A Restauração Bourbon na Espanha é o período histórico que abrange do fim da Primeira República Espanhola, com o pronunciamento do general Arsenio Martínez Campos em 1874, até a proclamação da Segunda República a 14 de abril de 1931. É caracterizado por uma certa estabilidade institucional, a construção de um modelo liberal do Estado e a incorporação dos movimentos sociais e políticos surgidos com a revolução industrial, até a sua progressiva decadência, que conduziria à ditadura de Primo de Rivera em 1923. O pronunciamento do militar Martínez Campos em 1874 restabelece a dinastia Bourbon no filho de Isabel II, Afonso XII.

Início do processo restaurador

Afonso XII encontrava-se no exílio na Grã-Bretanha após o insucesso da Primeira República, e Cánovas del Castillo desde o Partido Liberal-Conservador entra em conta(c)to com ele para restaurar a monarquia na Espanha. Cánovas faz promessas à classe política de que se tratará da superação tanto da República quanto dos modos do reinado de Isabel II, com a última das guerras Carlistas ainda sem finalizar. Convencido o futuro rei, proclama o Manifesto de Sandhurst a 1 de dezembro de 1874 no que comunica que muitos tinham entrado em conta(c)to com ele para o estabelecimento de uma monarquia constitucional, considera órfã a nação e considera-se legítimo herdeiro do trono por abdicação de sua mãe, Isabel II, pondo-se à disposição dos espanhóis.

O sistema político que se estabeleceu foi bipartidarista entre o Partido Liberal-Conservador liderado por Antonio Cánovas del Castillo e o Partido Liberal-Fusionista que encabeçou Práxedes Mateo Sagasta, embora participasse na sua criação Cánovas del Castillo. Isto permitiu superar o sistema de partido único que levara a uma falta de legitimidade democrática a Isabel II e ao seu posterior derrocamento. O novo panorama permitiria uma maior estabilidade, mas a estreiteza do sistema, com uma alternância política fictícia - conhecida como turnismo -, causará graves problemas que terminarão na corrupção política, cuja base estava no denominado caciquismo.

Até o desastre de 1898 thumb|right|As armas reais da Espanha. Recuperadas em 1875 somente como símbolo pessoal do monarca. A legitimidade do novo regime estabelece-se com a Constituição de 1876 que forma o novo modelo de Estado com um poder legislativo dividido em duas câmaras: Congresso dos Deputados e Senado, com um sufrágio censitário para escolher o Congresso e um Senado nomeado pelo rei; o monarca conservava boa parte das funções de Chefe do Estado e do poder executivo.

Antonio Cánovas del Castillo foi o artífice do processo, que seguia as linhas marcadas anos antes por Afonso XII no seu exílio na Grã-Bretanha, e permitia o fim da guerra carlista.

Dissolvida a República, os chamados "partidos dinásticos", conservadores e liberais, encabeçados por Cánovas e Práxedes Mateo Sagasta alternar-se-ão no poder.

A morte de Afonso XII abriu espaço à regência de Maria Cristina, período que se inicia com o governo de Sagasta, caracterizado pela aprovação da Lei de Associações, a liberdade de imprensa, o sufrágio universal em 1890 (ainda apenas para os homens) e a criação da instituição do júri, entre outros avanços. A nova regulação permite a aparição de outro partido político em cena, o Partido Republicano de Espanha, que terá grande influência no futuro. Começa neste período a aparição do anarquismo e do socialismo através do PSOE (fundado em 1879) com os primeiros movimentos operários que surgem da revolução industrial.

Desenvolvimento econômico A emigração para a América, o débil crescimento populacional (Espanha contava com apenas 18,5 milhões de habitantes em 1900) e situações de fomes e epidemias, produziram uma desigualdade crescente entre Espanha e o restante dos países europeus.

Espanha ocupava 79% da população na agricultura de baixo rendimento e na manufatura de produtos agrícolas. O sistema protecionista impedira a modernização do setor, incapaz de competir adequadamente. O latifundismo condicionava a vida dos camponeses de grandes zonas da península, sobretudo na Andaluzia e na Estremadura. Somente alguns setores (vinho, azeite, frutas) começavam com exportações, pouco significativas ainda, para a Europa.

