A Villa Medicea di Poggio a Caiano, também chamada de Ambra ou capriccio del Magnifico, é uma das mais famosas villas da Família Médici. Encontra-se na comuna de Poggio a Caiano, província de Prato). Actualmente é propriedade estatal e hospeda um museu.
História Século XV thumb|left|300px|A Villa Medicea di Poggio a Caiano em 1599, numa luneta de Giusto Utens conservada no Museo di Firenze com'era, Florença.
Situada no centro duma colina, numa posição estratégica que domina o vale do Ombrone e a estrada entre Florença e Pistoia, foi mandada construir por Lourenço de Médici, depois deste ter comprado uma propriedade com um solar rústico a Giovanni Rucellai, o qual, por sua vez, havia aquirido o que então era uma simples fortaleza a Palla di Noferi Strozzi, construída pela família Cancellieri de Pistoia nos primeiros anos do século XV.
thumb|220px|"O cortejo de Leonor de Toledo entra em Poggio a Caiano", afresco de Giovanni Stradano no Palazzo Vecchio.
Entre 1470 e 1474, Lourenço encarregou Giuliano da Sangallo de realizar uma villa que se tornaria no protótipo da residência senhorial de campo nos séculos seguintes. Lourenço, de facto, por intermédio do seu arquitecto preferido, foi um dos primeiros a conceber um espaço agreste no qual o território fosse ordenado e misturado segundo as exigências da harmonia; naquela época começava, de facto, a desaparecer a ideia da villa-fortaleza (como a Villa Medicea di Careggi, mais semelhante a um castelo, realizada somente trinta anos por Michelozzo para Cosmo de Médici, o avô de Lourenço), e esta nova atitude devia-se tanto a questões políticas, graças ao período de paz e estabilidade alcançado pela política de Lourenço, como filosóficas, segundo os humanistas que viam o homem como modificador da paisagem a seu favor, na qualidade de "demiurgo" platónico.
Entre as inovações originais para a época, registaram-se a arcada no andar térreo (quase uma zona de fronteira entre a paisagem circundante e a villa), o pórtico e o frontão classicista no piano nobile, e a falta dum pátio central. Gradualmente, a villa foi enriquecida com obras num continuum entre arquitectura, pintura e escultura: datam deste período o afresco de Filippino Lippi sob a loggia no primeiro andar e, talvez, o frontão em majólica vidrada de Andrea Sansovino (que alguns historiadores atribuem a uma segunda fase construtiva).
Com a morte de Lourenço, em 1492, os trabalhos na villa ainda estavam, em grande parte, incompletos, tendo sofrido uma verdadeira paragem entre 1495 e 1513, por causa do exílio dos Médici de Florença. Só um terço da villa estava concluído, com a perspectiva frontal e a base com o pórtico já completos.
Século XVI 250px|thumb|left|Afresco do Salão de Leão X: "O cônsul Flaminio fala ao conselho dos Aqueus". 250px|thumb|left|Salão de Leão X: Luneta de Pontormo e Alessandro Allori.
Entre 1513 e 1521, depois do regresso dos Médici, os trabalhos foram levados a termo por iniciativa do filho de Lourenço, Giovanni, entretanto eleito Papa Leão X. Foi realizada a abóbada do salão central no primeiro andar com o brasão papal (que foi então chamado de "Salão de Leão X"), segundo desenho de Giuliano da Sangallo, mas por obra de Andrea di Cosimo Feltrini e Franciabigio. A grande cobertura em berço preocupava os mandantes, que pela grandeza temiam uma derrocada, mas foi testada por Sangallo no seu próprio palácio florentino, o Palazzo Ximenes da Sangallo, que ele construía na época, segundo uma anedota contada por Vasari; por outro lado, a própria abóbada do pórtico no primeiro andar da villa, terminada entre 1492 e 1494, serviu de protótipo.
Ainda na época de Leão X foram iniciados os afrescos do salão pelos maiores mestres florentinos da época, os chamados "maneiristas": Pontormo, Andrea del Sarto e o próprio Franciabigio. As pinturas foram concluídas cerca de cinquenta anos depois por Alessandro Allori, não sem algumas omissões ao projecto original.
thumb|250px|O brasão do Papa Leão X no tecto do Salão.
