"Odeon" é uma das composições mais conhecidas do pianista e compositor brasileiro Ernesto Nazareth, escrita por volta de 1909 e publicada pela Casa Mozart. O título é uma homenagem ao Cine Odeon, localizado na Cinelândia do Rio de Janeiro, onde Nazareth atuava como pianista nas salas de espera antes e entre as exibições de filmes. O compositor chegou a dedicar a obra à empresa Zambelli & Cia., responsável pela administração do cinema.

Embora hoje seja considerada uma das peças mais emblemáticas de Nazareth, "Odeon" não obteve grande notoriedade durante a vida do compositor. Sua primeira gravação conhecida data de 1912, lançada no ano seguinte pela Casa Edison com Nazareth ao piano acompanhado de Pedro de Alcântara ao flautim. A popularização da obra ocorreu apenas décadas mais tarde, quando passou a integrar o repertório de intérpretes de choro e de música instrumental brasileira e foi letrada por Vinicius de Moraes. Em 2015, o catálogo “Ernesto Nazareth 150 anos” registrava 375 gravações comerciais da peça, evidenciando sua difusão nacional e internacional.

"Odeon" consolidou-se como uma das obras mais representativas da síntese entre o popular e o erudito na música brasileira, refletindo o estilo característico de Nazareth de servir como um elo entre a música da rua e a música de salão. Sua ampla difusão reafirma seu papel central na formação da identidade musical urbana do Brasil.

Contexto histórico Ernesto Nazareth nasceu no Rio de Janeiro em 1863, e viveu num período de muitas transformações sociais: a abolição da escravatura (1888), o estabelecimento da República (1889), o crescimento urbano, o desembarque de imigrantes e a chegada de novas tecnologias como a fotografia, o fonógrafo e o cinema.

No fim do século XIX e início do XX, o Rio passava por um processo intenso de reforma urbana, com inauguração de avenidas, reurbanização, ampliação da iluminação pública, esgotamento sanitário e reformas na paisagem urbana. Essa modernização envolvia adotar modelos europeus de salubridade, estética e infraestrutura.

Culturalmente, esse era um momento de tensão entre tradição popular e influência erudita europeia. Ernesto Nazareth se situa exatamente na confluência desses dois mundos: ele compunha para piano e tocava música para salões, mas também era sensível à música popular urbana, com ritmos como o choro, a polca, a valsa, o maxixe e o tango brasileiro.

Nazareth combinou sua experiência musical (que incluía aprendizado formal, autodidatismo, experiência com piano de salão, piano demonstrador em lojas etc.) com uma escuta muito atenta da música popular das ruas, das festas populares e dos músicos informais. Essa posição híbrida (entre erudito/popular e conservatório/rua) o torna uma figura percussora central na música brasileira moderna, especialmente na formação de certas estéticas que valorizam o "nacional autêntico" sem prejuízo da técnica.

Cine Odeon thumb|260px|Fachada do Cine Odeon, atual Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro (foto de 2023). As salas de espera de cinemas e cinematógrafos no Rio de Janeiro eram espaços culturais importantes: antes ou entre as sessões, era comum haver música ao vivo, com piano solo e músicos tocando para o público que chegava ou esperava. Essas salas serviam também como locais de socialização, encontro, exposição de novas composições, fonte de renda para músicos e meio de difusão de ideias musicais.

O Cine Odeon, na Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) esquina com a Rua Sete de Setembro, foi inaugurado em 16 de agosto de 1909 pela empresa Zambelli & Cia. e era uma sala de cinema bastante luxuosa e prestigiada. O cinematógrafo possuía duas salas para a exibição de filmes, além da luxuosa sala de espera, com um piano, tipo armário, com dois castiçais de metal, enfeitado com cortinas furta-cor.

