Aurélio Pereira da Silva Quintanilha GOSE (Santa Luzia, Angra do Heroísmo, 24 de abril de 1892 — Santa Isabel, Lisboa, 27 de junho de 1987) foi um professor universitário e cientista português. Foi um investigador de renome internacional nas áreas da genética, da biologia dos fungos e da cultura do algodoeiro. Desde cedo opositor ao regime do Estado Novo, foi obrigado a exilar-se, tendo vivido em França e depois em Moçambique, onde durante quase duas décadas se dedicou à investigação da cultura do algodão. Foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

Biografia Filho do funcionário público Afonso Henriques da Silva e de sua mulher Maria Carlota de Sousa Pereira, doméstica, ambos naturais de Angra do Heroísmo (ele da freguesia da Sé e ela da freguesia de Santa Luzia), Aurélio Quintanilha era membro de uma família ilustre da ilha Terceira – a família Coelho Borges, pelo lado paterno – e da família da Silva Pereira pelo lado materno. O apelido Quintanilha aparece por iniciativa do seu padrinho de batismo, Guilherme da Silva Quintanilha, que restabeleceu a ligação onomástica com um avô – José da Silva Quintanilha, que foi corregedor de Angra.

Cumpriu a instrução primária na sua cidade natal, revelando-se desde logo um aluno brilhante. Iniciou os seus estudos liceais em Angra do Heroísmo, continuou-os na Horta e depois em Ponta Delgada, onde concluiu o curso com distinção.

Órfão de pai ao sair da escola primária, foi educado por uma irmã, 13 anos mais velha do que ele, pessoa culta e inteligente que o acompanhou nos seus estudos. A conselho do seu irmão Guilherme Quintanilha, 16 anos mais velho do que ele, e já coronel de artilharia, em Outubro de 1910, quando Aurélio Quintanilha tinha 16 anos de idade, partiu para Lisboa, acompanhado pela mãe e pela irmã, com o objectivo de assentar praça no Exército Português como artilheiro voluntário.

Novamente por sugestão do seu irmão mais velho, fixa-se em Coimbra, com a mãe e a irmã, com o objectivo de cursar os estudos preparatórios para admissão à Escola do Exército, os quais concluiu com sucesso. Contudo, não se sentindo com vocação para militar, acabou por não concorrer à Escola do Exército, escolhendo antes matricular-se nos preparatórios de Medicina, na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, instituição que frequentou sem fazer exames.

Em finais de 1912 mudou-se para Lisboa, cidade onde permaneceu até 1919. Matriculou-se então no curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa,http://memoria.ul.pt/index.php/Quintanilha,_Aurélio_Pereira_da_Silva recém-formada por transformação da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, o que lhe permitiu durante dois anos assistir às aulas dos Professores Augusto Celestino da Costa, Mark Athias, Aníbal de Bettencourt e Pedro Roberto Chaves, e assim adquirir vastos conhecimentos e uma grande prática laboratorial nos domínios da citologia e da histologia, o que marcou a sua futura carreira científica.

Entretanto, na convivência com amigos, envolveu-se na política da época, fazendo-se anarco-sindicalista avançado, defensor da causa do proletariado e da República. As suas convicções sociais e políticas revelam também a forte influência de José Augusto dos Santos, seu antigo professor liceal nos Açores, onde fora director do periódico O Tempo, de Angra do Heroísmo.

A 29 de dezembro de 1913, casou primeira vez civilmente, em Lisboa, com a professora particular Susana da Conceição Soares (São Sebastião da Pedreira, Lisboa, c. 1886), já divorciada de João Mota da Silva Júnior desde 1912, filha do proprietário João Baptista Soares, natural de Vila Nova de Foz Côa (freguesia de Almendra), e de Maria da Conceição Gonçalves Soares, doméstica, natural de Lisboa (freguesia de São Jorge de Arroios). Foi testemunha do casamento o jornalista Neno Vasco. Por sentença de 19 de dezembro de 1919, os dois divorciaram-se por mútuo consentimento.

Em 1915 adoeceu gravemente, a ponto de ser hospitalizado. Foi nessa altura que recebeu a orientação amiga do seu conterrâneo Professor Rui Teles Palhinha, professor auxiliar de Botânica da faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que lhe se sugeriu que se licenciasse em Ciências Naturais, pondo a bom uso os conhecimentos de biologia que já adquirira.

Seguindo esse conselho, Aurélio Quintanilha deixou a Faculdade de Medicina e matriculou-se no curso de Ciências Histórico-Naturais da então novel Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em 1917 fez exame das cadeiras de Botânica com resultados tais que foi convidado pelos Professores D. António Xavier Pereira Coutinho e Teles Palhinha para um contrato como segundo assistente da instituição, com o objectivo de trabalhar na área da citologia. Ficou rapidamente conhecido pelas excelentes aulas práticas de Citologia Animal que conduzia, mantendo as funções de segundo assistente durante os dois últimos anos do curso, entre 1917 e 1919, ano em que concluiu a licenciatura em Ciências Naturais, com a nota máxima de 20 valores. Entretanto frequentava os laboratórios da Faculdade de Medicina, onde continuou o seu treino nas técnicas de investigação em citologia, fisiologia e microbiologia.

Logo após a conclusão da licenciatura foi convidado para 1.º assistente na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra pelo Professor Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), que o conhecera quando fizera uma visita ao Instituto Botânica da Universidade de Lisboa. Aurélio Quintanilha aceitou o convite e em 1919 voltou para Coimbra, sendo encarregado das aulas teóricas e práticas das disciplinas de Botânica Médica e Morfologia e Fisiologia dos Vegetais e de desenvolver um centro de estudos de biologia experimental, onde deveria dar continuação aos seus trabalhos de citologia.