A Villa di Poggio a Caiano permaneceu sempre como a residência estival dos Médici e, além de hospedar numerosas personalidades, foi palco de importantes eventos da sua história dinástica. Particularmente, as esposas estrangeiras dos membros da família eram acolhidas na villa antes de chegarem a Florença, as quais aqui recebiam homenagem da nobreza florentina: foi o caso de Joana de Áustria, primeira esposa de Francisco I, e de Cristina de Lorena, esposa de Fernando I. Celebraram-se aqui, entre outros, os matrimónios entre Alexandre de Médici e Margarida de Áustria (1536), entre Cosme I e Leonor de Toledo (1539) e entre Francisco I e Bianca Cappello, já sua amante (1579). Os mesmos Bianca e Francisco encontraram a morte nesta villa (talvez envenenados) com a diferença de onze dias um do outro.
Séculos XVII e XVIII thumb|250px|left|O teatro mandado construir por Margarida Luísa de Orleães.
Em 1661 chegou a Florença Margarida Luísa de Orleães, prima de Luís XIV de França e esposa de Cosme III. A princesa, com um carácetr profundamente diferente do taciturno e ultra-religioso Cosme e, sobretudo, da Grã-duquesa mãe Vittoria della Rovere, foi, de facto, relegada para Poggio a Caiano. Para aliviar a "prisioneira", além do séquito de cento e cinquenta pessoas, foi mandado construir o teatro no primeiro andar, antes desta regressar definitivamente a França, em 1675.
A Villa foi a residência preferida do filho de Cosme III, o Príncipe Fernando, grande amante das artes desapreciado prematuramente, que ali fez um activíssimo centro cultural. Representavam-se frequentemente comédias no teatro e aqui havia reunido uma singularíssima colecção que chamava de "Gabinete das obras em miniatura de todos os mais célebres pintores" (Gabinetto delle opere in piccolo di tutti i più celebri pittori). Trata-se duma pinacoteca disposta numa única sala da villa, que continha 174 quadros de outros tantos pintores diferentes, o maior dos quais media 1 x 0,75 metros, e que contava com obras de importantíssimos autores, entre os quais Dürer, Leonardo da Vinci, Raffaello Sanzio, Rubens, entre outros, lamentavelmente desmembrada em 1773 pelos Habsburgo-Lorena. A sala do Gabinete era afrescada por Sebastiano Ricci com uma "Alegoria das Artes" (Allegoria delle arti), mas infelizmente também esta obra se perdeu nas sucessivas reestruturações. O monumental órgão, ainda existente, é fruto dum desejo de Fernando.
250px|thumb|right|Pormenor da fachada com o relógio mandado colocar no século XVIII pelos Habsburgo-Lorena.
Com a morte de João Gastão de Médici (1737), irmão de Fernando e último descendente dos Médici, a villa passou para os novos Grão-duques da Toscânia, que continuaram a utilizá-la como residência estival ou como ponto de permanência durante as suas viagens em direcção a Prato ou Pistoia. Foram empreendidos os trabalhos necessários de manutenção e restauro periódicos, apesar de, segundo a sua estratégia económica, estes tenham desejado redimiensionar as propriedades agrestes: começaram por deixar de usar algumas villas (como a Villa Medicea dell'Ambrogiana e a Villa Medicea di Lappeggi), fazendo com os mobiliários confluíssem para o Palazzo Pitti e para as residências restantes. Poggio a Caiano não teve esta sorte, e testemunham aquele período apenas alguns móveis, como os pequenos caixotões em madeira prezados com incrustações representando vistas e paisagens. Os arquitectos Giuseppe e Giovan Battista Ruggeri cuidaram dum restauro geral, com a renovação do teatro e a colocação dum relógio na fachada.
Na época de Fernando III de Habsburgo-Lorena, o parque frente à villa foi dotado de algumas singulares estruturas para o divertimento: uma "roca volante", um baloiço, um "carrossel dos burros" e um "carrocel de cavalos", qua ainda estão conservados num ambiente de depósito.
