentivo à criação de novos sindicatos e ao ingresso das massas na AIT. Nesse congresso, a AIT recomendou o método federalista, devendo as decisões nos sindicatos ser tomadas pelas bases e com as delegações submetidas ao controle dos trabalhadores e também foi sugerido o uso da greve geral como instrumento revolucionário. Os próprios movimentos populares que constituíam as bases da AIT haviam se radicalizado nesse período.
O Congresso de Bruxelas havia representado o triunfo do coletivismo sobre o mutualismo no seio da AIT, consolidado pela radicalização de muitos antigos mutualistas proudhonianos e no Congresso da Basileia de 1869, que contou com a presença de Mikhail Bakunin e outros coletivistas da Aliança da Democracia Socialista (ADS), que haviam acabado de romper com a Liga da Paz e da Liberdade e apresentado um pedido de adesão à Internacional, inicialmente rejeitado, sob o argumento de que a Aliança da Democracia Socialista também era uma organização internacional por si mesma, e apenas organizações nacionais eram permitidas enquanto membros da AIT; a Aliança então foi dissolvida e os vários grupos que a formavam uniram-se à Internacional separadamente. A Aliança é tida como a primeira organização específica anarquista e seu programa buscava estimular organizações de massas e veículos de propaganda pública e, ao mesmo tempo, articular uma organização política que teria como objetivo fortalecer a intervenção da ADS entre as massas. Seus militantes foram os responsáveis pela criação de seções da AIT em países onde ela ainda não existia, como na Espanha, na Itália, em Portugal e mesmo na América Latina através de correspondências, além da criação de novas seções em países onde a associação já operava, como a Federação do Jura na Suíça. Criando ou participando das seções da AIT, esses anarquistas promoveram programas que sustentavam a necessidade de mobilizações amplas de trabalhadores, articulados em movimentos classistas, para a realização de lutas populares combativas, independentes e organizadas em bases federalistas que fossem capazes de proporcionar conquistas imediatas aos trabalhadores e também caminhar rumo à revolução social e ao socialismo, passando necessariamente pela derrubada do capitalismo e do Estado.