thumb|250px|O gado bovino é um dos animais produzidos no PRVPastoreio Racional Voisin (PRV) é um sistema de manejo do pastejo que integra conhecimentos de zootecnia, agronomia, engenharia, biologia e outras ciências para mediar a relação ecológica entre as pastagens e os herbívoros. Trata-se de uma prática voltada a aumentar a produtividade do pasto e dos animais, buscando simultaneamente a preservação ambiental e o bem‑estar econômico dos produtores rurais.Machado, Luiz Carlos Pinheiro. Pastoreio racional voisin: tecnologia agroecológica para o terceiro milênio. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
História e origem do termo O sistema tem como base os trabalhos do bioquímico francês André Voisin (7 de janeiro de 1903 – 21 de dezembro de 1964), autor das chamadas "Leis Universais do Pastoreio Racional". O termo Pastoreio Racional Voisin e o conjunto de práticas hoje associado a ele surgiram no Brasil na década de 1970 e foram cunhados pelo professor Luiz Carlos Pinheiro Machado.
O uso da expressão PRV representa um reconhecimento explícito às contribuições de Voisin para o planejamento do pastoreio em sistemas de produção pecuária. No Brasil, as primeiras iniciativas de difusão do PRV estiveram associadas a Nilo Romero e ao próprio Pinheiro Machado, que fundou o Instituto André Voisin em Porto Alegre, em 1970. Entre os principais aportes desse instituto ao desenvolvimento do sistema destacam‑se:
a introdução de projetos de pastoreio baseados em diagnóstico zootécnico e administrativo das unidades de produção, permitindo o planejamento integral da propriedade rural, incluindo custos, administração, programação zootécnica e procedimentos operacionais padronizados; o desenho de áreas de pastagem organizadas em módulos, de modo que as divisões reflitam as características específicas de cada local; a implantação de vias de circulação perimetrais e internas (corredores) que facilitam o fluxo de animais e de máquinas agrícolas, reduzem erosão e contribuem para a prevenção de doenças, como mastite e manqueira, associadas a áreas encharcadas e acúmulo de lama; tais corredores também funcionam como parte de uma barreira sanitária em relação a animais de propriedades vizinhas; a adoção de sistemas de fornecimento de água que garantam oferta contínua e de boa qualidade para os animais; a integração de sombreamento natural às áreas de pastagem, com funções produtivas, de incremento de biodiversidade, conforto térmico e barreira sanitária; o uso estratégico de diferentes categorias de animais para controlar o excesso de resíduo de gramíneas e aproveitar pastos de menor qualidade, reduzindo a dependência de tratores e outras máquinas pesadas e favorecendo a reciclagem de nutrientes; a consolidação de uma visão integral dos sistemas de pastoreio, tomando a ecologia das pastagens como referência central.
Difusão da prática no Brasil Diversos empreendimentos vinculados ao Instituto André Voisin serviram como espaço de formação para profissionais que passaram a difundir o PRV em projetos de naturezas variadas. Técnicos formados nessa escola, como Humberto Sório e Jurandir Melado, difundiram versões e adaptações do sistema em propriedades particulares.
Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialmente no Centro de Ciências Agrárias, foram estruturados núcleos de estudo, pesquisa e extensão dedicados ao PRV, reunidos no Núcleo de Pastoreio Racional Voisin. Entre os docentes envolvidos, destacam‑se Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, Mario Vincenzi e Abdon Luiz Schmitt Filho, que coordenaram e desenvolveram projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados ao aperfeiçoamento das práticas de implantação e manejo do PRV.[1,2,3]
Os trabalhos em PRV na UFSC mantêm estreita relação com o Laboratório de Etologia Aplicada e Bem‑Estar Animal (LETA), que articula o manejo agroecológico de pastagens ao bem‑estar animal e à sustentabilidade ambiental, com foco na agricultura familiar e no desenvolvimento agrário.[1,4]
Características do sistema Manejo de pastagens Todo sistema de manejo de pastoreio pode ser entendido como uma forma especializada de manejo de pastagens, na qual se definem períodos de pastejo e de repouso para áreas de produção de forragens.Gibson, David J. Grasses and grassland ecology. New York: Oxford University Press, 2009. No contexto do PRV, costuma‑se distinguir pastejo (ato de consumo de pasto pelos herbívoros) de pastoreio (a condução dessa atividade pelo ser humano).
