Henriqueta Ana Stuart (em inglês: Henrietta Anne Stuart; francês: Henriette-Anne Stuart; Exeter, 16 de junho; 26 de junho no calendário juliano de 1644 – Saint-Cloud, 30 de junho de 1670) foi uma princesa inglesa pelo nascimento e Duquesa de Orleães pelo casamento com Filipe, Duque de Orleães. Destacou-se como uma figura influente na corte de seu cunhado, o rei Luís XIV da França.
Filha mais nova do rei Carlos I da Inglaterra e Henriqueta Maria da França, aos dois anos de idade, Henriqueta deixou a Inglaterra ao lado de sua mãe e de sua governanta em decorrência da Guerra Civil Inglesa. Refugiou-se na França, onde foi criada na corte de seu primo, o rei Luís XIV. Conhecida pelo apelido de Minette, após seu casamento com Filipe, Duque de Orleães, irmão mais novo do rei e conhecido como "Monsieur", passou a ser conhecida na corte pelo título de "Madame".
Foi, de facto, a primeira-dama da França. Seu gosto pelo luxo, sua elegância e seu apreço por fofocas e intrigas eclipsavam a rainha Maria Teresa, esposa de Luís XIV, profundamente religiosa, de francês rudimentar e pouco inclinada à vida social. A influência que Henriqueta exercia na corte, aliada à sua natureza coquete, tornou-se fonte de tensão em seu relacionamento com o marido. Ademais, a conhecida homossexualidade de Filipe contribuiu para o distanciamento do casal, levando Henriqueta a envolver-se brevemente com o rei e, mais tarde, com o Conde de Guiche, que anteriormente também fora amante de seu marido. Henriqueta desempenhou papel fundamental na negociação e na conclusão do Tratado Secreto de Dover, que aliou a Inglaterra e a França contra os holandeses. Pouco depois da assinatura do acordo e de seu retorno à França, veio a falecer repentinamente. Sua morte foi cercada por controvérsias e especulações à época. Em geral, acreditava-se que ela havia sido envenenada por um dos amantes (mignons) do marido, embora a causa oficial da morte tenha sido apontada como uma gastroenterite.
Após a morte de Henrique Benedito Stuart e a extinção da linha masculina da Casa de Stuart, a reivindicação jacobita aos tronos da Grã-Bretanha foi transmitida aos descendentes de Henriqueta por meio de sua filha mais nova, Ana Maria. Entretanto, tais descendentes foram impedidos de integrar a linha de sucessão ao trono britânico pelo Decreto de Estabelecimento de 1701, que excluía da sucessão os católicos e seus descendentes.
Biografia Nascimento e exílio esquerda|miniaturadaimagem|227x227px|Henriqueta, quando criança, com seus irmãos, Carlos e Jaime. Obra abribuída a Henri Gascar. A princesa Henriqueta nasceu em 16 de junho de 1644, na véspera da Segunda Batalha de Newbury, durante a Guerra Civil Inglesa, na Casa Bedford, Exeter, residência de William Russell, 5.º Conde de Bedford, que havia recentemente debandado para facção realista. Era filha do rei Carlos I da Inglaterra e de Henriqueta Maria da França, filha de Henrique IV e Maria de Médici. Durante toda a sua vida, Henriqueta teve uma relação muito próxima com a sua mãe, a rainha Henriqueta Maria.Henrietta Anne Stuart, Duchess of Orleans (em inglês). English Monarch. Consultado em 18 de julho de 2022
Pouco antes do seu nascimento a rainha fora obrigada a deixar Oxford e instalar-se em Exeter onde chegou em 1 de maio de 1644. O seu estado fragilizado de saúde levou muitos a duvidarem da sua sobrevivência ao parto. Após um nascimento difícil Henriqueta foi confiada aos cuidados de Anne Villiers, Condessa de Morton conhecida como "Lady Dalkeith". Por razões de segurança a rainha seguiu para Falmouth e posteriormente regressou a França para solicitar apoio ao sobrinho Luís XIV em favor do marido. Quando voltou a Falmouth em meados de julho foi informada de que a filha sofrera convulsões mas havia se recuperado. Em 21 de julho a princesa foi batizada segundo o rito da Igreja da Inglaterra na Catedral de Exeter e no dia 26 encontrou finalmente o pai Carlos I: uma cobertura de Estado foi erguida em honra da sua dignidade como princesa da Inglaterra. Posteriormente foi levada para o Palácio de Oatlands perto de Londres onde permaneceu cerca de três meses sob cuidados da sua comitiva. Em junho de 1646 foi retirada em segredo numa operação organizada por Lady Dalkeith conseguindo reunir-se novamente com a mãe em segurança.
