Gustavo Jorge Laboissière Loyola (Goiânia, ) é um economista brasileiro.
Biografia
Formação e Primeiros Anos
Nascido em Goiânia em 19 de dezembro de 1952, Gustavo Jorge Laboissière Loyola é filho de Cleomar de Barros Loyola e de Maria Antonieta Laboissière Loyola. Seu pai foi Procurador-Geral de Justiça do Estado de Goiás. Descendente de tradicional família de advogados, sua mãe era originária de Paracatu, em Minas Gerais, e migrou para Goiânia durante a reorganização administrativa da capital estadual.
Em 1972, ingressou na Universidade de Brasília cursando inicialmente Engenharia Elétrica. Contudo, após completar aproximadamente três anos e meio do curso, realizou transição para economia, disciplina que havia despertado seu interesse durante o ciclo básico de engenharia. Paralelamente aos estudos, trabalhou como oficial de chancelaria na Itamaraty entre 1974 e 1977, atuando na Divisão de Transmissões Internacionais. Completou sua graduação em economia em 1978.
Em 1977, ainda durante sua formação universitária, foi aprovado em concurso público do Banco Central (BC), classificado em segundo lugar em nível nacional. Sua primeira função na instituição foi na Diretoria de Administração, inicialmente no Departamento de Administração de Recursos Materiais, mas posteriormente trabalhou no gabinete do diretor José Antônio Berardinelli Vieira, período em que adquiriu aprendizado profundo sobre a organização. Em 1979, ao ser criado o Departamento de Organismos e Acordos Internacionais (Deori), obteve transferência para a Área Internacional do BC.
Prosseguiu seus estudos acadêmicos mediante aprovação em concurso de seleção para admissão em programa de mestrado da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, em 1980. Alcançou o título de mestre em 1981. Sob orientação do professor Antônio Carlos Porto Gonçalves, integrou-se ao programa de doutorado na mesma instituição, com tese sobre "Preços relativos em um processo inflacionário", defendida em 1987. Durante a pós-graduação, reconheceu a importância de técnicas quantitativas e aprofundou compreensão de microeconomia, assimetrias de informação e dinâmicas de mercado. Retornou ao BC no primeiro semestre de 1983 sem ainda ter defendido a tese, regressando ao Deori.
Carreira no Setor Financeiro (1987-1992)
Loyola se licenciou do BC ao receber convite de Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-diretor do BC, para trabalhar na Planibanc, corretora de valores com sede em São Paulo, onde atuou como diretor operacional de novembro de 1987 a outubro de 1989. Durante esse período teve oportunidade de conhecer e estabelecer contatos profissionais com Ibrahim Eris, que seria posteriormente presidente do Banco Central.
Por razões pessoais e profissionais, retornou a Brasília em 1989, solicitando demissão da Planibanc e suspendendo sua licença sem vencimentos do BC. Retornou como técnico na Diretoria de Mercado de Capitais, e posteriormente foi convidado para atuar como consultor da presidência na gestão de Wadico Bucchi, permanecendo até o término daquele mandato.
Carreira no Banco Central até 1992
Retornado ao BC em 1983, Loyola trabalhou na negociação da dívida externa brasileira com credores internacionais durante a grave crise que se iniciou em 1982. Participou ativamente em negociações envolvendo o Clube de Paris, órgão coordenador de credores oficiais, atuando no gabinete do diretor da Área Externa como consultor. Acumulou experiência em renegociação de dívida até março de 1985, trabalhando sob pressão em simulações de cenários de pagamento e propostas aos credores.
Em 1985, durante a administração do presidente Lemgruber do BC, foi convidado por Roberto Castello Branco, diretor recém-nomeado da Diretoria de Mercado de Capitais (Dimec), para chefiar o Departamento de Normas do Mercado de Capitais (Denoc). Carecia de experiência previa nessa área, mas contou com apoio de Sergio Darcy da Silva Alves, funcionário competente que se tornaria posteriormente diretor de Normas e Organização do Sistema Financeiro Nacional. Este período marcou início de sua especialização em regulação e normatização do sistema financeiro.
Participou ativamente na implementação do Plano Cruzado (1986), responsabilizando-se pela elaboração normativa, trabalhando em coordenação com economistas das diversas áreas envolvidas na operacionalização. Durante o Plano Cruzado, suas equipes introduziram inovações significativas no sistema financeiro, como a criação do mercado interbancário, que permitiu pela primeira vez transações de depósitos a prazo entre bancos comerciais conforme alteração na Lei 4.595/1964. Também participou na estruturação de mudanças nas normas de caderneta de poupança, legislação de corretores de câmbio e criação do Fundo ao Portador.
Em 1988 e 1989 licenciou-se novamente do BC para trabalho no setor privado, retornando posteriormente para atuar na administração. Em janeiro de 1990, foi convidado por Ibrahim Eris para assumir a nova Diretoria de Normas do Mercado Financeiro (Dinor), criada pela fusão de diretorias de Mercado de Capitais e Área Bancária, durante a transição para o governo Fernando Collor de Melo. Recebeu sabatina no Senado antes da posse do novo presidente e foi empossado como diretor, acompanhando Antônio Claudio Sochaczewski na Área Internacional e Luís Eduardo Assis na Diretoria de Política Monetária.
