thumb|Exemplos de dispositivos de cigarros eletrônicos thumb|Componentes de um cigarro eletrônico Cigarros eletrônicos, também chamado de POD ou vapes, são dispositivos que aquecem um líquido para gerar um aerossol inalável, geralmente composto de propilenoglicol (PG), glicerina vegetal (VG), nicotina e aromatizantes. Criados em seu formato atual em 2003 pelo farmacêutico chinês Hon Lik, os dispositivos evoluíram para diversas gerações, incluindo modelos recarregáveis, mods e versões descartáveis. Diferentemente do cigarro convencional, os cigarros eletrônicos operam sem combustão, o que resulta em emissões químicas distintas e, em geral, substancialmente inferiores às do tabaco queimado.

A literatura científica indica que os cigarros eletrônicos não são isentos de risco, mas expõem usuários a níveis muito menores de tóxicos relacionados à combustão quando comparados ao cigarro tradicional. Relatórios internacionais, como os do Royal College of Physicians, da Colaboração Cochrane e do Office for Health Improvement and Disparities (Reino Unido), sugerem que esses dispositivos podem desempenhar um papel importante na redução de danos do tabagismo para adultos fumantes que substituem completamente o cigarro convencional. Entretanto, persistem incertezas quanto aos efeitos de longo prazo, devido ao uso relativamente recente em larga escala.

O uso de cigarros eletrônicos varia globalmente, sendo mais comum entre fumantes adultos e ex-fumantes, embora preocupações sobre iniciação de jovens tenham influenciado políticas públicas e restrições de marketing em diversos países. Episódios como o surto de EVALI em 2019 — posteriormente atribuído principalmente a cartuchos ilícitos de THC adulterados — e a ampla cobertura midiática de riscos potenciais contribuíram para debates públicos acentuados e percepções divergentes de risco.

As abordagens regulatórias diferem amplamente entre países: vão desde proibições totais até modelos permissivos baseados em redução de danos. Alguns governos, como o Reino Unido e a Nova Zelândia, incorporam os dispositivos em estratégias de cessação do tabagismo, enquanto outros adotam restrições rígidas ou proibições de comercialização. Além disso, o rápido crescimento dos dispositivos descartáveis ampliou discussões ambientais sobre resíduos eletrônicos e baterias de lítio. O debate científico, regulatório e social sobre cigarros eletrônicos permanece em evolução, refletindo a complexidade tecnológica, sanitária e econômica desses produtos.

História

Antecedentes e primeiros protótipos Experiências com dispositivos destinados a produzir vapores inaláveis remontam ao início do século XX. Em 1927, o inventor norte-americano Joseph Robinson depositou uma patente para um vaporizador elétrico destinado à administração de substâncias medicinais por inalação, embora não haja registro de comercialização em larga escala do aparelho.

Na década de 1960, o norte-americano Herbert A. Gilbert registrou uma patente para um “cigarro sem fumaça e sem tabaco”, que substituía a combustão por ar aquecido e aromatizado. Embora o dispositivo não contivesse nicotina e não tenha sido produzido comercialmente, é frequentemente citado como um precursor conceitual dos cigarros eletrônicosTermos como “cigarro eletrônico”, "DEFs", “vape”, “ENDS” (electronic nicotine delivery systems) e “ENNDS” são usados por diferentes órgãos reguladores e pela literatura científica. Para evitar inconsistências, este artigo utiliza “cigarro eletrônico” como termo principal. modernos. Nas décadas seguintes, grandes fabricantes de cigarros desenvolveram produtos aquecidos — como o Premier e o Eclipse — que utilizavam tabaco aquecido em vez de queimado, mas tiveram aceitação limitada entre consumidores.

Invenção do cigarro eletrônico moderno O dispositivo considerado a base dos cigarros eletrônicos atuais foi desenvolvido no início dos anos 2000 pelo farmacêutico chinês Hon Lik. Motivado pela morte do pai, fumante pesado, por câncer de pulmão, Hon concebeu um aparelho que inicialmente utilizava um elemento ultrassônico e posteriormente uma resistência elétrica para vaporizar uma solução contendo nicotina, produzindo um aerossol inalável. Em 2003, Hon registrou uma patente para esse projeto, e o produto começou a ser comercializado na China em 2004 sob a marca Ruyan.

Os primeiros modelos eram geralmente dispositivos de formato semelhante ao cigarro convencional (“cigalikes”), com cartuchos descartáveis e baterias de baixa capacidade. Apesar das limitações, esses produtos marcaram a transição para um mercado internacional de dispositivos de vaporização de nicotina.

Expansão na China e internacionalização A partir de meados da década de 2000, fabricantes instalados principalmente em Shenzhen, na China, passaram a produzir cigarros eletrônicos para exportação em larga escala. Estimativas sugerem que, em 2014, existiam mais de 400 marcas no mercado global e que, em 2018, cerca de 95% dos dispositivos eram fabricados na China.

Durante a década de 2010, o uso de cigarros eletrônicos cresceu rapidamente na América do Norte, Europa e partes da Ásia, acompanhado pela expansão de lojas especializadas e comércio eletrônico. Relatórios estimam que o número de usuários adultos passou de alguns milhões no início da década para dezenas de milhões em 2020.

Entrada da indústria do tabaco As primeiras empresas a comercializar cigarros eletrônicos em larga escala eram independentes de pequeno e médio porte. A partir do início da década de 2010, grandes fabricantes de cigarros passaram a investir nesse mercado, seja desenvolvendo marcas próprias, seja adquirindo empresas estabelecidas.