O desenvolvimento da indústria e das comunicações era escasso. Enquanto Europa vivia plenamente a revolução industrial, apenas a Catalunha (com a implantação da ferrovia e a indústria têxtil), zonas do País Basco (siderurgia em Bilbao), e as explorações mineiras na Andaluzia (ferro, cobre e chumbo) e nas Astúrias (carvão) avançam no caminho do progresso. Isto acentuará a desigualdade regional.

Em 1888 celebrou-se a Exposição Universal de Barcelona.

Uma sociedade cambiante A Restauração implicou uma profunda centralização administrativa e legal. Os nacionalismos catalão, basco e galego não tardam em reagir, na Catalunha ligado à sua própria revolução burguesa e à identidade cultural; no País Basco, que perdera os foros após as guerras Carlistas, buscava definir o seu futuro. Apareceram o Partido Nacionalista Basco, a Liga da Catalunha e a União Catalanista, a Associação Regionalista Galega.

thumb|right|150px| Antonio García Quejido, um dos fundadores da Unión General de Trabajadores junto a Pablo Iglesias Posse

O movimento operário agrupou-se em torno ao PSOE que propugnava a luta pacífica e a participação eleitoral, a UGT (fundada em 1888) e o anarquismo na Federação de Trabalhadores da Região Espanhola.

A monarquia questionaria estes movimentos com uma forte repressão, com especial virulência contra o anarquismo. Catalunha será território de muitos destes confrontos, onde em 1897 um anarquista assassinará Cánovas.

A Igreja evolui desde uma primeira posição de intransigência para a conciliação. Na aprovação da Constituição de 1876 é exposto um duro conflito em relação à aplicação do artigo 11, que dizia:

Inicialmente, os governos conservadores concebiam uma interpretação restritiva, que suscitou numerosos protestos de embaixadores estrangeiros. O debate recrudesceu-se em relação ao ensinamento, exigindo os bispos a garantia do ensino doutrinal, como um direito reconhecido na concordata, da supervisão e censura dos conteúdos do ensino, em detrimento da função inspetora que correspondia ao próprio Estado.

Também se estendeu o conflito na regulação do matrimônio civil, previsto inicialmente, mas sem desenvolvimento posterior devido à oposição da Igreja. Em novembro de 1886, Manuel Alonso Martínez tomou a iniciativa de autorizar o matrimônio para os não católicos. Após intensas negociações foi alcançado um acordo com a Santa Sé, pelo qual está reconhecia ao Estado a potestade de regular os efeitos civis do matrimônio.

A sociedade estava, pois, dividida em vários setores. Por um lado a tradição que representam os partidos de Cánovas e Sagasta: monárquicos, defensores de um modelo conteúdo de apertura e alheios ao sentir das novas classes sociais. Por outro lado uns movimentos de diferente signo, republicanos e nacionalistas, representantes da nova burguesia que não encontra ainda o seu espaço nacional. Em terceiro lugar, o proletariado que se agrupará em torno a um partido político, o Partido Socialista Obreiro Espanhol e dois sindicatos de classe, a Unión General de Trabajadores e a Confederação Nacional do Trabalho. Tudo isso, sob a atenta olhada da Igreja.

Governos desde a restauração até 1898 A novidade importante dos sucessivos governos da restauração foi a pacífica alternância entre os dois partidos dinásticos, mediante o curioso sistema de, em primeiro lugar, realizar a transferência de poder ao partido contrário que procedia à convocatória de eleições que legitimaram o seu governo, numa inversão da ordem natural de tal processo. Para conseguir esta alternância, era usado a fraude eleitoral.

