Dimitri Nicolaievich Seniavin (; Borovsk, 17 de Agosto de 1763 — São Petersburgo, 17 de Abril de 1831) foi um almirante russo que se notabilizou durante as Guerras Revolucionárias Francesas (ou Guerras de Coligação), tendo comandado as forças russas no Mediterrâneo e protagonizado um complexo incidente aquando da tomada de Lisboa pelas forças francesas comandadas por Jean-Andoche Junot, que culminaria no efectivo aprisionamento no estuário do Tejo da esquadra russa por ele comandada durante vários meses.
Biografia Dimitri Seniavin nasceu nos arredores de Borovsk, uma cidade a sul de Moscovo, no seio de uma família aristocrática com tradicionais ligações ao serviço militar e à Marinha Imperial. O seu tio avô, Naum Akimovich Seniavin (Наум Акимович Сенявин em russo), fora vice-almirante da Marinha Imperial, distinguindo-se durante a Grande Guerra do Norte e na Guerra Russo-Austríaco-Otomana de 1736–1739), e vários dos seus familiares mais próximos eram oficiais navais. Seguindo a tradição familiar, ingressou na Marinha Imperial Russa, sendo graduado oficial em 1780 e iniciado a sua carreira na guarnição de um dos navios russos que naquele ano visitou Lisboa.
A comissão na Esquadra do Mar Negro Dimitri Seniavin foi transferido em 1783 para a recém-formada Esquadra do Mar Negro, passando então a servir sob as ordens do almirante Fiodor Fiodorovich Ushakov e participando activamente na construção da base naval de Sebastopol e nas campanhas de vigilância da actividade militar otomana naquela região, então fortemente disputada entre os impérios Russo e Otomano na sequência do desfecho da Guerra Russo-Otomana de 1768–1774.
Durante estes primeiros anos de serviço naval demonstrou ser um oficial resoluto e corajoso, distinguindo-se ao salvar um navio durante uma expedição contra o porto de Varna, na costa búlgara, e por ter conseguido, sob as ordens directas do príncipe Grigori Alexandrovich Potemkin, levar até Constantinopla correio diplomático considerado vital para a embaixada russa junto da Sublime Porta. Estes sucessos e as suas relações familiares ganharam-lhe rápida promoção na sua carreira naval, passando em poucos anos a ocupar uma posição de destaque no estado-maior da Esquadra do Mar Negro.
Quando deflagrou a Guerra Russo-Otomana de 1787-1792 Seniavin passou a desempenhar um importante papel na condução das operações no Mar Negro. Distinguiu-se na Batalha Naval de Fidonisi, travada a 14 de Julho de 1788 nas imediações da ilha das Serpentes (em ucraniano: Ostriv Zmiyinyy; grego: Fidonisi), ao largo do delta do Danúbio, e na tomada de Otschakiv, razão pela qual foi um dos enviados a São Petersburgo para dar a boa nova da vitória de Fidonisi à czarina Catarina II da Rússia.
Para além de outras batalhas, distinguiu-se, ao comando do navio Navarchia, na Batalha Naval de Kaliakra, o último grande recontro da Guerra, travada a 11 de Agosto de 1791 nas proximidades do cabo Kaliakra, no norte da costa búlgara. Apesar do resultado da batalha ter sido favorável às forças russas, obrigando à retirada da esquadra otomano-argelina, ainda assim Seniavin mostrou-se muito crítico face à forma como o almirante Fiodor Fiodorovich Ushakov conduzira as operações, discordando da estratégia seguida, que considerava demasiado cautelosa e indecisa. Daí resultou uma ruptura entre ambos, com Seniavin a ser acusado de não ter seguido com rigor as ordens recebidas, o que levou a que fosse detido e ameaçado de despromoção. O incidente, que quase destruiu a carreira de Seniavin, terminou por intervenção directa do príncipe Grigori Alexandrovich Potemkin, que mediou a disputa, tendo escrito, em carta endereçada a Ushakov, que Seniavin poderia vir a ser o melhor almirante que a Armada russa jamais tivera.
