250px|thumb|Mapa do mundo de Frederik de Wit, publicado em 1662 no apogeu do Século de Ouro dos Países Baixos para um grande centro de edição geográfico da época, simbolizando a preponderância econômica, cultural e artística do país, elevado ao ranque de potência mundial e que dominava a cartografia por si própria. O Século de Ouro dos Países Baixos (em neerlandês: Gouden Eeuw), também conhecido como Idade de Ouro Neerlandesa, foi um período da História dos Países Baixos compreendido entre o final do século XVI e o início do século XVIII, no qual a modesta República Neerlandesa (Estado antecessor dos Países Baixos contemporâneos) consolidou-se como uma das principais potências comerciais, financeiras e marítimas do mundo. Durante esse período, os Países Baixos destacaram-se pelo intenso desenvolvimento econômico, pela expansão de suas redes comerciais globais e por importantes avanços científicos, culturais e artísticos.
O desenvolvimento do Século de Ouro dos Países Baixos esteve ligado à consolidação da República das Províncias Unidas após a sua independência da Monarquia Hispânica, conquistada durante a Guerra dos Oitenta Anos. No final do século XVI, as províncias rebeldes — Guéldria, Holanda, Zelândia, Utreque, Overissel, Frísia e Groninga — organizaram-se em uma confederação republicana que passou a exercer crescente autonomia política e econômica. A assinatura da Trégua dos Doze Anos com a Espanha, em 1609, contribuiu para a estabilização do novo Estado e criou condições favoráveis para a expansão das atividades comerciais, financeiras e marítimas que marcariam o período.
A prosperidade da República foi impulsionada pela expansão das atividades mercantis, pela pesca, pelas manufaturas destinadas à exportação e pelo fortalecimento de centros urbanos como Amsterdã (que se tornou um dos principais polos financeiros da Europa), enquanto a política externa da República buscava proteger e ampliar essas atividades. Dentro desse cenário, como maneira de manutenção e intensificação desta política externa, objetivando a expansão desse progresso, a criação da Companhia Holandesa das Índias Orientais — Verenigde Oostindische Compagnie (VOC) —, em 1602, e da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais — Dutch West India Company (WIC) —, em 1621, ampliou a presença neerlandesa no comércio internacional. Por meio dessas companhias, os Países Baixos estabeleceram redes comerciais que conectavam a Europa, a Ásia, a África e as Américas, garantindo acesso privilegiado a mercados, matérias-primas e produtos de alto valor comercial, contribuindo para que os Países Baixos alcançassem a hegemonia comercial e marítima.
Paralelamente, o período foi marcado por importantes inovações financeiras, como a Bolsa de Valores de Amsterdã, que contribuiu para o fortalecimento do comércio e dos investimentos em larga escala; pelo desenvolvimento científico — a prosperidade econômica favoreceu a expansão das universidades e da produção científica, enquanto o contato com diferentes regiões do mundo estimulou novos estudos sobre geografia, fauna, flora e navegação — e pelo florescimento das artes, tornando o Século de Ouro um dos momentos mais significativos da história dos Países Baixos.
Antecedentes thumb|Mapa da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos por Johannes Janssonius (1658)|250x250px
A República Neerlandesa assinou a União de Utrecht em 1568 e iniciou uma rebelião contra Filipe II de Espanha, resultando na Guerra dos Oitenta Anos. Antes que a região dos Países Baixos pudesse ser completamente reconquistada, uma guerra foi iniciada entre a Inglaterra e a Espanha, forçando as tropas espanholas sob o comando de Filipe II a deterem seus avanços. Ao mesmo tempo, as tropas espanholas de Filipe conquistaram as importantes cidades de comércio Bruges e Ghent. Antuérpia, que à época era demonstravelmente o mais importante porto do mundo, teve de ser conquistada. Em 17 de agosto de 1585, Antuérpia caiu, resultando no fim da Guerra dos Oitenta Anos para os (daqui em diante) Países Baixos do Sul. As Províncias Unidas (Países Baixos contemporâneos) continuaram a luta até a firmação da Paz de Vestfália em 1648.
A perda definitiva dos Países Baixos do Sul (maior parte da Bélgica contemporânea) causou a fuga de ricos comerciantes calvinistas destas cidades para o norte. Muitos imigraram para Amsterdã, que na época era um pequeno porto, mas foi rapidamente transformada em um dos mais importantes portos mundiais no século XVII.
Essa imigração massiva de Flandres e de Brabante foi um importante estímulo para o Século de Ouro dos Países Baixos. Em adição a massiva imigração dos Países Baixos do Sul, também houve um massivo influxo de refugiados fugindo de perseguição religiosa, particularmente judeus sefarditas de Portugal e da Espanha e, mais tarde, huguenotes da França. A riqueza do país acumulada durante o Século de Ouro proporcionou uma grande tolerância em relação a grupos de minorias étnicas, tendo o país acolhido todos os perseguidos e exilados europeus.Rembrandt e o barroco holandês
Diversos outros fatores também contribuíram para o florescimento do comércio, da indústria, das artes e das ciências durante este período. O invento da serraria possibilitou a massiva construção de navios para o comércio mundial e para defender os interesses econômicos da república por meios militares.
Comércio
Durante uma grande parte do século XVII, os neerlandeses, tradicionalmente habilidosos navegadores e cartógrafos, dominaram o comércio mundial. Esta posição, antes ocupada pelos portugueses e espanhóis, seria depois perdida para a Inglaterra após uma longa competição que culminou em diversas Guerras Anglo-Neerlandesas.