A 14 de fevereiro de 1920, casou segunda vez civilmente, em Lisboa, com Maria Susana Rodrigues de Carvalho (Santiago, Lisboa, c. 1893), estudante, filha do comerciante Boaventura Rodrigues de Carvalho, natural de Miranda do Corvo (freguesia de Rio Vide), e de Maria José Esteves de Carvalho, doméstica, natural de Mafra (freguesia de Enxara do Bispo). Por sentença de 11 de novembro de 1930, os dois divorciaram-se por mútuo consentimento.

A equipa de botânica de Coimbra a que Aurélio Quintanilha se veio juntar era diminuta, composta apenas por um professor catedrático, Luís Wittnich Carrisso, e um assistente, Artur Ervideira.Artur Ervideira, além de ter ascendido a professor catedrático de Botânica na Universidade de Coimbra, foi agricultor e pioneiro na criação do cavalo Lusitano. Ainda assim, ministravam as disciplinas de Morfologia e Fisiologia dos Vegetais, Botânica Sistemática e Fitogeografia aos alunos dos diversos cursos e mantinham uma notável actividade de investigação.

Aurélio Quintanilha ficou a residir no 1.º andar do edifício do Jardim Botânico de Coimbra, antigo Colégio de São Bento, paredes-meias com o alojamento do Professor Júlio Henriques, pioneiro da botânica portuguesa e antigo director do Jardim. Essa vizinhança permitiu a formação de uma relação próxima, que se foi estreitando com o tempo e que permitiu uma profícua colaboração entre ambos.

Essa proximidade a Júlio Henriques permitiu a continuação da publicação do Boletim da Sociedade Broteriana, já que Henriques, o fundador e director da publicação, pretendia terminá-la, dada a sua idade avançada e a crónica falta de colaboradores. Quintanilha, com Wittnich Carrisso, ofereceu-se para o lugar de redactor, gestor e angariador de colaboradores: Aceite a oferta por Júlio Henriques, iniciou-se a 2.ª Série do Boletim, com a publicação no 1.º volume, em 1922, de um apelo aos professores de instrução primária, secundária e do ensino superior, para sensibilizarem os seus alunos para o estudo das plantas. Aurélio Quintanilha foi redactor do Boletim entre 1922 e 1936. O seu interesse pela Sociedade Broteriana manteve-se até ao fim da vida e entre 1921 e 1960 publicou no Boletim mais de 47 trabalhos científicos e colaborou com muitos outros. Também colaborou na revista Homens Livres (1923).

Iniciou então uma carreira académica que o levou no ano seguinte (1920) à regência da cadeira de Botânica Médica e em 1926 ao concurso para Professor Catedrático da Universidade de Coimbra.

Ao chegar a Coimbra como docente, preocupado com a sua falta de preparação pedagógica, sentimento raro nas Universidades portuguesas, concorreu e foi admitido como aluno na Escola Normal Superior de Coimbra, na qual, após dois anos de frequência, fez exame de estado em 1921. Apresentou então como dissertação o trabalho intitulado Educação de hoje – Educação de amanhã, no qual aborda o ensino das Ciências da Natureza nos liceus e escolas técnicas, ressaltando a importância do trabalho prático e a conveniência de partir do concreto para o abstracto. Na dissertação defende uma visão libertária da educação, sugerindo, o que foi considerado imoral por um dos membros do júri, a inclusão da educação sexual entre as matérias a ensinar no âmbito do ensino da biologia e da formação moral dos alunos. Apesar das vozes discordantes, foi aprovado com distinção, com a nota de 18 valores

Obtida a formação pedagógica que considerava indispensável a uma carreira académica, devota-se à preparação do doutoramento, escolhendo como dissertação o trabalho Contribuição ao estudo dos Synchytrium, em que de forma inovadora esclarece o ciclo de vida do fungo Synchytrium papillatum Farl.. As provas de doutoramento foram realizadas em 1926, sendo aprovado por unanimidade como Doutor em Ciências Histórico-Naturais.

Terminado o doutoramento, concorreu de imediato para um lugar de professor catedrático de Botânica da Faculdade onde trabalhava, apresentando como dissertação o trabalho O Problema das plantas carnívoras – Estudo citofisiológico da digestão no Drosophyllum lusitanicum Link, onde aborda a biologia e a fitogeografia da espécie, a classificação fisiológica das plantas carnívoras e contextualiza o fenómeno da carnivoria no mundo vegetal como um processo de nutrição. Foi aprovado por unanimidade e nomeado professor catedrático em Outubro de 1926. Em 1927 foi nomeado para os cargos de Director do Laboratório Botânico e de Secretário da Faculdade de Ciências.

As novas responsabilidades como catedrático apenas serviram para confirmar a sua dedicação à docência, pela qual sentia verdadeira paixão. A sua vasta cultura científica e humanista, aliada a uma inteligência brilhante, e os profundos conhecimentos das matérias que ensinava rapidamente o afirmaram como um excelente professor. As suas aulas revelavam uma lógica inteligente na sua construção, clareza na exposição, entusiasmo e actualidade das exposições científicas, o que despertava nos alunos o gosto pela investigação científica. Para além de manter um convívio franco e aberto com os alunos, participava em jogos de futebol e outros eventos desportivos e sociais, algo inaudito entre os catedráticos, e colocava à disposição dos alunos os livros de que necessitavam.Idem.

Aurélio Quintanilha nunca considerou acabada a sua formação, razão pela qual em 1928, após uma longa viagem de estudo pela Europa, a qual lhe permitira conhecer o cientista alemão Hans Kniep, em Berlim, obtém autorização para realizar para um estágio na Universidade de Berlim.