Século XIX left|250px|thumb|Sala neoclássica.
Com a conquista napoleónica, a Toscânia entrou na esfera de influência francesa, inicialmente como Reino da Etrúria e depois como parte do próprio Império Francês. A villa sofreu modificações internas e externas (sobretudo obra de Pasquale Poccianti) por iniciativa da regente Maria Luída da Etrúria e seguidamente de Elisa Baciocchi Bonaparte, irmã de Napoleão, Princesa de Lucca e Piombino a partir de 1804 e Grã-duquesa da Toscânia a partir de 1809. A Villa di Poggio a Caiano tornou-se numa das suas residências preferidas e, ao que parece, ter-se-á consumado aqui uma presumida relação amorosa entre o célebre violinista Niccolò Paganini, que deu numerosos concertos no teatro da villa. Exibiram-se aqui, entre outros, também Giovanni Paisello, Étienne Nicolas Méhul e Gaspare Spontini. Remontam a esta época os afrescos em estilo neoclássico do pratense Luigi Catani na sala de entrada do primeiro andar e noutras dezassete salas da villa, nos quais colaboraram vários artistas, sempre guiados por Catani.
thumb|250px|Afresco numa das salas neoclássicas.
Com a restauração, em 1819, prosseguiram as reparações e os trabalhos de reordenamento (sobretudo no jardim, onde foi construída uma limonaia, solene obra de Pasquale Poccianti, e foi realizado o parque à inglesa), os quais foram retomados com a constituição do Reino de Itália e o advento dos Sabóia.
Quando Florença se tornou capital da Itália, Vitor Emanuel II, amante dos cavalos e da caça, madou reorganizar a villa: foram construídas novas escudarias e algumas salas no piso térreo foram redecoradas, como a sala de bilhar ou a Sala de Refeições (Sala dei Pranzi), segundo projecto do arquitecto Antonio Sailer. Com Vittorio também chegou a Poggio a "bella Rosina", ou Rosa Vercellana, uma plebeia de Turim e amante do Rei, mais tarde sua mulher morganática. Testemunhas desta história de amor que teve a villa como cenário são os dois belos quartos, visitáveis no primeiro andar.
Em 1828 foram arranjados os meridianos nos dois lados do edifício, enquanto o interior da villa era adornado com móveis valiosos provenientes dos palácios Reais de Modena, Piacenza, Parma, Turim, Lucca e Bolonha, os quais confluíram para o património do novo reino unitário.
Século XX thumb|250px|left|Móveis expostos na Villa Medicea di Poggio a Caiano.
Em 1919 a Administração da Casa Real doou a villa ao Estado Italiano. A Cascine di Tavola e a escudaria, que com a villa constituíam um complexo único de grande valor arquitectónico, foram, por outro lado, cedidas no mesmo período à Opera Nazionale Combattenti e Reduci e posteriormente vendidas a privados. Os móveis e os adornos do segundo andar foram irremediavelmente dispersos nesta época.
Durante a Segunda Guerra Mundial a villa foi usada como lugar de refúgio dos bombardeamentos para importantes obras de arte proveninetes de toda a Toscânia, como as estátuas da Sacristia Nova de Michelangelo ou os Quattro Mori de Livorno.
Em 1984 tornou-se Museu Nacional e, desde então, iniciou-se um importante ciclo de restauros, que ficou concluído somente em 2007, com a abertura do segundo andar ao público, onde esteve disposto o Museu da Natureza Morte (Museo della natura morta), com as grandes pinturas de Bartolomeo Bimbi, além de outras obras proveninentes da Villa Medicea di Castello, da Villa Medicea della Topaia, d Villa Medicea dell'Ambrogiana e de outros depósitos da superintendência.
Durante os restauros da década de 1980, graças a um preciosíssimo inventário datado de 1911, procurou-se reconstruir o mais fielmente possível o aspecto que o interior da villa teria naquela época, recuperando todos os objectos, móveis e obras de arte dispersos entre os vários museus e depósitos estatais.
250px|thumb|Espaço nas traseiras da villa.
Propostas para o futuro left|120px|thumb|Arcada lateral.