Literatura em asturiano é o nome dado à literatura escrita nessa língua. Geralmente, emprega-se esse nome para referir-se à literatura escrita em asturiano tanto nas Astúrias quanto em León ou MirandaAlguns estudiosos consideram que o mirandês é uma língua própria e não um dialeto do asturiano.. Por sua vez, literatura em leonês faz referência apenas à literatura escrita no asturiano de LeãoTampouco há consenso entre os especialistas se o leonês é apenas um dialeto do asturiano ou se constitui uma língua em separado..

Começos e Literatura oral Ainda que o primeiro texto em asturiano seja do século X, Nodicia de Kesos, e o primeiro texto legal do que se tem constância seja o Fueru d'Avilés, do século XII, apenas alguns séculos depois é que tem notícia da primeira criação em literatura escrita.

A literatura oral, de transmissão oral, têm suas raízes na Idade Média e compõe-se fundamentalmente de canções e romances, ainda hoje presentes na tradição oral das Astúrias, León e Miranda do Douro e recompilados em cancioneiros, como o Cancionero musical de la lírica popular asturiana de Eduardo Martínez Torner muitas das quais ainda cantaroladas entre as pessoas mais velhas. À sua recuperação consagram-se não apenas trabalhos, senão programas de televisão como o programa recorde na Televisión Pública Asturiana, Camín de Cantares.

Barroco thumb|left|150px|Retrato idealizado de Marirreguera feito no século XIX

O primeiro texto literário propriamente dito do qual se tem notícia é o Pleitu ente Uviéu y Mérida poles cenices de Santolaya do clérigo Antón de Marirreguera, que data de 1639 e expõe a argumentação de seu autor em favor do retorno das cinzas de Santa Eulália para a capital asturiana. Antón de Marirreguera (1600-1662)converte-se assim no primeiro escritor conhecido em língua asturiana e leva a literatura nesse idioma ao Barroco. Começam a ser cultivados os temas cultos: as obras poéticas são de caráter religioso (Pleitu ente Uviéu y Mérida) ou retomam a tradição greco-latina, como Dido y Eneas ou Píramo y Tisbe. Além disso, surge o teatro no qual não só há denuncia senão também uma tomada de consciência para com a situação da língua. Por exemplo, na obra teatral L'Alcalde, de Marirreguera, ridiculariza-se a um personagem que fala em castelhano para obter uma boa posição social.

Destaca, na sua obra uma peça de teatro que intitulada Diálogu Políticu que iniciaria um gênero próprio da literatura asturiana de nome homônimo, que vem a colocar na boca dos personagens as idéias e as críticas políticas, também de inspiração greco-romana, assemelhando-se ao tratamento em forma de diálogo que Platón deu a sua filosofia. Esse caminho, seria trilhado posteriormente por otros autores que veriam no uso de personagens populares para falar de política uma maneira de levar suas idéias ao povo.

Outro autor do Barroco Asturiano, foi Bernaldo de Quirós, militar de carreira nomeado pela Junta General do Principado para ajudar ao Rei Felipe V. Dele se conhece apenas um poema de extraordinárias dimensões: Pictures del Caballu.

Destaca-se nessa primeira etapa a origem social de classes superiores das quais são oriundos ambos os autores, em oposição ao que sucederia depois. São as elites locais as que se expressam em língua asturiana tais como padres, nobres e militares de estratos privilegiados. Durante essa época, infelizmente, nem em León nem em Miranda de Douro apareceu nenhum escritor nesses séculos e a situação do idioma continuou, assim, presa ao terreno do oral; continuando a mesma dinâmica dos séculos obscuros. É de se destacar a coincidência em apenas 20 anos desde o surgimento do primeiro autor em asturiano e a inauguração da Universidade de Oviedo, com o ambiente intelectual que engendra. Não é de se estranhar, então, que o primeiro poema dessa língua seja editado ou conhecido por ter sido o vencedor de um concurso de poesia realizado em Oviedo

A Ilustração Asturiana ou La Xeneración del Mediu Sieglu thumb|150px|Xovellanos: um defensor da língua asturiana, de seu estudo e dignificação; foi ele quem propôs a criação de uma Academia.

