Luiz Fernando Ribeiro do Carmo (Rio de Janeiro, 27 de maio de 1943 – Rio de Janeiro, 18 de junho de 2021), mais conhecido como Laíla, foi um multiartista do carnaval brasileiro, desempenhando diversas atividades ao longo de sua carreira. Laíla foi ritmista, compositor, intérprete de samba-enredo, diretor de carnaval, diretor de harmonia, produtor musical e carnavalesco. É um dos maiores vencedores da história do carnaval carioca, tendo conquistado dezessete títulos no grupo de elite, ocupando cargos de liderança, além de outras conquistas no grupo de acesso e nos carnavais de Belém e Porto Alegre.

Nascido na Tijuca e criado no Morro do Salgueiro, Laíla frequentava blocos carnavalescos e escolas de samba desde criança. Esteve no Salgueiro desde a sua fundação em 1953, mas passou a ocupar cargo de liderança em 1968, quando assumiu a Direção de Carnaval e Harmonia da escola. Na agremiação, foi campeão dos carnavais de 1969, 1971, 1974 e 1975. Teve três passagens marcantes pela Beija-Flor de Nilópolis. Na primeira, conquistou os títulos de 1976, 1977, 1978 e 1980. Na segunda passagem, participou do histórico desfile "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia" (1989), quando teve a ideia de criar o "Cristo mendigo", uma das imagens mais marcantes da história do carnaval carioca. Na terceira e mais duradoura passagem pela Beija-Flor, Laíla conquistou mais nove títulos (1998, 2003, 2004, 2005, 2007, 2008, 2011, 2015 e 2018). Com rigidez nos ensaios, fez a comunidade nilopolitana desenvolver um canto forte e uma evolução quase sempre impecável, o que deu à escola o apelido de "rolo compressor" da Sapucaí. Venceu a segunda divisão do carnaval carioca em 1980 com a Unidos da Tijuca e em 1992 com a Grande Rio. Foi campeão do carnaval de Belém com a Arco-Íris em 1986 e 1987; e venceu o carnaval de Porto Alegre em 1999 com a Estado Maior da Restinga. Também teve passagens pelo carnaval de São Paulo.

Com personalidade forte e firmeza em seus posicionamentos, Laíla colecionou admiradores e desafetos. Sua carreira foi marcada por inovações e ideias ousadas. Laíla é o criador da junção (ou fusão) de samba-enredo, que acontece quando o samba oficial da escola é resultado da junção de duas ou mais obras concorrentes da disputa de samba realizada pela agremiação. Para o carnaval de 1998, Laíla criou uma comissão de carnavalescos na Beija-Flor, descentralizando a confecção dos desfiles em uma só pessoa. Ainda na Beija-Flor, inovou ao colocar um coral de sopranos e uma cantora lírica junto com Neguinho da Beija-Flor no desfile de 1995; ao realocar o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira para desfilar logo após a Comissão de Frente no desfile de 2002; ao integrar a Comissão de Frente com o primeiro casal no desfile de 2014; e ao abolir a tradicional divisão do desfile em alas no carnaval de 2017.

Laíla morreu em 18 de junho de 2021, aos 78 anos de idade, após sofrer uma parada cardíaca, enquanto estava internado para tratar da COVID-19. O artista foi casado por mais de cinquenta anos com Marli da Silva Ribeiro, com quem teve dois filhos: Luiz Cláudio da Silva Ribeiro e Denize da Silva Ribeiro. Laíla também é pai adotivo de Laísa Lima. Em 2022, a peça teatral "Joãosinho e Laíla: Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia" retratou o processo de criação do desfile "Ratos e Urubus", com foco na parceria entre Laíla e Joãosinho Trinta. A Beija-Flor homenageou Laíla no carnaval de 2025 com o enredo "Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas", vencendo o carnaval carioca pela décima quinta vez.