Durante a campanha no Mediterrâneo que a Esquadra do Mar Negro, ainda sob o comando do almirante Ushakov, empreendeu entre 1798 e 1800, coube a Seniavin o comando da fragata Sankt Peter, de 72 peças. Sob o seu comando, a sua guarnição conseguiu subjugar a força francesa que ocupava a Fortaleza de Saint Maura, em Lêucade, e participou, sob o comando directo de Ushakov, na captura da ilha fortemente fortificada de Corfu, conseguida a 1 de Março de 1799. Quando a expedição terminou, Seniavin foi nomeado comandante naval dos portos de Quérson e Sebastopol, na Crimeia.
Em 1804 foi promovido a contra-almirante e nomeado comandante naval do porto de Reval (actual Tallinn) na costa do Báltico.
A acção no Adriático Aproveitando a sua experiência no Mediterrâneo e fazendo fé na sua reputação de coragem e denodo, três anos depois, em 1806, o novo czar, Alexandre I da Rússia, nomeou Seniavin comandante de uma força naval russa que deveria actuar no Mar Adriático com o objectivo de contrariar a crescente influência francesa naquela região do Mediterrâneo.
Seniavin houve-se nesta missão com grande eficácia, de tal forma que em Setembro de 1806 já tinha conseguido expulsar a Armada francesa do sul do Adriático, bloqueado Ragusa (hoje Dubrovnik), impedindo o seu comércio marítimo, e estava a preparar um ataque a Lesina. Tendo como aliados naturais as populações ortodoxas do Montenegro, que lhe prometiam ajuda em terra e apoio logístico, o esquadrão russo capturou as ilhas de Korčula (Curzola) e Vis (Lissa), persuadindo os austríacos a entregarem-lhe a cidade de Cattaro. Em resultado dessas operações, os franceses foram impedidos de consolidar a sua posição nas ilhas Jónicas e os russos recuperaram influência ao longo da fronteira ocidental do Império Otomano.
A acção no Mar Jónio e nos Dardanelos thumb|350px|O esquadrão de Seniavin após a Batalha Naval de Atos
Contudo, mesmo antes de ter havido tempo para consolidar posições, rebentou nova Guerra entre os Impérios Russo e Otomano, a Guerra Russo-Otomana de 1806-1812, e o esquadrão de Seniavin foi envido para o Mar Egeu com ordens para atacar Constantinopla. A força russa penetrou no Estreito dos Dardanelos a 24 de Fevereiro de 1807 e conseguiu capturar a ilha de Bozcaada (Tenedos) em Março. Usando aquela ilha como base de apoio, Seniavin bloqueou o Estreito e cortou a linhas de abastecimento às forças turcas que defendiam a cidade.
A partir da sua base na ilha de Bozcaada (Tenedos), as possibilidades de conseguir capturar os Dardanelos pareciam excelentes, especialmente quando surgiu a oportunidade de contar com o apoio de um esquadrão britânico, comandado por Sir John Thomas Duckworth, que se encontrava na região. Contudo, o comandante britânico, que a 19 de Fevereiro perdera 600 homens devido ao fogo da artilharia de costa, recusou colaborar, preferindo antes encetar uma expedição contra a cidade de Alexandria, que se revelaria desastrosa.
Em consequência do abandono britânico, as forças russas ficaram em inferioridade numérica face aos otomanos, mas, ainda assim, mantiveram o bloqueio, o qual em pouco tempo levou ao esgotamento dos mantimentos em Constantinopla. Quando surgiram motins populares causados pela fome que alastrava, uma Revolta dos Yamakos destronou o sultão Selim III, substituindo-o por Mustafá IV.
O novo monarca ordenou de imediato um ataque contra as forças russas, numa tentativa desesperada de quebrar o bloqueio. A força otomana enfrentou a 11 de Maio de 1807 o esquadrão de Seniavin na Batalha Naval dos Dardanelos num recontro inconclusivo, embora com ligeira vantagem para os russos, que se repetiria a 16 de Junho imediato na Batalha de Athos. A supremacia russa em ambos os combates foi suficiente para permitir a Seniavin dominar o Egeu durante toda a duração do conflito.
Inesperadamente, quando procurava consolidar as suas posições contra as forças otomanas e francesas, Seniavin foi surpreendido pela Paz de Tilsit, que transformava a França de inimigo em nação aliada e os aliados britânicos no novo inimigo. Como consequência, foi obrigado a devolver aos franceses as posições que lhes havia conquistado e retirar. Diz-se que terá chorado ao receber, a 12 de Agosto, a comunicação dos termos do tratado com Napoleão Bonaparte.
