Andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum) ou andorinho-dos-beirais (Delichon urbicum) é uma pequena ave migratória pertencente à família das andorinhas (Hirundinidae), estival na Europa (exceto Islândia), norte de África e regiões temperadas da Ásia, e invernal na África subsariana e Ásia tropical. Existem duas subespécies geográficas de andorinha-dos-beirais aceites.
Alimenta-se exclusivamente de insetos, que captura em pleno voo, pelo que migra para climas com abundância de insetos voadores. Ambos os sexos possuem a cabeça e a parte superior do corpo preto-azuladas, contrastando com o branco do uropígio e da parte inferior do corpo. Pode ser encontrada tanto em campo aberto como em zonas habitadas pelo homem. Constrói ninhos fechados em forma de taça com lama e palha sob os beirais dos edifícios ou locais semelhantes, normalmente em colónias. A sua proximidade ao homem é de forma geral tolerada devido aos seus hábitos insetívoros, conduzindo a diversas referências literárias e culturais.
Apesar de se encontrar em declínio na Europa, possui uma grande área de distribuição geográfica e uma grande população global, pelo que não se considera que se encontre globalmente ameaçada.
Taxonomia upright=1.25|thumb|esquerda|Dois adultos empoleirados numa videira, Rheinspitz, Vorarlberg, Áustria. A andorinha-dos-beirais foi descrita em 1758 pelo zoólogo sueco Carolus Linnaeus no seu livro Systema Naturae como Hirundo urbica, caracterizada como H. rectricibus immaculatis, dorfo nigro-caerulefcente, mas foi colocada no género Delichon por Thomas Horsfield e Frederic Moore em 1854. O nome genérico, Delichon, é um anagrama da palavra em grego antigo χελιδών (chelidon), que significa 'andorinha', enquanto o nome específico, urbicum (urbica até 2004, devido a um erro de interpretação da gramática do latim) significa 'da cidade', em latim.
O género Delichon é uma ramificação recente do género Hirundo, e todos os seus membros são semelhantes em aspeto, com cabeça e parte superior do corpo preto-azulada e parte inferior do corpo esbranquiçada. No passado, a andorinha-dos-beirais foi por vezes considerada coespecífica com a andorinha-de-bando (Delichon dasypus), que nidifica nas montanhas da Ásia central e oriental e inverna no Sudeste asiático, e é também muito semelhante à Delichon nipalense, que é endémica nas montanhas da Ásia setentrional.
De acordo com o Congresso Ornitológico Internacional, a andorinha-dos-beirais tem três subespécies: a subespécie nominal D. u. urbicum, descrita pela primeira vez por Linnaeus em 1758, que pode ser encontrada em toda a Europa até ao oeste da Sibéria; a D. u. lagopodum, descrita pela primeira vez pelo zoólogo alemão Peter Simon Pallas em 1811, que vive na Ásia oriental; e a D. u. meridionale, descrita pela primeira vez pelo ornitólogo alemão Ernst Hartert em 1910, que pode ser encontrada na zona do Mediterrâneo, desde a Europa meridional e o norte de África até ao centro e sul da Ásia. A validade desta subespécie é disputada, dado que as diferenças apontadas para a D. u. urbicum são clinais e provavelmente inválidas.
Características thumb|esquerda|upright=1.02|Adulto, norte da Itália. A subespécie nominal D. u. urbicum tem 12- de comprimento, uma envergadura de 26- e um peso médio de . A cabeça e a parte superior do corpo são preto-azuladas, enquanto que a cauda curta bifurcada e a parte superior das asas são pretas, contrastando com o branco do uropígio e da parte inferior do corpo e das asas; as patas curtas têm cor rosa e estão cobertas com uma penugem branca. Tem olhos castanhos, um bico pequeno, fino e preto, e uma cauda curta bifurcada, sem guias caudais. Não existem diferenças assinaláveis entre os dois sexos, mas os juvenis são pretos e algumas das suas tectrizes e rémiges têm as pontas e a orla brancas. A subespécie D. u. meridionale é menor do que a subespécie nominal, enquanto que a subespécie D. u. lagopodum se distingue da espécie nominal pelo uropígio branco, que se estende ao longo da cauda, e pela menor profundidade da bifurcação da cauda.
A espécie mais similar à andorinha-dos-beirais é a andorinha-de-bando, mas esta possui a parte inferior do corpo mais sombria, com uma cauda mais curta e menos bifurcada. A confusão mais comum ocorre entre os machos adultos da andorinha-de-bando, que possuem a parte inferior do corpo mais clara, e a subespécie D. u. lagopodum, cuja bifurcação da cauda se encontra entre a da D. u. urbicum e da andorinha-de-bando. A Delichon nipalense distingue-se da andorinha-dos-beirais pelo seu queixo negro, suas coberteiras negras e cauda mais quadrada. O uropígio e da parte inferior do corpo totalmente brancos, claramente visíveis em voo, distinguem a andorinha-dos-beirais das outras espécies de andorinhas paleárticas, tais como a andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica), a andorinha-das-barreiras (Riparia riparia) e a andorinha-dáurica (Cecropis daurica). Em África, pode ser confundida com a andorinha-de-rabadilha-cinzenta (Pseudhirundo griseopyga), mas essa espécie tem uropígio cinzento, parte inferior de cor creme e uma longa cauda bifurcada.
A andorinha-dos-beirais é uma espécie ruidosa, especialmente nas suas colónias. O canto do macho, ouvido durante todo o ano, é um chilreio suave de chirps melodiosos. O chamado de contacto, também ouvido durante a invernagem, é um chirrrp áspero; e a vocalização de alarme, um tseep agudo.
