thumb|280px|direita|O frontispício do First Folio (1623), primeira coletânea das peças completas de Shakespeare. O First Folio, incluindo este frontispício, tem gerado grande polêmica entre os defensores da autoria. A gravura é normalmente atribuída a Martin Droeshout. Nascido em 1601, Droeshout tinha 14 anos quando Shakespeare morreu, e sete anos antes da publicação do Folio, o que mostra ser pouco provável que Droeshout tenha conhecido o dramaturgo; por conta disto, várias especulações foram lançadas acerca da capa: Charlton Ogburn, por exemplo, observou que a linha curva compreendida entre a orelha e o queixo da figura fazem com que o rosto mais pareça uma "máscara" do que a representação de uma pessoa real.C. Ogburn, The Mysterious William Shakespeare, 1984, p.173 Alguns historiadores de arte, contudo, desaprovam essa tese.McMichael, George; Edgar M. Glenn (1962). Shakespeare and His Rivals, A Casebook on the Authorship Controversy. pg 56: New York: Odyssey Press. A questão da autoria das obras de Shakespeare, que remonta ao século XVIII, refere-se ao debate sobre a atribuição das obras de William Shakespeare, ou seja, discute-se se as obras foram realmente escritas por ele ou por uma outra pessoa ou, ainda, por um grupo maior de dramaturgos e poetas.McMichael, George L.; Glenn, Edgar M. Shakespeare and His Rivals: A Casebook on the Authorship Controversy. Odyssey Press, 1962, p. 56: New York: Odyssey Press. Embora tenham sido propostos inúmeros candidatos alternativos a verdadeiro autor das peças e sonetos, os principais nomes são o do considerado filósofo Francis Bacon, o do dramaturgo então contemporâneo Christopher Marlowe, o de William Stanley, 6º Conde de Derby, e o de Edward de Vere, 17º conde de Oxford, que é o candidato mais popular atualmente.Gibson, H.N. (2005). The Shakespeare Claimants. Routledge, 2004; pp 48, 72, 124. ISBN 0-415-35290-8.

Os que duvidamWelcome | Shakespeare Authorship Coalition em DoubtAboutWill.org que a autoria seja de Shakespeare acreditam que há uma falta de evidências concretas que demonstrem que o ator e empresário – às vezes conhecido como Shaksper de Stratford – também foi responsável pelo corpo de obras literárias que carregam um nome com uma grafia similar (mas não sempre idêntica) à sua própria. Outros, entretanto, sustentam que o ator, o empresário e o dramaturgo eram efetivamente a mesma pessoa.How We Know That Shakespeare Wrote Shakespeare: The Historical Facts. Por Tom Reedy e David Kathman. Porém, mesmo entre os que acreditam que fossem a mesma pessoa, há aqueles que têm dúvidas quanto à verdadeira autoria da obra.A Rebuttal to Thomas Reedy and David Kathman’s “How We Know that Shakespeare Wrote Shakespeare”. Por Lynne Kositsky e Roger Stritmatter. 12 de setembro de 2004.

Outro argumento dos estudiosos que desconfiam da autoria refere-se ao conhecimento educacional absurdamente superior presente nos trabalhos shakespearianos, que, por exemplo, além de amplo conhecimento em ciências exatas e humanas, contêm, juntos, um vocabulário imenso com aproximadamente 29.000 palavras diferentesAlvin B. Kernan, Shakespeare, the King's Playwright: Theater in the Stuart Court, 1603-1613. Yale University Press, 1995 p. 194. ISBN 0-300-07258-9 (incluindo versões diferentes de palavras), sendo esse vocabulário quase cinco vezes maior que o encontrado na Bíblia do Rei Jaime, que emprega somente 6.000 palavras diferentes e que era famosa à época. Os críticos alegam que dificilmente uma pessoa comum do século XVI, sem uma educação até então refinada para poucos, poderia ser tão fluente na língua inglesa, e muito menos demonstrar bons conhecimentos de política, direito e línguas estrangeiras, tais como o latim, presente no texto de obras como Hamlet e outras.