A marca blu, lançada em 2009 nos Estados Unidos, foi adquirida pela Lorillard em 2012, em uma das primeiras operações em que uma grande empresa de tabaco passou a controlar uma marca relevante de cigarro eletrônico. Em 2013, a British American Tobacco lançou no Reino Unido o Vype, considerado o primeiro cigarro eletrônico comercializado por uma multinacional do tabaco nesse mercado. No mesmo período, a Reynolds American introduziu a marca Vuse nos Estados Unidos.

A entrada dessas empresas acelerou a expansão comercial e contribuiu para a consolidação de marcas globais.

Gerações de dispositivos Com a diversificação tecnológica, passou-se a classificar informalmente os cigarros eletrônicos em diferentes “gerações”. A primeira geração incluía dispositivos semelhantes ao cigarro convencional (“cigalikes”) e cartuchos pré-preenchidos. A segunda geração trouxe tanques recarregáveis e baterias de maior capacidade. A terceira geração introduziu aparelhos ajustáveis (“mods”), com controles de potência e atomizadores intercambiáveis. A partir da segunda metade da década de 2010, os sistemas de cápsulas (“pod systems”), alguns deles utilizando sais de nicotina, tornaram-se amplamente populares pela simplicidade e pela entrega eficiente de nicotina.

Brasil Os cigarros eletrônicos foram desenvolvidos na China no início dos anos 2000 e passaram a ser comercializados em países da Europa e da América do Norte antes de chegar ao Brasil. Relatos da CONICQ indicam que, a partir da segunda metade da década de 2000, os dispositivos começaram a circular no país por meio de importações individuais e comércio pela internet.

Em 2009, a Anvisa publicou a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n.º 46, proibindo a comercialização, a importação e a propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar no território nacional.

Apesar da restrição, estudos e reportagens descreveram o crescimento de um mercado informal, alimentado por comércio eletrônico e fronteiras terrestres, o que motivou debates recorrentes sobre possíveis revisões regulatórias.

Funcionamento e componentes Os cigarros eletrônicos são dispositivos que aquecem uma solução líquida para gerar um aerossol inalável. Embora variem amplamente em tamanho, formato e tecnologia, a maioria dos modelos compartilha elementos estruturais comuns: uma bateria, um elemento de aquecimento (bobina), um reservatório ou cápsula e um mecanismo de ativação.

Estrutura básica A estrutura fundamental de um cigarro eletrônico inclui: Bateria, geralmente de íons de lítio, responsável por fornecer energia ao sistema; Atomizador, que inclui a resistência e o pavio, responsável pela vaporização do líquido; Reservatório, que pode ser um tanque recarregável ou cápsula substituível; Bocal para inalação do aerossol.

A ativação ocorre por botão ou sensores de fluxo que detectam a inalação.

Bateria e controle de potência As baterias variam desde pequenas células integradas até baterias removíveis de alta capacidade, presentes em dispositivos avançados. Em modelos ajustáveis, o usuário pode definir a potência ou a tensão, influenciando produção de aerossol e temperatura da bobina.

Modelos recentes incorporam circuitos para regular temperatura, evitar superaquecimento e reduzir formação de compostos indesejados.

Atomizador O atomizador contém uma resistência metálica (kanthal, níquel, cromo ou aço inoxidável) envolvida por material poroso que absorve o líquido. Quando aquecida, a resistência vaporiza o líquido impregnado no pavio.

A eficiência depende de: material da bobina; resistência elétrica; área de contato; temperatura de operação; viscosidade do líquido.

A configuração do atomizador influencia diretamente a produção de aerossol e a formação de subprodutos.

Reservatórios, tanques e cápsulas (pods) Os sistemas de armazenamento podem incluir: Cartuchos pré-preenchidos; Tanques recarregáveis; Cápsulas (pods).

Os pods frequentemente utilizam sais de nicotina, que permitem maior eficiência de absorção e menor irritação na garganta.

Líquidos para vaporização Os líquidos geralmente contêm propilenoglicol (PG), glicerina vegetal (VG), nicotina e aromatizantes. O PG tende a gerar maior sensação de impacto na garganta, enquanto o VG produz maior volume de vapor. A proporção entre ambos influencia densidade do aerossol, temperatura de vaporização e formação de subprodutos térmicos.

Mecanismo de geração do aerossol Ao ser ativado, o dispositivo aquece a bobina, vaporizando o líquido e formando um aerossol composto principalmente de microgotículas de PG/VG e nicotina.

Modelos avançados utilizam sensores e controladores eletrônicos para manter temperatura estável e evitar condições que favorecem o “dry puff”.

Composição do aerossol e avaliação toxicológica O aerossol produzido por cigarros eletrônicos resulta da vaporização de uma solução composta principalmente por PG, VG, nicotina e aromatizantes. Diferentemente da fumaça de cigarro, que é gerada pela combustão do tabaco, esse aerossol consiste em microgotículas líquidas e contém quantidades substancialmente menores de substâncias tóxicas quando comparado ao cigarro convencional.

Base líquida: PG, VG e aromatizantes

A maioria dos líquidos para vaporização contém uma combinação de propilenoglicol (PG) e glicerina vegetal (VG), ambos amplamente utilizados em produtos alimentícios, farmacêuticos e cosméticos. O PG proporciona maior impacto na garganta (“throat hit”), enquanto o VG é mais viscoso e gera maior volume de aerossol. Esses solventes atuam como veículos para a dissolução de nicotina e aromatizantes.

Os aromatizantes utilizados em líquidos de cigarro eletrônico são, em sua maioria, substâncias classificadas como seguras para ingestão (GRAS), embora essa classificação não se aplique automaticamente à inalação. Avaliações toxicológicas indicam que a composição, a estabilidade e a pureza desses componentes influenciam a formação de subprodutos térmicos durante o aquecimento.

Formação de aldeídos e condições de uso (incluindo “dry puff”)