Vida na França miniaturadaimagem|245x245px|Retrato de Henriqueta, destaque da coleção "Belezas de Windsor", de Sir Peter Lely, 1662. Enquanto vivia na corte francesa, a princesa recebeu o nome de Ana, em honra da sua tia Ana da Áustria: quando chegou, era conhecida como "Henriqueta da Inglaterra" ou como a "princesa da Inglaterra na França". Em família, era chamada de Minette. A princesa e a mãe receberam aposentos no Louvre, uma pensão mensal de 30 mil libras e a possibilidade de utilizar o Castelo de Saint-Germain-en-Laye. Este estilo de vida luxuoso não durou muito, uma vez que todo o dinheiro que Henriqueta recebia era entregue ao marido em Inglaterra ou a cavaleiros exilados que tinham fugido para França. Durante a Fronda, guerra civil que eclodiu na França entre 1648 e 1653, Henriqueta e a mãe permaneceram no Louvre.
Em fevereiro de 1649, a mãe de Henriqueta soube da execução pública do seu marido, Carlos I, que tinha sido decapitado em 30 de janeiro. No final da Fronda, a rainha Henriqueta Maria e a filha mudaram-se para o Palácio Real com o jovem Luís XIV, a mãe dele e o irmão, Filipe. Nesse período, a rainha Henriqueta Maria decidiu educar a filha, que tinha sido batizada na Igreja da Inglaterra, como católica romana.
Após o término da Fronda, a corte francesa concentrou seus esforços na busca de uma esposa para o jovem rei da França. Henriqueta Maria propôs o casamento de sua filha Henriqueta com Luís XIV, mas a rainha Ana recusou a sugestão, preferindo reservar essa posição para sua sobrinha Maria Teresa.
Retorno à Inglaterra e casamento esquerda|miniaturadaimagem|281x281px|Henriqueta caracterizada como a deusa romana Minerva, segurando um retrato de seu marido, Filipe, Duque de Orleães, irmão mais novo de Luís XIV e conhecido como "Monsieur", tradicional título atribuído ao irmão mais velho do rei. Obra de Antoine Mathieu, 1664. Enquanto residiam no Castelo de Colombes, propriedade de Henriqueta Maria nos arredores de Paris, mãe e filha receberam a notícia da restauração da monarquia inglesa sob o reinado do irmão de Henriqueta, Carlos II. Com a mudança do cenário político, ambas regressaram à capital francesa. A nova posição da princesa aumentou significativamente o seu prestígio matrimonial e levou Filipe, Duque de Orleães, irmão mais novo de Luís XIV e conhecido como "Monsieur" – tradicional título atribuído ao irmão mais velho do rei –, a manifestar o desejo de desposá-la. Antes disso, já circulavam rumores sobre possíveis alianças com o Carlos Emanuel de Saboia e com o Grão-Príncipe da Toscana, mas nenhuma das negociações avançou, em grande parte devido à condição de exilada que Henriqueta mantinha até então.
Ansioso por concretizar o casamento o mais rapidamente possível, Filipe pressionou pela realização da união. Entretanto, Henriqueta Maria decidiu viajar para a Inglaterra com a filha a fim de regularizar as suas finanças, assegurar o dote de Henriqueta e impedir que o Duque de Iorque tornasse público o seu casamento com Ana Hyde, antiga dama de companhia da Princesa Real. Nesse ínterim, Henriqueta enfrentou uma dolorosa perda familiar: o seu irmão, o Duque de Gloucester, morreu de varíola em setembro de 1660.