Após o Barroco, abre-se um grande período para a literatura asturiana, que é coincidente com a ilustração, um período de grande desenvolvimento intelectual e literário com respeito aos séculos passados. Aqui, a literatura asturiana revive ao abrigo da figura de Xovellanos, grande intelectual asturiano daquela época e de reconhecimento tanto nas própria Astúrias quanto fora do Principado. Foi o articulador de um grupo de escritores ilustrados que poderiam ser considerados parte de uma mesma generação em virtude das similitudes políticas, etárias e sociais.

Gaspar Melchor de Xovellanos, foi o principal promotor da literatura asturiana de sua época e um defensor da criação da Academia Asturiana de les Bones Lletres, que seria fechada em 1919 para depois restabelecer-se em 1981 com o nome de Academia de la Llingua Asturiana. Entre as contribuições de Xovellanos à literatura, destacam-se as "instruções" para a criação de uma norma comum e a compilação de um dicionário, uma gramática e uma ortografia do asturiano. Um poema anônimo, chamado Señor Conde Campumanes e datado de 1781, costuma ser atribuído a ele. O grupo que o rodeava começa a promover a defesa da língua e dar-lhe o devido valor. Surge então certa angústia pela situação da língua e uma necessidade de dotá-la de instrumentos que encaminhem seu futuro e que façam valer uma normatização da mesma. É por isso que o mesmo Xovellanos propôs a criação de uma Academia com o intuito de normatizar e reunir a riqueza do idioma.

"Ye la llingua viva del nuesu pueblu; mamámosla toos, por dicilo asina, cola primer lleche; va pasando tradicionalmente de padres a fíos y continúase de xeneración en xeneración...Con un cartón y un llápiz a mano, en casa, na cai, en paséu, en campu, podemos arriquecer tolos díes esta preciosa ayalga"É a língua viva de nosso povo, a mamamos todos, por assim dizer, como ao primeiro leite; vai passando tradicionalmente de pais a filhos e continua de geração em geração. Com um cartão e um lápis na mão, em casa, na rua, no passeio das avenidas, no campo, podemos enriquecer todos os dias esse precioso tesouro.

Bruno Fernández Cepeda é outro dos escritores da ‘’Xeneración del Mediu sieglu’’. Sabe-se que era professor de latim e clérigo. Dele conservam-se apenas três poemas: La enfermedá, Felicitación d'unos díes e Bayura d'Asturies.

Xosefa Xovellanos, irmã de Gaspar de Xovellanos, é o primeiro nome feminino que soa na literatura asturiana e nos temas de seus poemas encontram-se elementos que definem a corrente ilustrada: a crítica às desigualdades sociais ou a denúncia do comportamento da camada nobre. Conservam-se dela os poemas: Carta, Preparativos pa la proclamación de Carlos IV n'Uviéu, La proclamación de Carlos IV, Fiestes a Xovellanos e Les esequies de Carlos III.

Anón Balvidares Argüelles Conservam-se dele apenas três obras: Diálogu Políticu, L'entierru del callóndrigu Reguero e El misteriu de la Trinidá y vida de Xesucristu nos quais estão presentes algumas idéias ilustradas junto a uma forte devoção cristã.

No tocante à origem social dos escritores, continua sendo parte dos setores mais cultos e econômica e politicamente mais poderosos da sociedade asturiana. A ilustração, nas Astúrias, dá um giro “asturianizante” e aproxima-se al uso da língua fazendo dela uma ferramenta a mais de sua linha de pensamento. As obras estão mais longes do povo, possuem menos inclinação popular e mais erudita e não se sabe se tinham o apreço popular.