Face à nova situação criada, a posição do esquadrão de Seniavin e os pressupostos subjacentes à sua missão alteraram-se radicalmente: a 14 de Agosto as forças russas e inglesas, estas comandadas por Lord Cuthbert Collingwood, antes aliadas, mas agora oficialmente inimigas, separam-se relutantemente. Oito dias depois, uma parte substancial dos navios russos (5 couraçados, 4 fragatas, 4 corvetas e 4 brigues) foram mandados recolher a Sebastopol.
O resto do esquadrão, com Seniavin ao seu comando, foi mandado rumar ao Atlântico para percorrer o longo caminho em torno da Europa em direcção ao Báltico, onde nova guerra contra a Suécia, a Guerra Russo-Sueca de 1808-1809, tornava urgente a sua presença.
A ilha de Bozcaada (Tênedo) foi evacuada a 25 de Agosto e Seniavin, depois de reagrupar as forças que o deviam seguir a caminho do Báltico, abandonou Corfu a 19 de Setembro, planeando fazer uma rota directa para São Petersburgo, sem qualquer escala intermédia. Contudo, quando em princípios de Novembro navegava frente à costa ocidental portuguesa, enfrentando forte nortada e com poucas esperanças de chegar ao Báltico antes dos portos russos congelarem, resolveu entrar no estuário do Tejo para descanso e reparações. Fundeou no porto de Lisboa a 10 de Novembro, tendo os últimos navios do esquadrão entrado a barra a 13 daquele mês.
O incidente de Lisboa thumb|350px|A batalha naval de Navarino, pintada por Carneray
Não poderia ter sido pior o momento escolhido para a escala: na sequência do Tratado de Fontainebleau, assinado a 27 de Outubro, ou seja dias antes, fora decidida a partilha de Portugal e iniciados os preparativos para uma invasão do país pelos exércitos combinados de Napoleão Bonaparte e de Carlos IV de Espanha, com o general Jean-Andoche Junot à frente.
Por outro lado, a 7 de Novembro a Rússia, em protesto contra o bombardeamento britânico a Copenhaga, declarara-se em guerra com a Grã-Bretanha, iniciando a Guerra Anglo-Russa. Entretanto, para impor o Bloqueio Continental, a 16 de Novembro chega à barra do Tejo um esquadrão naval britânico, comandado por Sir Sidney Smith.
Quando Seniavin se apercebeu da gravidade da situação e pretendeu abandonar o porto, deparou-se com um bloqueio britânico que lhe barrava a passagem: existindo uma situação de guerra entre a Rússia e a Grã-Bretanha, o esquadrão russo de Seniavin era, tecnicamente, uma força inimiga, razão pela qual uma das suas chalupas foi atacada por navios britânicos quando pretendia cruzar barra do Tejo.
Entretanto, a 17 de Novembro já as primeiras forças francesas haviam cruzado a fronteira portuguesa em Segura, na Beira Baixa, e aproximavam-se rapidamente de Lisboa. Face à chegada iminente dos franceses, no cumprimento de uma convenção secreta entre Portugal e a Grã-Bretanha, que fora assinada a 22 de Outubro, sobre a transferência para o Brasil da monarquia portuguesa e sobre a ocupação da ilha da Madeira por tropas britânicas, o príncipe regente D. João, que governava devido à insanidade de sua mãe, a rainha D. Maria I de Portugal, preparava-se para fazer embarcar a família real e toda a corte em navios portugueses e britânicos a caminho do exílio no Rio de Janeiro.
O que começara por ser uma escala para descanso das guarnições transformara-se num pesadelo: os russos estavam efectivamente aprisionados na capital de um país em colapso, com a corte e o governo em fuga e forças inimigas às portas da cidade.
A situação piorou quando a 27 de Novembro, com a vanguarda do exército francês a alguns quilómetros da cidade, a corte, com a família real à frente, embarcou, abandonando Lisboa a 29 de Novembro. No dia seguinte, 30 de Novembro de 1807, Junot entrou triunfalmente na capital portuguesa, que se rendeu sem esboçar resistência.