Até o início da década de 1920, Bacon foi o mais apontado como o autor das obras. Marlowe, Stanley, o 6º Conde de Derby e numerosos outros candidatos têm sido propostos, mas não conseguiram atrair grandes seguidores. No entanto, atualmente, a teoria suplente mais popular é que as obras de Shakespeare foram escritas por Edward de Vere, 17º conde de Oxford.

Embora os principais estudiosos shakespearianos ignorem ou mesmo rejeitem todas essas alternativas, alegando que não se sustentam, e acreditem que Shakespeare realmente tenha escrito os textos, uma pequena quantidade de pessoas,"No entanto, os céticos que questionam a autoria de Shakespeare são relativamente poucos e não falam pela maioria dos acadêmicos e profissionais literários." (Diana Price, Shakespeare's Unorthodox Biography: New Evidence of an Authorship Problem, Greenwood Press, 2000, p. 9, ISBN 978-0-313-31202-1.) ainda que proeminentes ou famosas, contestam a autoria oficial. O interesse geral na questão da autoria tem crescido, especialmente entre profissionais de teatro, acadêmicos e estudiosos independentes, porque, acima de tudo, é uma questão que ajuda no aprofundamento da obra shakesperiana e no entendimento do tempo contextual em que foram produzidas.

Terminologia Stratfordianos e anti-stratfordianos Aqueles que questionam se William Shakespeare de Stratford-upon-Avon foi verdadeiramente o autor original das peças atribuídas a ele são comumente chamados de anti-stratfordianos, enquanto que aqueles que não possuem quaisquer dúvidas sobre isso são chamados frequentemente de stratfordianos. Como se vê, estes termos derivam do nome local de nascimento de Shakespeare.

Os anti-stratfordianos são divididos em três outras teorias: baconiana, marloviana e oxfordiana, dependendo de a quem eles atribuem a autoria das peças: Francis Bacon, Christopher Marlowe ou o Conde de Oxford, respectivamente.

"Shakspere" x "Shakespeare" Não havia nenhuma norma ortográfica na Inglaterra elisabetana – sob o reinado de Isabel; durante toda sua vida, Shakespeare teve seu nome escrito e registrado de muitas maneiras diferentes, além de "Shakespeare". Os anti-stratifordianos referem-se ao homem de Stratford - isto é, o que fingia ter sido o autor das obras - como "Shakspere" (nome registrado em seu batismo), ou "Shaksper", para distingui-lo do dramaturgo "Shakespeare" - isto é, o verdadeiro autor, seja ele o homem de Stratford ou não - ou "Shake-speare" (nome que aparece frequentemente nas publicações). Como se vê, os anti-stratfordianos identificam cada nome como sendo de um indivíduo diferente. Eles apontam que a maioria das referências - em documentos legais originais - ao homem de Stratford utilizam geralmente a primeira sílaba de seu nome com somente quatro letras: "Shak-" ou às vezes "Shag-", e também "Shax-", visto que o nome do dramaturgo era feito com um longo "a" como em "Shake". Os stratfordianos rejeitam toda essa convenção, acreditando que o homem de Stratford pronunciava seu nome diferentemente do nome que aparecia nas publicações.Kathman, David. Shakespeare: An Oxford Guide, Editores: Wells/Orlin, Oxford University Press, 2003, p. 624; e David Kathman The Spelling and Pronunciation of Shakespeare's Name na página The Shakespeare Authorship Page, acessada em 27 de Outubro, 2007. Sendo "Shakspere" controverso, este presente artigo usa o nome "Shakespeare" por toda a parte.

Visão geral thumb|direita|200px|Folha de rosto da edição de 1609 dos sonetos de Shake-Speare: o nome com hífen aparece em mais 15 peças publicadas antes do First Folio.Ogburn, p. 86-88 thumb|direita|200px|Página de dedicatória dos sonetos: o nome com hífen e a frase "poeta sempre vivo" são elementos que ganharam força no debate sobre a autoria

Visão dos principais estudiosos Segundo os estudiosos mais experientes de Shakespeare, ele nasceu em Stratford-upon-Avon em 1564 e depois mudou-se para Londres, tornando-se poeta, dramaturgo e ator, além de coproprietário da companhia Lord Chamberlain's Men (mais tarde, The King's Men), que pertencia ao Globe Theatre e ao Blackfriars Theatre, em Londres. Dividia seu tempo entre Londres e Stratford até se aposentar, por volta de 1613. A partir de então, fixou-se em Stratford até sua morte, em 1616.Caldecott, Henry Stratford: Our English Homer, Or, The Bacon-Shakespeare Controversy: A Lecture. Johannesburg Times, 1896. O nome de Shakespeare aparece no título de aproximadamente quatorze volumes das quinze obras publicadas durante sua vida ativa. Em 1623, sete anos após sua morte (e após a morte da maior parte dos candidatos), suas peças foram recolhidas para uma publicação denominada First Folio.