Em 1602, a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais (VOC), a primeira multinacional da História, foi fundada. Esta empresa recebeu o monopólio do comércio com a Ásia, detendo-o por dois séculos e tornando-se a maior empresa comercial do mundo no século XVII. Especiarias eram importadas em grande quantidade e trouxeram altos lucros, devido aos esforços e riscos envolvidos e uma aparente insaciável demanda. Em 1609 é fundado o Banco de Amsterdã, um século antes de seu equivalente inglês.Quinn, Stephen; Roberds, William (August 2005). "The Big Problem of Large Bills: The Bank of Amsterdam and the Origins of Central Banking" (PDF). Arquivado do original (PDF) em 23 de julho de 2011. Consultado em 24 de janeiro de 2021
A Companhia Neerlandesa das Índias Orientais manteve o monopólio de comércio com o Japão através de um posto comercial em Dejima, de 1640 a 1854. Durante este período os neerlandeses foram a janela para o mundo dos japoneses. Ciências e produtos ocidentais foram introduzidos aos japoneses e contatos resultaram no chamado Rangaku ou "Ensino Neerlandês". Os neerlandeses tornaram-se instrumentais em transmitir ao Japão algum conhecimento da revolução industrial e científica ocorrendo no Ocidente. Os japoneses adquiriram e traduziram inúmeros livros científicos dos neerlandeses, obtiveram deles curiosidades e manufaturas (como relógios), e receberam demonstrações de várias inovações do Ocidente (como as demonstrações de fenômenos elétricos, e o voo de um balão de ar quente no início do século XIX). Nos séculos XVII e XVIII, os neerlandeses foram a nação Europeia economicamente mais rica e cientificamente avançada, colocando-os em uma posição privilegiada de transferir conhecimento Ocidental para o Japão.
Os neerlandeses também dominaram o comércio entre países europeus. A região dos Países Baixos era favoravelmente posicionada entre as rotas de comércio do Leste-Oeste e do Norte-Sul e ligada a uma grande parte do interior alemão através do rio Reno. Comerciantes neerlandeses transportaram vinho da França e de Portugal para a região Báltica e retornaram com grãos destinados aos países do Mar Mediterrâneo.
O florescente comércio neerlandês resultou numa larga e rica classe comercial. A nova prosperidade trouxe mais atenção e patrocínio para as artes visuais, a literatura, e a ciência.
Ciência thumb|250px|Retrato de Anton van Leeuwenhoek (c. 1680), de Jan Verkolje (I), no Museum Boerhaave, em Leida
Em consequência de seu clima de tolerância intelectual, a República Neerlandesa atraiu cientistas e intelectuais de toda a Europa. Especialmente a renomada Universidade de Leiden (fundada em 1575 pelo estatuder neerlandês Guilherme I de Orange, como gesto de gratidão pela forte resistência de Leiden contra a Espanha durante a Guerra dos Oitenta Anos) tornou-se o lugar de reunião para estas pessoas, como o filósofo René Descartes, por exemplo, que viveu em Leiden de 1628 à 1649.
Advogados neerlandeses eram renomados pelo seu conhecimento do Direito do Mar internacional e do Direito Mercantil. Hugo Grócio (1583-1645) criou as fundações para o Direito Internacional. Ele inventou o conceito dos Mares livres ou Mare liberum, que foi fortemente contestado pela Inglaterra, o principal rival dos Países Baixos no domínio do comércio mundial. Ele formulou também direitos em relação a conflitos entre nações em seu livro De iure belli ac pacis (Das leis de guerra e paz).
Christiaan Huygens (1629-1695) foi um famoso matemático, físico e astrônomo. Ele inventou o relógio de pêndulo, que foi um grande passo à frente na medição exata do tempo. Entre suas contribuições à astronomia encontra-se a explicação dos anéis planetários de Saturno. Ele também contribuiu na área da óptica. O mais famoso cientista neerlandês na área da óptica é certamente Anton van Leeuwenhoek, que realizou grandes melhorias no microscópio e foi o primeiro a estudar metodicamente a vida microscópica, criando assim as fundações para a área de microbiologia.
O famoso engenheiro hidráulico neerlandês Jan Leeghwater (1575-1650) alcançou importantes vitórias na eterna luta dos Países Baixos contra o mar. Leeghwater adicionou uma considerável parte de terra à república, convertendo diversos grandes lagos em pôlderes através da drenagem das terras por moinhos de vento.
Novamente, em consequência do clima de tolerância, a edição livreira floresceu. Diversos livros sobre religião, filosofia e ciência, considerados controversos em outros países, foram publicados nos Países Baixos e exportados ao exterior. Consequentemente, os Países Baixos tornaram-se cada vez mais a editora livreira da Europa no século XVII.
Cultura
A região dos Países Baixos passou por um desenvolvimento cultural que superou o de países vizinhos. Com algumas exceções (notavelmente o dramaturgo neerlandês Joost van den Vondel) o movimento barroco não teve muita influência. Sua exuberância não combinou com a austeridade da larga população calvinista.
A grande força por trás dos novos acontecimentos foi formada pela cidadania, notavelmente nas províncias ocidentais: em primeiro lugar e principalmente na Holanda, e em menor grau na Zelândia e em Utrecht. Enquanto ricos aristocratas por muitas vezes tornaram-se patrocinadores das artes em outros países, na República Neerlandesa esse lugar foi ocupado por ricos comerciantes e outros patrocínios.
Pintura
thumb|Ronda Noturna (1642) de Rembrandt