Boys Don't Cry é um filme americano de 1999, do gênero drama biográfico, dirigido por Kimberly Peirce e coescrito por Peirce em parceria com Andy Bienen. O filme é uma dramatização da vida de Brandon Teena (interpretado por Hilary Swank), um homem transexual que tenta descobrir-se e encontrar um amor em Nebraska; contudo, no decorrer dessa busca, acontecem eventos inesperados. Nos papéis coadjuvantes estão Chloë Sevigny (como Lana Tisdel, namorada de Brandon) e Peter Sarsgaard (como John Lotter).
Depois de ter lido o caso enquanto ainda estava na faculdade, Peirce realizou uma extensa pesquisa para criar um roteiro, no qual trabalhou por quase cinco anos; ela também inseriu, no filme, muitos dos diálogos tirados diretamente do arquivo de gravação do documentário The Brandon Teena Story (1998). Durante o processo de seleção para o papel principal, o qual durou três anos, inúmeras atrizes fizeram testes de elenco, tendo sido Swank a escolhida devido à semelhança de sua personalidade com a de Brandon. Apesar de a maioria das personagens terem sido baseadas em pessoas reais, algumas foram criadas.
As filmagens ocorreram entre outubro e novembro de 1998 na região de Dallas, Texas. Os produtores, inicialmente, queriam filmar em Falls City, Nebraska, onde os eventos ocorreram na vida real; no entanto, devido ao baixo orçamento, as gravações tiveram de acontecer no Texas. A fotografia usa iluminação obscura e artificial e foi influenciada por uma variedade de estilos, incluindo o neorrealismo e os filmes de Martin Scorsese, ao passo que a trilha sonora utiliza principalmente música country, blues e rock. Os temas do filme, que foram analisados por muitos acadêmicos, incluem a natureza das relações românticas e platônicas, as causas da violência contra pessoas LGBT, pessoas transgênero e não-binárias, e a relação entre classes sociais, raças e gêneros.
O filme estreou no Festival de Cinema de Nova Iorque em 1.º de outubro de 1999, antes de ter sido exibido em vários outros festivais de cinema. Alvo de controversas, foi inicialmente classificado como NC-17 (Sem crianças abaixo de 17 anos), mas depois foi reclassificado para R (Restrito). Distribuído pela Fox Searchlight Pictures, recebeu um lançamento limitado nos Estados Unidos em 22 de outubro, e apresentou um bom desempenho na bilheteria norte-americana: até maio de 2000, já havia ganhado três vezes a mais do que seu orçamento de dois milhões de dólares. A película foi aclamada por críticos, e muitos classificaram-na como um dos melhores filmes do ano; louvores foram dados à atuação de Swank em especial e à forma como a produção aborda seus temas. No entanto, algumas pessoas que estiveram presentes na vida real de Brandon criticaram Boys Don't Cry por não ter retratado os eventos com precisão. A obra recebeu inúmeras indicações a diversos prêmios, dentre as quais duas ao Oscar 2000 nas categorias de Melhor Atriz (Swank) e Melhor Atriz Coadjuvante (Sevigny), vencendo a primeira. A dupla também foi nomeada aos Prêmios Globo de Ouro 2000, em que Swank ganhou Melhor Atriz - Drama, e aos Prêmios Screen Actors Guild 2000; Swank recebeu ainda uma indicação ao BAFTA de Melhor Atriz e ganhou o Critics Choice, além de outros prêmios.
Em 2019, o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso como sendo "culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo".
Sinopse Baseado na história real de Brandon Teena (Teena Brandon), Boys Don't Cry relata a juventude de um homem transsexual. O filme retrata sua trajetória enquanto transgênero e os embates que vive diante da sociedade.
Elenco Hilary Swank .... Brandon Teena Chloë Sevigny .... Lana Tisdel Peter Sarsgaard .... John Lotter Brendan Sexton III .... Tom Nissen Alicia Goranson .... Candace Alison Folland .... Kate Jeannetta Arnette .... Mrs. Tisdel Rob Campbell .... Brian Matt McGrath .... Lonny Brandon Cheyenne Rushing .... Nicole
Produção Antecedentes Brandon Teena foi um homem trans norte-americano, que foi espancado, violado e assassinado por dois conhecidos em dezembro de 1993, quando tinha 21 anos. Kimberly Peirce, na época estudante de cinema na Universidade Columbia, ficou interessada no caso depois de ler um artigo de 1994 escrito pela jornalista Donna Minkowitz para o Village Voice. Peirce ficou fascinada pela vida e morte de Brandon, e disse: "No momento em que li sobre Brandon, me apaixonei. Com a intensidade de seu desejo em se transformar em um garoto, o fato de ele ter feito isso sem ter ninguém como modelo. A grande imaginação que esta pessoa tomou foi completamente emocionante para mim". A cobertura sensacionalista da mídia sobre o caso também aumentou seu interesse. A diretora disse que olhou para além da brutalidade do caso e viu os aspectos positivos da vida de Brandon como parte do que eventualmente causa a própria morte. Ela admirou a audácia de Brandon, a capacidade de resolver problemas complicados e o que ela percebeu como a sensação de fantasia invocada por sua personalidade.
Peirce queria contar a história da perspectiva de Brandon, e estava com o desejo de que ele usasse roupas masculinas: "Comecei a assistir toda a cobertura midiática e bastante coisas eram sensacionalista. As pessoas estavam se concentrando no espetáculo de uma menina que se passou por menino, porque isso é muito estranho para muitas pessoas. Eu conhecia meninas que se passaram por meninos, então Brandon não era uma pessoa estranha para mim, era uma pessoa muito familiar". A diretora foi influenciada pela opinião pública do caso, acreditando que o público norte-americano geralmente estava mal informado e estava se concentrando no crime sem dar muita compreensão emocional, o que, para ela, é realmente perigoso, especialmente com a cultura de violência. Posteriormente começou a trabalhar em um conceito para o filme e deu o título de trabalho de Take It Like a Man.