Em outubro de 1660, Henriqueta viajou para Dover acompanhada da mãe, onde ambas se hospedaram no castelo da cidade. Em 22 de novembro, a corte francesa apresentou oficialmente o pedido de casamento. Durante as negociações, Carlos II concordou em conceder à irmã um dote de 840 mil libras, acrescido de 20 mil libras destinadas a despesas complementares. Além disso, Henriqueta recebeu uma renda anual de 40 mil libras e o Castelo de Montargis como residência particular. Henriqueta e Filipe assinaram o contrato de casamento no Palácio Real em 30 de março de 1661, e a cerimônia realizou-se no dia seguinte. O casamento foi celebrado com grande pompa, e o casal passou a residir no Palácio das Tulherias.
Madame Duquesa de Orleães miniaturadaimagem|315x315px|Henriqueta, já Duquesa de Orleães, retratada ao lado de sua pequena cadela spaniel, Mimy, que também aparece em diversos outros retratos da princesa. O manto azul adornado com flores-de-lis douradas e forrado de arminho identifica-a como membro da família real francesa. Obra atribuída a Jean Nocret, 1665–1670. Após o casamento, como o marido de Henriqueta detinha o título de "Monsieur", designação tradicional atribuída ao irmão mais velho do rei durante o Antigo Regime francês, ela passou a ser conhecida na corte como "Madame". Ela foi, de facto, considerada a primeira-dama da França, destacando-se pelo gosto pelo luxo, elegância e interesse por fofocas e intrigas da corte, o que acabava por eclipsar a cunhada, a cunhada, a rainha Maria Teresa, profundamente religiosa, com francês rudimentar e pouco inclinada à vida social.Louis XIV’s Women (em inglês). French Travel Boutique. Consultado em 15 de junho de 2026 No início, Henriqueta e Filipe conviveram de forma harmoniosa: ela era amplamente admirada por sua cultura e inteligência, mantendo correspondência com importantes figuras literárias da época, entre entre elas Molière, Racine, La Fontaine e Bussy-Rabutin. Também demonstrava grande interesse pela jardinagem, sendo responsável pela criação do jardim aquático do Palácio Real, bem como reuniu uma prestigiada coleção de obras de arte, que incluía pinturas de van Dyck e Correggi. Com o tempo, todavia, sua natureza coquete passou a provocar ciúmes e conflitos com Filipe. Sua personalidade ativa e a constante preocupação com a aparência levaram alguns historiadores a sugerirem que poderia ter sofrido de anorexia nervosa.
esquerda|miniaturadaimagem|287x287px|Henriqueta com o marido, Filipe de Orleães, e a filha, Maria Luísa. Detalhe da obra Retrato Mitológico da Família de Luís XIV, de Jean Nocret, 1670. Na composição alegórica, Filipe é representado como o planeta Vênus, Maria Luísa como Íris e Henriqueta Ana como Flora, deusa romana da primavera. Em 1662, Henriqueta deu à luz sua primeira filha, Maria Luísa. A paternidade da criança tornou-se objeto de rumores na corte, que apontavam Luís XIV ou o Conde de Guiche como possíveis pais, em parte devido à conhecida homossexualidade de Filipe. Pouco após o casamento, Henriqueta iniciou um relacionamento amoroso com Guiche, que já havia sido anteriormente amante do próprio duque. Em julho de 1664, nasceu um filho, a quem foi atribuído o título de Duques de Valois. Batizado Filipe Carlos, a criança morreu em 1666 em decorrência de convulsões, poucas horas após o batismo. A perda afetou profundamente a duquesa. Em julho de 1665, Henriqueta deu à luz uma menina natimorta e, em 1669, teve outra filha, Ana Maria, batizada no ano seguinte. No final de 1669, Henriqueta sofreu uma nova perda com a morte de sua mãe, a rainha Henriqueta Maria, que faleceu após consumir uma dose excessiva de opiáceos utilizados como analgésicos.
Nesse ínterim, em 1666, o Cavaleiro de Lorena, o mais influente dos favoritos de Filipe, passou a integrar oficialmente ao séquito de Orleães. Rival de Henriqueta na disputa por influência sobre o duque, o cavaleiro tornou-se uma figura constante de tensão dentro da família. Em janeiro de 1670, Henriqueta conseguiu persuadir Luís XIV a exilá-lo. Inicialmente enviado para os arredores de Lyon, foi posteriormente transferido para a fortaleza do Castelo de If e, por fim, banido para Roma. Entretanto, já em fevereiro, as insistentes súplicas de Filipe convenceram o rei a permitir seu retorno à comitiva do irmão.
Tratado Secreto de Dover