Shakespeare de Stratford é identificado pelas seguintes evidências: ele presenteou os atores da companhia londrina em sua vontade; o homem de Stratford e o autor dos trabalhos compartilham, de alguma forma, de um nome comum; e os elogios aos poemas no First Folio referem-se ao "Cisne de Avon" e seu "Monumento de Stratford".<ref>Para mais detalhes sobre esses tópicos e mais completa referência sobre os documentos acerca da vida de Shakespeare, veja Samuel Schoenbaum , William Shakespeare: A Compact Documentary Life. Oxford University Press, 1987 (OUP, 1987)</ref> Os principais estudiosos presumem que esse último termo refere-se ao monumento funerário na Igreja Santíssima da Trindade, em Stratford.

Diversas evidências reforçam a tese stratfordiana – segundo a qual as obras foram escritas por Shakespeare: em primeiro lugar, um panfleto de 1592, do dramaturgo Robert Greene, intitulado Greene's Groatsworth of Wit, uma sátira, na qual Greene chama um determinado dramaturgo de sua época de Shake-scene ou, literalmente, abalador de cena, o qual seria, segundo o autor, an upstart crow (um corvo arrivista, literalmente), um Johannes factotum (um "faz-tudo" capaz de fingir habilidade), sugerindo que as pessoas tinham conhecimento de um dramaturgo chamado Shakespeare (Shake). Além disso, o poeta John Davies uma vez referiu-se a Shakespeare como "nosso Terêncio inglês", denotando um misto de referências a Cícero, Quintiliano e Michel de Montaigne. Porém muitos estudiosos do período elisabetano acreditam que Terêncio tenha sido o autor de fachada de um grupo de dramaturgos da aristocracia romana.A suspeita de que Terêncio recebesse ajuda de outros para escrever suas peças (ou que não fosse o seu verdadeiro autor) atravessou séculos, conforme descreve a edição de 1911 da Encyclopædia Britannica. Ver Encyclopædia Britannica, 11th ed. (1911), pp. 639-41.</ref>

O monumento existente no túmulo de Shakespeare, em Stratford, construído uma década após sua morte, apresenta-o com uma caneta na mão, o que sugere que ele fosse então conhecido como dramaturgo e poeta. No entanto, os pesquisadores questionam se o monumento não teria sido alterado após sua criação original, e se o original não mostrava apenas um homem segurando, em vez de uma caneta, um mero saco de grãos.

No entanto, a opinião dominante (e a mais conhecida) é de que William Shakespeare de Stratford, que deixou sua cidade natal para se tornar um ator e dramaturgo bem-sucedido em Londres, foi realmente quem escreveu as obras a ele atribuídas.

Visão dos que duvidam da autoria Para os incertos quanto à identidade de Shakespeare, há diversas situações que os fazem acreditar que Shakespeare de Stratford era apenas um homem - provavelmente pago - que assumia os dotes literários de terceiros, que permaneciam anônimos: ambiguidade e falta de provas concretas quanto à evidência histórica da autoria de Shakespeare; a afirmação de que as peças possuem um nível alto de instrução (conhecimentos gerais e línguas estrangeiras) maior do que aquele que sabe-se que Shakespeare chegou a conhecer; a evidência sugestiva de que o autor faleceu quando Shakespeare de Stratford ainda estava vivo; dúvidas quanto à autoria expressas pelos próprios contemporâneos; mensagens codificadas em alguns trabalhos que parecem identificar um outro autor (como a sigla "W.S.") e paralelas percebidas entre as personagens nas peças shakesperianas e a vida favorecida dos candidatos.