O PRV é classificado como um sistema de manejo do pastoreio com alta densidade de animais e baixa frequência de ocupação das parcelas. Um de seus objetivos centrais é o aproveitamento adequado do potencial fotossintético das pastagens. Para isso, a área é dividida em múltiplas parcelas ou piquetes, o que possibilita:
planejar a ocupação dos lotes de animais; monitorar o estado da pastagem e do solo em cada unidade; controlar os períodos de repouso e recuperação após o pastejo; ajustar o consumo de forragem em função da oferta disponível.
A decisão sobre a troca de piquetes baseia‑se na análise do estado fisiológico da pastagem de cada parcela. Em termos gerais, as áreas a serem ocupadas devem apresentar forragem com perfil nutricional adequado e volume suficiente para o lote de animais. A avaliação do ponto ótimo de repouso costuma ser feita por critérios visuais subjetivos, como:
ausência de flores ou sementes; nível de senescência das folhas basais; características fenológicas específicas das espécies de gramíneas presentes na região.
Ferramentas auxiliares, como a medição de graus brix da forragem ou instrumentos de monitoramento automatizado, podem ser utilizadas para refinar essa avaliação.
Água A ingestão de água em quantidade e qualidade adequadas é considerada fundamental para a manutenção das funções vitais, para o desempenho produtivo e para a saúde dos animais.Daros, Ruan R.; Bran, José A.; Hötzel, Maria J.; von Keyserlingk, Marina A. G. "Readily Available Water Access is Associated with Greater Milk Production in Grazing Dairy Herds". Animals, v. 9, n. 2, 2019. No PRV, busca‑se garantir esse acesso por meio da instalação de bebedouros em pontos estratégicos das áreas de pastagem.
Estudos indicam que bebedouros de formato circular tendem a favorecer o uso simultâneo por um maior número de animais e a reduzir a competição por água.Pinheiro Machado Filho, L.C. et al. "Designing better water troughs: dairy cows prefer and drink more from larger troughs". Applied Animal Behaviour Science, v. 89, n. 3–4, 2004. Um fornecimento adequado de água está associado a melhor desempenho produtivo, menor estresse e melhor bem‑estar animal.
Comportamento, produtividade e fertilidade do solo Em sistemas intensivos de pastoreio, como o PRV, os animais mantêm contato frequente com seres humanos, o que tende a favorecer comportamentos mais dóceis em comparação com animais manejados em sistemas extensivos.
A deposição de fezes e urina pelos animais contribui para a ciclagem de nutrientes e para o desenvolvimento de microfauna do solo (como besouros, minhocas e centopeias). No entanto, estudos sobre a dinâmica de nutrientes em áreas de pastagem indicam que essa deposição também pode estar associada a perdas significativas, especialmente de nitrogênio, devido a processos de volatilização, lixiviação e escoamento superficial. Em muitas regiões brasileiras, a baixa disponibilidade de fósforo nos solos e sua fixação em formas pouco acessíveis às plantas limitam a resposta das pastagens, mesmo quando há adubação.
Pastoreio rotacionado e pastoreio contínuo A resposta das pastagens ao tipo de manejo varia conforme o hábito de crescimento das espécies forrageiras presentes. Plantas de crescimento prostrado, estolonífero ou rizomatoso, por exemplo, tendem a se adaptar melhor a regimes de pastoreio contínuo, apresentando menor resposta a intervalos de descanso definidos.[6,7] Já gramíneas de hábito cespitoso ou ereto costumam ser favorecidas por sistemas de pastoreio rotacionado, nos quais períodos de ocupação alternam‑se com períodos de repouso.
