Etnoficção refere-se especificamente a uma docuficção etnográfica, uma mistura de documentário e de ficção na área da antropologia visual. Refere-se a um filme cujas personagens, nativos, recorrendo a uma narrativa ficcionada ou à pura imaginação, muitas vezes improvisando, desempenham o seu próprio papel como membros de um grupo étnico ou social. O termo é usado em antropologia visual, enquanto etnografia e tem por objecto de estudo mais a etnia que o indivíduo que a representa.

Jean Rouch é considerado como o pai da etnoficção. Etnólogo, apaixonado pelo cinema, cedo descobre que, forçada a intervir no evento que regista (o ritual), a máquina de filmar torna-se participante. Exigir na pesquisa etnográfica uma câmara não participante, como Marcel GriauleMarcel Griaule (Infopédia), seu mestre, preconizava é um preconceito que a prática contradiz. Avançando mais na pesquisa que os seus precursores, Jean Rouch introduz nela o actor, enquanto ferramenta científica. Nasce um novo género de cinemaJean Rouch and the Genesis of Ethnofiction – tese de Brian Quist, Long Island University.

Referindo-se sobretudo a filmes do domínio da etnologia enquanto antropologia visual, o termo etnoficção Filme Etnográfico em processo: Reflexões em torno da Etnoficção – Resenha de Ana Lúcia Ferraz, (Professora Antropologia ICHF- UFF) também serve para designar filmes documentários artísticos, de longa tradição, que precedem e sucedem Rouch. O termo pode também ser usado, num sentido mais geral, para designar qualquer obra de ficção na comunicação humana, na arte ou na literatura, com base etnográfica ou social.

História Na linha de Robert Flaherty e de Jean Rouch, representações cinematográficas de duras realidades locais surgem em Portugal a partir dos anos trinta. Têm particular incidência nos anos sessenta e setentaImagining Rurality: Portuguese Documentary and Ethnographic Film in the 1960s and 1990s – nota de introdução de uma conferência de Catarina Alves Costa no Comité du Film Ethnographique, prosseguem na década de oitenta e mantêm-se presentes nos primeiros anos do século XXI, nos filmes de Flora Gomes, Pedro CostaThe Films of Pedro Costa (Distant Voices)Terra Longe ( South Planet) ou de Daniel E. Thorbecke, o autor desconhecido de Terra Longe.

Fazer surgir a ficção no coração da etnicidade é prática corrente nas narrativas populares portuguesas (literatura oral). Será assim fácil entender por que motivo, devido à atracção tradicional pelo imaginário surrealista e pela lenda, certos filmes portugueses, como os de Manoel de Oliveira e de João César Monteiro ou como os híbridos de António Campos, de António Reis e de Ricardo Costa Things we see: Portuguese anthropology on material culture – Texto de Filomena Silvano em Scielo Disquieting Objects - Artigo de Gabe Klinger ( The Museum of Moving Image)Ricardo Costa e o fluir das imagens – Artigo de José de Matos-Cruz se libertam de predicados realistas e se tornam ficções poéticas. Desde os anos sessenta que a etnoficção (vida real e ficção num só) se torna um traço distintivo do cinema português.

Etnoficções Anos 1920 1926 – Moana de Robert Flaherty, EUA

Anos 1930 1930 – Maria do Mar de José Leitão de Barros, Portugal 1932 – L'or des mers de Jean Epstein, França 1934 – Man of Aran de Robert Flaherty, GB 1936 – Tabu de Robert Flaherty e F.W. Murnau, EUA

Anos 1940 1942 – Ala-Arriba! de Leitão de Barros. Portugal 1948 – Louisiana Story de Robert Flaherty EUA

Anos 1950 1955 : Les Maîtres Fous de Jean Rouch, França 1958 : La pyramide humaine de Jean Rouch, França

Anos 1960 1960 – Moi, un noir de Jean Rouch, França 1962 – Acto da Primavera de Manoel de Oliveira. Portugal 1963 – Pour la suite du monde (Of Whales, the Moon and Men) de Pierre Perrault e Michel Brault, Canada 1967 - Jaguar, de Jean Rouch, França

Anos 1970 1976 – Gente da Praia da Vieira de António Campos 1976 – Mau Tempo, Marés e Mudança de Ricardo Costa 1976 – Trás-os-Montes de António Reis e Margarida Cordeiro 1979 – O Pão e o Vinho de Ricardo Costa 1988 – Mortu Nega de Flora Gomes 1996 – Po di Sangui de Flora Gomes 1997 – Ossos (filme) de Pedro Costa

Filmes recentes 2000 – No Quarto da Vanda de Pedro Costa 2002 – Cidade de Deus (filme) de Fernando Meirelles 2003 – Terra Longe de Daniel E. Thorbecke 2003 – Brumas de Ricardo Costa 2006 – Juventude em Marcha de Pedro Costa 2007 – Transfiction de Johannes Sjǒberg

Em balanço sumário, destaca-se o tema transmontano nos filmes dos anos sessenta. O tema africano surge a meio dos anos noventa e prossegue depois, nos filmes de Flora Gomes, de Pedro Costa e de Daniel E. Thorbecke.

Pode deduzir-se, por outro lado, que as cinematografias portuguesa e de expressão portuguesa se distinguem por esse tema, que lhe dá voz no mundo do cinema, como a da Cesária Évora no da música. Certas "etnias" brasileiras serão também ficcionadas: as gentes das favelas e os transexuais.

Ver também Filme etnográfico Cinema directo

Ligações externas Rouch, o documentário em transe artigo de Carlos Alberto Mattos em Críticos (Globo) A experiência da duração no cinema de Jean Rouch - Resenha de Ana Lúcia Ferraz, Universidade de São Paulo, Brasil Literatura Popular: em torno de um conceito – artigo de Manuel Viegas Guerreiro em Alfarrábio A vertente antropológica do cinema português em Cinema de Portugal Vestuário Cinematográfico: estudos da fashion theory aplicados à etnoficção portuguesa – artigo de Caterina Cucinotta e António Cascais em LASICS O Corpo Revestido na Etno-ficção Portuguesa – paper de Caterina Cucinotta (Academia.eu) O Vestuário Cinematográfico como Testemunha da Verdade da Ficção: Percursos Possíveis – Artigo de Caterina Cucinotta em Interact, 6 Fevereiro, 2014 The Ethnofiction in Theory and Practice – artigo de Johannes Sjǒberg (PDF)

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