As primeiras eleições da Restauração aconteceram em 20 de janeiro de 1876, obtendo a maioria os liberais conservadores de Cánovas, com 333 cadeiras. Celebraram-se ainda sob o sistema estabelecido na Constituição de 1869. Em 1876 foi encomendada a elaboração de uma nova Constituição a uma comissão presidida por Manuel Alonso Martínez.

thumb|200px|left|Antonio Cánovas del Castillo A ascensão ao poder do general Martínez Campos conduziu a uma convocatória de eleições em 20 de Abril de 1879, que outorgou aos liberal-conservadores 293 cadeiras. Cánovas voltou para o poder em dezembro do mesmo ano como resultado da divisão nas filas conservadoras devido à lei de abolição da escravidão nas Antilhas. Centrou os seus esforços em conseguir uma alternância estável com os constitucionalistas de Sagasta, que fundou o Partido Liberal Fusionista em março de 1880, identificado já com o novo regime. Acede ao poder a 10 de fevereiro de 1881, num ensaio da alternância pacífica dos partidos. Dissolveu as Cortes e convocou novas eleições, nas quais a sua formação obteve 297 cadeiras.

Sagasta governou até 13 de outubro de 1883, em que foi sucedido por um governo de José de Posada Herrera, da sua mesma formação, que finalmente teve de demitir pela hostilidade dos próprios sagastinos. Encomendou-se o governo a Cánovas, que voltou a dissolver as Cortes; nos comícios de abril de 1884 a sua formação obteve 318 deputados. Nestas eleições, as palavras do deputado José Mª Celleruelo plasmam o espírito do sistema eleitoral: .

A morte prematura de Afonso XII a 24 de novembro de 1885 levou a Cánovas a outorgar o poder ao Partido Liberal, num acordo para a consolidação do regime que passaria à história como o Pacto do Pardo, mas que precipitaria a defecção do canovismo de um grupo acaudilhado por Romero Robledo. O novo governo de Sagasta, e primeiro da Regência, foi nomeado a 25 de novembro de 1885, convocando eleições para 4 de Abril do seguinte ano. Seguiram as irregularidades já usuais, conseguindo os liberais 278 atas.

A 26 de junho de 1890, o governo liberal mudou a Lei Eleitoral, restituindo o sufrágio para os varões maiores de 25 anos. Este sistema não implicou uma variação substancial dos vícios eleitorais, mas trouxe consigo novas condutas políticas que, a longo prazo, conduziriam à sua crise e desmantelamento.

As Cortes liberais dissolveram-se em dezembro de 1890, tomando o poder um governo Cánovas, que convocou eleições para fevereiro de 1891. Embora os métodos utilizados pelo seu Ministro de Governação (Francisco Silvela) fossem menos escandalosos que os do seu antecessor Romero Robledo, o Partido Conservador obtinha a maioria, embora um pouco menos folgada que de costume, com 253 assentos. Os partidários da república conseguiram alguns pequenos sucessos com 31 cadeiras.

A unidade dos conservadores cambaleava, já sofrera uma dissidência com Romero Robledo, embora voltasse para o partido. Esta vez foi Silvela, sob a bandeira da moralização. Sua defecção trouxe a demissão de Cánovas em dezembro de 1892, e levou ao terceiro liberal.

thumb|150px|right|Práxedes Mateo Sagasta Formou governo Sagasta, que convocou eleições a 5 de março de 1893, que outorgaram a consabida maioria aos liberais com 281 postos. A surpresa a deram os republicanos com 47 cadeiras, o segundo grupo superando mesmo aos conservadores oficialistas afetados pelas dissidências internas.

O conflito de Marrocos e o último ato da crise colonial ultramarina levaram a Sagasta a ceder o poder a Cánovas em março de 1895. O dirigente conservador governou um ano com o apoio da maioria liberal, até as eleições de 12 de abril de 1896, que foram celebradas com a abstenção da União Republicana, dividida após a morte de Ruiz Zorrilla, a mudança de muitos republicanos para as filas liberais, e a posição dos federalistas de Pi y Margall de apoio à autonomia ou a independência de Cuba. Como novidade, foram apresentadas pela primeira vez candidaturas socialistas, embora sem conseguirem nenhuma ata. Como era previsível, a maioria foi para os conservadores, ainda que as magnitudes das vitórias dos partidos do turno iam decrescendo.