Em 1909, quando Nazareth compôs "Odeon", já havia sido contratado para tocar na sala de espera do Cine Odeon da Avenida Central. O local onde ficava sua residência ficava muito próximo ao "Odeon", o que facilitava sua presença frequente como músico naquela sala de espera. Ele geralmente tocava às tardes, a partir de 13h já podia se ouvir sua música. Segundo Alceo Bocchino, Chopin e Beethoven eram ouvidos vez por outra, mas a estrela presente no local sem dúvida era a brasilidade da música de Nazareth.

O antigo prédio do Cine Odeon (antes da estrutura maior de 1926) funcionou entre cerca de 1909 até 1918, com interrupções. O prédio original acabou sendo demolido no final dos anos 1910 para dar lugar a novas construções, como o Edifício Guinle.

Esse espaço serviu de vitrine para sua música. Segundo o musicólogo Aloysio de Alencar Pinto,

A composição O choro já existia desde meados do século XIX como expressão musical urbana no Rio de Janeiro, originado de práticas informais de ambientes públicos e rodas musicais, contando com instrumentações como flauta, violão, cavaquinho e bandolim.

O gênero que se chamava “tango brasileiro” corresponde muitas vezes a composições que hoje classificaríamos como choro ou maxixe: peças para piano solo ou para pequenas formações, que incorporavam influências estrangeiras (valsa, polca, habanera cubana etc.) e elementos populares brasileiros (ritmo, síncope, modulação, memórias de danças e rodas). Nazareth se situa como um dos principais compositores desse tipo de música, ajudando a dar-lhe forma e difusão.

"Odeon" nasce num momento em que a música popular urbana brasileira estava se consolidando e o mercado editorial de música impressa estava em crescimento. Nazareth participa desse processo, compondo partituras para piano que podiam ser tocadas em casa, em cafés, e em espaços públicos ou semi-públicos. Isso ajuda a explicar como uma peça instrumental para piano solo pôde, ao longo do tempo, tornar-se amplamente difundida. O uso da expressão “tango brasileiro” para peças como "Odeon" revela uma estratégia de legitimação: enquadrar as composições dentro de gêneros que tinham prestígio ou reconhecimento internacional (como o tango, popularizado no Rio de Janeiro e também vindo da América Latina), ou ao menos que sugerissem cosmopolitismo, para superar preconceitos contra estilos considerados "vulgares" por parte das elites cariocas.

"Odeon" foi composta em 1909 e publicada provavelmente no mesmo ano pela Casa Mozart (E. Bevilacqua & Cia.) em edição custeada pelo autor e dedicada "à distinta empresa Zambelli & Cia.", proprietária do Cine Odeon.

A presença de música ao vivo nas salas de espera de cinema também mostra uma intersecção entre os novos meios de comunicação e as formas musicais tradicionais ou emergentes. O título "Odeon" reflete essa confluência: o cinema como novo espaço público de convívio e lazer, mas também de expressão cultural. A composição de Nazareth é uma homenagem, mas também faz referência a um ambiente de escuta real; Ernesto tocava ali, e poderia ser ouvido ou mesmo tempo que interagia com esse público.

center|thumb|600px|Detalhe do manuscrito original de "Odeon", depositado na Biblioteca Nacional. No canto superior esquerdo é possível ler a dedicatória feita por Ernesto Nazareth: "Dedicado á distincta empreza Zambelli".

Aspectos musicais A composição é formalmente um tango brasileiro, gênero que Nazareth ajudou a consolidar, combinando elementos de danças europeias como a polca com ritmos e síncopes da música urbana carioca do início do século XX. O esquema formal de "Odeon" foi estruturado com base na forma mais comum do choro: um rondó com três seções contrastantes com 16 compassos cada (Seção A, como refrão, e a Seção B e Seção C como seções contrastantes), que se repetem na primeira recorrência (49 compassos no total, sem contar as repetições; ou 128 compassos no total contando as repetições da forma).

thumb|Ernesto Nazareth junto ao seu piano Harmonicamente, as seções formais do "Odeon" não apresentam novidades: a Seção A é em Dó menor e as Seções B e C são no tom relativo, Mi maior. O compositor recorre a acordes diminutos com função dominante, em que as fundamentais são substituídas pela 9ª menor (funcionando como um sétimo grau).