Biografia

1943–1975: Infância e sucesso no Salgueiro esquerda|miniaturadaimagem|290x290px|Morro do Salgueiro em registro de 1971. Luiz Fernando Ribeiro do Carmo nasceu no bairro da Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Seu nome artístico surgiu na infância. Quando criança, gostava muito de laranja, mas não conseguia pronunciar o nome da fruta, chamando-a de "laíla", ganhando esse apelido da família. Filho de pai desconhecido nos documentos e órfão de mãe ainda criança, Laíla foi criado em uma família de mulheres no Morro do Salgueiro. Desde pequeno frequentava os blocos e escolas de samba do bairro. Aos sete anos de idade criou a escola de samba mirim Independente da Ladeira, na qual comandou a bateria durante vários anos. Também frequentava a escola de samba Depois Eu Digo, onde sua mãe desfilava como Destaque. Após o carnaval de 1953, a Depois Eu Digo se juntou com outra escola do Morro do Salgueiro, a Azul e Branco, dando origem ao Acadêmicos do Salgueiro, onde Laíla passou a auxiliar Bala, o diretor de harmonia de agremiação. Aos quatorze anos de idade, com sua mãe já falecida, Laíla ingressou na Ala de Compositores do Salgueiro, sendo o mais jovem a integrar da ala. Para o carnaval de 1960, concorreu pela primeira vez com um samba-enredo de sua autoria na disputa de samba do Salgueiro. Dois anos depois, voltou a concorrer à disputa da escola, se classificando em segundo lugar. Para o carnaval de 1968, assumiu o cargo de diretor de carnaval e harmonia do Salgueiro, onde ficou até 1975, conquistando os títulos de 1969, 1971, 1974 e 1975. Em 1973 ganhou o prêmio Estandarte de Ouro de Destaque do Ano. Laíla gravou o samba-enredo "Rei de França na Ilha da Assombração" para o álbum de sambas de enredo de 1974. No desfile, cantou o samba junto com o intérprete oficial da escola, Noel Rosa de Oliveira, e o compositor da obra, Zé Di. Em 1975, repetiu a façanha, gravando "O Segredo das Minas do Rei Salomão", e cantando a obra no desfile junto com Noel Rosa de Oliveira e Sônia Santos. Para o carnaval de 1975, Laíla inovou ao unir trechos de duas obras concorrentes da disputa de samba-enredo realizada pelo Salgueiro, criando assim a junção (ou fusão) de samba-enredo. Em sua primeira passagem pelo Salgueiro, trabalhou com carnavalescos gabaritados como Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Maria Augusta, Rosa Magalhães e Max Lopes.

1976–1988: Chegada na Beija-Flor e passagens por outras escolas miniaturadaimagem|330x330px|Desfile da Beija-Flor no carnaval de 1978, ano em que a escola conquistou o tricampeonato do carnaval carioca. Após o título conquistado no Salgueiro em 1975, o carnavalesco Joãosinho Trinta se transferiu para a Beija-Flor de Nilópolis, com a promessa dos patronos da escola, os irmãos Anísio Abraão David e Nelson Abraão David, de receber melhores condições de trabalho e mais dinheiro para a confecção do desfile. Joãosinho impôs como condição a contratação de Laíla, seu "homem de confiança" no Salgueiro. A Beija-Flor que, até então, era uma escola pequena, sem grandes resultados na elite do carnaval, conquistou um tricampeonato entre 1976 e 1978, se tornando uma das protagonistas da festa. Laíla fez jornada dupla no carnaval de 1980, trabalhando na Beija-Flor no Grupo 1 e na Unidos da Tijuca no Grupo 2, sendo campeão nos dois grupos. Laíla levou o intérprete Neguinho da Beija-Flor para a Unidos da Tijuca, e junto com o carnavalesco Renato Lage, conquistaram o título da segunda divisão. Na primeira divisão, a Beija-Flor foi campeã empatada com Imperatriz Leopoldinense e Portela, conquistando o quarto título da escola em cinco anos. Com a ascensão da Unidos da Tijuca à primeira divisão, Laíla escolheu sair da Beija-Flor e continuar na escola do Morro do Borel, onde permaneceu nos carnavais de 1981 e 1982, conseguindo manter a escola no grupo de elite do carnaval carioca. Em 1981, ganhou seu segundo Estandarte de Ouro, dessa vez, de Personalidade. Ainda na década de 1980, participou da transmissão dos desfiles pela TV Globo e passou a comandar a produção dos discos de samba-enredo das escolas do grupo principal do Rio, junto com o diretor artístico Zacarias Siqueira de Oliveira e o engenheiro de som Mário Jorge Bruno, função que realizou até 2020, último carnaval antes do seu falecimento. Laíla retornou ao Salgueiro para o carnaval de 1984, mas ficou por apenas um ano. Em seu rápido retorno à escola, causou polêmica ao destituir o diretor de bateria, Mestre Louro, a poucas semanas antes do desfile. No carnaval de 1986, foi diretor de carnaval e harmonia da Unidos de Vila Isabel, mas a escola enfrentou problemas de evolução em seu desfile por causa da quebra de uma das alegorias, se classificando em 11.º lugar. Entre 1986 e 1988 foi diretor de carnaval do Grêmio Recreativo Guamaense Arco-Íris, uma escola recém fundada em Belém, que também contratou o carnavalesco Joãosinho Trinta, reeditando a parceria de sucesso da Beija-Flor, mas a pouca presença dos dois artistas no cotidiano da escola paraense causou polêmica entre os artistas locais.