O século XIX Em 1839 espublízase em Oviedo a Colección de poesías en dialecto asturiano uma antologia preparada por Xosé Caveda y Nava que reúne a obra mais importante dos escritores asturianos dos séculos anteriores e vários poemas próprios. A aparição desse livro faz com que muitos jovens se animem a escrever uma obra que quer espelhar os costumes do povo na sua própria língua. Também se destaca nessa época a figura de Xuan Xunquera que redige a Gramática asturiana codificando as regras gramaticais do idioma. Poetas como Domingo Hevia, Benito Canella, Xosé Caveda, Teodoro Cuesta, Xuan María Acebal, Xosé María Flórez y González, Xosé Napoleón Acebal y Nolón são nomes de poetas e dramaturgos da época destacando-se Enriqueta González Rubín como narradora.

Miranda do Douro O século XIX é também o do nascimento da literatura em mirandês, a variedade falada em Portugal da língua asturiana. Em 1884 o filólogo e escritor José Leite de Vasconcellos publica aquele que terá a honra de ser o primeiro livro nessa variante do asturiano: Flores Mirandesas, de caráter poético e é um conjunto de oito poemas. O autor, que não era mirandês, reconhece suas limitações e a obra tem mais valor histórico que literário. Talvez seja essa uma causa para que a atual normativa empregada em Miranda do Douro seja de inspiração portuguesa.

Nessa época, em Miranda, são comuns as traduções com o objetivo de esta fixar uma base escrita para a língua. É o próprio José Leite de Vasconcellos, quem traduz alguns dos poemas de Camões aos quais dá o nome de Camoniana Mirandesa. Outro tradutor é Manuol Sardina, padre que escreveu na última década do século XIX; são conhecidas duas traduções de grande qualidade: um poema de Camões e outro de Antero de Quental

De qualquer maneira, o mais destacado dessa época é Bernardo Fernandes Monteiro, natural de La Pruoba, foi o principal escritor de mirandês no século XIX. É vultoso o trabalho de tradução de algumas obras fundamentais para o mirandês: Ls Quatro Eibangeilhos; la Carta de San Paulo als Coríntios, um soneto de Camões; o conto L cirujon de l Senhor Abade original de Manuel Ferreira Deusdado. Dessa Carta de São Paulo e dos quatro evangelhos, apenas algumas partes foram publicadas na Revista de Educação e Ensino, no periódico O Mirandês, e no periódico O Reporter, mesmo passando com a obra de Manuel Ferreira Deusdado Escorços Transmontanos. Fernandes Monteiro é também quem iniciou a prosa em mirandês, publicando no periódico O Mirandez os primeiros contos originais escritos em mirandês: La Despedida, Mala Bida e Deixai Casar l Rapaç além do poema L Cántaro de Juana.

Outros autores são Francisco Meirinhos de quem apenas se conhece um poema La nina ainda que se saiba que escrevia poesia; e Francisco Garrido Brandon que começa a produção teatral mirandesa e conecta temas da literatura de Miranda do Douro com os das Astúrias em uma peça que leva o nome de Sturiano i Marcolfa, escrita em mirandês, galego e castelhano.

Conjunto Afora isso, as literaturas das Astúrias e de Miranda, e as comunidades de falantes não entram em contacto e não há intercâmbio de impressões ou pareceres do que sucede de um lado a outro do domínio lingüístico. A literatura asturiana e a mirandesa dão as costas uma à outra e vão elaborando-se dois padrões de fato. Isso será sentido na língua escrita: o asturiano, mais ligado ao castelhano ainda que com algumas características diferentes como o emprego da letra X ou o uso da apóstrofe e o mirandês, mais ligado ao português. O que vai marcar totalmente a evolução dos dois focos. León, por então continua sem produção escrita e a língua vai se abrindo em grandes partes do território isolando-se no Norte e no Oeste.

Autores destacados Xosé Caveda y Nava É dúbio o referencial literário para as gerações futuras, tanto pelos poemas que escreve como pelo seu afã recompilador. Seus poemas versam sobre diversos temas; histórico: La Batalla de Cuadonga; de tradição popular: Los enamoraos de l'aldea, La Paliza, La vida de l'Aldea; de caráter sentimental: El Neñu enfermu; de caráter escatológico: La defensa del peu.

Xuan María Acebal