Musicalmente, destaca-se por atribuir à mão esquerda a execução da melodia principal, enquanto a mão direita realiza acordes de acompanhamento, um padrão que Nazareth emprega em outras peças. Sua forma musical segue um esquema de rondó A–B–A–C–A–B–A, com retorno cíclico da seção principal e alternância de contrastes rítmicos e harmônicos.

Nazareth construiu o tema de "Odeon" a partir de 5 motivos básicos, que estão, de certa forma, relacionados entre si. Quase a totalidade da Seção A (c.1-16) é baseada no motivo M1 (anacruse cromática descendente de semicolcheias), seguida imediatamente pelo motivo M2 (sequência de graus conjuntos descendentes com o ritmo de colcheia pontuada-semicolcheia). Estes dois motivos, ambos de contornos melódicos descendentes, são tão característicos que a composição pode ser reconhecida só pelo seu início. Esse contorno melódico descendente geral é compensado esporadicamente pelo contorno do motivo M3, que é um arpejo ascendente.

A Seção A ainda traz, no seu final, o motivo M4 (a síncopa de semicolcheia-colcheia-semicolcheia sequenciada), também de natureza descendente, e que é reutilizado como o motivo principal de quase toda a Seção B (c.17-32). O motivo M5, anacrústico e em semicolcheias como M1, só aparece na Seção C (c.33-49; que Nazareth chama de Trio), mas seu contorno melódico, baseado na repetição de uma mesma nota, é estacionário (horizontal). Ao ser sequenciado, o motivo M5 constitui a base da Seção C e também adquire o contorno melódico descendente geral da obra.

600px|center <center>'Motivos básicos (M1, M2, M3, M4 e M5) da composição e seus contornos melódicos.</center>

Embora a harmonia dos choros tradicionais tenda a ser mais simples, com poucas alterações, podemos observar que Nazareth lança mão de tensões como a 13ª abaixada, a 9ª maior (ou 9ª maior e 6ª) e a 11ª, o que cria uma harmonia rica e com maior complexidade. Essas tensões adicionam mais cor e profundidade ao acorde, muitas vezes gerando uma sensação de instabilidade que será resolvida mais adiante na progressão harmônica.

Gravações e legado

Durante a vida de Nazareth (que morreu em 1934), "Odeon" teve circulação modesta: a única gravação foi feita em 1912 e lançada em disco de 78 rotações no ano seguinte pela Casa Edison, contando com o autor ao piano acompanhado de Pedro de Alcântara ao flautim. Sabe-se que o compositor chegou a tocá-la diversas vezes em sua turnê por São Paulo em 1926/27 e também no Rio de Janeiro.

Um fato que ajudou a projetar a melodia para o público mais amplo foi o pedido feito pela cantora Nara Leão ao poeta Vinicius de Moraes, para que ele letrasse a composição. Os versos de Vinicius invocam o tema da saudade e da nostalgia, realçando a dimensão afetiva da obra. A gravação por Nara aconteceu em 1968, mas o grande sucesso só veio a ocorrer uma década depois, quando a canção foi tema de abertura da telenovela A Sucessora'', exibida entre 1978 e 1979. A partir desse momento, o número de gravações de "Odeon" disparou.

esquerda|upright|miniaturadaimagem|Vinicius de Moraes letrou a composição nos anos 1960. O catálogo “Ernesto Nazareth 150 anos” registrava, até o ano de 2012, 325 gravações comerciais da peça em todo o globo, em versões instrumentais e vocais, executadas com diferentes instrumentos, formações e estilos. Em 2015, o mesmo catálogo afirmava que o número havia subido para 375 gravações.