1989–1997: Retorno à Beija-Flor, "Cristo mendigo" e Grande Rio esquerda|miniaturadaimagem|314x314px|Detalhe do icônico "Cristo mendigo" da Beija-Flor no histórico desfile de 1989, que marcou o retorno de Laíla à escola. No carnaval de 1989, Laíla retornou à Beija-Flor, participando do histórico "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia", desfile que deu à Beija-Flor o vice-campeonato daquele ano, e comumente listado entre os melhores desfiles da história do carnaval. Laíla foi o responsável pela icônica imagem do "Cristo mendigo" coberto com um saco preto. Originalmente, o carro abre-alas do desfile, criado por Joãosinho Trinta, seria uma reprodução dos Arcos da Lapa cercados por uma favela. Laíla sugeriu ao carnavalesco criar um "Cristo mendigo" saindo da favela. Joãosinho acatou a ideia e assim surgiu a icônica alegoria: uma reprodução da estátua do Cristo Redentor, vestindo trapos, emergindo de uma favela, cercada por mendigos. Na antevéspera do desfile, a Justiça do Rio de Janeiro acatou um pedido da Arquidiocese do Rio para proibir a exibição do carro alegórico. Para driblar a censura, Laíla teve a ideia de cobrir a escultura do Cristo com um plástico preto e pendurar uma faixa com a inscrição "Mesmo proibido, olhai por nós!", transformando a alegoria numa das imagens mais marcantes do carnaval carioca. No carnaval de 1990 conquistou mais um vice-campeonato para a Beija-Flor. Em 1991 a escola se classificou em quarto lugar. Laíla saiu da Beija-Flor após o carnaval de 1992, quando a escola se classificou em sétimo lugar, seu pior resultado desde 1975. Ainda em 1992, teve uma rápida passagem como diretor de harmonia da Unidos do Peruche, escola de São Paulo. Também participou do desfile da Grande Rio de 1992, que deu à escola o campeonato da segunda divisão e sua ascensão ao Grupo Especial. No carnaval de 1993, ainda na Grande Rio, realizou mais uma de suas famosas junções de samba-enredo, fazendo a fusão de três obras que resultaram no elogiado samba-enredo "No Mundo da Lua". Para o carnaval de 1995, retornou à Beija-Flor para sua terceira e mais duradoura passagem pela escola. Com um desfile em homenagem à cantora lírica Bidu Sayão, Laíla inovou colocando um coral com cerca de duzentos sopranos e uma cantora lírica, junto com Neguinho da Beija-Flor, fazendo o contracanto no refrão do samba-enredo. Também colocou instrumentistas do Theatro Municipal do Rio e da Orquestra Sinfônica Brasileira tocando violinos na bateria. A escola se classificou em terceiro lugar, repetindo a mesma posição no carnaval seguinte, de 1996.

1998–2016: Comissão de Carnaval e o "rolo compressor" nilopolitano miniaturadaimagem|280x280px|Coreografada por Laíla, a ala das pretas-velhas foi um dos destaques do desfile da Beija-Flor no carnaval de 2001.