Recorrendo a radares para seguir as aves em voo durante a época de migração, um estudo suíço estimou que a velocidade média de batimento das asas da andorinha-dos-beirais em voo é de – batimentos por segundo, ligeiramente superior à da andorinha-das-chaminés, estimada em – batimentos por segundo, mas que a velocidade média em voo das duas espécies é semelhante (11–).
Distribuição e habitat thumb|upright=1.25|Bando empoleirado em cabos elétricos suspensos, Codlea, Roménia. A subespécie D. u. urbicum nidifica ao longo da Eurásia temperada até à Mongólia central e ao rio Ienissei, em Marrocos, na Tunísia e no norte da Argélia; e inverna na África subsariana. A D. u. lagopodum nidifica para oriente do rio Ienissei até Kolyma e para sul até ao norte da Mongólia e da China; e passa o inverna no sul da China e Sudeste asiático.
Habitat Os seus habitats preferidos são campos abertos com vegetação baixa, tais como prados, pastos e campos de cultivo, de preferência junto à água. No entanto, também pode ser encontrada em montanhas pelo menos até aos de altitude, e é muito mais urbana do que a andorinha-das-chaminés, nidificando mesmo no centro das cidades, desde que o ar seja suficientemente limpo. De todas as andorinhas eurasiáticas, a andorinha-dos-beirais é a mais facilmente encontrada junto a árvores, uma vez que estas proporcionam alimento (insetos) e locais para pernoitar. Ao contrário da andorinha-das-chaminés, geralmente não utiliza canaviais como dormitórios comunais durante a migração.
Durante o inverno utiliza habitats semelhantes mas é menos conspícua do que a andorinha-das-chaminés, revelando uma tendência para voar mais alto e a ter um comportamento mais nómada. Nas zonas tropicais, como a África oriental e a Tailândia, é encontrada sobretudo nas zonas mais altas.
Migração A andorinha-dos-beirais é uma ave migratória que se movimenta numa frente larga, o que significa que as rotas de migração das aves que nidificam na Europa não afunilam nas zonas de travessia mais curta do mar, como os estreitos de Gibraltar e do Bósforo, mas cruzam todo o Mediterrâneo e o Saara. Durante a migração geralmente viaja durante o dia, embora algumas aves o possam fazer de noite.
thumb|esquerda|upright=1.36|Andorinha-dos-beirais em voo, Loire, França. As migrações não são livres de perigo; em 1974, várias centenas de milhares de aves desta espécie foram encontradas mortas ou moribundas nos Alpes suíços e arredores, surpreendidas por fortes nevões e baixas temperaturas. O principal fator que influencia a taxa de sobrevivência dos adultos durante a migração no outono é a temperatura, seguido da precipitação. Para os juvenis, é mais crítica a ocorrência de baixas temperaturas durante a época de nidificação. Devido às alterações climáticas é previsível que a ocorrência de condições atmosféricas extremas se torne cada vez mais frequente, pelo que as taxas de sobrevivência futuras vão estar mais dependentes de condições meteorológicas adversas do que no presente.
A andorinha-dos-beirais regressa às suas áreas de reprodução alguns dias após a andorinha-das-chaminés, e tal como essa espécie raramente segue diretamente para as zonas de nidificação, preferindo procurar alimento sobre grandes corpos de água doce, sobretudo quando as condições atmosféricas são fracas.
Existem registos de exemplares desta espécie que nidificaram na Namíbia e na África do Sul em vez de regressarem ao norte. Como seria de esperar para uma espécie migradora que percorre tão grandes distâncias, já foi observada tanto a oriente (no Alasca) como a ocidente (na Terra Nova, Bermudas e Açores) da sua área de nidificação habitual.
Comportamento Alimentação upright=1.36|thumb|Andorinha-dos-beirais bebendo água em voo, França. A andorinha-dos-beirais é uma ave insetívora e captura os insetos de que se alimenta em pleno voo, à semelhança de outras andorinhas e dos andorinhões. As moscas e os afídios são a base da sua dieta nas áreas de nidificação, e na Europa esta espécie consome mais destes insetos do que a andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica). Para além desses, também os insetos da ordem Hymenoptera, em especial as formigas voadoras, são uma importante fonte de alimento nos locais onde inverna. Pequenos odonatos, lepidópteros, ortópteros ou aranhas podem também complementar a sua dieta.
Durante a época de reprodução esta espécie caça a uma altura média de , mas a alturas menores com tempo húmido, tipicamente a menos de de distância do ninho. Prefere caçar em campo aberto ou sobre a água, sobretudo quando as condições atmosféricas são fracas, mas também segue arados ou animais de grande dimensão em busca de insetos postos a descoberto. Nos locais onde inverna, caça a alturas superiores aos .
Reprodução upright=1.36|thumb|esquerda|Colónia com ninhos, Pisciotta, Itália. Originalmente, a andorinha-dos-beirais construía os seus ninhos em falésias e cavernas. Ainda são encontradas algumas colónias em falésias, com o ninho construído sob uma rocha saliente, mas atualmente esta espécie usa sobretudo estruturas feitas pelo homem, como edifícios e pontes, de preferência junto à água. Ao contrário da andorinha-das-chaminés, usa a parte exterior de edifícios abandonados em vez do interior de estábulos ou celeiros. Os ninhos são construídos na junção da parede com o beiral, ficando assim fortalecidos pela ligação a dois planos distintos. A andorinha-dos-beirais é mais gregária do que a andorinha-das-chaminés, estando habituada a viver e a migrar em bando, e tende a nidificar em colónias numerosas. Os ninhos podem inclusive ser construídos em contacto uns com os outros. Tipicamente, estas colónias têm menos de dez ninhos, mas há registos de colónias com milhares de ninhos.