Como diretor da Dinor, participou intensamente na operacionalização do Plano Collor (1990), implementando normas complexas para funcionamento dos bancos após o congelamento de ativos. Tomou conhecimento do plano apenas dois ou três dias antes do anúncio, evidenciando o sigilo mantido. Enfrentou desafios ao regulamentar as chamadas "torneirinhas", mecanismo de exceções que permitia conversão de cruzados novos retidos, gerando demandas crescentes e equipes sobrecarregadas conforme critérios se tornavam menos restritivos. Trabalhou intensamente na restauração funcional do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), que havia paralizado durante conversões iniciais do plano. Implementou importante avanço ao proibir contas ao portador, eliminando anonimato no mercado financeiro e criando mercado interbancário de câmbio.
Permaneceu como diretor durante as gestões de Francisco Gros e no governo transitório de Itamar Franco, sendo o único diretor que continuou na reestruturação administrativa coordenada por Gros. Nesse período participou da preparação de normas para regulamentar Certificados de Privatização e transferência de responsabilidade sobre consórcios para o Banco Central a partir de janeiro de 1991.
Primeira Presidência do Banco Central (1992-1993)
Nomeação e Início da Gestão
Em novembro de 1992, o presidente Itamar Franco – investido provisoriamente em 2 de outubro no cargo presidencial após o Parlamento autorizar que o Senado prosseguisse com o processo contra o então mandatário Fernando Collor de Melo, que se defrontava com acusações de envolvimento em esquema ilícito – designou Loyola para a presidência do Banco Central, sucedendo Francisco Roberto André Gros. Loyola recebeu a notícia pelo próprio Gros de que o presidente desejava conversar com ele. Itamar Franco tinha preferência por nomear funcionários de carreira para administração de instituições públicas, como forma de garantir continuidade técnica.
Após ser sabatinado no Senado Federal, Loyola assumiu a presidência do BC em 12 de novembro de 1992, permanecendo até 25 de março de 1993. O período inicial de sua gestão enfrentou dificuldades significativas para planejar ações econômicas em um ambiente político complexo, durante o processo ainda em definição da consolidação do mandato presidencial.
Questões Regulatórias e Conflitos
Poucos meses após assumir, Loyola entrou em conflito com o governador baiano Antônio Carlos Magalhães (1991-1994), ao identificar irregularidades no Banco da Bahia (Baneb), que havia aberto agências sem autorização do BC em dezenas de municípios estaduais. Sua equipe de fiscalização mandou fechar as agências não autorizadas. Relatório respaldado por Loyola caracterizou o Baneb como instituição dominada por interesses políticos, cuja aparente saúde financeira decorria de práticas contábeis questionáveis. O Secretário da Fazenda estadual, Rodolpho Tourinho, foi cordial nas conversas iniciais, porém Magalhães reagiu com irritação e nervosismo contra o BC. Loyola buscou deixar claro que o BC atuava como órgão técnico sem envolvimento em questões políticas, recusando-se a permitir que a questão das agências do Baneb fosse utilizada politicamente contra Magalhães.
Saída do Cargo
Sua permanência no comando do BC durou apenas até março de 1993, quando se desligou do cargo em razão de divergências com o presidente Itamar Franco – cujo mandato havia sido consolidado em 29 de dezembro de 1992 – notadamente no tocante à condução das taxas de juros. Segundo Loyola, Itamar Franco apresentava temperamento mercurial, criando ruído no mercado através de entrevistas sobre situação econômica, e mantinha visão voluntarista de baixar juros e inflação sem apresentar estratégia clara. As discussões entre Loyola e o presidente foram frequentemente difíceis e animadas, envolvendo seminários para explicar dinâmicas das taxas de juros. Ministros da Fazenda sucederam-se rapidamente: Gustavo Krause Gonçalves Sobrinho foi substituído por Paulo Roberto Haddad, que posteriormente se desligou também. Numa ocasião em que Loyola encontrou-se com o presidente no Palácio da Alvorada, em reunião com assessores, Itamar o questionou sobre possibilidade de assumir interinamente o Ministério da Fazenda, ao que Loyola respondeu que permaneceria na presidência do BC até surgimento de substituto apropriado. A gestão foi então transferida para Paulo César Ximenes.
Período em Consultoria (1993-1995)
A partir de agosto de 1993, Loyola dedicou-se a trabalho na MCM Consultores, consultoria onde Mailson da Nóbrega (ex-ministro da Fazenda durante o governo de José Sarney entre 1985 e 1990) era o principal acionista. Sua atuação consistia em realizar estudos sobre aspectos regulatórios do setor financeiro, exercendo essas responsabilidades até junho de 1995.
Segunda Presidência do Banco Central (1995-1997)
Preparação e Retorno
Enquanto trabalhava na MCM Consultores Associados após sua saída do BC em 1993, Loyola acompanhou de longe a implementação do Plano Real em julho de 1994 e a subsequente adoção do Regime de Administração Especial Temporária (Raet) por diversos bancos estaduais em dezembro de 1994. Em início de 1995, Pérsio Arida, então presidente do BC, o convidou para assumir cargo de vice-presidente, posição que não existia à época, porém Loyola mantinha dúvidas sobre a proposta, já tendo exercido cargo de presidente anteriormente.
Em meados de maio de 1995, recebeu chamada de Pedro Malan para conversa em Brasília, através da qual foi formalizado o convite para retornar à presidência do BC em nome do presidente Fernando Henrique Cardoso. Após reflexão, Loyola aceitou a proposta, considerando relevância do projeto do Plano Real e qualidade da equipe econômica. Reassumiu a presidência em junho de 1995, ocupando a vaga deixada por Pérsio Arida. Sua segunda gestão como presidente duraria dois anos e dois meses, até agosto de 1997.
Debate sobre Independência do Banco Central