Em pastagens mistas, com espécies cespitosas e estoloníferas, o pastoreio rotacionado tende a beneficiar as primeiras. Em certas condições, no entanto, o pastoreio contínuo pode ser utilizado de forma estratégica, por períodos controlados, para reduzir a participação de espécies consideradas indesejáveis.
Do ponto de vista produtivo, estudos comparando pastoreio contínuo e rotacionado indicam que o primeiro pode proporcionar maior ganho por animal, em virtude da maior possibilidade de seleção de dieta e da maior proporção de folhas jovens na forragem consumida, enquanto o segundo tende a oferecer maior ganho por área, em razão do melhor aproveitamento da massa de forragem produzida.
Manejo de pastagens tropicais Os conceitos associados ao pastoreio rotacionado racional evoluíram nas últimas décadas. Antigamente, era comum recomendar que os animais consumissem a maior quantidade possível de forragem, deixando predominantemente colmos (talos). Pesquisas posteriores, contudo, evidenciaram a importância da área foliar residual para a rebrota das plantas: maior quantidade de folhas remanescentes implica maior capacidade fotossintética e menor tempo de recuperação da pastagem.[9,10]
Com isso, critérios de manejo baseados na interceptação da radiação solar pela pastagem passaram a ser adotados. Em sistemas com gramíneas tropicais, o início do pastejo é frequentemente recomendado quando o dossel vegetal atinge aproximadamente 95 % de interceptação da radiação incidente, ponto em que a área foliar é máxima antes do aumento da senescência e do alongamento de colmos. Para o Panicum maximum cv. Mombaça, esse ponto corresponde, em média, a cerca de 90 cm de altura.
O momento de saída dos animais do piquete também passou a ser ajustado. Observou‑se que, após um período inicial de elevada taxa de ingestão, a redução da disponibilidade de folhas provoca queda progressiva no consumo. Assim, recomenda‑se que os animais sejam retirados quando a altura da pastagem se encontra entre 50 e 60 % da altura de entrada, o que corresponde à remoção de aproximadamente 40 a 50 % da porção superior das plantas, onde se concentram a maioria das folhas.Referências
Bibliografia
BODDEY, R. M. et al. Degradação das pastagens e o ciclo do nitrogênio. In: WORKSHOP NITROGÊNIO NA SUSTENTABILIDADE DE SISTEMAS INTENSIVOS DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA, Dourados, 2000. Anais... Embrapa Agropecuária Oeste e Agrobiologia, 2000. p. 110–124. CARNEVALLI, R.A.; SILVA, S.C.; OLIVEIRA, A.A. et al. Herbage production and grazing losses in Panicum maximum cv. Mombaça pastures under four grazing managements. Tropical Grasslands, v. 40, n. 3, p. 165–176, 2006. CARVALHO, P. C. F. Can grazing behavior support innovations in grassland management? In: Proceedings of the 22nd International Grassland Congress, 2013. p. 1134–1148. GONÇALVES, A. de C. Características morfogênicas e padrões de desfolha em pastos de capim Marandu submetidos a regimes de lotação contínua. ESALQ, 2002. 124 p. (Dissertação, Mestrado em Agronomia). LENZI, A. Desempenho animal e produção de forragem em dois sistemas de uso de pastagem: pastejo contínuo e Pastejo Rotacional Voisin. Universidade Federal de Santa Catarina, 2003. 122 p. (Dissertação, Mestrado em Agroecossistemas). MACHADO, L. A. Z. Manejo de pastagem nativa. Gráfica e Editora Agropecuária, 1999. 156 p. MACHADO, L. C. P. Pastoreio Racional Voisin: tecnologia agroecológica para o terceiro milênio. Porto Alegre: Cinco Continentes, 2004. 310 p. MACHADO, L. C. P. Ruminantes e Agroecologia. In: 40ª Reunião Anual da SBZ, 2003, Santa Maria – RS. Anais..., 2003. MACHADO FILHO, Luiz Carlos (org.). Cadernos de Agroecologia, v. 6, n. 1 (2011); v. 9, n. 2 (2014); v. 14, n. 2 (2019). Anais dos Encontros Pan‑Americanos sobre Manejo Agroecológico de Pastagens.