O projeto atraiu interesse de várias empresas de produção, como a Blue Relief, de Diane Keaton, que mostrou interesse no roteiro em meados da década de 1990. Inicialmente, o filme deveria basear-se, em grande parte, no livro de crimes reais All She Wanted, de Aphrodite Jones, que contou a história das últimas semanas de Brandon. Nos rascunhos anteriores do roteiro continham cenas com os antecedentes familiares de Brandon, incluindo sua irmã, Tammy, e a mãe, Joann, assim como algumas das ex-namoradas de Teena. No entanto, Peirce modificou o roteiro de acordo com sua visão para se concentrar na relação entre Brandon e sua namorada de 19 anos, Lana Tisdel, que a diretora chamou de "grande história de amor", em oposição a All She Wanted, que não colocou uma ênfase no relacionamento.
Para financiar o roteiro e o desenvolvimento do projeto, Peirce trabalhou como paralegal em turnos da meia-noite e como projecionista de filmes de 35mm; ela também recebeu uma bolsa da New York Foundation for the Arts. O projeto atraiu a atenção da produtora Christine Vachon, que tinha visto um curta que Peirce tinha feito para sua tese em 1995 sobre o caso. Os estúdios IFC Films, Hart Sharp Entertainment e Killer Films juntamente com Vachon e Eva Kolodner, forneceram financiamento para o projeto. A IFC contribuiu com cerca de um milhão de dólares, mas o eventual financiamento permaneceu abaixo dos dois milhões. Peirce coescreveu o roteiro com Andy Bienen, com quem trabalhou durante 18 meses nos rascunhos finais e foram cuidadosos em não "mitificar" Brandon; o objetivo era mantê-lo tão humano quanto possível. Na etapa de edição do roteiro,a diretora enviou o rascunho para a Fox Searchlight Pictures, que concordou em produzir e distribuir o filme enquanto dava a licença artística para Peirce.
Antes das gravações, Peirce pesquisou os fatos entrevistando as pessoas que estiveram de perto, e aproveitou o máximo as informações disponíveis sobre o ocorrido, incluindo transcrições de julgamento. Conheceu Lana Tisdel em uma loja de conveniência e entrevistou-a na sua casa. Tisdel, que começou a namorar Brandon apenas duas semanas antes de ser assassinado, tinha 19 anos no momento do homicídio e morava em Falls City com sua mãe, quem Peirce também entrevistou e os amigos de Brandon. No entanto, ela não conseguiu entrevistar a mãe biológica de Brandon ou nenhum de seus familiares. Muitas informações factuais, incluindo Nissen sendo condenado por incendiário, foram incluídas em Boys Don't Cry.
Escolha do elenco Os cineastas mantiveram os nomes reais na maioria dos protagonistas, mas várias personagens coadjuvantes tiveram os nomes alterados. Por exemplo, a personagem Candace foi chamada Lisa Lambert na vida real. O processo de escolha do elenco durou quase quatro anos. Drew Barrymore esteve inicialmente cotada para estrelar no papel principal. Peirce examinou a comunidade LGBT, procurando principalmente mulheres masculinas e lésbicas para interpretarem Brandon Teena, e disse que a comunidade LGBT estava muito interessada no projeto por causa da disseminação em torno do assassinato. Os atores famosos evitaram as audições a pedido de seus agentes devido ao estigma relacionado ao papel.
Teve um momento que o projeto estava quase sendo abandonado porque Peirce não estava satisfeita com a maioria das pessoas que faziam as audições. Em 1996, depois de uma centena de atrizes terem sido consideradas e rejeitadas, Hilary Swank, uma atriz relativamente desconhecida, enviou uma fita de vídeo para a diretora e, após seu sucesso na audição, assinou o contrato. Durante sua audição, Swank, que tinha 22 anos de idade, mentiu sobre sua idade, afirmando que, assim como Brandon, tinha 21 anos. Quando Peirce mais tarde a questionou sobre a mentira, a atriz respondeu: "Mas é isso o que Brandon faria". O anonimato de Swank convenceu a diretora em contratá-la, pois ela não queria uma "atriz conhecida". Além disso, ela notou que na audição de Swank foi "a primeira vez que vi alguém que não era apenas uma confusão para seu gênero, mas que era uma bela andrógina com chapéu de vaqueiro e uma meia nas calças, que sorria e adorava ser Brandon."
A diretora solicitou que Swank "fizesse uma transformação completa" para parecer-se com homem. Imediatamente após o contrato, aquela levou esta para um cabeleireiro e seu cabelo que chegava nas costas foi cortado e tingido para marrom castanho. Quando a atriz viu seu marido, Chad Lowe, novamente, ele mal lhe reconheceu. Ela preparou-se para o papel vestindo e vivendo como um homem por pelo menos um mês, cobrindo os seios com faixa abdominal e colocando meias nas calças na região da virilha como Teena tinha feito; sua aparência ficou convincente. Seus vizinhos acreditaram que o "jovem" que ia e vinha de sua casa era seu irmão que estava lhe visitando. Swank também perdeu sete por cento de sua gordura corporal para salientar a estrutura facial e se recusou a deixar o elenco e a equipe vê-la fora da montagem. Ela ganhou 75 dólares por dia, totalizando 3.000 dólares. Seu salário foi tão baixo que não lhe era possível um plano de saúde.